quinta-feira, 12 de maio de 2022

OBRA MEDIÚNICA INSPIRADA POR PAI TOMÉ, UM SWAMI NA UMBANDA

 


Resenha do livro “ESTRELA GUIA” de Norberto Peixoto

 

A Umbanda é uma das religiões mais recentemente surgidas no mundo. Além disso, é uma religião genuinamente brasileira. Esses dois atributos, combinados, fazem da Umbanda um saber em construção, um saber mestiço que, com a verdadeira grandeza da humildade, não hesita em evoluir e absorver o que vai encontrando de bom pelo caminho.

Foi para mim uma verdadeira dádiva a leitura de “Estrela Guia”, livro ditado pelo espírito de Pai Tomé, um “swami na Umbanda”, ao médium Norberto Peixoto. A começar pela própria proposta da leitura em si, que faz parte da jornada de compartilhamento espiritual a que nos propomos, eu e minha esposa Fabíola. Ela é umbandista de vocação e alma. Eu sou discípulo de Yogananda e considero a Literatura a minha religião. Como parte de nossa meditação diária, eu e minha esposa lemos um para o outro algum livro que consideramos espiritualmente precioso. Já faz um bom tempo que venho lendo para ela as estrofes do Bhagavad Gita, com a abençoada tradução de meu guru Paramahansaji. E ela terminou de ler recentemente para mim esse lindo livro, “Estrela Guia”.

Não é leviana e nem impensada essa definição do guia Pai Tomé como um “swami na Umbanda”. Com que alegria e surpresa fui acompanhando trechos discorrendo com muita propriedade sobre termos em sânscrito como “buddhi”, “atma” e até mesmo sobre os “gunas”. Esses são temas muito caros aos que se dedicam ao estudo da Filosofia Sankhya, que é exposta de forma sublime justamente no Bhagavad Gita. Imaginem, portanto, que doce encantamento senti ao ver tais assuntos serem abordados com pertinência e seriedade em uma obra umbandista mediúnica! Não pela primeira vez, e certamente não pela última, as leituras que eu e Fabíola fazíamos complementavam-se mutuamente.

Esse é o maravilhoso caminho da espiritualidade, que transcende os estreitos dogmas e sectarismos limitantes dos que insistem no erro de se apegar a uma organização religiosa (qualquer que seja) como a única certa e verdadeira. Uma vez que se percebe isso, não há como deixar de ver: Deus é grande demais para caber em uma única religião. Cada religião deveria expressar conscientemente uma forma diferenciada de acessar e reverenciar o Sagrado Um, partindo do princípio de que todas são igualmente válidas, desde que inspiradas pelo fundamento essencial do Amor. Assim como os diferentes idiomas humanos expressam formas distintas (e complementares) de enxergar e conceber o mundo, da mesma forma as diversas religiões são caminhos diferentes que deveriam conduzir ao mesmo destino.

E é nesse processo de Transição Planetária, processo de mudança de paradigmas que envolve, dentre outras coisas, a progressiva substituição das religiões separadas por um conceito mais abrangente de espiritualidade, que a Umbanda vem desempenhando importante papel, justamente por sua mocidade e brasilidade. Por ser tão nova, ainda está se estruturando formalmente como um conjunto definido de saberes. Por ser tão brasileira, traz em sua matriz a vocação da mistura e da assimilação de elementos diversos. E essas duas características acabam possibilitando lindas inovações como as desse livro “Estrela Guia”.

Que assim seja!


   

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FABIO SHIVA é músico, escritor e produtor cultural. Autor de “Favela Gótica” (https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica), “Diário de um Imago” (https://www.amazon.com.br/dp/B07Z5CBTQ3) e “O Sincronicídio” (https://www.amazon.com.br/Sincronic%C3%ADdio-sexo-morte-revela%C3%A7%C3%B5es-transcendentais-ebook/dp/B09L69CN1J/). Coautor e roteirista de “ANUNNAKI - Mensageiros do Vento” (https://youtu.be/bBkdLzya3B4).

 

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domingo, 17 de abril de 2022

A PARANOIA DA GUERRA FRIA ASSOMBRA HISTÓRIAS DO FUTURO ESCRITAS NO PASSADO

 


Resenha de “PERRY RHODAN: SOCORRO PARA A TERRA (P009)”, de W. W. Shols

Depois de tomar posse da antiquíssima base que os arcônidas abandonaram em Vênus, Perry Rhodan estabelece o seu domínio sobre o gigantesco e poderoso cérebro positrônico que manteve a base operacioal durante milhares de anos. E aqui temos um dos ingredientes mais fascinantes da extremamente bem-sucedida série de ficção científica “Perry Rhodan”, que é o acesso a tecnologias avançadas possibilitando aos homens de coragem e boa vontade vencerem desafios cada vez mais assustadores.

Dessa vez, o perigo surge na forma dos temíveis DI ou Deformadores Individuais, que contam com uma sinistra vantagem em seu plano de invasão da Terra: são capazes de se apossar das mentes dos terráqueos, trocando de corpos com eles. Tudo o que os DI precisam fazer é dominar os humanos em posições de comando para conquistar cidades inteiras. E é assim que a cidade de Nova Iorque sucumbe ao ardiloso plano dos Deformadores Individuais.

