quarta-feira, 21 de julho de 2021

O PINTOR DE LETREIROS – R. K. Narayan

 

Ao terminar essa leitura tive uma gratificante sensação, que muito curiosamente foi bastante parecida com a que experimentei ao permanecer por alguns instantes na absorta contemplação de uma pintura em algum museu ou salão de arte. Foi essa a impressão que me causou a literatura de R. K. Narayan: a de um quadro pintado com maestria e leveza, expressando através de tonalidades sutis e ágeis pinceladas uma série complexa de emoções indistintas. Trata-se de uma cena completa e acabada, onde nada falta, mas de alguma forma persiste o sentimento de que existe todo um universo mais amplo, de onde a pintura foi recortada, e que apenas pressentimos ao admirá-la.

Rasipuram Krishnaswami Iyer Narayanaswami, mais conhecido como R. K. Narayan, nasceu em Madras, Índia, no ano de 1906 e viveu até os 94 anos. “O Pintor de Letreiros” foi publicado em 1977, quando o autor estava com 71 anos e mais de 10 livros de sucesso, que lhe renderam prêmios e adaptações cinematográficas. A trama gira em torno de Raman, cuja profissão é pintar letreiros para os comerciantes de Malgudi, a cidade fictícia no sul da Índia, onde se passam todas as histórias de Narayan. A determinação de Raman em permanecer solteiro é abalada quando ele conhece a intempestiva Daisy, que trabalha como missionária na ingrata missão de conscientizar as populações carentes sobre a necessidade do controle de natalidade.

Esse pano de fundo possibilita cenas muito interessantes, como as reflexões de Raman sobre as “crianças sujas e maltrapilhas” que pululavam nas calçadas ao redor do mercado de Malgudi:

“Nesse ritmo, invadiriam o planeta inteiro – mas não havia de ser nada: embora parecessem esfomeadas, suas peles, achocolatadas ou quase negras, reluziam saudáveis e seus olhos brilhantes irradiavam vitalidade. De onde vinham? Alguém compareceu à cerimônia de casamento de seus pais? Ou, ainda, quem eram esses pais? Talvez não houvesse nada de errado com a vinda delas ao mundo. Tinham tanto direito de estar aqui como qualquer outra pessoa; mais bocas para alimentar – tudo bem, é só achar mais comida para essas bocas e pronto.”

Quando li esse trecho, achei a princípio que o autor estava retratando a ingenuidade de Raman, que enxerga de forma tão simplista um problema tão complexo. Contudo, ao transcrever essa citação acima, me dei conta de que talvez exista uma profunda sabedoria nessa suposta ingenuidade. Afinal, a fome no mundo é um problema insolúvel, ou só parece insolúvel porque estamos todos empenhados em competir uns com os outros?

Esse outro trecho, onde o autor descreve a beleza de Daisy, também me fez pensar:

“Adequava-se às feições dela, que eram de um marrom translúcido – a melhor textura que a pele humana podia ter.”

Uma pele marrom é a marca da mestiçagem, o que me fez concordar que realmente é a cor mais bonita para a pele humana. Cada vez mais penso, como Jorge Amado, que a miscigenação é a única solução para o racismo, o preconceito e a intolerância. E encontrar isso expresso de forma tão sutil – e audaciosa para um autor indiano que escreve em inglês! – no texto de Narayan foi um presente inesperado.

Tal como a sabedoria, o senso de humor e a ironia desses outros trechos:

“Posso persuadir os animais silvestres a seguir meus conselhos, mas já não tenho a mesma certeza quanto a poder influenciar os seres humanos. (...) Posso enxotar as cobras do meu caminho. É preciso falar com elas. Elas nunca discutem. Mas basta falar alguma coisa para um ser humano, para que isso vire polêmica.”

“Um método certeiro para arranjar-se uma esposa parecia ser quebrar-lhe a clavícula com delicadeza.”

“A maior parte da conversa social é só uma falação sem sentido, que de alguma forma conforta a humanidade com uma ilusão de comunicabilidade.”

Finalizando essa resenha, quero registrar minha crescente admiração por Graham Greene, que além de um grande escritor parece ter sido também um admirável ser humano. Foi graças a ele que Narayan publicou seu primeiro romance, e não é a primeira vez que vejo um louvor de Graham Greene a outros escritores adornando a contracapa de seus livros:

“Narayan é o escritor de língua inglesa que mais admiro.” (Graham Greene)



 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE


 


 

domingo, 18 de julho de 2021

RECURSÃO – Blake Crouch

 


Esse livro me chamou a atenção, a princípio, pelo título diferente, que vi sendo mencionado repetidas vezes como “leitura desejada” no SKOOB. Não tenho por hábito ler “livros da moda” (geralmente fujo deles), mas esse por alguma razão despertou a minha curiosidade. Ainda bem! Pois o best-seller de Blake Crouch é um excelente thriller de ficção científica, que arrebata o leitor logo de início.

