domingo, 14 de abril de 2019

QUARUP – Antonio Callado



Assombroso e espetacular! Certamente um dos melhores livros que já li na vida. Aqui a meta mais alta da Literatura se expressa em toda a sua grandiosa beleza: reproduzir a vida em sua totalidade.

Um livro de muitas camadas, de múltiplos contextos e possibilidades de interpretação. Ao longo das 500 páginas de apaixonada leitura, fui enxergando primeiro o romance de ideias, no melhor estilo de Aldous Huxley em “Contraponto”, depois o Bildungsroman, romance de formação, cujo exemplo mais célebre é “A Montanha Mágica” de Thomas Mann. Mas então comecei a captar ecos de aspirações espirituais mais altas, como as que encontramos nos livros de Hermann Hesse ou mesmo de Khalil Gibran, mas com uma feição muito própria, toda sua, algo que só me ocorreu chamar de “Evangelho do Brasil segundo Antonio Callado”.

E isso tudo em meio a uma história repleta de reviravoltas, com muita aventura, heroísmo, romance e sexo, em meio a um agitado pano de fundo histórico que vai dos dias finais do governo Getúlio Vargas (1954) até os tenebrosos primeiros dias do golpe militar de 1964. O livro é recheado de personagens marcantes, com destaque para o protagonista Nando, que é de uma complexidade como só se vê na vida real, e que aos poucos vai, lindamente, se tornando simples e claro aos olhos do leitor (que souber ler). “Quarup” é isso tudo e muito mais!

Ao mesmo tempo em que experimentei um profundo êxtase ao ler esse livro, fui também acometido de uma agonia que chegou às raias do desespero, ao perceber o quanto obras de tal magnitude estão já fora do alcance da maioria dos leitores contemporâneos. A decadência da Literatura e das Artes como um todo é tanto triste causa quanto inevitável consequência de tantas insanidades que temos testemunhado no Brasil e no mundo. Uma única esperança alivia meu peito: quando as Artes decaem, o fim da civilização é certo. O novo se aproxima.




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“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”



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sábado, 13 de abril de 2019

A PARTE QUE FALTA ENCONTRA O GRANDE O – Shel Silverstein



Com a exceção de “O Pequeno Príncipe”, não me lembro de ter lido um livro “infantil” que tenha me impactado tanto. A narrativa de Shel Silverstein é Poesia em seu mais elevado sentido (como eu a entendo): “a arte de dizer a Verdade através da Beleza”.

Uma história leve e rápida, que se lê em dez minutos, mas que suscita reflexões profundas, com lindas metáforas sobre relacionamentos, amor próprio, identidade, plenitude, sentido da vida...


Ao terminar essa maravilhosa leitura, só pude lembrar dos versos imortais de Drummond:

“Eu preparo uma canção
Que faça acordar os homens
E adormecer as crianças.”


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Após o imenso sucesso do projeto POESIA DE BOTÃO, com a criação do jogo que ensina crianças a rimar e fazer poesia, é com muita alegria que comunicamos que o projeto vai virar um livro publicado pela Verlidelas Editora. Poetas de todo o Brasil já podem enviar seus poemas sobre o tema “Infância”. Está aberto o edital para a Antologia Poesia de Botão, confira no link abaixo:

domingo, 7 de abril de 2019

O SOPRO DA BESTA – César Costa & Sergio Carmach (org.)



“Nas circunstâncias certas, todos são capazes de cometer o mal.”

Esse foi o mote que deu origem a essa instigante antologia, da qual tive a grande honra e alegria de participar. São ao todo oito histórias, cada uma delas totalmente diferente das demais, indo da sátira ao terror, do suspense histórico ao drama psicológico. Ao mesmo tempo, ao findar a leitura, o leitor tem a impressão de que esses contos tão diversos de alguma forma compõem um mosaico coeso, refletindo cada um ao seu modo o tema comum a todos. Mérito dos organizadores da antologia, que souberam combinar muito bem os autores e suas respectivas histórias.


O livro começa com “Som Alto”, conto de minha autoria e inspirado em fatos reais que são infelizmente vivenciados por inúmeros brasileiros, principalmente nos finais de semana: é o caso dos vizinhos “generosos”, que adoram compartilhar o seu (mau) gosto musical com toda a vizinhança. E o mais irritante é que parece existir uma misteriosa lei cósmica, que estipula que quanto pior for o gosto musical de uma pessoa, mais ela sente a necessidade de impor o que ela ouve aos outros, carregando no botão do volume!

