sábado, 8 de maio de 2021

“CIDADE DE DEUS – Paulo Lins” (Atmosfera Literária)

 


https://youtu.be/bjAHYji52l0


Olá, queridas e queridos da Atmosfera Literária! Nesta semana em que recebemos tristes notícias da Favela do Jacarezinho, que foi palco da operação policial mais letal da história do Rio de Janeiro, com um saldo de 25 mortos, é impossível não evocar o ditado que diz, com muita sabedoria, que a vida imita a arte, que por sua vez imita a vida. Por isso, quero falar de uma verdadeira obra-prima da literatura brasileira contemporânea, um livro brutal e avassalador  que guarda íntimas conexões com o trágico noticiário carioca: CIDADE DE DEUS, do escritor Paulo Lins. Para quem não sabe, foi esse livro que inspirou o aclamado filme homônimo de 2002, dirigido por Fernando Meirelles e Kátia Lund.

Li com horrorizado fascínio cada uma das 400 páginas desse livro, capturado pelo mesmo magnetismo da violência que me fez ficar grudado na poltrona do cinema durante cada segundo do filme. E pensar que tanta brutalidade e selvageria são cada vez mais banais no mundo!

A leitura traz também a possibilidade de muitas reflexões. Penso que por detrás da brutalidade dos criminosos de favelas como a “Cidade de Deus” está a brutalidade do sistema, a brutalidade dos poderosos, a brutalidade da indiferença dos ditos “cidadãos de bem” que acham normal que sua família tenha teto e comida, acesso à educação, saúde e cultura, enquanto tantas outras famílias não têm nada disso. O resultado da desigualdade é o câncer da criminalidade, que adoece a sociedade inteira. O Rio de Janeiro hoje é escandalosa prova de que ninguém fica imune aos devastadores efeitos de uma sociedade construída sobre a desigualdade. Mesmo dentro dos condomínios fechados, cercados de vidros blindados e seguranças armados, o medo penetra nos corações, tira o sono e a paz dos que se consideram “justos”.

Lendo esse livro tão incômodo e necessário, pensei muito no lindo verso de Tom Jobim: “É impossível ser feliz sozinho”. Acho que esse verso reflete uma verdade muito mais profunda, que vai além da felicidade romântica de um casal. A vida é coletiva, e tudo está conectado.  Enquanto houver uma criança chorando de fome, ninguém poderá ser realmente feliz neste pequeno planeta. É impossível ser feliz enquanto existirem lugares como a Cidade de Deus.

Convido você a conhecer minha página no Facebook e no Instagram: Prosa e Poesia de Fabio Shiva, e a baixar gratuitamente o PDF de meu livro Favela Gótica no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/

Continue respirando em nossa Atmosfera Literária. Gratidão e até a próxima!

 

“Atmosfera Literária com Fabio Shiva” é um quadro do programa ATMOSFERA 102, da Rádio 102.7 FM (Além Paraíba – MG), todo sábado de 12h às 14h, com apoio da VERLIDELAS EDITORA. Apresentação: Fernando Bamboo. Técnico de Som: Venilton Ribeiro.

https://www.verlidelas.com/r%C3%A1dio

 

https://www.radios.com.br/aovivo/radio-1027-fm/17615

 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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quinta-feira, 29 de abril de 2021

RELATO DE UM NÁUFRAGO – Gabriel García Márquez

 


Esse é um livro que impressiona por muitos motivos. Foi originalmente publicado em 1955, como uma série de 14 fascículos do jornal colombiano El Espectador, como o relato verídico de Luis Alejandro Velasco, marinheiro do destroier ARC Caldas, que caiu no mar durante o trajeto da cidade de Mobile, nos Estados Unidos, a Cartagena das Índias, na Colômbia. Sete outros marujos também tombaram do navio junto com Velasco, mas ele foi o único que sobreviveu para contar.

Apesar de Velasco assinar a narrativa de seu naufrágio, ela na verdade foi escrita pelo então jovem repórter do jornal El Espectador, Gabriel García Márquez. Somente em 1970 é que “Relato de um Náufrago” foi publicado em livro, com o nome de Gabo sendo associado ao texto. E que texto, meus camaradas!

