sábado, 28 de março de 2020

AMOR DIMENSÃO 5



As pessoas que se habituam a ler apenas os últimos lançamentos da moda não fazem ideia do deleite que é vasculhar algum sebo (ou, no meu caso, as estantes do P.U.L.A. – Passe Um Livro Adiante) e se deparar com estranhas preciosidades como “Amor Dimensão 5”, antologia de ficção científica publicada em 1969 pela GRD, editora soteropolitana. Eu, particularmente, considero uma delícia ler histórias sobre o futuro escritas no passado: elas trazem um sabor único, inigualável, que é uma mistura de ingenuidade e presciência, de nostalgia e assombro.

Um ótimo exemplo é o conto “Amor & Cia”, de Robert Sheckley. O autor imaginou um futuro onde, por um lado, ainda teríamos filmes como  “Tarzan Contra as Mulheres-Vampiro” e, por outro, onde o capitalismo selvagem chegaria ao ponto de tornar legal a compra e venda de qualquer coisa, fosse um assassinato...  ou o amor verdadeiro.

Dois dos sete autores presentes na coletânea são monstros sagrados da FC: Isaac Asimov (com o ótimo “Numa Boa Causa”, que eu certamente li em algum outro livro do Bom Doutor) e Ray Bradbury (com o desconfortavelmente atual “Rondam Tigres”, que fala da ganância dos homens ao devastar os recursos planetários, dentre outros assuntos fascinantes).

“Em Busca de São Tomás de Aquino”, de Anthony Boucher, traz uma interessante distopia de uma tecnocracia que persegue a religião, além de uma curiosa invenção: o robasno (será “robass” ou “robotass” no original?). Já “A Zebra Empoeirada”, de Clifford Simak, é uma bem-humorada historieta sobre trocas interdimensionais.

“Os Sonhos São Sagrados”, de Peter Phillips, destaca-se por ter cometido uma falha que autores mais experientes (como os colegas de coletânea Asimov e Bradbury) sabiam melhor  como evitar: descrever de forma minuciosa uma tecnologia fictícia, ficando vulnerável a uma rápida desatualização diante do inexorável avanço da ciência. Se o autor tivesse se esmerado menos em descrever como sua viagem ao inconsciente alheio funciona, sua história teria envelhecido melhor.

Por fim, o conto que fecha a coletânea: “A Função Cria o Orgasmo”, da autora francesa Belen. Não consegui descobrir nada sobre ela, mas por essa amostra gostei muito. Belen consegue a proeza de escrever um autêntico conto de FC extremamente feminino, audacioso (ainda mais para a época) e libertário.

Muito legal saber dessa editora GRD, que publicou contos de FC de tal qualidade em plena ditadura militar e ainda por cima na minha querida cidade de Salvador, Bahia!

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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”


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sábado, 21 de março de 2020

A VOLTA POR CIMA – Fernando Sabino



Peguei esse livro para ler intuitivamente, atraído pelo título e pela chamada da capa: “Tudo que acontece tem seu lado bom. Toda mudança é para melhor.” Esse otimismo me pareceu bastante salutar em nossos tempos de pandemia de coronavírus e, além do mais, sempre faz bem ler Fernando Sabino.

Só que, talvez por estar mais sensível a essas questões ultimamente, fui experimentando uma estranheza crescente: algumas crônicas me pareceram levemente machistas ou homofóbica. Digo “levemente” porque a prosa de Sabino é sobretudo elegante, então ficou apenas uma impressão sutil de que nos dias de hoje o autor talvez escrevesse aquelas crônicas de modo diferente (o livro é de 1990).

Então me deparei com uma crônica onde o próprio Sabino se define como “ranheta”, ao criticar duramente a juventude em termos bastante conservadores, que colocou em minha cabeça uma incômoda pergunta: “será que, caso estivesse vivo em 2018, Fernando Sabino teria votado no Bozo?”

Essa pergunta tornou-se crucial nos dias de hoje, e surge quase inevitavelmente toda vez que conhecemos alguém: “Em quem essa pessoa votou nas últimas eleições para presidente?” Contudo até então esse “X da questão” ainda não havia surgido para mim de forma retroativa, como foi provocado pela leitura de Fernando Sabino. Isso ficou de tal modo em minha mente que ao término da leitura fiz questão de assuntar alguma coisa a respeito na Internet. Imaginem a minha surpresa ao me deparar com o artigo de Henrique Balbi para a Revista Época, indagando justamente o que Fernando Sabino diria de Bolsonaro!

