sábado, 24 de agosto de 2019

O PAÍS DO CARNAVAL – Jorge Amado



Esse foi o primeiro de tantos livros de Jorge que eu li e que achei menos que excelente. Também pudera, foi o primeiro que ele escreveu, em 1931, quando tinha apenas dezoito para dezenove anos (sem contar um livro de poemas e uma novela que o próprio autor retirou da lista de suas obras completas). Ainda assim, a obra foi forte o suficiente para ser considerada subversiva e até foi queimada em praça pública, por determinação da polícia do Estado Novo, em 1937.

Sobretudo se comparado com seus livros posteriores, “O País do Carnaval” revela um autor ainda tentando acertar a mão. Aqui Jorge aparece raivoso em suas críticas à sociedade, sem a leveza e o fino humor que iriam caracterizar seu texto mais para a frente. Veja-se essa fala do protagonista Paulo Rigger logo no primeiro capítulo, como exemplo marcante:

“Hoje o feitiço domina. No Norte, senhor bispo, a religião é uma mistura de fetichismo, espiritismo e catolicismo. Aliás, eu não acredito que Cristo haja pregado religiões. Cristo foi apenas um romântico judeu revoltoso. Os senhores, Padres e Papas, é que fizeram a religião... Mas se o senhor pensa que essa religião domina o Brasil, está enganado. Há uma falsificação africana dessa religião. A macumba, no Norte, substitui a Igreja, que, no Sul, é substituída pelas lojas espíritas. No Brasil a questão de religião é uma questão de medo.”

A história gira em torno de Paulo Rigger, brasileiro filho de fazendeiro que foi educado na Europa e que não se sente identificado com seu país natal, de regresso ao lar em busca da “felicidade”, que poderia ser traduzida por um “sentido da vida”. Com seu grupo de amigos intelectuais, discute qual o segredo do bom viver, que uns acham que está no amor, outros na religião, outros na filosofia e outros ainda na renúncia a todos os desejos, no “viver por viver”. Achei interessante esse ser o tema central do primeiro livro de Jorge Amado, e sobretudo ele ter passado de raspão nas respostas que o Bhagavad Gita, principal obra da filosofia e da espiritualidade na Índia, dá para essas mesmas questões. Segundo o Gita, o segredo da felicidade está em agir livre de desejos, dedicando todas as ações a Deus.

Essa leitura reforçou em mim a percepção mística de um secreto parentesco entre a Bahia e a Índia, sendo as duas terras povoadas por uma gente de pele escura com uma profunda espiritualidade inata e uma inesgotável capacidade para a alegria. O fato do grande avatar da literatura baiana ter iniciado sua obra com uma pergunta que encontra sua resposta na mais sagrada escritura da Índia, para meu coração, não pode ser apenas uma simples coincidência.

Salve Jorge!



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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”

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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

TODOS OS CONTOS DE MAIGRET – VOL. I – Georges Simenon



Georges Simenon, definitivamente, é um de meus autores favoritos. A cada livro dele que leio, seja ou não protagonizado pelo comissário Jules Maigret, só aumenta o meu fascínio diante de um irresistível contador de histórias. E boa parte desse encanto, só pude perceber agora, reside justamente no fato de não saber ao certo o que torna os livros de Simenon tão incrivelmente bons!

E agora, ao ler em sequência nada menos que dezessete histórias curtas de Maigret reunidas em um tijolo que corresponde, em número de páginas, a cerca de três romances de Simenon, tive uma bela oportunidade de apreciar um pouco melhor as qualidades literárias desse grande autor.

O ponto central das tramas de Simenon, e especialmente das estreladas por Maigret, é a chamada “atmosfera”. O próprio método de detecção do comissário, bem diverso de seus colegas Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, consiste em justamente absorver e ser absorvido pelo cenário onde foi cometido o crime. A tal ponto que, no conto “A barcaça dos dois enforcados”, Maigret revela que precisa “pensar barcaça” para conseguir desvendar o mistério.

Mas como são construídas essas atmosferas tão envolventes das histórias de Simenon? O autor possui uma técnica incomparável ao descrever cenários, que sempre são retratados interagindo de alguma forma com as pessoas, e até dotados de algo como um “estado de espírito”. Os cenários de Simenon estão longe de serem objetos inanimados: vivem e respiram, participando ativamente da trama.