A trama é semelhante à de “Invasores de Corpos”, história de ficção científica e horror de Jack Finney publicada em 1954, que em 1978 foi transformada em um filme de grande sucesso (https://youtu.be/vc_0dlmSq7I). Uma vez que a saga de Perry Rhodan começou a ser escrita no início da década de 1960, esse “Socorro para a Terra” foi concebido depois que o livro de Finney foi publicado, mas bem antes do filme. Considerando outras coincidências interessantes (como o exército de mutantes de Perry Rhodan, que surgiu antes dos X-Men da Marvel), tenho para mim que esse também foi o caso quanto às semelhanças entre os Deformadores Individuais e os Invasores de Corpos: tudo não passou de simples coincidência.


 

Até porque esses são temas muito presentes no imaginário coletivo, inspirando continuamente o Zeitgeist (“espírito da época”). Assim como a bomba nuclear trouxe a pavorosa possibilidade das mutações radioativas, a Guerra Fria subsequente trouxe a constante ameaça dos espiões infiltrados de um lado e de outro da Cortina de Ferro. Em ambos os casos, é a prodigiosa imaginação dos escritores que fornece o alívio dramático para as tensões da vida real.

É digno de nota que a série Perry Rhodan tenha se originado na Alemanha, país que vivenciou intensamente os conflitos da Guerra Fria. Os alienígenas disfarçados são a perfeita tradução desse “inimigo oculto”, que pode ser qualquer um e estar em qualquer lugar, suscitando a paranoia generalizada. Algo que fica mais do que evidente no chavão máximo da intolerância do “nós” contra “eles”:

“Um DI morto era um DI bom.”


Bem significativa é a construção simbólica desse “outro” vilanesco: os Deformadores Individuais são fisicamente parecidos com gigantescas vespas, sendo maiores e mais pesados que os humanos. Contudo, apesar de sua aparência tão intimidante (a vespa é considerada um dos insetos mais agressivos), os DI são muito covardes, evitando qualquer possibilidade de confronto físico, preferindo agir nas sombras e à traição.

Esse outro trecho também é marcante por expressar essa que é uma das tônicas da série, a tecnologia possibilitando a superação dos medos:

“— Por que iriam suspeitar justamente de mim?

— A palavra justamente está fora de lugar. Hoje em dia suspeitam de qualquer pessoa. Basta, por exemplo, que ela tenha aparecido num sonho mau. Parece que todo mundo perdeu a razão. Só nos resta um consolo: dentro de pouco tempo nossa tecnologia nos ajudará a vencer tudo isso. Estão iniciando a construção de aparelhos que permitem a identificação de qualquer pessoa possuída pelos DI.”

A síntese final da aventura, com um laivo pessimista, antecipa as reflexões de cientistas como Stephen Hawking:

“Não estamos sós no mundo. Nós, os terráqueos, não somos os únicos. Outros seres existem. E alguns deles não são nossos amigos.”


  

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FABIO SHIVA é músico, escritor e produtor cultural. Autor de “Favela Gótica” (https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica), “Diário de um Imago” (https://www.amazon.com.br/dp/B07Z5CBTQ3) e “O Sincronicídio” (https://www.amazon.com.br/Sincronic%C3%ADdio-sexo-morte-revela%C3%A7%C3%B5es-transcendentais-ebook/dp/B09L69CN1J/). Coautor e roteirista de “ANUNNAKI - Mensageiros do Vento” (https://youtu.be/bBkdLzya3B4).

 

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quarta-feira, 13 de abril de 2022

TRANSFORMAR O SOFRIMENTO EM BELEZA É UM TALENTO QUE NASCE DA FORÇA FEMININA

 


Resenha do livro “SIMPLESMENTE PÉROLA”, de Conceição Santana

 

Senti uma emoção muito rara quando tive nas mãos um exemplar de “Simplesmente Pérola”, da querida Conceição Santana. Primeiro, por conta de minha conexão com a autora. Conceição é uma amiga da família desde antes de meu nascimento. Na verdade, ela involuntariamente desempenhou um papel importante na escolha de meu nome. Pois a princípio eu iria me chamar Sandro. Só que Conceição, que ficou grávida de seu primeiro filho alguns meses antes que minha mãe engravidasse de mim, escolheu justamente o nome de Sandro para batizar o seu primogênito. Minha mãe achou melhor escolher outro nome para mim, e é graças a isso que hoje sou, com muita gratidão, um “plantador de feijões” (significado do nome Fabio, de origem latina).

Só que esse nome de Sandro ficou reverberando de forma inconsciente dentro de mim, tanto que o adotei como alter ego literário em pelo menos três escritos: no conto que dá título ao livro “Tanto tempo dirigindo sem ninguém no retrovisor” (https://www.recantodasletras.com.br/e-livros/6871467), no conto “Terapia Intensiva” (ainda inédito) e em um romance experimental que estou atualmente escrevendo. Mas foi só ao ler pela primeira vez o livro de Conceição Santana que me dei conta dessa ligação profunda entre ela e minha própria jornada literária. E é por essas e outras que dou graças a Deus pela Literatura, que é para mim fonte de tantos e renovados deslumbramentos.