Encerro, portanto, citando os trechos mais marcantes:

“Como sempre, é um prazer relê-lo [Fernando Sabino]. A agilidade da sua prosa nos dá inveja, logo rebatida pelas risadas que Sabino sabe provocar como ninguém; em instantes, ele nos puxa para dentro de suas tramas, em que equívocos brotam a todo instante e em qualquer lugar; seus contos e crônicas, se é que podemos distingui-los, nunca soam datados.”

“Sabino disse não ter medo de Collor, mas vergonha – sentimento que alguns cidadãos, críticos a Jair Bolsonaro, compartilhamos.

“A tentação de imaginar o que Sabino diria hoje é imensa. (...) O que Sabino diria de Jair Bolsonaro, que naquele dezembro de 1989 se preparava para o primeiro mandato de sua carreira legislativa de quase trinta anos, como vereador pelo Rio de Janeiro? Só podemos especular, já que esta coluna não trabalha com psicografias.





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Contos da Era Bolsonaro - baixe o livro gratuitamente:

Foi disponibilizado gratuitamente nas plataformas digitais o livro “TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro”, de Fabio Shiva. Lançado pela Caligo Editora, o livro impresso pode ser adquirido na Amazon a R$20 (https://www.amazon.com/dp/B0851LYQVG), enquanto a versão para Kindle fica por R$ 4,35:

Mas o livro também está disponível para leitura online no Wattpad:

Quem preferir fazer o download gratuito do PDF, pode acessar o Recanto das Letras:

Os contos do livro nascem de uma perplexidade comum a milhões de brasileiros: como é que Bolsonaro foi eleito? Como é possível que, depois de tantos absurdos, ainda tenhamos parentes e amigos apoiando fanaticamente o governo? O que aconteceu com essas pessoas? O que aconteceu com o Brasil?

Para lidar com os horrores do obscurantismo que assola o país, precisamos mais do que nunca das luzes da Arte. E é assim que a Literatura Fantástica surge como uma resposta lúdica e inesperada diante de mesquinhas realidades.

Nas oito histórias aqui reunidas, Fabio Shiva explora os pontos cardeais desse grande enigma brasileiro:

* Será que o bolsonarismo surgiu de uma epidemia cósmica? - “O ódio que veio do espaço”
* Ou será tudo parte de um audacioso plano traçado na espiritualidade? - “Acima de todos”
* Será que isso implica no fim do mundo como o conhecemos? - “A espera”
* Como será o futuro dominado pelas Fake News? - “Notícias da Democracia”
* E o que aconteceria se ninguém mais pudesse mentir? - “Verdade e Consequência”

Que essas e outras incômodas perguntas aqui apresentadas possam fortalecer os leitores em seu processo de resistência vital contra o culto generalizado da morte: a morte da natureza, a morte da educação e da cultura, a morte da diversidade, do respeito e de tudo o que nos faz ter orgulho de sermos brasileiros. Contra as trevas da ignorância, salve a nossa Literatura!

quarta-feira, 18 de março de 2020

ENTERREM MEU CORAÇÃO NA CURVA DO RIO – Dee Brown



Esse foi um dos livros mais angustiantes que li na vida. Só senti um mal-estar assim com o “Arquipélago Gulag” de Soljenítsin. Cada página é um exasperante testemunho de nossa precária e bruta condição humana...

Nunca mais poderei assistir um filme de faroeste sem lembrar do massacre de Sand Creek, quando um regimento de soldados assassinou centenas de mulheres e crianças indígenas, para depois mutilar seus corpos, cortando os genitais das vítimas e colocando como enfeites de seus chapéus! Nove homens brancos morreram e trinta e oito ficaram feridos nesse massacre, a maioria em decorrência de disparos dos próprios soldados, pois estavam bêbados quando partiram para o “combate”. Essa cena, sucintamente descrita em duas páginas, sintetiza a essência do livro, bem como toda a história do extermínio dos nativos americanos originais, privados de suas terras, de seu modo de vida e por fim de suas próprias vidas pela ganância do homem branco.