Um dos fatores que mais me impressionaram nessa leitura é a intensidade do suspense que García Márquez consegue criar em sua narrativa. E isso é especialmente marcante quando consideramos que praticamente a história toda é revelada já na capa do livro, que traz como título completo:

“Relato de um Náufrago que esteve à deriva numa balsa salva-vidas por 10 dias sem alimento ou água, foi proclamado um herói nacional, beijado por rainhas de beleza, feito rico com a publicidade, e então rejeitado pelo governo e esquecido para sempre.”


A história de Velasco, por si só, suscita grande interesse. Existe algo de profundamente comovente em histórias de naufrágio. O arquétipo do naufrágio é o homem derrotado pelas forças da natureza, é o homem à mercê da natureza. Nesse sentido, o momento em que vivemos, da pandemia do coronavírus, pode ser “lido” como a narrativa de um naufrágio. A Covid-19 virou a canoa do capitalismo predatório, do liberalismo, da sociedade de consumo. Ou enxergamos isso e buscamos novas embarcações que possam conduzir a humanidade a destinos menos inconsequentes, ou continuaremos nos debatendo em meio ao mar revolto, até nos afogarmos todos, um por um...

“Relato de um Náufrago”, contudo, apresenta ainda muitas outras implicações. Em 1955 a Colômbia vivia sob a “ditadura folclórica” de Gustavo Rojas Pinilla e a versão oficial era a de que os oito marinheiros caíram do ARC Caldas devido a uma tempestade no mar. Só que a narrativa de Velasco demonstrou que não houve tempestade alguma: o problema foi que o destroier colombiano estava carregando um excesso de muamba: geladeiras, fogões e outras bugigangas. Foi um escândalo que tornou pública uma evidência incontestável de corrupção na ditadura militar. Fazendo um paralelo com a nossa história brasileira, sempre me causa espanto a ingenuidade – ou o cinismo – daqueles que afirmam que não houve corrupção durante a ditadura militar, só porque nenhuma notícia a respeito foi publicada nos jornais da época! Basta voltar ao exemplo colombiano, onde a denúncia involuntária de corrupção no governo acabou custando caro: Velasco deixou de ser o herói nacional da noite para o dia, o jornal El Espectador foi fechado e Gabriel García Márquez teve que fugir para o exílio...

Mas o que me motivou a ler esse livro foi uma metáfora de natureza totalmente diversa. Amo uma fala de Hermann Hesse sobre o ofício de escritor, que ele compara a uma aventura selvagem, como se lançar em um barquinho em pleno oceano. E esse barquinho pode nos conduzir tranquilamente a um porto seguro, como também pode muito bem nos colocar em situações extremas, desafiando tubarões, o sol inclemente, a fome e a sede. É bem assim a aventura da Literatura!

 

 

 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE


 

sábado, 24 de abril de 2021

A TORMENTA DE ESPADAS – AS CRÔNICAS DE GELO E FOGO: LIVRO TRÊS – George R. R. Martin

 


Recentemente foi publicado um estudo sobre o que acontece com nosso cérebro quando mergulhamos profundamente na leitura de uma história (https://www.revistasaberesaude.com/o-que-acontece-em-seu-cerebro-quando-voce-se-perde-na-ficcao). Os pesquisadores utilizaram justamente personagens de “Game of Thrones” ao escanear o cérebro de autodenominados fãs da série, chegando a resultados interessantes: quanto mais a pessoa está imersa na ficção, mais ela tende a utilizar as mesmas áreas do cérebro para pensar no personagem fictício e em si mesma. O cientista responsável pela pesquisa chegou a afirmar:

“Para algumas pessoas, a ficção é uma chance de assumir novas identidades, de ver mundos através dos olhos dos outros e retornar dessas experiências mudadas”.

Para mim, essa frase é um eloquente exemplo do poder da Literatura e do quanto podemos aprender e evoluir através das histórias que contamos uns para os outros. Não foi por acaso, portanto, que escolhi esse momento específico, quando vivemos a pior fase da pandemia do coronavírus no Brasil (até agora), para iniciar a leitura do terceiro volume de “As Crônicas de Gelo e Fogo”. Foi uma fuga deliberada: eu queria me perder nas matanças e massacres de Westeros, terra fustigada pela guerra entre reis insanos e gananciosos, para assim amenizar, ao menos um pouco, as mortes bem reais de tantos brasileiros.