“Recursão” ou “recursividade” é um fenômeno que ocorre em várias áreas do conhecimento (tais como a linguagem, a matemática e a computação), envolvendo um processo de repetições contínuas (https://pt.wikipedia.org/wiki/Recursividade). Achei o tema tão fascinante que utilizei como inspiração para a letra de uma canção roqueira do meu querido irmão músico Julio Caldas.  A imagem mais emblemática da recursividade é a de dois espelhos colocados um de frente para o outro, repetindo reflexos:

“As paredes internas do elevador são revestidas de espelhos antigos, já sem brilho, e ali dentro, ao olharem para seu reflexo, eles têm o efeito de uma ilusão recursiva: uma miríade de Barrys e Helenas em elevadores estendendo-se até o infinito.”

Ao narrar a revolucionária (e catastrófica) invenção de uma máquina capaz de nos levar de volta a memórias do passado, a trama de “Recursão” gira em torno de dois eixos fundamentais: a relatividade do tempo e a natureza ilusória da realidade. Um dos grandes méritos do livro é conseguir abordar temas tão complexos de forma simples e direta, sem jamais perder o pique de suspense da história:

“— Você acredita mesmo que o tempo é uma ilusão?

— Seria mais exato dizer que nossa percepção do tempo é tão falha que não passa de uma ilusão. Todos os momentos são reais em igual medida e todos estão acontecendo agora, mas nossa consciência, devido à sua natureza, só nos dá acesso a um de cada vez. Pense na vida como um livro. Cada página é um momento distinto, mas só conseguimos apreender um momento, uma página de cada vez.”

“Uma verdade parece estar emergindo da cacofonia de teorias e filosofias: ninguém tem a menor ideia do que constitui a realidade.”

A narrativa no tempo presente é extremamente visual, dando muitas vezes a impressão de que estamos lendo quase um roteiro cinematográfico. Creio que o livro já foi escrito pensando em uma adaptação para o cinema e, de fato, já foi confirmado que será transformado pela premiada Shonda Rhimes (Grey’s Anatomy, Scandal, Bridgerton) em um filme e uma série. Não é difícil imaginar “Recursão” virando um thriller eletrizante na linha de “A Origem”, “Agentes do Destino” ou “Matrix”.

O que mais me fez gostar dessa leitura, contudo, vai além da história em si. É emocionante e inspirador perceber como alguns importantíssimos conceitos científicos, tais como a teoria da relatividade e a física quântica, finalmente estão chegando à cultura de massa. Lembro de quando tive meu primeiro contato com a mecânica quântica, através da leitura de “O Tao da Física”, de ter sentido uma profunda revolta por ter aprendido na escola uma ciência ultrapassada em quase um século. Ao travar contato com a teoria da relatividade, a indignação cedeu lugar ao maravilhamento, quando tive uma verdadeira epifania ao perceber que, se o tempo é relativo, todos os tempos existem ao mesmo tempo, e imaginei como nosso mundo seria transformado profundamente quando nossas arraigadas e obsoletas concepções da realidade fossem finalmente atualizadas. O sucesso de “Recursão” é um dos indícios de que essa transformação já está acontecendo.

Uma surpresa à parte foi ver o jornalista Glenn Greenwald ser citado nas páginas do livro, como o descobridor da trama de acobertamento da “Máquina da Memória”!

Encerro com mais alguns instigantes trechos do livro:

“Durante o colégio, e também na faculdade, foi encorajada vezes sem-fim a encontrar sua paixão; a razão para se levantar da cama, para continuar respirando. Em sua experiência, poucos são os que encontram essa raison d’être.”

“Ao chegar em casa, em San José, ela enfia numa mala um punhado de roupas, um porta-retratos com uma foto dos pais e seis livros que são tudo para ela: De Humani Corporis Fabrica, de Andreas Vesalius; Física, de Aristóteles; Principia Mathematica, de Isaac Newton; A origem das espécies, de Charles Darwin; e dois romances: O estrangeiro, de Albert Camus, e Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez.”

“É uma das melhores coisas de Nova York: ninguém se importa com seu estado emocional desde que não haja sangue envolvido.”

E com essa citação ao espetacular “Matadouro-Cinco” de Kurt Vonnegut, que sintetiza muito bem essa mudança de paradigma que estamos vivendo:

“Quando uma pessoa morre, ela apenas parece estar morta. Mas continua bem viva no passado (…) Todos os momentos — passado, presente e futuro — sempre existiram, sempre vão existir (…) É apenas ilusória a impressão que temos aqui na Terra de que um momento se segue a outro, como se fossem contas em um cordão, e, uma vez acabado o momento, está para sempre acabado.”