História essa que guarda dolorosas semelhanças com situações que vivemos hoje em dia, aqui mesmo no Brasil. Para justificar sua cobiça pelo ouro e pela devastação da natureza, o homem branco criou uma ideologia que justificasse e tornasse nobre (ao menos aos seus próprios olhos) todos os crimes cometidos contra os povos indígenas: a doutrina do “Destino Manifesto”. A partir daí, foi progressivamente demonizando a figura do índio como uma “ameaça vermelha”, que deveria ser exterminada a todo custo:

“Vim para matar índios e acho que é certo e honroso usar qualquer modo sob o céu do Senhor para matar índios.” (fala do coronel Chivington)

Sabe essa história de “Bandido bom é bandido morto”? Teve sua origem no Velho Oeste, quando Tosawi, da tribo dos arapahos, foi se render ao poderoso general Sheridan e disse, em um inglês trôpego: “Tosawi, bom índio.” A resposta do general foi implacável: “Os únicos índios bons que já vi estavam mortos.” A frase logo se popularizou como “Índio bom é índio morto” e, infelizmente, ainda é pronunciada em nossos dias (substituindo-se o índio pela “ameaça” que se deseja exterminar).

“Deixem-nos matar esfolar e vender até que o búfalo tenha sido exterminado, pois esse é o único modo de conseguir paz duradoura e permitir a civilização progredir.” (Resposta do general Sheridan a um grupo de cidadãos texanos preocupados com a extinção do búfalo nas mãos dos caçadores brancos)


Estava eu no meio dessa pesada leitura quando recebi uma espécie de revelação. Esse livro é uma excruciante evidência do quanto é difícil para o ser humano conviver de forma pacífica com o diferente. Quando duas culturas diversas entram em contato, ao longo da história, tem sido inevitável que uma delas sucumba diante da outra. E então chegou a epifania, que me levou dos irmãos indígenas aos irmãos de outros planetas: talvez essa nossa imaturidade ao lidar com a diversidade seja um dos grandes motivos para a presença extraterrestre ainda não ter sido amplamente divulgada. A descoberta de povos alienígenas, em sua maioria muito superiores aos terrestres, significaria talvez a extinção da cultura humana, em nosso atual nível de consciência. Antes eu sonhava com o dia em que os ETs se mostrassem à humanidade como significando o fim de toda intolerância étnica, religiosa ou de gênero. Agora percebo que enquanto formos intolerantes, não estaremos prontos para esse encontro com nossos irmãos das estrelas.

Voltando ao Velho Oeste, nem todos os brancos concordavam com as insanidades e atrocidades disfarçadas como missão divina:

“Pois uma nação poderosa como a nossa estar realizando uma guerra contra uns poucos nômades isolados, em tais circunstâncias, é um espetáculo muito humilhante, uma injustiça sem paralelo, um crime nacional muito revoltante que deve, mais cedo ou mais tarde, atrair sobre nós ou nossa posteridade o julgamento do Céu.” (trecho do relatório do coronel ‘Suiças Pretas’ Sanborn ao governo americano)

“É muito frequente (...) jornais fronteiriços disseminarem toda espécie de exageros e falsidades sobre os índios, o que é copiado em jornais de elevado conceito e ampla circulação (...) enquanto o lado índio do caso é raramente divulgado. Dessa forma, as pessoas ficam com ideias falsas sobre a questão.” (fala do comandante Crook sobre as Fake News disseminadas contra os indígenas para justificar os roubos de terra e os massacres).


A atual pandemia do Coronavírus, quem sabe, talvez nos ensine algo da antiga sabedoria indígena: todos os homens são irmãos, filhos do mesmo Pai.

“Touro Sentado (...) não podia compreender como os brancos poderiam ser tão indiferentes aos seus pobres.”