Por tudo isso, fica claro como foi para mim uma alegria sem par participar do processo editorial de “Simplesmente Pérola”, recentemente lançado com a devida pompa e circunstância pela Verlidelas Editora. Como tive a honra de fazer a sinopse, pude resumir em poucas palavras o quanto gostei desse livro:


Na vida natural toda pérola nasce de uma agressão. Diante da invasão de um corpo estranho, geralmente um diminuto grão de areia, que lhe provoca inflamação e sofrimento, a ostra reage envolvendo o agressor em sucessivas camadas de madrepérola. E assim, através de incessantes labores, a pequena ostra torna-se ártifice de mais um singelo milagre da natureza, produzindo uma gema esférica, de atrativo brilho, onde antes só havia um grosseiro e minúsculo pedregulho.

Do mesmo modo, existem pessoas que aprenderam a fazer de suas vidas autênticas pérolas, transmutando as dores em beleza, as angústias em ensinamento, as lágrimas em poesia. Com muita sensibilidade e leveza, Conceição Santana nos brinda com a história de vida de uma dessas mulheres preciosas, que soube fazer de si mesma “Simplesmente Pérola”.

Encerro a resenha com duas de minhas passagens favoritas dessa emocionante narrativa:

“Essa é a história de Pérola: uma mulher guerreira, mas que nunca desistiu de sonhar. É a história de alguém que aprendeu a transformar as dores da vida em beleza, tal como a joia da natureza que lhe dá nome. É a história de uma mulher que construiu dentro de si um lugar secreto de sonho e felicidade.”

“Raramente o filme de nossa vida deixa de nos surpreender, com seus altos e baixos, com suas reviravoltas e desfechos surpreendentes.”


O livro está disponivel no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/simplesmente-p%C3%A9rola


Conheça também o canal da autora no YouTube, “Crônicas e Devaneios de Conceição Santana”:

https://www.youtube.com/channel/UCTNeAXaejvlOBEl2YVIMu4w

 

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FABIO SHIVA é músico, escritor e produtor cultural. Autor de “Favela Gótica” (https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica), “Diário de um Imago” (https://www.amazon.com.br/dp/B07Z5CBTQ3) e “O Sincronicídio” (https://www.amazon.com.br/Sincronic%C3%ADdio-sexo-morte-revela%C3%A7%C3%B5es-transcendentais-ebook/dp/B09L69CN1J/). Coautor e roteirista de “ANUNNAKI - Mensageiros do Vento” (https://youtu.be/bBkdLzya3B4).

 

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terça-feira, 29 de março de 2022

OU A SALVAÇÃO VEM PARA TODOS, OU NINGUÉM SERÁ SALVO. ASSIM SEJA!

 


Reprodução do texto “Dois sonhos esquisitos”, de Fabio Shiva, presente no livro “NÃO SEREMOS OS MESMOS JAMAIS” (vários autores – organização de Bia Machado)

https://www.amazon.com.br/N%C3%A3o-seremos-os-mesmos-jamais-ebook/dp/B09L4H5TJ7

 

Dois sonhos esquisitos

 

Fabio Shiva

Você já teve um sonho em formato de história em quadrinhos? Desde que começou a pandemia do novo coronavírus tenho tido alguns assim, com imagens estáticas desenhadas, em preto e branco ou a cores, que meu olhar vai acompanhando à medida que o sonho se desenrola.

Um desses sonhos começa com uma nave espacial descendo em uma praça. Sai um ET da nave e grita para o povo que já se aglomera ao redor:

– Ó humanidade! Eis que trago a cura para a Covid-19!

Alguns indagam:

– É a vacina?

Enquanto outros gritam:

– É a cloroquina!

E outros ainda insistem:

– E a ivermectina?

– Nada disso – rebate o alienígena. – A cura se chama CONSCIÊNCIA PLANETÁRIA!

Ato contínuo, a multidão começa a se dispersar, deixando o alien sozinho na praça, com cara de quem não está entendendo nada. Ao que parece, ninguém está muito interessado em consciência planetária...

Fiquei intrigado com esse sonho, que me fez refletir bastante. Uma das principais raízes simbólicas que detectei foi a leitura de uma entrevista concedida pelo físico e ambientalista Fritjof Capra, autor de obras que me marcaram muito, como “O Tao da Física” e “O Ponto de Mutação”. Nessa entrevista, Capra faz uma declaração bombástica: a pandemia é a resposta biológica do planeta Terra à devastação ambiental que vem sendo perpetrada pela humanidade. E ele vai ainda mais longe, ao afirmar não só que a pandemia surgiu do desequilíbrio ecológico provocado por uma economia predatória, mas que as consequências dramáticas que enfrentamos hoje foram agravadas diretamente por conta das desigualdades sociais e até da cultura de ódio que parece permear toda a nossa civilização humana.


https://youtu.be/nv9lVJ7ivpo

 

Para alguns, essas afirmações podem parecer tão chocantes e incômodas que a primeira tentação deve ser descartá-las sumariamente, como um amontoado de bobagens supersticiosas, sem o menor fundamento científico. Se for esse o seu caso, peço que exercite a tolerância com essas ideias aparentemente tão estranhas, dedicando um pouco de seu tempo e de sua energia mental para avaliar se de fato elas são despropositadas ou não.