 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

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segunda-feira, 5 de julho de 2021

O MISTÉRIO DOS SETE RELÓGIOS – Agatha Christie

 


Existe uma anedota bem conhecida que define bem como foi a minha experiência com esse livro: abrir um pote de sorvete e descobrir que alguém usou para guardar feijão! Sou um fã inveterado de Agatha Christie, a ponto de ter lido duas ou três vezes boa parte de seus livros (só esse ano já li seis dela). Pois então, imaginem a minha alegria ao constatar que ainda não havia lido esse “O Mistério dos Sete Relógios”, por ter confundido com outra obra de Agatha de título similar, “Os Relógios”. Mergulhei na leitura, feliz da vida por esse natal antecipado, mas ó, tristeza! Por volta da página 30 descubro que não se trata de um livro de mistério e assassinato, cuja grande diversão é decifrar as pistas para descobrir a identidade do assassino, jogo intelectual no qual Agatha tornou-se imbatível e fez por merecer o título de “Rainha do Crime”. Mas sim uma de suas embaraçosas tentativas de escrever uma aventura de espionagem, que eu pessoalmente detesto! Por isso a sensação que tive foi a de encontrar feijão congelado onde eu esperava me deleitar com um bom napolitano!

Mas por que, afinal, detesto tanto as histórias de espionagem de Agatha Christie? O grande ganho que tive com essa leitura foi justamente buscar evidências para responder a essa pergunta. Mas somente a partir da página cento e tanto, pois até então ainda me esforcei por gostar da história, pelo que ela era. Mas não deu. Não cheguei a desgostar a ponto de interromper a leitura (isso só aconteceu em um dos livros de Agatha, “Passageiro Para Frankfurt”, que abandonei na página 60). Mas li corrido e desatento, sempre na hora de deitar, para ajudar o sono a vir.

Tantos “mas” em um único parágrafo não são à toa. De fato, encontro muitas objeções às histórias de espionagem de Agatha Christie. A primeira e a maior delas é justamente o fato de eu ser tão fã das histórias clássicas de “Whodunit” (“quem matou?”) escritas por Agatha. Considero essas histórias mais um jogo de dedução que propriamente literatura, e nesse caso determinadas fragilidades na trama não têm a menor importância, o que não é o caso quando se trata de um romance que tenha outros objetivos além de propor um enigma ao leitor. Por exemplo, a verossimilhança. Vários crimes cometidos nos livros de Agatha são absolutamente inverossímeis, e é praticamente impossível que algum dia pudessem ser cometidos na vida real. Isso em nada atrapalha a diversão do leitor-detetive, muito pelo contrário: quanto mais complicado e impraticável for o crime, maior a diversão (tanto que existe até um subgênero do romance policial, que se dedica exclusivamente a “mistérios do quarto fechado”, linha que tem em John Dickson Carr um de seu maiores expoentes).

Outro fator é a bidimensionalidade dos personagens. Ninguém espera profundidade de um personagem de romance policial clássico (diferentemente do que acontece nos mistérios de Georges Simenon ou de P. D. James, por exemplo). Os personagens são mais ou menos como peças em um tabuleiro: “Coronel Mostarda na biblioteca”. Se acontece algum envolvimento romântico entre personagens de uma trama de mistério clássico, isso está a serviço do jogo do detetive: pode (ou não) ser apenas um despiste para desviar a atenção do verdadeiro culpado.

Mas (e aí vai um grande “mas”) em uma história de “espionagem” de Agatha Christie o jogo da dedução sai do primeiro plano e torna-se um elemento secundário da trama. Assim, em minha opinião, ficam incomodamente evidentes as fragilidades que em nada me afetam nas histórias de detetive: a inverosimilhança, os personagens rasos, as historietas românticas. E sobretudo o senso aristocrático de humor. Por algum motivo, Agatha parece associar a espionagem a aventuras rocambolescas e divertidíssimas (ao menos para os envolvidos). Isso me incomoda porque considero a espionagem uma atividade sórdida, que traz à tona o pior da natureza humana e onde dificilmente “os fins justificam os meios”. Isso não significa que eu não goste de ler romances de espionagem, veja bem! Contudo, nessa categoria tenho como ídolos John Le Carré e Graham Greene (quem já leu esses autores deve entender meu desgosto com as ingênuas histórias de espionagem de Agatha).

Sem contar que, no Brasil de 2021, fica difícil simpatizar com as piadas da aristocracia britânica de quase um século atrás (o romance é de 1929), piadas sobre golfe, sobre a estupidez dos lacaios, sobre a chatice de suportar narrativas tediosas sobre as crianças refugiadas do pós-guerra...