Trailers do filme inspirado no livro:


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terça-feira, 17 de março de 2020

UM ROSTO NO COMPUTADOR – Marcos Rey



Sou fã de longa data da prosa fácil e envolvente de Marcos Rey. Paixão que começou ainda menino, com a leitura dos clássicos da Coleção Vagalume: “Mistério no Cinco Estrelas”, “O Rapto do Garoto de Ouro”, “Sozinha no Mundo” e “Um Cadáver Ouve Rádio”. Depois tive a bela oportunidade de ler suas obras para o público adulto, e gostei mais ainda: “Confissões de um Gigolô”, “Ópera de Sabão” e “A Arca dos Marechais”.

Dito isso, explica-se minha alegria ao me deparar com esse “Um Rosto no Computador”, que traz a mesma turminha de detetives Leo, Gino e Ângela, que tantas emoções trouxeram à minha infância. Contudo acabei achando a história meio mais ou menos, nem de longe tão empolgante quanto as outras. É boa o suficiente para manter o leitor interessado até o fim, mas se você ainda não leu nada de Marcos Rey, sugiro que coloque esse livro no fim de sua lista.

Sobretudo não gostei de um spoiler totalmente desnecessário de “O Colecionador”. Como tantas outras histórias escritas depois dessa sombria obra-prima de John Fowles, a narrativa de “Um Rosto no Computador” foi influenciada por “O Colecionador”. Talvez no desejo de tornar explícita essa influência, Marcos Rey coloca uma personagem de sua história assistindo ao filme que foi feito a partir do livro de Fowles. Poderia ter parado por aí, mas fez questão de contar a história praticamente toda em um parágrafo perfeitamente dispensável. Ô louco, Marcão, o que foi que te deu? Orra, meu, esse spoiler foi uma puta sacanagem!

Feito o meu desabafo, quero deixar claro que continuo sendo fã de Marcos Rey!


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Agora disponível gratuitamente no Wattpad, LABIRINTO CIRCULAR / ISSO TUDO É MUITO RARO é um livro duplo de contos estruturados como seis pares de “opostos espelhados”. São ao todo doze histórias que têm como fio condutor a polarização entre o Olhar e a Consciência (representados nas capas do livro como as pupilas sobrepostas e o cérebro, respectivamente) e que abordam, cada uma a seu modo, alguns dos antagonismos essenciais: Amor e Morte, Cotidiano e Fantástico, Concreto e Absurdo. Um exercício literário para mentes inquietas e questionadoras.


LABIRINTO CIRCULAR


ISSO TUDO É MUITO RARO


terça-feira, 10 de março de 2020

NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL – Gabriel García Márquez



Este livro é um luminoso testemunho do poder da Literatura. Segunda (ou terceira, segundo a Wikipédia) obra de García Márquez, foi escrita em 1957, quando o autor, aos 29 anos, trabalhava como jornalista em Paris. Gabo enfrentava nessa época uma depressão causada pela nostalgia de sua Colômbia natal, agravada por sérias dificuldades financeiras.

Não é preciso saber desses detalhes biográficos do autor para considerar “Ninguém Escreve ao Coronel” uma pequena e concisa joia da literatura mundial. Ter em mente o contexto no qual a obra foi escrita, contudo, só faz aumentar nossa admiração pelo grande talento de García Márquez e, sobretudo, pela capacidade que a Literatura tem de ressignificar as dores da vida.

Pois o Coronel da narrativa, assim como o seu criador, enfrenta sérias penúrias financeiras e afetivas. Ele divide com a esposa asmática as angústias de um futuro cada vez mais incerto e sombrio, à espera da pensão prometida pelo governo há anos e que nunca chega. Na casa esvaziada dos bens, que foram vendidos um a um, só lhes resta um último tesouro: o galo de rinha, herança do filho morto por um soldado quando divulgava material subversivo.

Por aí já se vê como Gabo transpôs para a fictícia Macondo suas dores muito reais. E o mais belo é ver como ele trata essas dores, com ironia, graça e mesmo ternura! Outro ponto que chama a atenção é justamente a ambientação em Macondo, inclusive com referências a Aureliano Buendia e a episódios que farão parte do colossal romance “Cem Anos de Solidão”, que só seria escrito dez anos depois de “Ninguém Escreve ao Coronel”. Coisa de gênio!