A chave para compreender essas afirmações de Fritjof Capra está no pensamento sistêmico, uma abordagem teórica que surge no século XX como uma alternativa aos velhos modelos mecanicistas herdados do século XVII. Um simples exemplo pode nos ajudar a compreender melhor qual é a proposta essencial do pensamento sistêmico. Creio que o próprio Capra apresenta esse exemplo em seu livro “O Tao da Física”.

Imagine que você é um cientista que tem como objeto de estudo um determinado conjunto de árvores que compõem uma floresta. Seguindo o modelo científico tradicional, que é o reducionista-mecanicista, o universo é concebido como um grande mecanismo e para compreendê-lo é preciso decompô-lo em suas menores engrenagens. De acordo com esse modelo, portanto, para estudar a floresta você precisa dividi-la em suas árvores componentes e, mais ainda, analisar as partes componentes de cada árvore, até os mínimos detalhes. Para entender a floresta, em resumo, você precisa primeiro saber tudo sobre a folha.


Já o pensamento sistêmico segue um direcionamento praticamente oposto: para conhecer a folha, você precisa primeiro entender o que é uma floresta e enxergar a floresta como um todo. O universo é visto como algo mais próximo de um ser vivo que de uma máquina, com suas partes componentes em permanente interconexão.

Mas e qual é a vantagem, afinal, dessa nova abordagem do pensamento sistêmico? A resposta a essa pergunta é mais simples do que parece à primeira vista. É verdade que a abordagem mecanicista foi válida durante algum tempo, possibilitando um avanço tecnológico nunca antes visto em nossa era. Na verdade a proposta não é rejeitar esse modelo, mas ir além dele. A visão mecanicista do mundo, que há 300 anos tem sido dominante, não tem mais como dar conta sozinha do mundo em que vivemos hoje.

Pois na mesma proporção em que experimentamos um intenso progresso científico, aumentaram também as complexidades e contradições da sociedade humana. Justamente devido à falta dessa visão sistêmica, o crescimento econômico a qualquer custo e o avanço científico isento de considerações de ordem ética acabaram gerando, hoje, mais problemas que soluções. Basta lembrar que antes da pandemia estávamos às voltas com pelo menos uma meia dúzia de apocalipses em perspectiva, sendo todos eles gerados pelo descontrole da sociedade de consumo na depredação dos recursos naturais: aquecimento global, extinção das abelhas, esgotamento da água potável, superpopulação, buraco na camada de ozônio e colapso econômico mundial, e essas são apenas seis dentre as possibilidades de fim do mundo que saíram abruptamente de cena quando a Covid-19 entrou no palco.


Todas essas considerações, infelizmente, são vastas demais para serem apreendidas pela mente humana em alguns poucos instantes. É muito difícil imaginar o tamanho da bomba que teremos nas mãos em um futuro não tão distante devido apenas ao aquecimento global, só para citar um dos fatores mencionados acima. Por isso vamos recorrer mais uma vez a alguns exemplos de ordem prática, tirados da vida cotidiana.

Uma amiga minha, que é dançarina, me contou que há alguns anos, devido a uma lesão na região lombar, ela foi proibida pelo médico de usar saltos altos e, de modo geral, foi recomendada a evitar forçar as panturrilhas, pois isso pouparia a área afetada. Mais recentemente, contudo, ela teve uma nova lesão, dessa vez no joelho, e foi encaminhada para a fisioterapia. Enfrentando o stress de ter que ir a uma clínica hospitalar duas vezes por semana em plena pandemia, essa amiga decidiu iniciar o tratamento, pois desejava curar o quanto antes o joelho lesionado. Qual não foi a sua surpresa, no entanto, ao descobrir que a sessão de fisioterapia consistia quase que exclusivamente em subir e descer degraus, um exercício que exigia muito de suas panturrilhas e, consequentemente, forçava a sua já fragilizada região lombar. Ao final da primeira sessão, ela mal conseguia andar de tantas dores lombares. Antes de começar a sessão seguinte, ela expôs todo o problema para o fisioterapeuta, e recebeu uma surpreendente resposta:

– Sinto muito, mas só posso cuidar do problema de seu joelho. Para resolver o problema da lombar, a senhora vai ter que consultar outro médico...


Esse episódio, que de tão absurdo até evoca alguma cena de Kafka, me fez lembrar também de uma conhecida piada popular. O sujeito acorda com uma dor terrível no testículo esquerdo. Liga para o seu plano de saúde e marca uma consulta com um especialista. Contudo ao chegar no endereço, devido às fortes dores que está sentindo, ele acaba se atrapalhando e entra por engano em um consultório de advocacia. Ao vê-lo entrando em seu escritório, o advogado indaga:

– Pois não, em que posso ajudá-lo?