Até aí eu já havia percebido em outras leituras, e até cheguei a comentar em algumas resenhas. O que a leitura desses contos me trouxe, em termos de novas descobertas, foram duas percepções principais:

1) O DRAMA ACIMA DO CRIME
Em boa parte das histórias de Maigret o “crime” cometido não se enquadra, de forma exata e precisa, em termos de uma “infração à lei”. Em algumas histórias, quando o mistério é solucionado, o “culpado” sequer chega a ser preso, pois não cabe punição legal à ofensa que ele cometeu. Em outras, o próprio Maigret resolve fazer vista grossa e liberar o ofensor das garras da lei, por entender bem demais o drama humano que motivou o “crime”. Por aí já se percebe que “descobrir o assassino” nas histórias de Simenon é sempre secundário, ao contrário de boa parte das histórias policiais.

2) ADORÁVEL TRAPACEIRO
Uma vez que o drama está acima do crime, uma consequência direta é que o “personagem” está acima do “detetive”. Por conta disso, Simenon trapaceia, com charmosa cara-de-pau, em algumas das famosas e não escritas regras da história policial. Uma das principais regras reza que o leitor deve ter acesso a todas as pistas junto com o detetive, e o grande divertimento da leitura consiste justamente no leitor tentar ser mais esperto que o detetive, desvendando antes dele o mistério. Com Maigret, essa regra é totalmente subvertida, pois muitas vezes as “pistas” são reveladas pelo próprio comissário, que invariavelmente surpreendem o leitor pelo tanto que o comissário já depreendeu do drama humano que está sendo apresentado. Se por um lado o jogo clássico da leitura policial é frustrado, Simenon obtém grandes compensações por essa “trapaça”. Como quem não quer nada, seu Maigret vai aos poucos se mostrando um verdadeiro super-homem da intuição, capaz de reconstruir em um relance profundas tragédias a partir das mínimas pistas. E ganha também o leitor, penso eu.

Esta edição apresenta três ótimas introduções com análises feitas pelos escritores Dominique Fernandez, Pierre Assouline e Denis Tillinac. Sugiro que sejam lidas após a leitura dos contos em si, pois aparentemente a palavra “spoiler” ainda não foi traduzida para o francês!




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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

BLADE RUNNER: ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS? – Philip K. Dick



Há muito queria ler esse que é o livro mais famoso do controverso autor Philip K. Dick, e a oportunidade surgiu nessa excelente versão do livro com o texto completo e apresentado em forma gráfica, disponível em inglês no link:

Curiosamente, levei algum tempo para me adaptar a essa linguagem, que apresenta o texto do livro na forma de uma história em quadrinhos, dividida em 24 episódios. Eu amo ler livros e também amo HQs, mas nesse contato inicial achei a leitura um pouco pesada. Contudo, como eu realmente queria ler esse livro, insisti e fui grandemente recompensado. Da metade para o final eu simplesmente não conseguia mais parar de ler.

Sabe aquele livro que mexe com sua cabeça? Que faz você repensar muitos valores até então tidos como imutáveis? Que atiça sua imaginação a ponto de você se sentir vivendo mais dentro da história do livro que na sua própria? Pois é, esse é um livro desse tipo, que não se lê impunemente.

Essa obra ficou célebre principalmente por ter inspirado o icônico filme “Blade Runner”, de Ridley Scott (vide trailer: https://youtu.be/eogpIG53Cis). Embora seja inegavelmente uma grande película, “Blade Runner” é tão diferente de “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” que nem cabe aqui a tradicional pergunta sobre qual é melhor, o livro ou o filme. Penso que o livro mergulha mais fundo e traz mais inquietações.



Uma das grandes sacações do livro que ficaram totalmente de fora no filme foi a religião do Mercerismo, que consiste em uma espécie de videogame interativo onde o profeta Mercer sobe uma montanha, enquanto uma figura indistinta atira pedras sobre ele. As pessoas participam da religião experimentando tudo o que Mercer experimenta, inclusive sangrando quando ele recebe uma pedrada, e também compartilhando umas com as outras as emoções que estão sentindo.

