sábado, 22 de junho de 2019

QUEM TEM MEDO DA CIÊNCIA? – Isabelle Stengers



Li esse livro pela primeira vez aos 18 anos, quando cursava a Faculdade de Comunicação Social da UERJ. Foi uma leitura que me marcou profundamente. Tanto que de todos os livros que li no curso, guardei apenas esse e mais dois ou três para reler em algum momento do futuro. Mas foi só agora, durante a releitura, que pude apreciar realmente o quanto esse livro influenciou minha vida.

Graças a “Quem Tem Medo da Ciência?” adquiri um saudável ceticismo com relação ao que poderia ser chamado de “onisciência científica”. A ciência é, idealmente, um método de busca da Verdade a respeito do homem e da natureza. Contudo essa busca é influenciada por uma série de fatores que nada têm a ver com ciência: interesses políticos e financeiros, jogos de poder e muitas vezes, infelizmente, opiniões preconcebidas e dogmas por parte dos cientistas que conduzem as pesquisas.

Vou citar um único exemplo, dentre os tantos abordados durante os cinco dias de seminário no Colégio Internacional de Estudos Filosóficos Transdisciplinares, realizado em outubro de 1989 no Rio de Janeiro, que acabaram se transformando nesse livro. Stengers cita como foi importante para a biologia o advento da bactéria como uma “testemunha fidedigna”, que podia conferir o status de método científico ao seu estudo sistemático. Isso gerou o que a autora chama de “operação de captura”, fazendo com que toda a biologia fosse daí para a frente pautada pelos paradigmas ditados pela biologia celular, que era o segmento dedicado ao estudo das bactérias. E quais foram as consequências disso em outras áreas da biologia? A embriologia, por exemplo, ficou em cheque, pois nada no estudo da bactéria podia explicar o desenvolvimento embrionário (sabemos que depois da publicação do livro a embriologia teve a oportunidade de exercer, por sua vez, uma “operação de captura”, assumindo uma posição de destaque outrora ocupada pelo estudo das bactérias).

Já outro ramo da biologia, a etologia, que era diametralmente oposta à biologia celular, passou a despertar cada vez menos interesse, o que acarretou diminuição das verbas disponíveis para financiamento das pesquisas etc. Ora, a etologia é o estudo dos animais em seu habitat natural, nada mais distante do controlado estudo em laboratório das propriedades moleculares de uma célula. O despertar de um progressivo interesse pela biologia molecular acarretou uma decadência no estudo etológico.

Até aí foi o livro, mas me permito ir adiante: o que teria acontecido se a situação fosse ao contrário? Como teria avançado a ciência se o estudo in natura fosse considerado prioritário, recebendo todo interesse e todo financiamento? Talvez tivéssemos caminhado para uma apreciação mais precoce da importância da preservação da natureza para a continuidade da existência humana, e não estivéssemos à beira da extinção planetária por conta de inúmeros abusos cometidos contra o meio ambiente.

Isabelle Stengers nos ensina que a objetividade científica é muito superestimada, para dizer o mínimo. Todo fato é na verdade a interpretação de um fato. Não existe ciência pura, isolada de uma ideologia que a justifique e conduza. Isso não quer dizer que devamos execrar a ciência como algo maléfico ou não confiável (como muitos têm feito atualmente, de forma irracional e potencialmente autodestrutiva). Isso significa que devemos considerar a ciência um instrumento para o conhecimento da Verdade, dentre outros instrumentos igualmente válidos e complementares (como a espiritualidade e a arte), mas nunca como o único caminho, verdade e vida. A verdadeira Sabedoria não pode nascer da compartimentalização de saberes, mas da percepção holística que propicia a expansão da consciência.

Que assim seja!



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ISSO TUDO É MUITO RARO



domingo, 16 de junho de 2019

CARTA AO PRESIDENTE: DIAS SOMBRIOS – Carlos Souza Yeshua (Org.)