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domingo, 8 de março de 2020

O ÚLTIMO VOO DO FLAMINGO – Mia Couto




“O último voo do flamingo fala de uma perversa fabricação de ausência – a falta de uma terra toda inteira, um imenso rapto de esperança praticado pela ganância dos poderosos. O avanço desses comedores de nações obriga-nos a  nós, escritores, a um crescente empenho moral. Contra a indecência dos que enriquecem à custa de tudo e de todos, contra os que têm as mãos manchadas de sangue, contra a mentira, o crime e o medo, contra tudo isso se deve erguer a palavra dos escritores.”
(Palavras de Mia Couto ao receber o Prêmio Mário Antonio, da Fundação Calouste Gulbenkian, em 12 de junho de 2001)

Cada encontro com Mia Couto é uma nova surpresa. Da primeira vez que ouvir falar em seu nome, julguei que se tratasse de uma mulher, mas logo descobri que era um gajo. Então, ao sabê-lo moçambicano, imaginei-o negro e (não sei bem porque) muito alto e magro. Ao ver uma foto sua, contudo, descobri que ele está mais para o Professor Sergio de “A Casa de Papel”. E por fim, depois de ter lido várias citações de seus textos, peguei um livro seu para ler, com a expectativa de encontrar excelente Literatura. E descobri muito mais!

“O Último Voo do Flamingo” superou todas as minhas expectativas. Uma prosa feita de provérbios entrelaçados como as contas de um rosário, uma narrativa que é capaz de nos enternecer e fazer sorrir mesmo ao denunciar horríveis desumanidades, um uso tão peculiar da língua portuguesa que nos faz crer que o autor habita em seu próprio país, onde se fala um idioma que ansiamos aprender.

Trailer do filme “O Último Voo do Flamingo”:


E isso tudo é só o começo. Qualquer leitor dessa obra magnífica encontrará os encantos que resumi acima. Eu, contudo, tive a ventura de vivenciar uma experiência mística na leitura, tamanho foi o impacto que senti ao longo dessas páginas. Foi uma experiência que falou diretamente ao escritor em mim, mais que ao leitor, em uma jornada que se iniciou, talvez, com a extasiada leitura de “Cem Anos de Solidão” de García Márquez, que pela primeira vez descortinou as possibilidades do realismo mágico. E que prosseguiu com o feliz encontro com a Literatura Fantástica de Julio Cortázar, culminando finalmente com esse arrebatamento que foi ler Mia Couto. Existem livros para todos os gostos, é certo. Mas hoje estou convencido de que os livros que querem sair de mim desejam falar de um mundo que só se faz possível através da Literatura e ter, sempre, a missão de ajudar a mim mesmo (e a toda a humanidade, por extensão) a me tornar maior e melhor. Gratidão!


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sábado, 29 de fevereiro de 2020

MORTE DE UM HOLANDÊS – Magdalen Nabb



Ao final do livro encontramos uma breve biografia da autora, onde se lê:

“Magdalen Nabb nasceu em Lancashire em 1947 e se formou ceramista. Em 1973, abandonou a cerâmica, vendeu a casa e o carro e se mudou para Florença com o filho, sem mesmo conhecer ninguém e sem falar italiano, para se dedicar à carreira de escritora de tramas policiais e de livros infantis. Faleceu em 2007.”

Essa vida tão original está intimamente conectada à obra da autora. “Morte de um Holandês” é o segundo volume de uma série de romances policiais ambientados em Florença e protagonizados pelo Marechal Guarnaccia. O cenário florentino é muito presente na história, com vívidas descrições não só de locais como de costumes. Para a autora, Florença é “uma cidade muito secreta”.

Tudo isso contribui para compor uma história policial bem diferente do usual, mas a originalidade está presente em cada detalhe, com destaque para uma galeria de personagens marcantes como a velha Signora Giusti, uma nonagenária malévola, mentirosa e muito egoísta – e, ainda assim, estranhamente cativante.

Para não dizer que tudo é inovação em “Morte de um Holandês”, encontrei ecos do Comissário Maigret, de Georges Simenon, no Marechal Guarnaccia de Magdalen Nabb. Digamos que o Marechal é um Maigret com menos autoconfiança. Essa semelhança, que de forma alguma é um demérito, fica muito evidente na cena da insólita perseguição  pelas ruas de Florença, que me lembrou um dos melhores contos de Maigret.