Esse assunto me incomoda tanto que cheguei a escrever, em parceria com meu irmão Fabrício Barretto, o roteiro de um curta em animação denunciando esse ato de desrespeito que simboliza tão perfeitamente tantas coisas que andam erradas em nosso país. Acho muito curioso e até suspeito que não seja de conhecimento geral uma descoberta científica da maior importância: ouvir música muito alto (ou qualquer outro barulho) provoca impotência sexual nos homens!!! Essa impotência é devida a um dano neurológico irreversível, ou seja, não pode ser curado por meio de viagras ou outros tratamentos! Se você não acredita nisso (como eu não acreditei quando soube), dê uma pesquisada na Internet. Seus futuros filhos ainda não nascidos agradecem! Faço questão de divulgar essas informações aqui e sempre que possível, pois bastaria esse fato se tornar de conhecimento público e notório para gerar uma transformação radical no comportamento dos mal educados de plantão.

Ainda sobre “Som Alto”, a narrativa é intercalada por letras das músicas que estariam sendo tocadas no último volume. Uma curiosidade sobre essas letras é que elas faziam parte de um projeto que também desenvolvi com meu irmão Fabrício, chamado de “Ultrapagode”. A ideia era ironizar as letras de baixo calão e sexismo que infestam as rádios baianas (mas não exclusivamente). Acabamos abandonando esse projeto ao notar, desolados, que a nossa ironia passaria totalmente despercebida: fomos absolutamente incapazes de fazer algo ainda mais tosco e grosseiro do que aquilo que estava fazendo sucesso na boca do povo!


“O Sopro da Besta” segue em grande estilo com “O Fantasma da Vila”, tétrica narrativa de Sergio Carmach ambientada no século dezessete, com excruciantes descrições de uma terrível sessão de tortura. O alívio cômico vem com “O Sequestro de Deus”, de Jacob El-Mokdisi, narrativa farsesca de humor agridoce, pois os absurdos retratados na história estão mais próximos de nossa realidade do que qualquer um de nós gostaria.

“Sem Sinal”, de César Costa, é um angustiante e escatológico suspense que faz o leitor perguntar a si mesmo o que faria caso estivesse na difícil posição do protagonista. Já em “Boi Manso”, de Jowilton Amaral, temos uma história de macabra ironia, que mescla bem o cômico e o pavoroso.

“As Duas Mortes de Amanda”, de Priscila Pereira, situa-se com asfixiante nitidez no triste cenário da enfermidade mental. “Humano e Trivial”, de Mogg Mester, é uma história dentro de uma história, que convida o leitor a percorrer alguns dos sombrios labirintos das motivações humanas. Esse conto, aliás, abre com o achado de uma frase de Jung que também resume muito bem a proposta da antologia:

“Se ainda não cometi um assassinato, é porque ainda não me apertaram o botão da animalidade.”

O livro encerra com “Cilada”, de Ilana Sodré, narrativa bastante gráfica e visual de uma terrível vingança, levada a cabo com requintes de crueldade.

Parabéns à Verlidelas Editora (https://www.facebook.com/verlidelas/) por mais um livro publicado com muito esmero e qualidade! Salve a nossa Literatura Brasileira!

O livro “O Sopro da Besta” pode ser adquirido diretamente no site da editora:

  
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sexta-feira, 5 de abril de 2019

A VOLTA AO MUNDO EM OITENTA DIAS – Júlio Verne



Antes de comentar sobre o livro, sinto que devo falar sobre como ele chegou às minhas mãos. Já faz um bom tempo que praticamente todos os livros que leio chegam através do P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante): pego, leio e passo adiante. E assim tenho lido sempre do bom e do melhor! Pois então, recentemente fui convidado a falar no Clube de Leitura Scotland Books (https://youtu.be/MtzbZkM-Ms4), e lá mencionei o fato de livros de ficção científica estarem entre meus favoritos. Ao chegar em casa, pensei que já fazia algum tempo que eu não lia um bom livro de FC e em como seria legal se eu encontrasse um livro assim no P.U.L.A. E no dia seguinte, surpresa: lá está me esperando esse livro do Júlio Verne, que hoje é um clássico da literatura mundial, mas na época em que foi publicado, em 1873, era ficção científica de primeiríssima qualidade! Claro que iniciei a leitura imediatamente. Por essas e outras é que me considero um feliz milionário de livros!