Bela e louvável iniciativa do amigo Carlos Yeshua, da qual tive a alegria de participar. Além de desfrutar mais uma vez da companhia de amigos queridos, tive a honra de figurar no mesmo livro que o saudoso professor Germano Machado – o que, por si só, seria suficiente para tornar esta obra cara ao meu coração. Mas o livro tem muitos outros méritos. O principal deles, ao meu ver, é o de ser pautado por uma visão otimista do futuro, como bem assinala Yeshua:

“Vivemos dias sombrios, incertos e tumultuados, mas, mesmo assim, devemos ter esperança de que dias melhores virão, e que toda essa confusão política tornará o Brasil mais forte e resistente a novas crises.”

Participei com o poema “Polititica” (que pode ser visto na íntegra nos links https://youtu.be/QSY5i0oPWCU e https://www.facebook.com/sincronicidio/videos/1212516732191904/), do qual destaco:

“Pois na verdade, o que me assusta
Nessa inconsequente rinha
Que acontece hoje em dia
É a desunião que mais custa:
Nessa briga entre mortadela e coxinha
Só quem ganha é o dono da padaria!”


Lamento dizer que desde o momento em que o poema foi escrito, há pouco mais de dois anos, essa divisão de nosso povo só fez aumentar, chegando mesmo a nos ameaçar com uma irreversível fratura social. Contudo compartilho desse otimismo que norteia o livro, pois acredito firmemente que a verdade é uma força histórica que sempre acaba emergindo, por mais que se tente escondê-la.

Por isso aproveito essa resenha para listar algumas hipóteses que, conforme espero e confio, a História mostrará serem verdades evidentes até para os mais obstinados:

* Lula foi o melhor presidente que tivemos nos últimos 50 anos ou mais. Muitos dos que hoje gritam de ódio contra a corrupção do PT, secretamente odeiam mesmo é o fato de Lula ter tirado o Brasil do mapa da fome, ter permitido aos miseráveis comprar televisão e geladeira e ao filho do favelado cursar faculdade. Essas são ofensas imperdoáveis ao mesquinho espírito da classe média, que só é feliz ao se sentir superior a alguém.

* O mensalão e outros esquemas denunciam a corrupção sistêmica presente em todos os partidos, e que já vem ocorrendo há décadas. O PT não inventou a corrupção, mas pode ter aprimorado e ampliado os esquemas que envolvem praticamente todos os políticos brasileiros há gerações. Se é para ser contra a corrupção, ser contra o PT apenas é hipocrisia, para dizer o mínimo.

* Para se manter no poder a qualquer custo, o PT fez pacto com o PMDB e outros demônios, e assim traiu o povo brasileiro e acabou gerando a sua funesta nêmesis na figura de Bolsonaro.

* Movida por sua própria e inconfessável agenda, a TV Globo iniciou uma espetacular campanha de ódio contra Lula, Dilma e o PT. Essa campanha teve como fortes aliados Cunha e seus canalhas, que fizeram de tudo para impedir Dilma de governar.

* O impeachment de Dilma foi um golpe covarde e maquiavélico, arquitetado pelos maiores vilões da política brasileira. Isso não faz de Dilma uma boa governante.

* O julgamento e condenação de Lula foram injustos e obscenos atos de politicagem. Isso não torna Lula inocente.

* Provavelmente a Globo e os asseclas de Cunha esperavam botar um Alckmin no lugar de Temer. Não contavam com o macabro sucesso de sua campanha de ódio, que fez o candidato do ódio ser eleito. Por uma dessas ironias do destino, a Globo involuntariamente ajudou a eleger Bolsonaro. E hoje justamente as pessoas que foram manipuladas pela Globo acusam a emissora de comunismo (!!!), pois na visão dessas pessoas somente o comunismo justifica alguém não apoiar fanaticamente Bolsonaro. É caso para rir ou chorar, conforme o gosto de cada um.

Minha grande esperança é que as pessoas saiam desse túnel com a convicção de que devemos de uma vez por todas abrir mão desse desejo infantil de criar heróis e salvadores no campo da política. Que cada um seja a mudança que deseja ver no mundo, pois só assim algo de bom surgirá.

Muito sabiamente “Carta ao Presidente” termina com uma epístola de São Francisco aos governantes dos povos, onde brilha o singelo conselho:

“Considerai que o dia da morte se aproxima (Gn 47, 29)”

Se cada um de nós se lembrasse dessa grande verdade com mais frequência, evitaríamos muita besteira que acontece no mundo.