Ao que o homem responde:

– Doutor, estou sentindo uma dor intensa no ovo esquerdo...

O advogado retruca, indignado:

– Meu senhor, saiba que eu sou um especialista em Direito!

O homem coça a cabeça, sem deixar por menos:

– Vá ser especializado assim lá na...!!!

Tanto o episódio verídico acontecido com minha amiga quanto a anedota retratam um problema típico de nossos tempos, que aparece de forma mais sensível justamente na área da medicina, pois quase todo mundo, vez ou outra precisa consultar um médico. E quase todo mundo já se deparou, ou ao menos conhece alguém que tenha se deparado, com a seguinte contradição: se vai tomar um remédio para a cabeça, tem o efeito colateral de afetar o estômago. Daí precisa de um remédio para o estômago, que acaba alterando a pressão sanguínea. Infelizmente, o remédio para regular a pressão provoca uma crise nos rins, que também precisa ser medicada. A essa altura, a pessoa já está gastando tanto dinheiro com medicamentos que acaba entrando em depressão, o que demanda que tome mais um remédio para a cabeça...

Dito dessa forma, a situação até pode parecer engraçada, quando na verdade é trágica. Outra amiga minha, que prestava serviços como diarista, sofria de um problema crônico no coração, mas desencarnou em consequência de um colapso renal, provocado pelo excesso de remédios para o coração. Nada diferente da situação das pessoas que, iludidas por campanhas de desinformação, se automedicaram com Ivermectina ou Hidroxicloroquina acreditando que estariam se protegendo da Covid-19, mas só conseguiram provocar sérios danos ao fígado e a outros órgãos.

Todos esses exemplos nos mostram algumas das tristes consequências da visão mecanicista em apenas uma das áreas do conhecimento humano, que é a medicina. Ao insistir em enxergar o ser humano como uma espécie de máquina, que para ser consertada quando quebra basta regular ou substituir a peça que está dando defeito, a medicina tradicional é responsável pela criação de uma humanidade enfermiça, que se mantém funcionando minimamente à custa de caixas e mais caixas de remédios industrializados. Basta contar a quantidade de farmácias que temos no Brasil, em qualquer rua principal de qualquer bairro de qualquer cidade brasileira, para constatar que algo vai escandalosamente mal em nossa sociedade.


Outro fator decorrente do reducionismo mecanicista e que impacta diretamente na (má) saúde das pessoas pode ser resumido no célebre axioma: “as pessoas que cuidam de nossa saúde não se preocupam com nossa alimentação, e as pessoas que cuidam de nossa alimentação não se preocupam com nossa saúde”. Uma abordagem sistêmica evidenciaria, como as abominações que são, práticas que consideramos absolutamente normais, tais como viciar nossas crianças em açúcar refinado desde a mais tenra idade e entupi-las de refrigerantes e processados repletos de substâncias químicas tóxicas, que apenas a nossa cegueira moral permite chamar de alimentos (quando na melhor das hipóteses poderiam ser chamados de “produtos comestíveis”).

É claro que a culpa por esse estado de coisas não está apenas na orientação reducionista-mecanicista dos médicos e nutricionistas tradicionais. Não podemos esquecer a indústria farmacêutica, uma das mais poderosas do mundo, cujo propósito de existência não é curar a doença de ninguém, mas única e simplesmente gerar lucro para seus acionistas. Dentro dessa cruel e inflexível lógica do lucro, se determinado medicamento gera efeitos colaterais que farão a pessoa precisar de outros remédios, tanto melhor para a indústria.

Aliás, o fato de sermos uma sociedade que idolatra o lucro acima de tudo está por trás de praticamente todos os males de nossos tempos. Dedique algum tempo para refletir sobre esse ponto, através de um pequeno exercício que, apesar de muito simples, pode se tornar bastante assustador: observe cada produto ou serviço que utiliza em seu dia a dia, tentando enxergá-lo não como algo que foi criado para atender o fim ao qual se destina, mas que existe principalmente para dar lucro a alguém. E então se faça a seguinte pergunta: o que seria diferente nesse produto ou serviço, caso tivesse sido criado com o objetivo de realmente atender ao fim ao qual se destina, e não o de gerar o maior lucro possível?


Essas considerações pontuais e quase aleatórias que fiz até aqui representam apenas uma ínfima amostra do quanto hoje enfrentamos uma multiplicidade de terríveis problemas que parecem não ter solução, mas apenas porque estamos olhando para esses problemas por uma ótica distorcida e ineficiente, que é a ótica reducionista-mecanicista. Ao considerar esses mesmos problemas pela abordagem sistêmica, podemos começar a entender as suas causas mais profundas e, finalmente, tomar atitudes efetivas para gerar soluções.