A estratégia funcionou muito bem: durante alguns dias, quase consegui esquecer que vivemos em um país governado por um genocida insano e ganancioso. Quase.

E o melhor de tudo é que pude aprender um pouco mais sobre a arte de contar histórias com o professor George R. R. Martin. Durante a leitura de “A Tormenta de Espadas” percebi Martin utilizando uma técnica muito interessante, a que chamei “palavras versus ações”. Esse recurso ficou mais evidente para mim em quatro personagens: Jon Snow, Samwell Tarly, Jaime Lannister e Sandor Clegane. A técnica consiste em retratar o personagem com algumas características (geralmente negativas), pelas quais o personagem é percebido pelos outros e até por si mesmo, e ir progressivamente apresentando episódios onde essas características são desmentidas pelas próprias ações do personagem. Muito instrutivo!

Vi a série da HBO e amei, mas gostei ainda mais de ler o primeiro volume, que só perdeu para o segundo volume, que só foi superado pelo terceiro volume. Nem preciso dizer que espero em feliz expectativa o dia de retornar ao mundo cruel e impiedoso de Westeros, tão melhor que o nosso Brasil de hoje...


  

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

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Entrevista sobre o livro na FM Cultura

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sexta-feira, 23 de abril de 2021

O GRANDE MÁGICO EUQIRNEH – Noélia Barreto Bartilotti

 


Tia Nó está de volta com mais uma deliciosa aventura para encantar crianças de todas as idades! Dessa vez, vamos acompanhar a jornada do Grande Mágico Euqirneh (será que você já adivinhou o segredo desse nome?) e sua divertida trupe, formada por duendes, elefantes e até um casal de cachorrinhos da raça viralatês. Essa turminha vai se apresentando de cidade em cidade, sempre levando muita música e alegria, até chegar em um lugar onde vive um homem muito rico e muito triste, que mora sozinho em seu castelo. E é então que Euqirneh encontra um desafio à sua altura: ele vai conseguir tirar a tristeza do coração do senhor Tristonho? E nessa aventura o grande mágico precisa ficar atento, pois o ardiloso feiticeiro Acbar está à espreita, soltando fumaça pelas ventas e querendo encher de medo o coração das pessoas...

A escritora Noélia Barreto Bartilotti possui o inestimável talento dos verdadeiros contadores de histórias para os pequeninos: tem o poder mágico de se transformar em menina e, assim, enxergar o mundo com olhos de inesgotável encantamento, como só uma criança é capaz de fazer. É essa a poderosa magia de suas histórias infantis, que transportam os pequenos leitores para mundos encantados e fazem os adultos voltarem à infância.


O livro já está à venda no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/o-grande-m%C3%A1gico-euqirneh 

segunda-feira, 5 de abril de 2021

A VIDA NÃO É ÚTIL – Ailton Krenak

 


Esse pequeno grande livro é composto de cinco textos que foram adaptados de entrevistas, palestras e lives realizadas por Ailton Krenak entre novembro de 2017 e junho de 2020. Ao término da leitura, cheguei à conclusão de que Krenak pode ser chamado, com toda propriedade, de um autêntico “Arauto do Apocalipse”, se considerarmos o significado original e mais profundo da palavra “apocalipse”, que é “revelação”.

A revelação que Ailton Krenak nos traz é a de uma sabedoria ancestral, que é uma herança preciosa de toda a humanidade, mas que só chega até o momento presente graças à determinação e coragem dos povos indígenas, que souberam preservá-la. Contudo o grande mérito de Krenak é o de ser um admirável tradutor, que expressa os conhecimentos dos filhos das florestas em uma linguagem que não só é compreensível para os habitantes das “selvas de pedra”, como é capaz até mesmo de tocar seus enrijecidos corações. A mensagem de Krenak é dura e cheia de verdades amargas, contudo traz em seu âmago uma revitalizadora fé em novos futuros para a espécie humana:

“Quando pensamos na possibilidade de um tempo além deste, estamos sonhando com um mundo onde nós, humanos, teremos que estar reconfigurados para podermos circular. Vamos ter que produzir outros corpos, outros afetos, sonhar outros sonhos para sermos acolhidos por esse mundo e nele podermos habitar. Se encararmos as coisas dessa forma, isso que estamos vivendo hoje não será apenas uma crise, mas uma esperança fantástica, promissora.”