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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”

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terça-feira, 11 de junho de 2019

OU ISTO OU AQUILO – Cecília Meireles



“Este é um livro mágico”, afirma Walmir Ayala, organizador à 5ª edição, resumindo perfeitamente o encantamento gerado por “Ou Isto Ou Aquilo”. Cecília Meireles faz verdadeira magia com as palavras, sugerindo em cada poema todo um universo de mistério e fascínio. É maravilhoso ver como, na pena da mestra, as palavras se revelam ditosas, manhosas, saborosas, poderosas, espetaculosas! Um livro para despertar o poder da Poesia e o prazer da leitura em crianças de todas as idades. Imprescindível!

O ECO

O menino pergunta ao eco
onde é que ele se esconde.
Mas o eco só responde: “Onde? Onde?”

O menino também lhe pede:
“Eco, vem passear comigo!”

Mas não sabe se o eco é amigo
ou inimigo.

Pois só lhe ouve dizer:
“Migo!”

***

RODA NA RUA

Roda na rua
a roda do carro.

Roda na rua
a roda das danças.

A roda na rua
rodava no barro.

Na roda da rua
rodavam  crianças.

O carro, na rua.

***

OU ISTO OU AQUILO

Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

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sábado, 8 de junho de 2019

DIVA – José de Alencar



Motivado pelo encantamento que foi a releitura de “Senhora”, resolvi ler “Diva”, um dos poucos romances de José de Alencar que eu ainda não havia lido. Trata-se de uma obra menor que “Senhora”, tanto em extensão quanto em arte. Contudo aqui também é possível beber o néctar poético de frases como:

“Tinha sua tez a cor das pétalas de magnólia, quando vão desfalecendo ao beijo do sol.”

O autor parece ter ficado bastante ressentido com a crítica de que sua Emília, protagonista de “Diva”, é uma mulher impossível, que jamais poderia existir em carne e osso. Esse incômodo com a crítica acaba levando José de Alencar a adotar um curioso e criativo estratagema em “Senhora”, quando em uma conversa de salão algum figurante tece essa crítica ao seu romance anterior, “Diva”. E quem é que sai em defesa do autor? Justamente a heroína de “Senhora”:

“– Já leram Diva?
Respondeu um silêncio cheio de surpresa. Ninguém tinha notícia do livro, nem supunham que valesse a pena de gastar o tempo com essas coisas.
– É um tipo fantástico, impossível! sentenciou o crítico.
Acrescentou ele ainda algumas coisas acerca do romance, cujo estilo censurou de incorreto, cheio de galicismos, e crivado de erros de gramática. O desenlace especialmente provocou acres censuras.
A crítica, por maior que seja a sua malignidade, produz sempre um efeito útil que é de aguçar a curiosidade. O mais rigoroso censor mau grado seu presta homenagem ao autor, e o recomenda.
Pela manhã Aurélia mandou comprar o romance, e o leu em uma Sexta, ao balanço da cadeira de palha, no vão de uma janela ensombrada pelas jaqueiras cujas flores exalavam perfumes de magnólias. A noite apareceu o crítico.
– Já li a Diva, disse depois de corresponder ao cumprimento.
– Então? Não é uma mulher impossível?
– Não conheço nenhuma assim. Mas também só podia conhecê-la Augusto Sá, o homem que ela amava, e o único ente a quem abriu sua alma.
– Em todo o caso é um caráter inverossímil.
– E o que há de mais inverossímil que a própria verdade? retorquiu Aurélia repetindo uma frase célebre. Sei de uma moça... Se alguém escrevesse a sua história, diriam como o senhor: "É impossível! Esta mulher nunca existiu". Entretanto eu a conheci.
Mal pensava Aurélia que o autor de Diva teria mais tarde a honra de receber indiretamente suas confidências, e escrever também o romance de sua vida, a que ela fazia alusão.”

É no mínimo curioso, aos olhos contemporâneos, que tenha doído tanto em José de Alencar a crítica de que seus personagens careciam de realismo, quando o que tornou sua obra celebrada e estudada até hoje seja justamente o romantismo exacerbado de suas páginas!