Outra diferença importante é a motivação do caçador de recompensas Rick Deckard, que no filme é retratado de forma glamourizada por Harrison Ford. No livro, Rick mata os androides para conseguir comprar um animal vivo, que na Terra devastada por uma guerra nuclear se tornou um símbolo de status social. Quem não tem dinheiro para possuir um animal vivo tem que se contentar com substitutos mecânicos, como o próprio Rick, que é o infeliz dono de uma ovelha elétrica...

A questão crucial do livro (de 1968), contudo, é a difícil distinção entre um ser humano e um androide, que é colocada em um cenário futurista apocalíptico que, no filme (de 1982), situa-se no então distante ano de 2019... Na concepção de Philip K. Dick, existe uma diferença fundamental que separa androides e homens: a capacidade de empatia.

Embora sejam máquinas refinadíssimas, que imitam a vida a tal ponto que só podem ser diferenciadas dos seres humanos por um teste de medula, os androides são incapazes de se colocar no lugar de outro ser vivo.

Impossível ler esse livro nos dias de hoje e não vê-lo como uma sinistra e acurada profecia. Natureza devastada, animais extintos e simulacros de seres humanos que são incapazes de se colocar no lugar do outro... Caras, que pesadelo!!! Estamos cercados por androides!!!




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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

FAVELA GÓTICA - Fabio Shiva



SHIVA, Fábio. Favela Gótica. Rio de Janeiro: Verlidelas Editora, 2019, 276p.

     Necessariamente não é uma resenha, mas um apanhado de impressões que o livro despertou. Favela Gótica não pertence ao gênero das minhas preferências, no entanto, comprei-o por um, posso dizer, feliz acaso, ao tomar conhecimento do seu lançamento, por cujo autor tenho grande admiração. Comprei o livro e, de imediato, dispus-me a lê-lo. Como costumo fazer, passei de relance os olhos numa primeira leitura dinâmica. Encantei-me desde a primeira página (a epígrafe) pelo estilo que prendeu a minha atenção, fazendo-me querer de fato conhecer a trama de toda a história. Daí fiz uma primeira leitura mais aprofundada, e depois mais outra, e mais outra, passando então a pesquisar o que era estranho para mim.


     Fábio Shiva, como leitor, tem o dom de despertar o desejo para a leitura dos livros aos quais ele faz resenhas, tornando-os  atraentes e convidativos. Como escritor, ele tem o dom de atrair os leitores para suas próprias obras, devido às características do seu estilo, que, no caso, mesmo abordando o lado degradado do ser humano, o faz de maneira muito humana. Que paradoxo! Em Favela Gótica encontramos poesia (incrível!) ao lado do horror! Seus personagens são os anti-heróis, que retratam a miséria do submundo do crime, sem artifícios, mas com a emoção que o tema permite. Há frases que caracterizam uma filosofia de sobrevivência, tipo: “A fome nunca existe no futuro ou no passado, somente no eterno agora” (p.13). “Lar de multidões de solitários ... destituídos de qualquer laço de identidade ...”  “Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso” (p. 14). O sumário, a princípio, de difícil entendimento, mostra o conteúdo dividido em duas intrigantes partes: 1ª – Das trevas (per asper); 2ª – Para a luz (ad astra), enriquecidos ou enfatizados pelo uso das mesmas expressões em latim. Cada capítulo, distinguido pelo título, traz uma ilustração referente ao seu teor, além de uma espécie de introito ao mesmo, seguido de algum contundente dito de algum famoso, como Mark Twain (1º capítulo), Oscar Wilde (3º), Platão (4º), Sócrates (5º capítulo) e tantos outros encimando os 10 capítulos em que a história é montada.


     Muito interessante também é a presença dos “Registros Akáshicos”, que permeiam toda a história, no intuito de dar maiores informações ao próprio desenvolvimento de todo o enredo. Nestes registros aparecem histórias paralelas entrecortando a história principal, os quais, numa leitura também paralela, porém, sequenciada, pode-se perceber seus liames com a temática. Em um desses enigmáticos registros, destaquei o lirismo contido no meio do horror: “ ... o poder de devastação da droga é revelado em toda a sua horripilante exuberância. Como também a frágil obstinação da carne, persistindo no engano da vida, mesmo quando maltratada além de toda esperança” (p. 21).