E assim, depois de tantas piruetas do pensamento, voltamos à nossa questão inicial, que é utilizar o pensamento sistêmico para lidar com a crise do novo coronavírus. Já notou como desde o início da pandemia surgem pessoas propondo explicações simplistas, que sempre focam como ponto principal do problema “colocar a culpa em alguém”? Como o vírus se manifestou pela primeira vez em Wuhan, a maioria dessas pessoas se contenta em culpar a China e os chineses (ignorando, deliberadamente ou não, os relatos sobre o vírus da Covid-19 ter sido encontrado em amostras de 2019, antes do início da pandemia, na rede de esgoto de vários países, inclusive o Brasil). Outras pessoas, mais imaginativas, concebem uma teia de conspirações de origem desconhecida, que estaria manipulando a pandemia de forma a obrigar as pessoas a ficarem em casa, ou a reduzir a população, ou a acabar com a economia, ou até mesmo a implantar chips de controle mental (nessas horas quase sinto dó de ser um escritor de ficção, tendo como desafio bolar histórias ainda mais criativas que essas).

Todas essas “explicações” para a pandemia têm em comum o fato de serem norteadas pela visão mecanicista do mundo: se temos um problema, alguma parte do mecanismo é a culpada por esse problema... Contudo basta analisar rapidamente essas abordagens do problema para perceber que são úteis apenas para gerar medo e ódio nas pessoas, mas que na verdade não ajudam em nada a encontrar soluções. E é exatamente por esse motivo que essas “explicações” são tão atraentes e encontram tantos adeptos: se a culpa é do outro e não existe solução, não há nada que eu possa ou deva fazer para resolver o problema, certo? Posso continuar tranquilamente em minha zona de conforto...

Totalmente diferente é a abordagem sistêmica. Se tudo está conectado com tudo, todo problema passa por mim, assim como toda solução. O pensamento sistêmico não me permite jogar a culpa nos ombros de ninguém, mas me possibilita perceber as minhas responsabilidades individuais diante dos dilemas coletivos.

O que leva ao segundo sonho esquisito sobre o qual eu gostaria de falar aqui. Esse veio na forma de uma proclamação proferida por uma espécie de arauto real, com as palavras aparecendo em um pergaminho à medida em que ele ia lendo:

“PARA QUE A CIÊNCIA POSSA DE FATO NORTEAR A SOCIEDADE, É PRECISO QUE OS CIENTISTAS SE DESAPEGUEM DOS DOGMAS MATERIALISTAS E, PRINCIPALMENTE, DOS INTERESSES ESCUSOS QUE MOVEM A PESQUISA CIENTÍFICA.”


 

Acordei na madrugada do dia 21/01/21 com essas palavras reverberando na cabeça. Refletindo sobre elas, me dei conta da aberração que é vivermos em um mundo que separa ciência e religião em compartimentos completamente estanques. E o mais estranho é considerarmos essa divisão natural e até desejável, quando ela é apenas um momento histórico na jornada das eras.

Tanto a ciência quanto a religião deveriam ter por objetivo a busca pela Verdade ou, se você preferir, a busca pela Sabedoria. Contudo, graças justamente ao paradigma mecanicista do século XVII, a ciência deu uma espécie de “golpe de estado”, proclamando que a busca pela Verdade é uma prioridade exclusivamente sua. Desde então, sobrou para a religião o papel de ser algo como uma agremiação de dogmas, com as pessoas optando por essa ou por aquela religião de acordo com a sua preferência por determinado pacote de rituais e superstições.

Note que nessa cisão entre religião e ciência as duas saem perdendo. A religião, por um lado, desiste de buscar a Sabedoria e passa a fomentar apenas versões mesquinhas do universo e picuinhas com outras religiões. E a ciência, por outro lado, torna-se tragicamente cega para sua própria tendência ao dogmatismo. Só para dar um exemplo básico: afirmar que Deus não existe é tão dogmático quanto afirmar que Deus existe. Contudo muitos cientistas hoje, ainda atrelados à visão mecanicista, insistem em partir do pressuposto de que Deus não existe. E assim constroem uma ciência que toma como pilar a ideia de que a vida carece de qualquer sentido ou propósito espiritual, desvinculando o progresso científico de qualquer conexão com a espiritualidade. E é assim que temos uma ciência que não está voltada para a erradicação da fome e da miséria, como seria lógico imaginar, mas para o lucro (sempre o lucro) de algumas poderosas corporações, ao custo da devastação dos recursos naturais e da ameaça à nossa própria sobrevivência no planeta.

Diante disso, espero que já não pareça tão absurda a declaração de que a pandemia é a resposta biológica de Gaia aos desmandos dos homens mortais...

Quanto ao futuro, não me parece exagero dizer que estamos diante de graves perigos, que podem ou não nos conduzir a luminosas oportunidades. Penso que as principais dessas oportunidades passam pela adoção do pensamento sistêmico como novo padrão de abordagem da realidade.

Já virou um lugar comum dizer que a pandemia nos ensinou como tudo está conectado. Em 2021, mais do que nunca, essa percepção deve se converter em atitudes práticas. No momento em que escrevo esse texto, apenas quatro países detêm 75% das vacinas disponíveis. Contudo, a médio e longo prazo, não vai adiantar nada vacinar os Estados Unidos de cabo a rabo e deixar os brasileiros e os africanos sem se vacinar. Novas cepas do vírus já estão surgindo, comprometendo a eficácia de uma vacinação parcial apenas para alguns privilegiados.