Eu mesmo acho difícil que tenha existido algum dia uma mulher como Emília. Seu pudor excessivo, que não tolera sequer que algum cavalheiro toque suas mãos se não estiver usando luvas, a tornaria um caso clássico de histeria, doença muito em voga nessa época. Contudo o outro lado de Emília, seu lado audaz, insensível às convenções sociais e caprichoso até a crueldade, sugere uma personalidade totalmente diversa e incompatível.

Essa contradição não impede a diversão do leitor, muito pelo contrário: junto com o apaixonado Augusto, o leitor vai se esforçando por compreender que mulher é essa, tão terrível e fascinante, e aí está a graça maior do romance. A graça e o suspense: aos meus olhos, pelo menos, essa história de amor tem um toque meio sombrio e sinistro, como se tivesse sido psicografada pelo espírito de Edgar Allan Poe, desencarnado há poucos anos pela época em que “Diva” foi escrito. Longe de vislumbrar um “...e foram felizes para sempre”, imaginei o pobre do Augusto sendo soterrado vivo em alguma fria catacumba, submetido às infinitas torturas de amor que tanto agradavam Emília. Sinistro!

Só posso encerrar com esses lindos versos de Manuel Bandeira:

“Sou assim, por vício inato.
Ainda hoje gosto de Diva,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro… Viva,
Viva José de Alencar!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

sexta-feira, 7 de junho de 2019

BESTIARIUM BRASILIS – monstros e lendas – Guto Lins



Este livro infantil fala sobre criaturas como Saci, Cuca, Boitatá, Curupira, Lobisomem, e essa foi minha primeira motivação para lê-lo. A edição é primorosa e as ilustrações são espetaculares, recriando esses seres de nosso folclore a partir de montagens feitas com objetos do cotidiano, como botão, coador, prendedor de cabelo etc. 



O único e importante senão é que os poemas dedicados a cada um desses “monstros e lendas” parecem bem fraquinhos em comparação com as esplêndidas ilustrações. A impressão que tive foi a de que a parte escrita serviu apenas de pretexto para uma bela exposição de artes plásticas.




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terça-feira, 4 de junho de 2019

SENHORA – José de Alencar




Eu tinha onze anos de idade quando, junto com a querida amiga Eva Costa, fiz um cartão na biblioteca do bairro da Ribeira, em Salvador. Era um cartão só para nós dois, que dava direito a pegar dois livros a cada quinze dias. Então combinamos que cada um escolheria um livro para ler, e depois trocaríamos. Eu escolhi “O Caso dos Dez Negrinhos”, de Agatha Christie, que me deixou alguns dias sem dormir. Eva escolheu “O Guarani”, de José de Alencar, que gerou em mim uma grande paixão pela literatura brasileira, pelo que sou muito grato.

Nos três anos seguintes li muitos outros livros de José de Alencar: “Cinco Minutos”, “A Viuvinha”, “Ubirajara”, “Iracema”, “O Tronco do Ipê”, “Til”, “Lucíola” e “A Pata da Gazela”. Devo a essas leituras praticamente tudo o que sei de gramática!

“Senhora” foi um dos últimos que li desse autor, já aos quinze anos, como imposição escolar. Por essa época minha paixonite por José de Alencar já havia fenecido um pouco, por conta de outras leituras e descobertas. Ainda assim, gostei da leitura – fato raro dentre os livros que li na escola, com a ingrata obrigação de fazer uma prova depois.

E agora, depois de tanto tempo, retorno a esse autor tão querido de meu coração. Feliz reencontro! O que primeiro me encantou foi o lirismo da prosa de José de Alencar, mas logo em seguida fiquei capturado pela trama amorosa (mesmo já tendo lido o livro!), para minha própria surpresa! A turma que gosta de ler histórias de amor e ainda não conhece José de Alencar não faz ideia do que está perdendo!

Algo que me chamou a atenção nessa segunda leitura foi a carga erótica de algumas cenas, que passaram despercebidas de meu olhar adolescente. Pois é preciso contextualizar, ter em mente que a história foi publicada em 1875. Para os padrões da época, imagino que a cena que descreve Aurélia entrando no leito nupcial, por exemplo, deve ter deixado muitas moçoilas e mancebos com taquicardia... sobretudo pela cruel interrupção do clima erótico, em uma reviravolta que define a estrutura narrativa de “Senhora”.