     A história tem o foco em Liana, descrevendo sua degradante vida, cercada por outros personagens de um mesmo cenário criminoso, mas contada com tanta expressividade, que acaba levando o leitor (no caso, eu) a torcer e até a amar Liana, desejando que ela consiga sair ilesa dos tentáculos dos males que lhe perseguem. Felizmente, e para alívio dos que captam a chama da vida (ah, ela possui vida, apesar dos pesares), a história termina bem, ainda bem! A trama é incrível, já foi dito. E o que muito impressiona é a apresentação dos povoadores de toda a história. O autor lança mão de recursos estilísticos da antiguidade clássica, criando personagens mitológicos, que poderiam estar nos contos de Homero, quando os compara a figuras antropomórficas, tais como: “ ... um sapo velhinho e encarquilhado” (p. 53), “ ... um sagui baixinho e gorducho” (p. 62), “ ... uma ratazana gorda e nariguda” (p. 76), outras, como uma freira de lindos chifres de cabra, ou outras freiras que parecem hienas, cobras, aranhas, etc. (p. 163). Sua história esbanja metáforas de alto nível literário, quando apresenta homens e mulheres como: jacarés, lobos, múmias, fantasmas, etc. e até um Monstro Elemental, cujo registro akáshico o apresenta como alguma entidade da natureza, banida pelas circunstâncias da atualidade. “O progresso científico e tecnológico, entretanto, erigiu novos altares sobre as ruínas dos velhos templos, e os luminosos seres que zelavam pelo bom funcionamento dos ciclos naturais, foram gradualmente sendo esquecidos, degradados, vilipendiados” (p. 106).  Algumas figuras evocam heróis de escritores famosos, como Quasie, uma freira monstruosa de aparência, porém doce e protetora de Liana, tal qual o Quasímodo, com a sua Esmeralda, no “O Corcunda de Notre Dame”, de Vitor Hugo. Além de encontrarmos seres alienígenas vivendo disfarçada e livremente entre os mortais (p. 193 e outras).  Um outro personagem, que no final torna-se tão importante ao clímax da história, o Mandrá, passa quase despercebido nos relatos anteriores onde aparece, até o momento em que ele mesmo se revela como peça importante no desenlace finalmente revelado no capítulo 10. Enfim, é uma história incrivelmente bem elaborada e interessante, que arrasta o leitor até seu final com o mesmo brilho, mesmo nos momentos mais macabros.

Neuza de Brito Carneiro
Feira de Santana, 06 de agosto de 2019.



domingo, 4 de agosto de 2019

BHAGAVAD GITA – tradução e notas de Huberto Rohden



Foi muito feliz essa leitura da tradução e comentários do pensador brasileiro Huberto Rohden (https://pt.wikipedia.org/wiki/Huberto_Rohden) ao sublime Bhagavad Gita.

Sempre é uma alegria inestimável retornar às páginas da belíssima “Canção do Senhor”. Penso que essa foi a quarta tradução do Gita que li, e a cada versão que leio descubro novas perspectivas, novos ensinamentos, pelo olhar diferenciado e pessoal que cada tradutor acaba imprimindo ao milenar texto védico.

Mais que a tradução em si, gostei especialmente dos comentários de Rohden, estabelecendo paralelos entre os ensinamentos de Krishna e os de Cristo. Essa foi uma das principais missões levadas a cabo pelo grande iogue Paramahansa Yogananda: mostrar ao mundo a unidade fundamental de todas as verdadeiras religiões.

Aliás, ao falar do Gita é impossível não mencionar que a tradução e os comentários mais abrangentes foram feitos por Yogananda, na obra “Deus Fala com Arjuna”, cujo primeiro volume foi recentemente lançado no Brasil. Os comentários de Yoganandaji ao Gita são puro néctar! Jai Guru!


O Grande Homem – no pensamento e na voz de Huberto Rohden



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

segunda-feira, 29 de julho de 2019

OCUPANDO O BRANCO DOS OLHOS – Adão Cunha



Tive um encontro muito feliz e fecundo com a Poesia de Adão Cunha. Já era fã de longa data desse querido amigo e irmão Poeta, com quem tive a ventura de viver lindas aventuras poéticas, como os projetos Pé de Poesia e Doce Poesia Doce, além das declamações na Sabadeira Musicada da Casa da Música. Também venho acompanhando, junto com outros seguidores fieis, a postagem dos poemas de Adão Cunha na Comunidade Resenhas Literárias, no Facebook.