Eu fiquei especialmente feliz ao ver a fala de Krenak reverberar em total sintonia com o pensamento sistêmico defendido por cientistas como Fritjof Capra, que afirma ser a pandemia do coronavírus uma resposta biológica do planeta aos desatinos cometidos pela humanidade. É basicamente o mesmo que diz Krenak, com outras palavras:

“É incrível que esse vírus que está aí agora esteja atingindo só as pessoas. Foi uma manobra fantástica do organismo da Terra tirar a teta da nossa boca e dizer: ‘Respirem agora, quero ver’.”

“O que estamos vivendo pode ser a obra de uma mãe amorosa que decidiu fazer o filho calar a boca pelo menos por um instante. Não porque não goste dele, mas por querer lhe ensinar alguma coisa. ‘Filho, silêncio.’ A Terra está falando isso para a humanidade. E ela é tão maravilhosa que não dá uma ordem. Ela simplesmente está pedindo: ‘Silêncio’. Esse é também o significado do recolhimento.”

“Ou você ouve a voz de todos os outros seres que habitam o planeta junto com você, ou faz guerra contra a vida na Terra.”

“Temos que abandonar o antropocentrismo; há muita vida além da gente, não fazemos falta na biodiversidade. Pelo contrário.”

“O que estou tentando dizer é que a minha escolha pessoal de parar de derrubar a floresta não é capaz de anular o fato de que as florestas do planeta estão sendo devastadas. Minha decisão de não usar automóvel e combustível fóssil, de não consumir nada que aumente o aquecimento global, não muda o fato de que estamos derretendo.”

“Isso que as ciências política e econômica chamam de capitalismo teve metástase, ocupou o planeta inteiro e se infiltrou na vida de maneira incontrolável.”

“Se uma parte de nós acha que pode colonizar outro planeta, significa que ainda não aprenderam nada com a experiência aqui na Terra. Eu me pergunto quantas Terras essa gente precisa consumir até entender que está no caminho errado.”

“Os seres humanos não têm certificado, podem dar errado. Essa noção de que a humanidade é predestinada é bobagem.”

“Essas incríveis tecnologias que a gente utiliza hoje, que nos põem em conexão, têm uma boa dose de ilusão. São como um troféu que a ciência e o conhecimento nos deram e que usamos para justificar o rastro que deixamos na Terra.”

É praticamente impossível falar sobre pandemia no Brasil sem mencionar as ideias e práticas genocidas de nosso atual desgoverno. E Krenak faz isso com muita acuidade e elegância:

“O presidente da República disse outro dia que brasileiros mergulham no esgoto e não acontece nada. O que vemos nesse homem é o exercício da necropolítica, uma decisão de morte. É uma mentalidade doente que está dominando o mundo. E temos agora esse vírus, um organismo do planeta, respondendo a esse pensamento doentio dos humanos com um ataque à forma de vida insustentável que adotamos por livre escolha, essa fantástica liberdade que todos adoram reivindicar, mas ninguém se pergunta qual o seu preço.”

“Governos burros acham que a economia não pode parar. Mas a economia é uma atividade que os humanos inventaram e que depende de nós. Se os humanos estão em risco, qualquer atividade humana deixa de ter importância.”

Tenho um tio que sempre me chocou por demonstrar uma raiva intensa e irracional contra os povos indígenas. Mais recentemente, esse tio se tornou para mim o mais acabado exemplo de apoiador fanático das ideias fascistas e anti-humanas que hoje estão na moda entre os autoproclamados “cidadãos de bem”. Lendo Krenak, pude compreender melhor como esses dois fenômenos estão profundamente interligados, de modo que o ódio contra os povos ancestrais alimenta o fanatismo fascista, e vice-versa:

“Os povos nativos resistem a essa investida do branco porque sabem que ele está enganado, e, na maioria das vezes, são tratados como loucos.”