Antes de “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”, de Júlio Verne eu só tinha lido “Miguel Strogoff”, ainda criança. Cheguei a citar “Viagem ao Centro da Terra” em meu romance “O Sincronicídio” (http://caligoeditora.com/?page_id=98), como o único livro de Verne que ainda não havia se tornado realidade, mas para essa citação me contentei em ler uma adaptação em quadrinhos.

A prosa de Júlio Verne é mesmo muito gostosa, recheada de cenas aventurescas com toques de humor, em uma combinação muito atraente. Os personagens são um tanto bidimensionais, mas dentro do contexto da trama isso não chega a ser um empecilho à boa fruição da leitura. Não resta dúvida de que o grande êxito que a obra alcançou, desde a época de sua publicação até os dias de hoje, é plenamente justificado.

Uma outra leitura se impõe, contudo, ao olhar de um leitor contemporâneo, que está a quase 150 anos de distância da sociedade que foi o pano de fundo de “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias”. O que primeiro chama a atenção é o quanto a história está impregnada de evolucionismo cultural e etnocentrismo. Aqui as nações e povos do mundo são nitidamente percebidos e retratados como uma fila evolutiva que tem seu ponto mais elevado e desenvolvido na civilização europeia de modo geral e, em particular, no império britânico, representado pelo fleumático protagonista Phileas Fogg. Curiosamente, o francês Passepartout, conterrâneo de Verne, é retratado de forma humorística, funcionando como alívio cômico para as aventuras do herói.

Nesse contexto evolucionista, não deve ter causado estranheza aos leitores do século XIX que os indianos tenham sido retratados como um povo bárbaro e escandalosamente ignorante, que as mulheres japonesas tenham sido descritas como “pouco belas” e os índios americanos tenham entrado na história apenas para serem “esmagados como vermes”. Contudo, a um olhar de hoje tais descrições provocam repulsa e repúdio – ou ao menos deveriam provocar.

Dentro de um enfoque mais pessoal, percebi na leitura de “A Volta ao Mundo em Oitenta Dias” uma provavelmente involuntária metáfora para o intenso progresso tecnológico experimentado pela humanidade desde a revolução industrial, ao qual, infelizmente, não corresponde um equivalente progresso espiritual. Assim é que Phileas Fogg dá a volta ao mundo em desabalada carreira (para os padrões da época), sem contudo ter um mínimo de curiosidade a respeito das paisagens e povos que ele estava visitando com tanta pressa. A ponto de preferir ficar trancado em sua cabine, jogando cartas, sem ver nem aprender nada de novo. A meta da volta ao mundo constitui, em resumo, uma vitória da eficiência técnica, e nada diz respeito a um aprofundamento da mente e da alma. De que vale dar a volta ao mundo e voltar para casa exatamente o mesmo?

Este livro, em domínio público, está acessível em PDF:



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domingo, 31 de março de 2019

ECKHART TOLLE E SRI AUROBINDO: Duas Perspectivas sobre a Iluminação – A. S. Dalal



Este é um livro muito interessante, que se propõe a comparar os ensinamentos de Eckhart Tolle (mentor do “Poder do Agora”) e a Yoga de Sri Aurobindo. O que mais me chamou a atenção nesse empreendimento foi o dedicado e amoroso esforço do autor, A. S. Dalal, que com humildade e sabedoria foi sistematicamente pontuando semelhanças e divergências entre esses dois caminhos espirituais. Um buscador sincero que, ao buscar respostas para si mesmo, teve o cuidado de compartilhar o que descobriu com outros buscadores.


A leitura desse livro foi uma revigorante oportunidade de repensar questões fundamentais a partir de outros pontos de vista. Devido ao tratamento acadêmico dado a essas reflexões, foi também um ótimo exercício mental, que me permitiu acessar de uma forma mais racional conteúdos que geralmente só acesso a partir da intuição.