Por isso tudo, foi para mim uma alegria especial saber do lançamento de “Ocupando o branco dos olhos”, primeiro livro solo desse grande Poeta. Adão Cunha é antena e canal para uma Poesia viva e pulsante, que não fica passiva diante da contemplação do leitor, mas que o agarra pela gola da camisa e o sacode de suas zonas de conforto, obrigando-o a decifrá-la, sob a pena de não devorar...

Ao mesmo tempo, a “poética adâmica” me remete ao fino e minucioso trabalho do ourives, lapidando com esmero a bruta e preciosa pedra, até extrair toda lasca desnecessária e fazer brilhar a beleza da joia escondida nas entranhas das palavras...

O livro traz ainda a grata surpresa de apresentar algumas crônicas poéticas, que revelam muito do poeta cronista, que se encanta e nos encanta com pequenos obscuros detalhes do cotidiano, dali extraindo vida, cor e, talvez, sentido. Nem sempre é possível encontrar a chave que desvenda o enigma de Adão, mas sempre é um deleite tentar...

Recomendo a leitura atenta dessa linda obra a todos os que verdadeiramente amam a Poesia!


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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

O jogo POESIA DE BOTÃO faz parte do projeto selecionado pelo Edital Arte Todo Dia – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura de Salvador), com apoio de Athelier PHNX, Verlidelas Editora, Caligo Editora, Suporte Informática e AG1. O propósito do jogo é convidar as crianças a vivenciar o universo da Poesia de forma lúdica e atrativa, como uma “brincadeira de montar versos”. POESIA DE BOTÃO é especialmente indicado para crianças já alfabetizadas, mas nada impede que adultos possam brincar também e se beneficiar com o jogo.

quarta-feira, 24 de julho de 2019

CIDADES DE PAPEL – John Green



Quando esse livro apareceu no P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), decidi que era uma boa oportunidade de fazer mais uma incursão nos Best-Sellers contemporâneos.

A primeira surpresa foi descobrir que o texto é direcionado para o público adolescente, o que é feito com muita habilidade. Achei particularmente interessante a maneira de o autor retratar os poucos personagens adultos: ou são chatos e não entendem nada (como os pais de Margo), ou são legais, mas não entendem nada (como os pais de Quentin), ou são obcecados por coisas sem sentido, ou seja, não entendem nada (como os pais de Radar), ou são melancólicos para cacete (como o policial que investiga o desaparecimento de Margo), quer dizer, não entendem mesmo nada. Um belo resumo da visão adolescente do mundo dos adultos.

É certo que John Green escreve de forma atraente, pois consegue fazer fluir a leitura com interesse em uma história onde pouco acontece, além do início instigante. Há a sugestão de que temas emocionais profundos estão sendo abordados, por conta de citações de Walt Whitman e Sylvia Plath.


O grande ganho que essa leitura representou para mim foi a possibilidade de refletir mais a fundo sobre uma questão que por sincronicidade me ocorreu há pouco tempo: até que ponto a adolescência é um fenômeno intrínseco à experiência humana e até que ponto é uma construção cultural?

Uma boa chave para interpretar a chamada “crise da adolescência” é perceber que nas sociedades ditas primitivas ela simplesmente não existe. O que existe são os “ritos de passagem” que configuram de forma bem definida o papel social do indivíduo, assinalando passo a passo sua transformação de criança em adulto.

Já em nossa sociedade, essa crise atinge principalmente a classe média. Os muito pobres não têm direito sequer à infância, que dirá à adolescência. Quanto aos muito ricos, desconfio que vivenciem de forma diferente essa transição dos sonhos da infância para as realidades da vida adulta.

Meu palpite é que a crise da adolescência é marcada pela percepção de que o nosso mundo moderno é fundamentalmente insano e desprovido de sentido. O adolescente não é apenas um "rebelde sem causa”, pois na ausência de “causas” é que justamente reside o motivo de sua rebeldia: uma causa para viver, um sentido para a existência, algo mais que uma mera vida de papel em uma cidade de papel.