“Eles escravizaram tanto os outros que agora precisam escravizar a si mesmos. Não podem parar e experimentar a vida como um dom e o mundo como um lugar maravilhoso. O mundo possível que a gente pode compartilhar não tem que ser um inferno, pode ser bom. Eles ficam horrorizados com isso, e dizem que somos preguiçosos, que não quisemos nos civilizar. Como se ‘civilizar-se’ fosse um destino. Isso é uma religião lá deles: a religião da civilização." 

“Talvez o que incomode muito os brancos seja o fato de o povo indígena não admitir a propriedade privada como fundamento. É um princípio epistemológico. Os brancos saíram, num tempo muito antigo, do meio de nós. (...) Então, quando a gente se reencontra, há uma espécie de ira por termos permanecido fiéis a um caminho aqui na Terra que eles não conseguiram manter.”

É importante ressaltar que o que motiva Krenak é uma inabalável confiança no propósito maior da vida:

“Tomara que não voltemos à normalidade, pois, se voltarmos, é porque não valeu nada a morte de milhares de pessoas no mundo inteiro.”

“Quem sobrevive a uma grande catástrofe costuma pensar em mudar de vida porque teve uma breve experiência do que é, de fato, estar vivo.”

“Temos que parar de nos desenvolver e começar a nos envolver.”

Que assim seja! Gratidão, Ailton Krenak!


  

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

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Entrevista sobre o livro na FM Cultura

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sexta-feira, 2 de abril de 2021

O OFICIAL E O ESPIÃO – Robert Harris

 


Graças a Deus, eu já sofri na pele o que é ser acusado injustamente por um crime que não cometi. E já senti, nos olhares dos outros, as acusações veladas que eu não tinha como refutar. Digo graças a Deus, porque depois que o tempo passou tive a oportunidade de perceber como esse sofrimento que vivenciei foi uma benção disfarçada, que me possibilitou ficar um pouco mais sensível às inúmeras injustiças que são cotidianamente cometidas em nossa sociedade, sob os olhares indiferentes da grande maioria. E digo graças a Deus também porque felizmente tive a oportunidade de viver o outro lado dessa pavorosa experiência, que foi ser publicamente inocentado das acusações (não entro em detalhes a respeito porque fugiria ao âmbito dessa resenha e também porque espero um dia transformar essa experiência em uma história).

Por isso tudo, é claro que teve um apelo muito forte sobre mim a trama de “O Oficial e o Espião”, que foi baseada no célebre e verídico “caso Dreyfus”, um dos mais emblemáticos erros judiciários ocorridos na história mundial. O caso se deu na França, ao final do século XIX, quando o capitão Alfred Dreyfus foi acusado de cometer traição e passar uma série de documentos do exército francês para o rival império alemão. Após um julgamento extremamente parcial, onde faltaram provas e sobraram demonstrações de antissemitismo, o judeu Dreyfus foi degradado publicamente e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, vivendo em condições sub-humanas e sob tortura física e psicológica.

Esse é apenas o começo do livro “O Oficial e o Espião”, onde Robert Harris transforma os fatos históricos em um thriller impecável, que prende o leitor à trama do início ao fim. O próprio autor conta que escreveu o livro por sugestão do diretor de cinema Roman Polanski, que em 2010 havia adaptado para as telas um outro romance de Harris, “O Escritor Fantasma”. Publicado em 2013, “O Oficial e o Espião” recebeu no ano seguinte o Prêmio Walter Scott e o Paris Book Award. Em 2014 seria filmada em Varsóvia a adaptação do novo livro de Harris, contudo Polanski, ele também às voltas com a justiça, teve que interromper o projeto para lidar com sua iminente extradição para os Estados Unidos, para ser novamente julgado pelo estupro de uma menor, cometido em 1977. Quanto ao filme, só ficou pronto em 2019 (https://youtu.be/OFXJELNxz2w).