Muitos aprendizados tive com esse livro, sendo o principal deles uma incrível descoberta, pela qual sou muito grato: os nossos desejos e pensamentos não surgem dentro de nós, mas fora!!! Para alguém que não esteja familiarizado com a prática da meditação e com a busca espiritual da Yoga, essa afirmação pode parecer uma loucura total, mas para aqueles que trilham esse caminho, isso representa no mínimo uma ideia que merece ser testada! Transcrevo abaixo as citações de Sri Aurobindo que conduzem a essa preciosa revelação:

“Quando uma pessoa vive na consciência verdadeira ela sente que os desejos estão no exterior dela, entrando do lado de fora, da Prakriti inferior universal, para a mente e as partes vitais. Na condição humana normal isso não é sentido; os homens se tornam conscientes do desejo somente quando ele está lá, quando ele entra e encontra uma residência temporária ou um refúgio e, consequentemente, eles acham que o desejo lhes pertence e é uma parte deles. A primeira condição para se livrar de um desejo é, portanto, tornar-se atento à consciência verdadeira, pois, então, fica muito mais fácil rejeitá-lo do que quando se tem que lutar com ele como se fosse uma parte constituinte de uma pessoa para ser expelido do ser. É mais cômodo rejeitar um acréscimo do que extirpar o que é percebido como uma parte de nossa substância.”

“O erro começa ao pensarmos que nossos pensamentos nos pertencem e que somos nós que os criamos e que se não criássemos pensamentos (ou seja, pensar) eles ficariam reduzidos a zero. Uma pequena observação deveria evidenciar que você não está fabricando seus próprios pensamentos, mas que preferivelmente os pensamentos ocorrem em você. (...) A ideia de que você está modelando os pensamentos ou os encaixando juntos é uma ilusão egoística. Eles estão fazendo isso por sua conta própria, ou a Natureza está fazendo isso por eles, somente sob uma certa compulsão; você tem de derrotá-la com frequência para forçá-la a fazer isso, e esse processo nem sempre é bem-sucedido.”

“Eu tenho uma grande dívida com [Yogi Vishnu Bhaskar] Lele por ele ter me mostrado isso. ‘Sente-se em meditação’, ele disse, ‘mas não pense, olhe somente para sua mente; você verá pensamentos entrando; antes que eles possam entrar, expulse-os de sua mente até que ela seja capaz de manter um silêncio total’. Eu jamais tinha ouvido antes falar sobre pensamentos chegando visivelmente na mente oriundos do exterior, mas não pensei em questionar a verdade ou a possibilidade; simplesmente sentei e fiz o que ele aconselhara. Em um momento minha mente tornou-se silenciosa como um ar estagnado em um cume elevado de montanha e, então, eu vi um pensamento, e a seguir outro, chegando de uma forma concreta oriundos do exterior; eu os expeli antes que eles pudessem entrar e tomar posse do cérebro, e em três dias estava livre.”

Gratidão ao querido irmão Leonardo Rodrigues por ter me presenteado com essa linda joia!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


sexta-feira, 22 de março de 2019

O MATADOR – Patrícia Melo



Muito antes de ler este livro, vi o filme inspirado nele, “O Homem do Ano” (https://youtu.be/1lVGv4y8-Gc), com direção de José Henrique Fonseca e roteiro de ninguém menos que Rubem Fonseca. Fiquei impactado pelo filme e com muita vontade de ler Patrícia Melo, ocasião que finalmente surgiu com “Inferno” (http://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/2014/01/inferno-patricia-melo.html), que me deixou igualmente boquiaberto.


E agora, graças ao P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), pude ler “O Matador”, uma história vertiginosa e asfixiante, que é ainda mais assustadora por retratar a banalidade da violência nos grandes centros urbanos brasileiros. É inegável o domínio narrativo da autora, que conduz a trama em intenso e crescente suspense, capturando o leitor de forma irresistível em uma teia de angustiosa catarse.

Terminei a leitura com a triste percepção de que a justiça, ao menos no Brasil, nada mais é que uma farsa montada para proteger os interesses e privilégios dos poderosos. Por sincronicidade, li este livro em uma semana marcada por notícias como a 29ª denúncia contra o ex-governador Sergio Cabral e pelo espetáculo da prisão do ex-presidente Temer e de seus mafiosos escudeiros.

Talvez por ser inveterado leitor de romances policiais, eu havia desenvolvido a crença de que crimes não punidos pela justiça eram cometidos com grande perícia e habilidade. “O Matador” e a realidade brasileira demonstram minha grande ingenuidade. Os criminosos impunes na grande maioria das vezes não são geniais, muito pelo contrário, geralmente cometem seus crimes de forma desleixada, deixando muitos vestígios e evidências condenatórias. Contudo contam com a cumplicidade do Sistema.