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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
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sexta-feira, 19 de julho de 2019

MACHADO DE ASSIS – Alfredo Bosi



Excelente livrinho da série “Folha Explica”, escrito pelo especialista em Machado de Assis, Alfredo Bosi, autor também de “Machado de Assis – O enigma do olhar”. Começa com um resumo das análises críticas feitas sobre a obra de Machado, que demonstram de forma muito eloquente, pelas mutações que vão sofrendo, como é verdadeiro o ditado “vita brevis, ars longa” (“a vida é curta, a arte é longa”). A obra de um gênio como Machado de Assis desafia o tempo e continua intrigando e seduzindo leitores, década após década – ainda que cada geração encontre na leitura algo de diferente.


Em seguida o próprio Bosi analisa cada um dos romances machadianos, assim como suas principais novelas, contos, crônicas, poesias e peças teatrais. Eu achei a leitura simplesmente deliciosa, quase tão boa quanto degustar diretamente os textos de mestre Machado. É preciso fazer a advertência de que as tramas dos romances são totalmente expostas aqui, por isso a leitura desse livro é recomendada para quem já leu toda a obra citada ou para quem não se incomoda com spoilers de clássicos da literatura.

Nesses nossos tempos tão esquisitos, em que o Brasil e o mundo estão tão fortemente polarizados, a leitura desse livro me sugeriu (mais) uma divertida divisão. Penso que é possível dividir as pessoas em dois tipos básicos, a partir de dois luminares de nossa literatura:

a) Tipo “José de Alencar” – pessoas imaginativas, sentimentais, grandiosas, arrebatadas, religiosas, românticas...
b) Tipo “Machado de Assis” – pessoas céticas, irónicas, detalhistas, comedidas, racionais, realistas...

Eu, que amo de paixão esses dois autores, sou decididamente um tipo “José de Alencar”! E você, qual é o seu tipo?



Palestra de Alfredo Bosi sobre Machado de Assis:


  

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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

sábado, 13 de julho de 2019

1984 – George Orwell



Finalizei hoje, em chocado e atônito silêncio, a terceira leitura de “1984” de George Orwell. Li pela primeira vez essa obra-prima do horror e do caos na década de 1990, para a matéria de Ciência Política da Faculdade de Comunicação Social, a fim de estudar as características do totalitarismo e a manipulação das massas pela mídia. Depois li uma segunda vez, na década de 2000, como tributo pessoal ao gênio literário de George Orwell, um de meus autores favoritos. E agora, ao ler pela terceira vez, ao final da década de 2010, posso concluir, assombrado: o Brasil está cada vez mais perto de “1984”!

Cito como exemplo dessa constatação a pavorosa técnica do “duplipensar”, que no livro aparece como alicerce de uma sombria ditadura futurista:

“Saber e não saber, ter consciência da completa veracidade ao exprimir mentiras cuidadosamente arquitetadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditando em ambas; usar a lógica contra a lógica, repudiar a moralidade em nome da moralidade.”

Se eu lesse essa citação sem saber de onde veio, pensaria que se trata de uma lúcida e minuciosa análise das estratégias utilizadas pelo atual governo brasileiro...

Outra triste percepção advinda dessa leitura diz respeito à apatia e inércia do povo, que permite e autoriza incontáveis males. Cito novamente o livro, mas poderia estar falando de nossa sociedade brasileira:

“Não se revoltarão enquanto não se tornarem conscientes e não se tornarão conscientes enquanto não se rebelarem.”


“1984” dá seguimento a uma série de leituras que tenho feito e que vem demonstrando como o mal supremo é o totalitarismo. O nazismo alemão e o comunismo russo, como afirma claramente Orwell em seu poderoso libelo, são facetas do mesmo e terrível Mal. Isso me fez refletir como estão equivocados aqueles que querem dividir a sociedade entre “direita” e “esquerda”. Além de ser uma divisão pra lá de obsoleta e inútil, não expressa a verdade sobre as pessoas e suas convicções. Se é para dividir, penso ser mais apropriado classificar as pessoas em duas categorias básicas:

1) Pessoas que defendem seus próprios direitos.
2) Pessoas que defendem os direitos de todos.