Quando comecei a leitura, eu não conhecia o caso Dreyfus, tendo apenas ouvido falar vagamente do manifesto “J’Accuse!”, corajosamente publicado pelo escritor Émile Zola na época. À medida em que fui tomando conhecimento da história, fui ficando cada vez mais assombrado pelas inúmeras sincronicidades entre o caso Dreyfus e a condenação do ex-presidente Lula pela Lava Jato.

Foi especialmente marcante, para mim, ter chegado às últimas páginas do livro na mesma semana em que o ex-juiz Sergio Moro teve a sua suspeição confirmada pelo STF. Para qualquer pessoa que tenha se informado minimamente sobre as conversas vazadas entre Moro e Dallagnol, bem como sobre as análises de juristas sobre as faltas de provas e inúmeras irregularidades cometidas pela promotoria e pelo juiz, fica evidente que Lula foi condenado injustamente, para atender a interesses políticos escusos. Ainda assim, temos muitos e muitos brasileiros que odeiam Lula com todas as forças, e com um ódio tão cego e intenso que (quero crer) não percebem que assim se tornam cúmplices de tenebrosas forças que atualmente destroem a economia e os recursos naturais do Brasil, ao mesmo tempo em que, por incompetência ou por projeto, provocam a morte de centenas de milhares de brasileiros. Mais de cem anos atrás, Alfred Dreyfus também foi odiado com a mesma intensidade, mesmo diante de todas as evidências de sua inocência. Na França do século XIX, o motivo desse ódio contra Dreyfus foi o antissemitismo. No Brasil de hoje, o que motiva tanto ódio contra Lula?

Não poderia encerrar essa resenha sem comentar que esse foi o primeiro livro que li em italiano! A edição que li, com o título de “L’Ufficiale e La Spia”, foi publicada em um curioso formato “flipback”, que me iludiu a achar que o livro era pequeno, antes de atentar para as letras miúdas e as 860 páginas em papel bem fino! Quando percebi meu engano, já estava mais do que envolvido na história... Grazie!!!

 


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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

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A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

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sábado, 27 de março de 2021

PERRY RHODAN: INVASÃO ESPACIAL (P007) – Clark Darlton



Dessa vez Perry Rhodan, à frente de seu recém-criado Exército de Mutantes, precisa fazer frente à ameaça dos DI, os Deformadores Individuais:

“Bem à frente dele, a menos de dois metros de distância, estavam dois dos monstros extraterrenos, cujo objetivo era a conquista da Terra. Não, nem era isso. Destruiriam a Terra sem a menor contemplação, já que não precisavam dela. Simplesmente não toleravam a existência de qualquer outra raça. Seus atos eram comandados pelo instinto da destruição.”

Tirando a parte dos “monstros extraterrenos”, bem que o autor Clark Darlton poderia estar se referindo ao comportamento da própria espécie humana...

Os DI seguem a linha dos “Invasores de Corpos”, história de ficção científica e horror de Jack Finney publicada em 1954, que em 1978 foi transformada em um filme de grande sucesso (https://youtu.be/vc_0dlmSq7I). Não é impossível, portanto, que os criadores da série Perry Rhodan, que começou a ser publicada no começo da década de 1960, já tivessem lido a história de Finney. Contudo, uma vez que foram capazes de conceber um exército de mutantes antes dos X-Men da Marvel, tenho para mim que as semelhanças entre os DI e os Invasores de Corpos não passa de coincidência.



Perry Rhodan, como uma série semanal (ou quinzenal) escrita por vários autores, meio que a toque de caixa, inevitavelmente apresenta em alguns momentos a impressão de que a história poderia ser um pouco mais elaborada. O próprio Darlton parece ter ficado especialmente consciente disso ao fazer esse comentário:

“Tudo isso parecia confuso, mas não deixava de ser convincente.”