Ou a salvação vem para todos, ou ninguém será salvo. Assim seja.

  


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FABIO SHIVA é músico, escritor e produtor cultural. Autor de “Favela Gótica” (https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica), “Diário de um Imago” (https://www.amazon.com.br/dp/B07Z5CBTQ3) e “O Sincronicídio” (https://www.amazon.com.br/Sincronic%C3%ADdio-sexo-morte-revela%C3%A7%C3%B5es-transcendentais-ebook/dp/B09L69CN1J/). Coautor e roteirista de “ANUNNAKI - Mensageiros do Vento” (https://youtu.be/bBkdLzya3B4).

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sexta-feira, 25 de março de 2022

HISTÓRIAS DE UMA DOCE VELHINHA COM A MENTE PRA LÁ DE DIABÓLICA

 


Resenha do livro “OS ÚLTIMOS CASOS DE MISS MARPLE”, de Agatha Christie

Dentre os mais de 100 livros que Agatha Christie escreveu, calculo ter lido uns 80 ao menos uma vez. Desses, li boa parte duas vezes e alguns cheguei a ler três vezes. Não me lembro de ter chegado a ler algum quatro vezes, mas é algo que pode ter acontecido ou eventualmente irá acontecer algum dia.

Dito isso, façam ideia de minha alegria ao ler, em 2022, um livro de Agatha pela primeira vez! “Os Últimos Casos de Miss Marple” foi publicado postumamente em 1979, três anos após o desencarne da autora. Como eu suspeitava, boa parte dos contos são republicações, que já haviam aparecido em outras coletâneas. Mesmo assim, sempre é bom retornar à companhia de Miss Marple, essa incrível velhinha que é tão simpática como um arquétipo da querida vovó e, ao mesmo tempo, é capaz de imaginar as piores coisas a respeito dos outros. É essa combinação de uma mente diabólica e muita doçura que faz de Miss Marple uma das mais carismáticas detetives do romance policial.

O método dedutivo de Miss Marple é bem interessante: ela compara cada nova situação que ocorre com uma espécie de arquivo mental sobre as pessoas que ela conheceu em sua pequena aldeia de St. Mary Mead. O conceito por trás desse método é que as pessoas agem de acordo com padrões que se repetem, o que permite à gentil e maquiavélica senhorinha estabelecer os paralelos que a ajudam a desvendar até os mais intrincados mistérios. Fiquei pensando bastante sobre essa ideia, e a conclusão a que cheguei foi a de que faz muito sentido!

Apesar do título do livro, dois contos aqui apresentados não trazem Miss Marple como protagonista. Na verdade, sequer poderiam ser considerados como histórias de detetive. São eles: “A boneca da modista” e “Através de um espelho sombrio”. Não me recordo de ter lido esses contos antes, que trazem uma estranha mistura de sobrenatural e sentimentalismo, bem diferentes do estilo tradicional de Agatha. Valeu pela curiosidade!

Por falar em curiosidade, o livro encerra com “A extravagância de Greenshaw”, que possui uma história interessante associada. Em 1954, Agatha quis ajudar a levantar fundos para uma igreja local (Igreja de Churston Ferrers). Assim, ela escreveu uma história intitulada “A extravagância de Greenshore”, protagonizada por Hercule Poirot, com a intenção de reverter os lucros da venda da história para a igreja. Só que essa história ficou curta demais para ser publicada como um livro, e longa demais para ser publicada em alguma revista.

Assim, Agatha acabou escrevendo outra história, “A extravagância de Greenshaw”, dessa vez com Miss Marple como protagonista, com um tamanho mais adequado para o propósito original. Quanto a “A extravagância de Greenshore”, foi reescrito de forma a virar o romance “A Extravagância do Morto”. Achei muito intrigante Agatha ter decidido escrever uma história completamente diferente, mas com um nome tão parecido… São os mistérios dentro dos mistérios de Agatha Christie…


 

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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva

 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”

Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.

“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”

Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.

Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.

 

Oito anos depois do lançamento do livro físico, finalmente disponível também em e-book:

https://www.amazon.com.br/dp/B09L69CN1J

 

Livro físico:

https://caligo.lojaintegrada.com.br/o-sincronicidio-fabio-shiva

 

Book trailer:

http://youtu.be/Vr9Ez7fZMVA

 




 

segunda-feira, 7 de março de 2022

A TRAGÉDIA DO REI RICARDO III NÃO DEVERIA SER UM MANUAL DO GOVERNO

 


Resenha de “RICARDO III”, de William Shakespeare

 

Li pela primeira vez essa obra-prima da literatura mundial em 1999, no original em inglês acrescido de ricas notas históricas que baixei da Internet. Por essa época eu estava lendo Shakespeare com o intuito específico de colher referências (e inspiração) para as letras da ópera rock “VIDA – The Play of Change”, da banda Imago Mortis (https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_k74iGArOs3L8rNNxGpll976kufUVjE8EQ). E dessa leitura saíram ao menos duas citações diretas na música “Insominia” (https://youtu.be/w6YVeR47SP0). Uma é a sensacional frase de abertura da peça:

 

“Now is the winter of our discontent

Made glorious summer by this sun of York”

 

[“Agora é o inverno de nosso descontentamento,

Tornado em glorioso verão por este sol de York.”]