“— Cultura de almanaque, não é?

— Existe algo mais horrível do que isso? — disse Mr. O’Rourke, acrescentando com ar santarrão: — Graças a Deus, tive boa educação e não entendo absolutamente nada de coisa alguma.”


 

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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva

 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”

Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.

“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”

Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.

Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.

 
Livro físico:

https://caligo.lojaintegrada.com.br/o-sincronicidio-fabio-shiva

 
Book trailer:

http://youtu.be/Vr9Ez7fZMVA


  


terça-feira, 29 de junho de 2021

MIL TSURUS – Yasunari Kawabata


  

Há cerca de dois anos travei meu primeiro contato com a Literatura de Kawabata, através de seu instigante “A Casa das Belas Adormecidas” (http://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2019/09/a-casa-das-belas-adormecidas-yasunari.html), que conta a surpreendente história do bordel frequentado apenas por homens idosos, considerados “inofensivos”, que pagam para passar a noite ao lado de jovens nuas e narcotizadas. Foi uma leitura que me causou uma forte impressão, ainda mais depois que descobri que o autor, que recebeu o Prêmio Nobel de Literatura em 1968, suicidou-se quatro anos depois, aos 73 anos de idade.

Gostei ainda mais de “Mil Tsurus” (titulo em português dado pela Estação Liberdade para Senbazuru no original em japonês, que ganhou a tradução de “Nuvens de Pássaros Brancos” na versão da Nova Fronteira e de “Chá e Amor” para a edição portuguesa da Veja). Tsuru é um pássaro japonês, semelhante à garça, que simboliza saúde, boa sorte e felicidade. De acordo com a tradição (não mencionada no livro), se uma pessoa fizer mil tsurus de origami (arte de construir figuras a partir do papel dobrado), o desejo de seu coração se realizará. Só posso dizer que a impressão que tive, ao final da leitura, foi que Kawabata utilizou-se de fina ironia ao dar esse título à sua obra.


Trata-se de um romance de estrutura aparentemente simples, mas que esconde diversas camadas de significado, que podem ou não ser desvendadas, de acordo com a intensidade do mergulho do leitor. O erotismo permeia toda a trama, com alguns toques marcantes, que grudam na mente da gente (tal como a cena apresentada logo no início, quando o protagonista Kikuji flagra uma amante de seu pai nua e descobre que ela possui uma mancha escura e cabeluda que cobre um de seus seios). Contudo até mesmo esses detalhes bizarros não estão ali por acaso, mas seguem um intrincado padrão de metáforas que se desenrola lindamente ao longo do livro.

Pois “Mil Tsurus” é principalmente uma obra sutil, refinada, como a Cerimônia do Chá que aparece como um dos temas principais da história. Kawabata retrata com mão levíssima a decadência da alma e da cultura japonesas a partir do período pós-Segunda Guerra (o romance foi escrito entre 1949 e 1952). E a “manifestação de uma aventura”, como o antigo grão-mestre Sen Soushitsu definia a Cerimônia do Chá, é o pano de fundo mais que adequado para exemplificar essa decadência. Mas tudo é apresentado de forma tão sutil e tão bela, que ao menos para mim o efeito foi maravilhoso: consegui ter alguns vislumbres do maravilhamento de uma cerimônia do chá em meu dia-a-dia soteropolitano do século XXI, em plena pandemia do coronavírus. Só por esse motivo, esse lindo texto já teria a minha profunda gratidão.

Encerro com essas duas pinceladas da sublime prosa de Yasunari Kawabata:

“Mal se recordava do rosto de seu pai e sua mãe, falecidos poucos anos antes. Só conseguia ter uma visão clara de ambos diante de suas fotografias. Talvez assim o fosse porque, quanto mais próxima ou amada a pessoa, mais difícil descrever seu rosto com detalhes. Por outro lado, quanto mais feia a figura, mais fácil guardá-la na memória.

Enquanto os olhos e a face de Yukiko eram, para Kikuji, abstratos como a luz, a mancha que cobria o seio de Chikako constituía-lhe uma lembrança concreta, como o rastro de um sapo asqueroso.”


“– Quando observo estes chawan, não penso nos defeitos dos antigos donos. A vida de meu pai, por exemplo, equivale apenas a uma pequena fração da existência dessas peças tradicionais.

– A morte está sempre em nosso encalço. E isso me apavora. Se esse é um fato iminente, não devo ficar amarrada para sempre à morte de minha mãe. Por isso, tenho feito várias coisas para tentar superar essa obsessão.”  