Pois se o tema geral do livro é o do chamado “casamento de conveniência”, a estrutura narrativa segue uma técnica arriscada, que poucas vezes vi sendo posta em prática com bons resultados (e nunca tão bem quanto em “Senhora”): algo que chamei de “técnica do coitus interruptus”, e que consiste na frustração da expectativa de alívio dramático, por meio de seguidas reviravoltas, até a resolução final do grande e catártico clímax. Isso sim é que eu chamo de Literatura Hot!



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segunda-feira, 27 de maio de 2019

FRENESI – Arthur La Bern



“Frenesi” (https://youtu.be/x_ihVr5l83Y) foi o primeiro filme de Hitchcock que assisti, ainda bem guri. Lembro que aquela explosiva mistura de sexo e assassinato causou um forte impacto em minha mentalidade infantil. Foi o início de um fascínio que só foi crescendo à medida que assisti vezes sem conta filmes como “Um Corpo Que Cai”, “O Homem Que Sabia Demais”, “Intriga Internacional”, “Os Pássaros” e a obra-prima “Psicose”, que sempre me provoca o estado sublime de enlevo que experimentamos diante de uma grande obra de arte (mesmo tratando de temas tão tenebrosos!).


Penso que muito da genialidade dos filmes de Hitchcock é simplesmente inacessível para um público mais jovem, acostumado a efeitos especiais gerados por computador. A sutil narrativa visual do tipo “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”, na qual o velho Hitch exerceu sua maestria, carece de apelo para olhares empanzinados pelo banquete pirotécnico dos grandes sucessos do momento. Contudo, o legado do mestre permanece, e continua despertando terror e êxtase nos corações daqueles dispostos a desvendar segredos.

A grande motivação para a leitura do livro “Frenesi” (cujo título original é “Goodbye Piccadilly, Farewell Leicester Square”) é mesmo a comparação com o filme. Penso que o roteiro adaptado beneficiou grandemente a história. O próprio autor, contudo, não gostou da adaptação e chegou a reclamar em carta publicada no jornal The Times.

A narrativa de Arthur La Bern foge ao padrão típico das histórias policiais e de suspense, mas de um jeito ruim. A revelação da identidade do assassino ocorre, no livro, do jeito mais tosco que já vi em um romance policial. Hitchcock suplantou essa deficiência mostrando desde o início quem era o assassino, fortalecendo o suspense onde o mistério era muito fraco. O final do livro também foi muito melhorado pelo filme, em minha opinião, assim como várias outras cenas.

O livro apresenta, contudo, uma cena de grande força emocional, que foi seguida com muita fidelidade no filme: um estupro onde a vítima recita o Salmo 23, enquanto seu algoz arfa e profere obscenas declarações de amor. Aposto que foi essa única cena que capturou a imaginação de Hitchcock e o fez querer transformar a história em um filme.


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sábado, 25 de maio de 2019

HISTORIAS DE CRONOPIOS Y DE FAMAS – Julio Cortázar



Li esse pequeno grande livro imediatamente após as apaixonantes “Aulas de Literatura” de Julio Cortázar. Aqui temos belos exemplos da Literatura Fantástica, tal como compreendida e praticada pelo autor (inquestionavelmente um mestre no estilo), muitos dos quais foram lidos e comentados em suas aulas.

Na concepção de Cortázar, o fantástico nada mais é que a realidade, quando percebida por uma consciência expandida. Essa chave é fundamental para abrir as portas de seu rico universo simbólico, vivenciando uma deliciosa e lírica aventura.

O livro é composto de narrativas curtas, a maioria de apenas uma ou duas páginas, que estão agrupadas em quatro seções:

1) MANUAL DE INSTRUÇÕES: aqui o autor desafia, com muita sutileza e bom humor, nossas noções de normalidade, ao elaborar meticulosas instruções para atos tão banais quanto “chorar”, “subir uma escada” ou “dar corda no relógio”.