 

E a outra é uma das frases mais impactantes do Bardo:

 

“I'll join with black despair against my soul,

And to myself become an enemy.”

 

[“Eu me unirei ao negro desespero contra a minha alma,

E para mim mesma me tornarei uma inimiga.”]



Com essa fala, que é pronunciada pela Rainha Elizabeth ao saber da morte de seu marido,  Shakespeare expressa em vívidas cores toda a dor do luto. Nessa única frase, que não cessa de me emocionar, diviso toda a magia e todo o poder da Literatura. Ao traduzir o sofrimento humano na linguagem da Beleza, a Arte ressignifica e transcende o sofrimento, conferindo-lhe sentido.

Em 2010, tive uma segunda oportunidade de ler “Ricardo III”, na tradução para o português de Carlos Alberto Nunes. Dessa vez, o foco de minha atenção concentrou-se na história, mais especificamente na magnífica articulação entre ação e consequência que é delineada ao longo da peça, em uma das melhores demonstrações da Lei do Karma na Literatura (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2012/09/a-tragedia-do-rei-ricardo-iii-william.html).

 

E agora, em 2022, decidido a mergulhar novamente nessas salutares águas de Shakespeare, voltei a ler a edição em inglês com os comentários históricos. Por um capricho simétrico, vou destacar os três principais aprendizados que tive nessa terceira leitura de “Ricardo III”:

 

1) Um grande vilão na Literatura, um homem de seu tempo na vida real

Todas as notas históricas dessa edição on-line (da qual eu havia felizmente guardado as impressões, pois não mais encontrei na Internet) foram baseadas no livro “Richard III”, de Charles Ross. Essas notas reiteram que a sanguinária escalada ao poder de Ricardo III é considerada mais ou menos dentro dos padrões do jogo político da época (Século XV): ele foi acusado do assassinato do irmão, dos dois sobrinhos (ainda crianças) e da própria esposa, e mandou executar vários antigos ex-aliados, na tentativa de assegurar sua ascensão ao trono da Inglaterra. Mas de nada adiantou sujar tanto as mãos de sangue: o reinado de Ricardo III durou pouco e ele terminou odiado pelo povo e por seus pares, sendo morto na batalha em que Shakespeare o fez dizer, de forma tão emblemática: “Meu reino por um cavalo!”

 

2) “Show, don’t tell”… unless you are Shakespeare!

Percebi somente agora um recurso que Shakespeare parece usar com frequência: seus personagens são dotados de uma incomum capacidade de autoanálise, descrevendo suas emoções e conflitos internos de forma exuberante. Isso contraria diretamente uma das regras douradas da escrita, que diz: “Show, don’t tell” [“Mostre, não conte”]. Essa regra, que faz todo sentido para os mortais comuns, parece não se aplicar no caso da genialidade ímpar de Shakespeare. Só para dar um exemplo: o escritor não deve “contar” que seu personagem está triste, com medo e remorso, mas “mostrar” por meio de cenas e ações que esse é o seu estado emocional. A não ser que o escritor seja W.S., que faz seu Ricardo dizer, pouco antes da batalha final:

 

“O coward conscience, how dost thou afflict me!”

[“Ó consciência covarde, como me afliges!”]

 

3) A tragédia do Rei Ricardo III não deveria ser usada como manual de campanha do governo

Mas o que me deixou realmente estupefato foi acompanhar a maquiavélica estratégia de Ricardo para tomar o poder, lendo isso agora, em 2022, à luz de tantos absurdos que temos testemunhado no cenário político nacional e mundial. Vou tentar resumir as macabras táticas utilizadas tanto no século XV quanto no XXI:

 

- Fazer o mal e em seguida acusar os adversários, jogando neles a culpa pelo malfeito.

- Criar alianças para espalhar mentiras e calúnias contra um inimigo em comum, para depois voltar essas mesmas calúnias contra os antigos aliados.

- Aparecer publicamente ao lado de líderes religiosos, de preferência com uma Bíblia debaixo do braço (“o verdadeiro ornamento para se conhecer um homem santo”) e citar versículos a torto e a direito, para dessa forma “cobrir a infâmia explícita com farrapos das Sagradas Escrituras e ficar parecido com um santo quando se está mais bancando o diabo.”

 

Tudo considerado, não sei o que causa mais espanto, se é o fato de Shakespeare ter denunciado a artimanha já há tanto tempo ou se é esse tipo de esse tipo de golpe fuleiro e mal-ajambrado continuar funcionando tantos séculos depois. Só posso desejar que o paralelismo entre a Literatura do passado e a Realidade de hoje siga até o amargo fim, pois anseio por ouvir o brado fanhoso ecoando nas redes sociais: “Meu reino por um gado, tá ok?


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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE


 

Resenha (Perpétua):

https://youtu.be/4Vm4YUoU-SM


 


 

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