 

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Agora disponível gratuitamente no Wattpad, LABIRINTO CIRCULAR / ISSO TUDO É MUITO RARO é um livro duplo de contos estruturados como seis pares de “opostos espelhados”. São ao todo doze histórias que têm como fio condutor a polarização entre o Olhar e a Consciência (representados nas capas do livro como as pupilas sobrepostas e o cérebro, respectivamente) e que abordam, cada uma a seu modo, alguns dos antagonismos essenciais: Amor e Morte, Cotidiano e Fantástico, Concreto e Absurdo. Um exercício literário para mentes inquietas e questionadoras.

 

LABIRINTO CIRCULAR

https://www.wattpad.com/story/146687272-labirinto-circular

 

ISSO TUDO É MUITO RARO

https://www.wattpad.com/story/146683456-isso-tudo-%C3%A9-muito-raro

 

quinta-feira, 24 de junho de 2021

A CIÊNCIA SAGRADA – Swami Sri Yukteswar


Em 2020 consegui afinal ler do início ao fim essa obra magnífica, após ter lido nada menos que cinco vezes a primeira parte (são quatro ao todo), parando a cada vez e reiniciando a leitura, por achar sempre que tanto conhecimento e tanta sabedoria deveriam ser estudados de novo e de novo, de forma atenta e minuciosa. Por fim, cheguei à decisão de ler o livro todo e voltar a ler nos anos seguintes, sempre em data próxima ao nascimento de Swami Sri Yukteswar (10 de maio), de forma a sintonizar melhor a minha consciência com a excelsa consciência do Mestre.

Pois bem, no ano passado fiz a resenha da primeira leitura (https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2020/05/a-ciencia-sagrada-swami-sri-yukteswar.html), detendo-me no fascinante debate sobre as Eras ou Yugas que a humanidade atravessa, alternadamente aumentando e diminuindo sua capacidade de compreensão das leis do universo à medida que nosso sistema solar se aproxima ou se afasta do centro da galáxia.

Nessa segunda leitura, o que mais chamou a minha atenção foi a quantidade de ensinamentos preciosos que só pude descobrir agora. Foram inúmeras as vezes em que me perguntei ao ler determinado trecho: “Como é que não reparei nisso na primeira leitura?” Ao meu ver, isso fala tanto da complexidade e profusão dos ensinamentos contidos nesse pequeno grande livro, quanto da nossa (da minha, ao menos) limitada e lastimável capacidade de reter novos aprendizados. Por isso é necessário repetir e repetir sempre!

Um dos ensinamentos que me marcaram dessa vez foi a detalhada explanação sobre o modo de alimentação mais adequado para os seres humanos. Após comparar a fisiologia (configuração dos dentes e olhos, trato digestivo etc.) de animais herbívoros, carnívoros, onívoros (como o urso) e seres humanos, Sri Yukteswar conclui:

“Nos homens de todas as raças constatamos que os sentidos do olfato, audição e visão nunca os levam a abater animais; ao contrário, eles não podem suportar sequer a visão de tais matanças. Sempre se recomenda que os matadouros fiquem bem afastados das cidades; os homens, com frequência, aprovam leis rigorosas proibindo o transporte a descoberto de carnes para consumo. Pode a carne, então, ser considerada o alimento natural do homem, se tanto seus olhos quanto seu nariz são tão contrários a ela, a menos que disfarçada pelos sabores de condimentos, sal e açúcar? Por outro lado, quão delicioso achamos o aroma das frutas, cujo simples olhar sempre nos deixa com água na boca! Também se pode notar que vários grãos e tubérculos têm aroma e sabor agradáveis, embora fracos, até mesmo quando não foram preparados. Logo, mais uma vez, somos levados a concluir a partir dessas observações que o homem foi destinado a ser um animal frugívoro.”

Outra percepção marcante foi a ênfase dada ao Amor como meta final de toda sabedoria, ensinamento que é repetido em vários trechos do livro e que encontra sua síntese nessa bela citação dos versos de Sir Walter Scott:

“Na corte, na vila e no bosque, o amor é senhor,

E dos homens na terra e dos anjos no céu;

Pois o amor é o paraíso, e o paraíso é o amor.”

Já aguardo em feliz expectativa pela ocasião de ler essa obra sublime pela terceira vez. Jai Paramguruji! Jai Gurudev!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

 

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

 

  

terça-feira, 22 de junho de 2021

MEU REINO POR UM CAVALO – Dias Gomes

 


Essa foi a penúltima peça escrita pelo genial dramaturgo baiano Dias Gomes, encenada pela primeira vez em 17 de maio de 1989, no Teatro Nelson Rodrigues, estrelada por Paulo Goulart, Nicete Bruno, Ângela Leal e grande elenco. Definida pelo próprio autor como uma “comédia delirante e caótica”, “Meu Reino Por Um Cavalo” traz como protagonista uma espécie de alter ego de Dias Gomes, o escritor Otávio Santarrita, que passa por uma severa crise existencial:

“Você não tem dúvidas? Ninguém tem dúvidas? Todo mundo sabe para onde ir, o que fazer, por que lutar? Será que todo mundo acorda de manhã, escova os dentes, sai de casa, sabendo exatamente como ocupar o resto do dia de uma maneira que dê sentido à sua vida?”