No Brasil, quem sofre os rigores da Lei são os pobres. Criminoso rico só é preso quando interessa politicamente a algum grupo de poderosos. Máiquel, protagonista de “O Matador”, é infelizmente mais atual e pertinente do que nunca.




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quinta-feira, 21 de março de 2019

POESIA COM RAPADURA – Bráulio Bessa



Ganhei este livro como presente de aniversário de minha amada aluna de violão Reni. Claro que fiquei muito feliz com o presente e logo me pus a devorar essa rapadura poética.

Gostei muito dos versos do poeta Bráulio Bessa, que traduzem bem a sabedoria simples do povo. A edição da CeNE Editora valoriza bastante os poemas, com uma diagramação arejada e colorida, belas ilustrações e o interessante recurso de colocar em destaque os versos mais expressivos.


Gostei especialmente desses versos:

“O meu ou o seu caminho
não são muito diferentes;
tem espinho, pedra, buraco
pra mode atrasar a gente.
Não desanime por nada,
pois até uma topada
empurra você pra frente.”

Viva a Poesia!



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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

O jogo POESIA DE BOTÃO faz parte do projeto selecionado pelo Edital Arte Todo Dia – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura de Salvador), com apoio de Athelier PHNX, Verlidelas Editora, Caligo Editora, Suporte Informática e AG1. O propósito do jogo é convidar as crianças a vivenciar o universo da Poesia de forma lúdica e atrativa, como uma “brincadeira de montar versos”. POESIA DE BOTÃO é especialmente indicado para crianças já alfabetizadas, mas nada impede que adultos possam brincar também e se beneficiar com o jogo.


  



terça-feira, 19 de março de 2019

ASSASSINATO NA CASA DO PASTOR – Agatha Christie



Como é divertido ler um mistério de Agatha Christie! Sobretudo porque depois de algum tempo eu acabo esquecendo a história, então posso ler outras vezes o mesmo livro, e é como se estivesse lendo pela primeira vez!

Esse “Assassinato na Casa do Pastor” mesmo, li agora pela segunda (ou terceira!) vez, e ainda consegui ser enganado novamente por Agatha!

Acho que os livros policiais clássicos, do tipo “whodunit” (“quem matou?”), dentre os quais as obras de Agatha Christie figuram como os mais primorosos exemplos, funcionam mais como um jogo que propriamente como uma história. Detalhes como caracterização de personagens, cenários etc. são apenas um pano de fundo para a disposição das pistas e despistes para o detetive-leitor. Acho curioso que eu ao menos sempre prefiro os livros policiais onde não consigo descobrir o assassino. Quando consigo descobrir, sempre fico um pouco frustrado com a história. Quando sou ludibriado, porém, que deleite!

Seja como for, uma vez que o mistério é solucionado, a catarse dessa revelação é liberada e o propósito do livro é cumprido. Os detalhes da trama, então, podem confortavelmente se apagar da memória do leitor (ao menos no meu caso), ao contrário do que acontece com outros gêneros de literatura, quando a história parece crescer na mente depois que a leitura é concluída.

É claro que existem exceções: tramas policiais tão magistralmente construídas que ficam marcadas a ferro e fogo na memória. No caso de Agatha Christie, as histórias que nunca esqueci são “O Caso dos Dez Negrinhos”, “A Casa Torta”, “Assassinato no Expresso Oriente” e minha favorita, “O Assassinato de Roger Ackroyd”. Qualquer fã de Agatha sabe muito bem porque essas histórias são inesquecíveis: elas possuem em comum o fato de terem levado até o limite as regras do jogo da detecção policial, chegando ao ponto de subvertê-las. O leitor-jogador é enganado por meio de uma astúcia quase diabólica, mas ao final da leitura tem que admitir que o jogo foi justo: Agatha não trapaceia nunca!

Essa característica de jogo do romance policial clássico me fez adquirir uma bizarra insensibilidade para o fato de serem histórias sobre a morte violenta de seres humanos, geralmente com fria premeditação e motivos torpes. Percebi isso recentemente, ao resenhar “O Mistério do Trem Azul”, outra obra de Agatha, e receber alguns comentários de pessoas que acharam esse livro triste. Isso me fez notar o quanto eu não via os personagens de Agatha como retratos de seres humanos, mas meros bonecos dispostos em um tabuleiro: Coronel Mostarda com o candelabro na biblioteca.