Pois de fato, apesar dessas ocasionais confusões, as histórias são muito envolventes, sobretudo quando as lemos hoje, décadas depois de terem sido escritas. Há passagens de notável presciência, que me fazem cada vez mais ter a convicção de que a saga de Perry Rhodan foi inspirada à humanidade como forma de facilitar e acelerar o processo de Transição Planetária. Um belo exemplo disso está nessa fala do protagonista da série, que propõe uma radical reestruturação econômica, transformando a indústria bélica em uma indústria espacial:

“Já nâo é segredo que as guerras e as atividades armamentistas são responsáveis por boa parte do bem-estar material dos povos. Isto pode parecer cínico, mas não passa duma constatação objetiva. Por isso devemos continuar a guiar nossa atuação por esse princípio consagrado, com a única diferença de que nossos esforços não mais serão dirigidos aos preparativos para a guerra, mas a um objetivo inteiramente diferente: a frota espacial. A economia mundial pode beneficiar-se com um empreendimento desse tipo. Novas indústrias surgirão, todos os homens encontrarão trabalho. Será necessário criar fábricas e usinas, e teremos de encontrar meios de produzir matérias-primas e peças até então desconhecidas. É aí que residem as vantagens de natureza puramente econômica.”

Ainda mais explícita, nesse sentido, é a formulação de que a humanidade só poderá sobreviver se abandonar suas tacanhas concepções patrióticas, que insistem em dividir o mundo em várias facções antagônicas:

“Qualquer homem que se deixasse envolver por motivos nacionalistas, mesmo que só em pensamento, seria um criminoso perante a humanidade. A tolice de um único homem pode abalar a união que finalmente foi alcançada. De qualquer maneira alguns decênios se passarão antes que toda a desconfiança seja eliminada.”

Uma bela surpresa que tive nesse episódio foi uma primeira formulação de ordem espiritual, que na história foi proferida pelo arcônida Crest:

“— Nas últimas semanas fiquei pensando muito sobre se o universo é governado pelo acaso ou pelo destino — disse em tom tranquilo. — Quase chego a dar a primazia ao destino. Como não deve ser imenso e inconcebível o ser que move os fios...”

E viva Perry Rhodan!



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https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE

 


 

quinta-feira, 25 de março de 2021

A LESTE DOS HOMENS – Políbio Alves


 Por sincronicidade, terminei a leitura de “A Leste dos Homens” no mesmo dia em que tomei conhecimento do prêmio literário que homenageia o escritor e poeta Políbio Alves (https://www.joaopessoa.pb.gov.br/noticias/prefeitura-abre-inscricoes-para-premio-literario-que-homenageia-polibio-alves/). Homenagem mais que merecida a esse artista tão inquieto e inquietante, que ainda ousa fazer da Literatura um jeito de bulir na alma da gente.

 Esse, aliás, é o terceiro livro que leio do autor, o que já me faz merecedor de uma vaga no Fã Clube Políbio Alves! O primeiro foi o espetacular livro de contos “Os Ratos Amestrados Fazem Acrobacias ao Amanhecer” (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/02/os-ratos-amestrados-fazem-acrobacias-ao.html), que me pegou completamente de surpresa com sua semiótica agreste e hermética, tal qual um mandacaru selvagem que inesperadamente nos brinda com uma bela flor. Em seguida li “Acendedor de Relâmpagos” (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/05/acendedor-de-relampagos-polibio-alves.html), livro de poemas afiados e cortantes como uma “faca só lâmina”.

 Por isso é que me aproximei de “A Leste dos Homens” com a cautela de um capoeirista que adentra uma terra alheia, que promete inúmeros perigos. Não à toa, pois eu já sabia que o livro contém relatos das atrocidades cometidas durante a ditadura militar em nosso país. Relatos ainda mais veementes por ter sido o próprio Políbio preso e torturado em 1968, “logo após a passeata dos 100 mil, por ter se indignado com o assassinato de seu colega, o estudante Edson Luís, assassinado com um tiro no coração no restaurante Calabouço.”

 É certo que minha apreensão (e curiosidade) só fez aumentar ao ler as palavras de advertência com as quais o autor me brindou (e honrou), junto com o seu autógrafo:

 “Fabio Shiva, querido escritor, aqui dentro tem (há) coisas inimagináveis.”

 Logo em seguida, em letras impressas, novo aviso reforça a impressão de estarmos adentrando um inferno literário:

 “Não leia essa escrita. Ela incomoda. E muito. Por favor, não me pergunte sobre esse livro. Enunciá-lo, nunca.”