A crise de Otávio tem dois contrapontos principais. De um lado a crise familiar: seu casamento de mais de vinte anos com Selma está desmoronando diante da descoberta do caso de Otávio com a atriz Solange.  Os dois filhos do casal também enfrentam graves problemas: Tavinho foi preso por dirigir sob a influência de drogas e Soninha, de 14 anos, está grávida e não sabe quem é o pai, dentre três ou quatro possibilidades. Em paralelo ao caos familiar, Otávio enfrenta a crise que para ele é a principal, de ordem artística e criativa. Autor de sucesso, ele não passa pelo temido “bloqueio de escritor”, muito pelo contrário: está escrevendo quatro peças ao mesmo tempo, mas não vê sentido em nenhuma delas.

E aqui chegamos ao que creio ser o tema central de “Meu Reino Por Um Cavalo”: as múltiplas crises de Otávio espelham um mundo em ebulição, onde “tudo o que é sólido desmancha no ar” (como bem expressa o lapidar título do livro de Marshall Berman, de 1982):

“O mundo mudou. Ou está mudando permanentemente, desordenadamente. Mudam também as formas de leitura, de percepção. Não é mais como no nosso tempo. Os jovens de hoje não leem mais. Só veem e escutam. Entende? Taí a televisão ordenando o caos e nivelando tudo. É preciso levar tudo isso em conta, se você quiser ser entendido.”

É interessante notar que Dias Gomes está falando de um fenômeno social que continua acontecendo em nossos dias, de forma ainda mais intensa com o advento da Internet e das Redes Sociais. A ponto de essas profundas e incessantes transformações na maneira como as pessoas estão lidando com a informação deixarem de ser assunto apenas para escritores e comunicadores, mas tema de urgentes reflexões da sociedade como um todo. Vivemos na era das Fake News, que geram perigosíssimas abominações.

Dito isso, resta ainda dizer que eu, como fã da dramaturgia elegante de Dias Gomes (autor de clássicos como “O Pagador de Promessas” e “O Santo Inquérito”), achei muito significativo ver como ele soube se manter antenado e sintonizado com sua época. Essa peça é recheada de palavrões e cenas de nudez, bem ao gosto do Brasil na segunda metade da década de 1980, ainda vivendo o a embriaguez e o desbunde da Abertura Democrática e do fim da Ditadura Militar.

Uma última curiosidade: o título da peça foi retirado da célebre frase da peça “Ricardo III”, uma de minhas favoritas de William Shakespeare. A cena em que o arquivilão Ricardo propõe trocar seu vasto reinado por uma simples montaria, uma das mais marcantes da dramaturgia mundial, sintetiza de forma sublime a efêmera futilidade das ambições mundanas.

E viva o Teatro!



 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

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O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

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Entrevista sobre o livro na FM Cultura

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domingo, 20 de junho de 2021

A OBRA EM NEGRO – Marguerite Yourcenar

 


Certos livros chegam na hora certa. Foi alguma intuição profunda que me motivou a ler esse romance histórico de Marguerite Yourcenar, que é embasado por muita pesquisa e entremeado por muita reflexão filosófica e cuja ação se passa na Europa do século XVI, durante a lenta e dolorosa transição da Idade Média para o Renascimento. Pois quem diria que a saga do alquimista, médico e filósofo Zênon, em sua tortuosa busca pelas luzes do conhecimento em meio às trevas da ignorância, iria me ajudar a compreender um pouco mais as angústias e incertezas que estamos vivendo no Brasil e no mundo nesse ano abençoado de 2021!!!

Uma pista importante foi dada por Yourcenar (nome que achei interessante descobrir ser um anagrama para Crayencour, sobrenome original da autora) em seu posfácio, onde ela explica que a trama da história acontece entre as múltiplas e intricadas tensões da Reforma e da Contra-Reforma, acrescentando que esses fatos eram “muito amplos para serem vistos pelos contemporâneos”. Ler isso me deu um estalo, pois por diversas vezes, ao tentar compreender fenômenos para mim inexplicáveis como o bolsonarismo, que estamos passando por transformações sociais, psicológicas e, principalmente, espirituais, que são vastas demais para serem compreendidas em sua totalidade por nós, que estamos passando por elas, sentindo-as em nossa própria carne. Muitos têm chamado esse processo de Transição Planetária (https://youtu.be/Tvi8d5MHJoY).