Especificamente sobre “Assassinato na Casa do Pastor”, essa obra tem o mérito de ser a primeira história de Miss Marple, originalmente publicada em 1930. Uma frase em especial chamou minha atenção: “Não há coisa tão desumana quanto a máscara do criado perfeito.”

E viva Agatha Christie!




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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
http://caligoeditora.com/?page_id=98
 
eBook:

https://www.amazon.com.br/dp/B07CBJ9LLX?qid=1522951627&sr=1-1&ref=sr_1_1

terça-feira, 12 de março de 2019

A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO – Mario Vargas Llosa



Se eu fosse escrever tudo o que esse livro me fez pensar, acabaria com um outro livro quase do mesmo tamanho, composto por três quintos de entusiásticas louvações ao pensamento de Vargas Llosa, um quinto de veemente discordância às ideias do autor e mais um quinto de tenebrosas lamentações pelo triste estado da cultura e da arte nos dias de hoje, objeto das reflexões e denúncias desta incrível e marcante obra que é “A Civilização do Espetáculo”.

Schopenhauer aconselha a nunca ler um livro sem ter antes refletido sobre o assunto que é tratado por ele. Ao menos dessa vez cumpri esse sábio conselho, pois venho pensando sobre esse tema há um bom tempo: a decadência das artes e o esvaziamento do conceito de “cultura”. Ao observar pela primeira vez esse fenômeno, eu timidamente o chamei de “revolução da simplificação”. Tempos depois, já convencido por A mais B de que de fato isso estava acontecendo, chamei de “ditadura da mediocridade” (em uma entrevista para a FM Cultura de Porto Alegre com o querido amigo escritor Luis Dill, confira no link: https://www.facebook.com/sincronicidio/videos/1141766595933585/).

Pois bem, essa percepção que vinha me atazanando há tempos foi definida com muito mais elegância e precisão por Mario Vargas Llosa: “a civilização do espetáculo”, onde o entretenimento é o fim e a meta de toda e qualquer produção artística, de toda cultura, de toda política, de toda religião. Nada melhor que deixar o próprio autor explicar do que se trata:



A questão é muito complexa e suscita inúmeros questionamentos. Será que a função da arte como transcendência e libertação para o homem só pode ser acessada por uma pequena elite cultural? Será que as massas estarão sempre condenadas a “ralar no chão”, como são comandadas a fazer pelos atuais sucessos da música baiana (e brasileira e mundial, pois a mensagem de emburrecimento e alienação é sempre a mesma, só muda o sotaque)?

Lendo esse livro compreendi melhor muitos fenômenos bizarros de nossa atualidade, como por exemplo e principalmente a “estupidez arrogante”. Fomos levados a crer que tudo é a mesma coisa, em matéria de cultura e arte. Por exemplo: Anitta e Pablo Vittar são “a mesma coisa” que Chico, Caetano e Gil. Nora Roberts e E. L. James são “a mesma coisa” que Aldous Huxley ou Jorge Amado. Por extensão, tornou-se mera questão de “opinião” se a Terra é plana ou não, se houve ditadura militar no Brasil ou não e assim por diante. A opinião de um historiador ou cientista vale tanto quanto a de qualquer youtuber bombado, e talvez até menos: pois na civilização do espetáculo, não importa se algo é verdadeiro ou Fake News, mas apenas quantas curtidas e compartilhamentos recebeu.

Preciso registrar que discordei de duas posições do autor, no tocante às relações da cultura com a política e com a religião. No primeiro caso, ele condena a exposição exagerada dos podres dos políticos, que ao seu ver leva a uma descrença geral com a política e com a classe dos políticos. Eu acho que antes de mais nada não adianta muito discordar disso, pois não irá alterar as forças em curso. E sobretudo acredito que essa desmoralização total e absoluta dos políticos serve para a superação desse paradigma para lá de obsoleto: o futuro dirá.

Com relação à religião, Llosa comente o erro de todo ateu, ao confundir religião com espiritualidade. Todo ateu que conheci se coloca contrário a algum sistema religioso (geralmente a Igreja Católica), mas a espiritualidade é muito mais abrangente que qualquer religião. Afirmar que Deus não existe é tão anticientífico quanto afirmar que Ele existe, mas a maioria dos cientistas (não todos, felizmente) alegremente adere ao dogma de que Deus não existe, e é por isso que temos uma ciência desconectada da espiritualidade, que serve à ganância humana (ajudando a destruir o planeta) e não à meta da verdadeira sabedoria, que só poderia conduzir à felicidade de todos.