Assim temos, para expressar apenas alguns exemplos:

1) Pessoas que defendem sua própria religião, etnia e sexualidade como sendo a “correta” e todas as outras como sendo “erradas”.
2) Pessoas que defendem todas as manifestações religiosas, etnias e opções sexuais como igualmente merecedoras de respeito.

O mais sombrio nessa divisão é que as pessoas da categoria 1 cedo ou tarde começam a desumanizar as pessoas da categoria 2, a fim de justificar práticas de violência progressiva. E assim chegamos ao ápice da violência, que é a tortura, que encontra nas páginas de “1984” uma descrição que chega a ser poética em sua hediondez:

“O que acontece aqui dura para sempre. (...) Havemos de te esmagar até ao ponto onde não se volta. Vão-te acontecer coisas das quais não te poderás restabelecer, nem que vivesses mil anos. Nunca mais poderás sentir sensações humanas comuns. Tudo estará morto dentro de ti. Nunca mais serás capaz de sentir amor, ou amizade, ou alegria de viver, riso, curiosidade, coragem, ou integridade. Ficarás oco. Havemos de te espremer, deixar-te vazio, e então saberemos como te encher.”

Essa passagem foi escrita em 1948, mas infelizmente representa boa parte da população brasileira da atualidade, que consciente ou inconscientemente ainda apoia um presidente que declaradamente é a favor da tortura. Esse talvez seja o Brasil que imaginam para seus filhos:

“Se queres uma imagem do futuro, pensa numa bota a pisar um rosto humano, para sempre.”

“1984” é aqui. “1984” não é aqui.

  
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segunda-feira, 8 de julho de 2019

VOCAÇÃO PARA O MAL – Robert Galbraith (J. K. Rowling)



Fui curiosamente atraído para a leitura desse livro, antes mesmo de saber que Robert Galbraith é um pseudônimo de J. K. Rowling, autora da célebre série Harry Potter. Li os três primeiros livros do Harry Potter e gostei muito, mas gostei ainda mais de “Morte Súbita”, romance da mesma autora com uma temática mais “adulta”. E a oportunidade de agora ler uma obra dela no original (“Career of Evil” no título em inglês), ainda mais se tratando de uma história policial, um gênero que amo, tudo isso fez com que me atirasse à leitura cheio de expectativas.

Mas, como eu mesmo gosto de dizer, “a expectativa é a mãe da frustração”. A leitura valeu muito, principalmente, pelo “sotaque” tipicamente britânico, com uma narrativa recheada de expressões e gírias londrinas entremeadas por transcrições fonéticas de diálogos de outras regiões da Inglaterra e da Escócia, tudo retratado de forma muito vívida. Muitos desses diálogos ocorrem em pubs, em meio a porções de “fish and chips” (peixe com batatas fritas, prato típico de Londres) embrulhadas em jornal e longos goles de “pint” (metade de um quarto de galão de cerveja). Valeu por uma “city tour” a Londres!

A história em si, que faz parte de uma série de aventuras do detetive Cormoran Strike e de sua intrépida ajudante Robin Ellacott, é uma curiosa mistura de “thriller de serial killer” com “romance para mocinhas”. É louvável a tentativa de se inovar em um território tão batido, mesmo que seja pela mistura de clichês. Mas fiquei com a impressão de que “a massa não deu liga”, pois achei improváveis tanto o perfil do assassino quanto a lentíssima história de amor entre Cormoran e Robin.

Ainda assim, é inegável que Rowling escreve muito bem, mesmo com uma história fraca. As quase 500 páginas em formato tijolão fluíram com facilidade, embaladas pela narrativa envolvente da autora. Mas o mérito maior do livro é apresentar uma intrigante patologia psicológica chamada em inglês de BIID (Body Integrity Identity Desorder) e em português de TIIC (Transtorno de Identidade de Integridade Corporal), que é o desejo de ter alguma deficiência ou o sentimento de que algum membro do corpo não pertence a si mesmo, gerando o forte impulso de ter esse membro amputado (https://pt.wikipedia.org/wiki/Transtorno_de_identidade_de_integridade_corporal). Como sempre, a realidade é muito mais estranha e perturbadora que a mais insana ficção.


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“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”

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