 

Foi estranhamente reconfortante perceber que vivemos os mesmos conflitos e polarizações que agitavam o mundo há 500 anos. Pois isso sugere que o momento atual é mera exacerbação de uma dicotomia essencial da humanidade, que apenas se torna crítica em determinados períodos:

“Era uma dessas épocas em que a razão humana se encontra aprisionada em um círculo de chamas.”

Por exemplo, desde os primórdios até hoje em dia é possível dividir os seres humanos entre aqueles que buscam aprimorar seus conhecimentos e aqueles que cultuam o fanatismo:

“Ele estava farto de saber que não existe nenhum acordo duradouro entre aqueles que investigam, pesam, dissecam e se orgulham de ser capazes de pensar amanhã distintamente de hoje e os que creem ou afirmam crer, e obrigam seus semelhantes, sob pena de morte, a fazer o mesmo.”

Outra divisão básica se dá entre os que são a favor da tortura e os que ficam horrorizados com a simples ideia de torturar outro ser vivo:

“Sempre escandalizara a esse homem, cujo ofício era tratar dos outros, o fato de que pagassem a certos indivíduos para atormentar metodicamente seus semelhantes. Há muito que já se precavinha, não contra castigos físicos, pouco piores para ele dos que aqueles que padece um ferido quando operado por um cirurgião, mas contra o horror de qe fossem conscientemente infligidos. Se chegasse um dia a gemer, a gritar ou a denunciar levianamente alguém (...) a ignomínia caberia àqueles que obtivessem êxito na tentativa de desconjuntar a alma de um homem.”

Ou entre os que se indignam com o sexo alheio e os que se indignam com a injustiça e a violência:

“É estranho que para nossos cristãos as pretensas desordens da carne constituam o mal por excelência – observou pensativamente Zênon. – Ninguém pune com ódio e repugnância a brutalidade, a selvageria, a barbárie, a injustiça. Ninguém se lembrará amanhã de achar obscenas as pessoas de bom coração que virão contemplar meus estertores entre as chamas.”

Pois de modo geral os problemas são quase sempre os mesmos:

“Os homens se acostumam à ferocidade das leis de seu tempo, assim como às guerras deflagradas pela estupidez humana, à desigualdade das condições sociais, ao péssimo policiamento das estradas e à incúria das cidades.”

“Para além de tais insânias dogmáticas, pulsavam sem dúvida entre as irrequietas criaturas humanas aversões e ódios oriundos de sua mais recôndita natureza e que, no dia em que caísse de moda a prática do extermínio por motivos religiosos, cumpririam eles de outra forma o seu curso.”

E viva a Literatura que sempre pode trazer tantas luzes para as trevas internas e externas! E aqui me despeço, com muita gratidão a Marguerite Yourcenar, compartilhando mais algumas pérolas de sua “Obra em Negro”:

“Quem seria suficientemente insano para morrer sem pelo menos ter visto a torre de sua prisão?”

“Como sempre, sua indiferença para com o dinheiro resguardava-lhe a fortuna, evitando-lhe ao mesmo tempo os erros devido ao receio de perder e os que resultam da pressa em ganhar muito.”

“Alguns poucos maldiziam o homem que os arrastara a essa sarabanda da redenção. Outros, no fundo mais fundo de si mesmos, não ignoravam que desde há muito desejavam morrer, como a corda excessivamente esticada deseja apenas romper-se.”

“Valeu a pena estudar durante vinte anos para chegar à dúvida, que por si só cresce em todas as cabeças bem formadas?”

“Não há ninguém tão tolo que não tenha qualquer coisa de sábio.”

“Mesmo o pior ou o mais tolo de nossos pacientes ainda nos instrui, e suas gosmas não são menos infectas do que as de um homem sagaz ou de um justo.”

“E, todavia, após tantos anos dedicados à investigação anatômica da máquina humana, desistira de aventurar-se mais audaciosamente à exploração do reino limitado por fronteiras de pele, no qual nos julgamos príncipes, mas onde somos apenas prisioneiros.”

“A morte violenta estava em toda parte, tanto num açougue quanto num patíbulo. Um pato degolado gritava na pena que seria utilizada para grafar sobre velhos pergaminhos ideias que se supunham dignas de perdurar para sempre.”

“A carne, o sangue, os miúdos, tudo aquilo que palpitasse ou vivesse o repugnava nesse período de sua vida, pois o animal morre com a mesma dor que o homem, e não lhe apetecia digerir agonias.”

Odi hominem unius libri.” [“Odeio o homem de um único livro.”]

“Qualquer soldado que se encontre num lugar deserto torna-se facilmente um bandido.”