(coloco entre parênteses uma ironia: fiquei espantado com o vigor de Llosa ao discordar de pensadores como Foucault e Baudrillard, e no entanto eis-me aqui, discordando de Llosa!)

A conclusão que cheguei, ao término dessa leitura, é a de que estamos testemunhando “fim do mundo como o conhecemos”. Independente de toda a devastação que o homem está promovendo na natureza (que já está cobrando o seu preço), uma sociedade com a arte e a cultura decadentes certamente está com os dias contados. Só quero viver para ver o Novo chegando!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

quinta-feira, 7 de março de 2019

NUDEZ MORTAL – J. D. Robb (Nora Roberts)



Logo quando tomei conhecimento dessa série “Mortal”, escrita por J. D. Robb (pseudônimo de Nora Roberts, que por sua vez é pseudônimo de Eleanor Marie Robertson), minha primeira reação foi de repulsa. Aquela lista enorme de títulos (parece que já ultrapassam quarenta), todos com a mesma palavra “Mortal” (“Nudez Mortal”, “Glória Mortal”, “Fama Mortal”, “Êxtase Mortal” etc.) me dava a impressão justamente de algo produzido em série, em uma linha de montagem.

Contudo recentemente esse exemplar de “Nudez Mortal” (que descobri agora ser o primeiro da série) veio parar em minhas mãos, graças ao P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), no momento em que decidi ler alguns livros “Best-Seller”, como estudo. Fiquei mais interessado nessa leitura em particular ao descobrir que a série segue o gênero “romance policial futurístico”, o que despertou minha curiosidade. E comecei a ler.

O tal “romance policial futurístico” é exatamente isso: uma história policial ambientada no futuro. Achei interessante o recurso de descrever as tecnologias do futuro inseridas em um cotidiano onde as máquinas dão defeito ou simplesmente não funcionam. Esse recurso ajudaria a dar mais realismo e credibilidade à parte ficção científica, se não fosse utilizado com muita frequência pela autora.

A narrativa é bem leve, com predomínio de diálogos. A trama é extremamente clichê (serial killer que mata prostitutas e deixa recadinhos para a polícia etc.), adornada com os tais elementos futuristas (como por exemplo os crimes serem cometidos por armas de fogo, que na época da narrativa seriam relíquias de museu, pois teriam sido banidas há muitos anos). Intercalada com a trama de mistério, um incipiente romance entre a protagonista Eve Dallas e o lindo e charmoso milionário Roarke.

Isso tudo eu meio que já estava esperando. O que me surpreendeu foi encontrar certas passagens no livro como essas que destaco:

1) Ao ser informada que a primeira vítima (uma prostituta) foi morta na cama, Eve Dallas dispara:
“- Parece poético, já que ficar na cama era a sua finalidade.” (pág. 12)

2) Um homossexual é descrito de forma irônica e chamado de “espantalho elaboradamente vestido”. (pág. 20)

3) Eve pergunta a um suspeito/paquera se ele gosta de ópera, e o sujeito responde:
“- Detesto. Dá para imaginar algo mais chato do que uma mulher gorda e peituda berrando em alemão por metade da noite?” (pág. 40)

4) Cena de sexo entre uma prostituta (a próxima vítima) e o assassino misterioso. O homem agride a mulher, e ela tem esse pensamento:
“Não lhe importava se ele a estava machucando ou não. Ela se vendera para ele.”

Vou tentar dizer com cuidado o que essas passagens e o climão do livro como um todo me sugeriram. Em minha opinião os livros de J. D. Robb são escritos visando um público bastante específico, formado principalmente de mulheres (mas não excluindo homens) com opiniões bastante conservadoras a respeito de moralidade e sexo, e que se sentem intimidadas por obras de arte ou da chamada “alta cultura”. Ao chegar a essa conclusão, fiquei curioso para ver como a questão racial seria tratada. Mas não aparece nenhum personagem negro até a página 77 – que foi quando eu decidi que a vida é muito curta para gastar em livros como esse.

Fiquei com a impressão de que o olhar da autora, na contracapa do livro, é de profundo desdém e escárnio por seu fiel público leitor.



\\\***///

O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
http://caligoeditora.com/?page_id=98
 
eBook:

https://www.amazon.com.br/dp/B07CBJ9LLX?qid=1522951627&sr=1-1&ref=sr_1_1
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