 Que posso dizer sobre essa leitura? Coisa mais difícil é tentar fazer um texto de Políbio Alves caber em rótulos. Melhor deixar que o próprio autor diga a que veio sua obra:

 “Escrevo para não morrer de silêncio.”

 E é quanto basta. Se quiser saber mais, atreva-se também a ler “A Leste dos Homens”.

 

\\\***///


 

FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

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segunda-feira, 22 de março de 2021

ULTRALUZIDIOGRAVITACIONAL – Rogério Puerta

 


Li com crescente angústia os dois contos que compõem esse petardo literário enigmaticamente intitulado “Ultraluzidiogravitacional”. A prosa de Rogério Puerta é instigante e absolutamente original, uma voz literária de timbres únicos e inconfundíveis, onde se mesclam em generosas proporções a erudição linguística, o pessimismo existencialista e um improvável e quase inconsciente lirismo, que muitas vezes nos dão a impressão de estarmos lendo uma poesia em prosa.

 É muito interessante a maneira como Puerta aborda as grandes tragédias e misérias humanas, com um distanciamento frio e analítico que geram uma espécie de choque térmico no leitor. Até por conta da temática de ficção científica das histórias, tive por vezes a impressão de estar lendo um texto produzido por uma “engine” literária, uma espécie de inteligência artificial emulando a expressão humana da escrita. Devido a sua própria originalidade, imagino que a leitura desse livro não irá agradar a todos. Contudo não consigo imaginar de forma alguma alguém dizendo, a respeito dessa obra: “Já li outros livros parecidos.” Palmas e vivas para o autor, portanto, por sua corajosa autenticidade literária.

 O livro abre com “O brusco cessar da cacofonia humana”, que narra um cataclismo ocorrido em um futuro próximo, que deixa um único sobrevivente, Kayo, em meio a nove bilhões de seres humanos exterminados:

 “Algum risco e atrevimento lhe seria recomendável para sua imprescindível manutenção enquanto único ser humano a respirar o ar do planeta Terra.”

 Tive a impressão de captar algo da visão de mundo do autor, expressa em dois temas recorrentes: a celebração do Princípio do Prazer e o repúdio a toda e qualquer religiosidade.

 “Enquanto sentisse algum prazer, mínimo que fosse, a luta valeria a pena, ao final sempre valeria as penas.”

 “A Humanidade não se mostrou capacitada, jamais evoluiu ou abandonou ainda que parcialmente os seus deletérios e perigosos conceitos místicos e esotéricos, jamais se permitiu a contento aos sobrevoos livres de consciência plena, o raciocinar abrangente e desimpedido das mentes aclaradas e límpidas libertas da castração e dúvida gerada pela fé.”

 A história seguinte é “Covid-19/666”, que como o próprio título indica tem como tema a pandemia do novo coronavírus, que é poeticamente descrito pelo autor como:

 “O vírus portador de eutanásia.”

 Um escritor precisa ter coragem para escrever uma história de ficção sobre um tema contemporâneo tão polêmico e cujas repercussões ainda estão longe de serem conhecidas de forma mais ampla. Mais uma vez, portanto, palmas e vivas para Rogério Puerta!

 Uma sacação que achei muito interessante foi a de virar o tema apocalíptico de ponta-cabeça, pela concepção da figura do “Antissatã”:

 “Satã salivando em gozo e expectativa haveria de expor cenário simultâneo onde um Antissatã lamentaria o peso da derrota em justa e equânime queda de braço.”

 O tema mórbido e pesado não impede o autor de nos brindar, aqui e ali, com a fina ironia que consegue nos arrancar um sorriso dos lábios:

 “É muito bom morar no Brasil de vez em quando.”

 E viva Rogério Puerta! E viva nossa Literatura Brasileira!


 “Ultraluzidiogravitacional” está disponível para download no Recanto das Letras:

https://recantodasletras.com.br/e-livros/7170722

 Livros de Rogério Puerta na Amazon:

https://www.amazon.com.br/Loja-Kindle-Rog%C3%A9rio-Puerta/s?rh=n%3A5308307011%2Cp_27%3ARog%C3%A9rio+Puerta

 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

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