“Jamais se ganha o que os outros julgam que se ganha.”

“O homem é um empreendimento que tem contra si o tempo, a necessidade, a sorte e o imbecil e sempre crescente primado dos números – disse mais pausadamente o filósofo. – Os homens matarão o homem.”

“Enclausurar o inacessível princípio das coisas no interior de uma Pessoa talhada à imagem do homem parece-me ainda uma blasfêmia, e no entanto sinto à minha revelia não sei que deus presente nessa carne que amanhã será fumaça.”

“Toda doutrina que se impõe às multidões dá garantias à inépcia humana.”

“É preciso amar alguém para nos apercebermos do escândalo em que consiste a morte de uma criatura...”



\\\***///


 

FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA


 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE


 


domingo, 13 de junho de 2021

EVANGELHO, PSICOLOGIA, IOGA – América Paoliello Marques

 


Esse livro foi um luminoso companheiro durante boa parte da pandemia. Eu e minha esposa Fabíola líamos um trecho por dia, em nossas meditações. Não foram poucas as vezes em que a leitura respondia diretamente algum questionamento ou desafio que estávamos enfrentando naquele momento específico. De outras vezes, o tema da leitura era o mesmo que estava sendo abordado por outras leituras ou mensagens espirituais, enfatizando que aquele aprendizado merecia especial atenção naquele momento. A espiritualidade fala conosco a todo momento, de forma escandalosa, se estivermos receptivos a ouvir, permitindo que a orientação chegue até nós. É muito importante lembrar e relembrar essa verdade, pois nossa tendência é esquecer disso diante do primeiro obstáculo, o que é uma tragédia: justamente quando mais precisamos sentir que não estamos sós, é que mais somos tentados a acreditar nessa ilusória solidão.

A médium América Paoliello Marques (1927-1995), com seu trabalho pioneiro que une ciência e espiritualidade, certamente deixa uma contribuição ímpar para a evolução da humanidade. Esse foi o meu primeiro e marcante contato com a autora, que me deixou profundamente grato pela riqueza e profundidade dos conhecimentos compartilhados no livro “Evangelho, Psicologia, Ioga”. A maior parte dos textos contidos nessa obra magnífica são psicografias de Ramatis, Nicanor, Akenaton e Rama-Schain, mas há também transcrições de palestras da autora. Sua visão de uma psicologia profunda, que entende que é preciso considerar o homem um ser espiritual para de fato começar a compreendê-lo, é algo que me enche de esperanças no porvir. A ciência caminha e o conhecimento progride, inexoravelmente. Confio que avançamos para uma sociedade onde ciência e espiritualidade sejam percebidas como caminhos complementares (e não opostos, como ainda hoje muita gente pensa), necessariamente complementares. O dogma é uma maldição tanto para a religião quanto para a ciência, e precisamos perceber que existe hoje muito dogma também na ciência, não apenas na religião. Tudo isso leva tempo e dá trabalho...

Mas afinal, é isso essencialmente o que viemos fazer aqui: aprender e evoluir, mesmo que lentamente, e a duras penas. Per áspera ad astra, como diz meu ditado favorito: com dificuldade, até as estrelas!

“Não temais os erros. Temei as certezas definitivas, pois essas, sim, serão sempre os erros camuflados de infalibilidade.” (Ramatis)

“Cada qual vê a Luz com a intensidade que seus olhos suportam.” (Ramatis)

“Não deveis temer o trabalho. Temei a incapacidade de vos entregardes a ele despreocupadamente. Extirpai o temor do fundo de vossas almas.” (Rama-Schain)

“A alma que deseja aproximar-se da espiritualidade precisa investigar como um viajante que tudo registra sem em nada se deter de modo definitivo." (Ramatis)

“Se não houvesse perdão não haveria Justiça.” (Rama-Schain)

“Reformular, espiritualmente falando, é ser capaz de transformar sem destruir.” (Ramatis)

“O trabalho mais importante da época atual consiste em reunir Ciência e Espiritualidade.” (América Paoliello Marques)

“O verdadeiro místico é aquele que passou por experiências internas intrasferíveis do Amor e por serem intransferíveis não conseguiu crédito diante da maioria, porque a maioria não sabe onde estão os caminhos que levam a essa experiência profunda e preciosa.” (América Paoliello Marques)




 

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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

 

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

 

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

 

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

 

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

https://www.verlidelas.com/product-page/favela-g%C3%B3tica

 

Link do livro no SKOOB:

https://www.skoob.com.br/livro/840734ED845858

 

Book trailer

https://youtu.be/FjoydccxJGA

 

Entrevista sobre o livro na FM Cultura

https://youtu.be/IuZBWIBYeHE

 

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