Resenha do
livro “FELLSIDE: Estranhos Visitantes”, de M. R. Carey
Quase todas as histórias de terror ocidentais e contemporâneas partem de uma premissa materialista. O sobrenatural surge, nessas histórias, como a invasão de um propósito maligno e irracional em um mundo (caótico) ordenado pela lógica do acaso. Na maioria dessas histórias, o tal propósito maligno visa unicamente o extermínio dos vivos e é derrotado ao final, ainda que provisoriamente. Mas há ainda histórias que tentam compor algum equilíbrio, contrapondo ao Mal alguma espécie de Bem – e isso numa visão materialista.
Descobri essa chave de interpretação das histórias de terror há alguns anos e, desde então, ela tem sido de muita serventia em minhas leituras (e escritas) desse gênero que amo desde que, criança ainda, me esgueirava de madrugada para assistir escondido aos filmes de Drácula no Corujão. Para quem não está familiarizado com esses conceitos, um bom exemplo desse tipo dominante de terror são os próprios filmes de vampiro ou de monstros estilo Sexta-feira 13. No segundo tipo, menos comum (da tentativa de equilíbrio Bem/Mal), está “IT: A Coisa”, de Stephen King. Mas há também louváveis experimentos fora dessa prisão que encarcera nossas narrativas de terror. Um exemplo brilhante é a série “Missa da Meia-Noite”, dirigida por Mike Flanagan.
Por falar em prisão, esse é o cenário escolhido por M. R. Carey para seu romance “Fellside: Estranhos Visitantes”. Mais especificamente, uma prisão para mulheres, que muitas vezes evoca a ótima série “Orange is the new Black”. Sendo que aqui temos os componentes extras de alguns fantasmas e de uma paranormal. Amei o livro anterior de Carey, “A menina que tinha dons”. Mas esse achei bom o suficiente apenas para que eu não abandonasse a leitura. A falha principal foi tentar de seguir o padrão adotado por Stephen King em “IT” (que achei igualmente problemático e pelo mesmo motivo). A descrição do mundo espiritual, pela imaginação de um escritor materialista de terror, é (pelo menos aos meus olhos) no mínimo infantil e tediosa. Antes um monstro irracional qualquer a essa pífia cosmogonia de histórias em quadrinhos.
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Fabio Shiva é
escritor, músico e produtor cultural. Publicou livros de gêneros diversos:
romance policial, ficção especulativa, contos, crônicas, infantojuvenil e
poesia, além de várias antologias como organizador. Ghost Writer com
seis livros publicados.
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