2) OCUPAÇÕES RARAS: avançando na proposta, Cortázar apresenta historietas hilariantes onde o absurdo das situações nos ajuda a perceber o quanto o que consideramos normal é socialmente construído. Gostei especialmente de “Conduta nos velórios”, que narra as aventuras de uma família cuja principal ocupação é invadir velórios de desconhecidos e, de forma gradual e inexorável, conquistar todos os papéis de destaque, reservados para os familiares e íntimos do falecido.

3) MATERIAL PLÁSTICO: ainda um passo além, com verdadeiras pérolas do conto fantástico como “Possibilidades da abstração” e “Fim do mundo do fim”, que narra um apocalipse causado por escritores que não param de escrever e soterram o mundo com papel. É possível sentir que nossa percepção de realidade vai se expandindo ao ler essas histórias.

4) HISTÓRIAS DE CRONÓPIOS E DE FAMAS: a chave de ouro, com pequenas narrativas que conseguem ser ao mesmo tempo enternecedoras e muito engraçadas. Ao fim da leitura, é muito grande a tentação de classificar as pessoas que conhecemos em cronópios, famas e esperanças.


Em resumo: uma obra genial! Sou muito grato ao Universo pela oportunidade de ter lido esse livro no original em espanhol (graças ao P.U.L.A. – Passe Um Livro Adiante), que me possibilitou travar contato direto com a saborosa linguagem de mestre Júlio Cortázar.

Entrevista do autor falando sobre a obra:



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domingo, 19 de maio de 2019

TRABALHOS DE AMOR PERDIDOS - William Shakespeare



Já fazia um bom tempo que eu não visitava o templo de alguma obra de Master Shakespeare. Foi uma linda alegria ler “Trabalhos de Amor Perdidos”, um de seus primeiros textos, que certamente traz a impetuosidade e a exuberância da juventude, aqui expressas em vertiginosos duelos verbais.

Gostei muito da tradução de Beatriz Viégas-Faria, mas não pude deixar de imaginar (como não poderia deixar de ser, em se tratando de Shakespeare) como seriam aqueles espertos e maliciosos jogos de palavras no original...

Um choque e tanto foi ler, em meio a tantas piadas, uma série de chistes profundamente racistas, que teriam feito rolar de rir ao Bozo e aos seus asseclas... caso eles não considerassem Shakespeare coisa de gay, mulherzinha e comunista!


Eu mesmo fiquei profundamente chocado comigo ao acolher esse pensamento, afinal me parece uma heresia citar o Bozo em uma resenha do grandioso Bardo. Contudo, logo após nutrir esse pensamento infame, eis que me deparo com a MELHOR explicação que já vi para o bizarro fenômeno dos Bozominions:

“Ninguém fica tão completamente preso, quando capturado, quanto o inteligente que ficou bobo. A tolice que foi ovo chocado pela sabedoria pensa que tem todas as garantias do bom senso e todo o auxílio do que aprendeu na escola, mais as benesses da própria Inteligência para beneficiar um bobalhão letrado.
(...)
A tolice nos bobos nunca é tão censurada quanto a palermice nos inteligentes. Isso porque a sapiência fica babando, uma vez que todas as capacidades mentais dali em diante serão aplicadas a provar, pelo raciocínio, que há valor na basbaquice.”

Esse texto de 1597 nos demonstra cabalmente duas coisas:
1) O profundo conhecimento de Shakespeare sobre a natureza humana.
2) O quão pouco evoluímos, de fato, desde os tempos de Shakespeare.


William Shakespeare, para mim, é quase como uma religião. Por isso, para não ter que repetir tudo o que acho obrigatório dizer sobre esse grande Avatar da Literatura, seguem os links das resenhas que fiz sobre suas obras (que reli agora para meu próprio deleite):

HAMLET
RICARDO II
HENRIQUE IV (parte I)
HENRIQUE IV (parte II)
HENRIQUE V
HENRIQUE VI (parte I)
HENRIQUE VI (parte II)
HENRIQUE VI (parte III)
RICARDO III
HENRIQUE VIII
VIDA E MORTE DO REI JOÃO
JÚLIO CÉSAR
MUITO BARULHO POR NADA
ROMEU E JULIETA
SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO
MACBETH
TEATRO COMPLETO – DRAMAS HISTÓRICOS


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