Foi uma leitura bastante agradável, que não decepcionou em momento algum. Contudo, desconfio que a vida da autora tenha sido ainda mais fascinante que sua ficção...



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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
 
Book trailer:



 

sábado, 22 de fevereiro de 2020

TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro - Fabio Shiva



Contos da Era Bolsonaro - baixe o livro gratuitamente:

Foi disponibilizado gratuitamente nas plataformas digitais o livro “TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro”, de Fabio Shiva. Lançado pela Caligo Editora em pleno carnaval 2020, o livro impresso pode ser adquirido na Amazon, enquanto a versão para Kindle fica por R$ 4,35:

Mas o livro também está disponível para leitura online no Wattpad:

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

OS RATOS AMESTRADOS FAZEM ACROBACIAS AO AMANHECER – Políbio Alves



Incrível como um livro tão fininho pôde suscitar tantas reflexões sobre a Literatura!

Fui atraído inicialmente pelo insólito título e também pela sincronicidade, pois acabo de finalizar um livro de contos (a ser lançado brevemente) cujo título me pareceu ter a mesma métrica deste: “Tanto Tempo Dirigindo Sem Ninguém No Retrovisor”. Então notei que o livro foi laureado com o 1º lugar no Prêmio Literário Augusto dos Anjos (FUNESC – 2013), o que aumentou minha curiosidade.

O texto foi uma completa surpresa. Não sei bem o que eu esperava, mas decerto não era aquele hermetismo denso de noite sem lua, a ponto de às vezes parecer que o autor estava brincando de falar só consigo mesmo. Li os primeiros dois contos (“As moças do sobrado” e “Meteorango dia”) dividido entre a admiração e a irritação. Então tomei a decisão de ler atentamente o terceiro conto, “As miudezas cotidianas”, determinado a me esforçar ao máximo para decifrar o código proposto pelo autor. Lá pela metade do conto, imaginei risonho que a história poderia ser interpretada como um troca-troca entre o protagonista e seu primo Luciano. Ao chegar ao fim do conto, confirmei o inesperado enredo com a mesma alegria de quem descobre o assassino em um livro de Agatha Christie! Daí em diante, consegui perambular tranquilo pelo universo semântico de Políbio Alves.

“Esse texto escrevi. Com fôlego. Não é outra coisa. É real, dizem. Em suma, pensado. Incomoda. Eu sei. Desordena qualquer conjectura. Embora tenha reinventado tudo. Estritamente infestado do cotidiano. Vertiginoso. Deve ser isso. Numa só reencarnação escolástica de estrosa ousadia. Claro. Só para espantar as pessoas.”

Achei digna e muito válida a proposta literária do autor, e celebro a existência de um Prêmio Literário que reconheça tais iniciativas. Não se trata de uma leitura fácil, sequer agradável. Mas quem foi que disse que a Literatura tem que ser fácil e agradável?

Como escritor, tenho buscado escrever da forma mais direta e simples possível. O que não me impede de apreciar algo que trilha caminhos totalmente diversos, e de considerar muito necessário e valioso esse lembrete de que a Arte de modo geral e a Literatura em particular também precisam incomodar, cutucar feridas, nos arrancar a tapas de nossa zona de conforto. Pois tenho notado muitos leitores que parecem ficar ofendidos quando o autor expressa algo que vai além de seu sistema de crenças, ou mesmo ousa experimentar algo criativo, que obriga a algum esforço mental a mais. O que me faz lembrar os proféticos versos de Kurt Cobain em seu hino “Smells Like a Teen Spirit” (https://youtu.be/hTWKbfoikeg):


“I feel stupid and contagious
Here we are now, entertain us
[“Eu me sinto estúpido e contagioso
Aqui estamos, entretenha-nos”]

Pelo bem da humanidade, penso que a Literatura pode e deve ser mais que mera e inócua diversão. Gratidão a Políbio Alves por nos lembrar disso. E salve nossa Literatura Brasileira!


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sábado, 15 de fevereiro de 2020

AS PALAVRAS OCULTAS – Bahá’u’lláh



Bahá’u’lláh foi o nome adotado pelo iraniano Mírzá Husayn-'Alí (1817-1892) ao proclamar ser o Mensageiro Divino anunciado nas profecias e ao fundar a Fé Bahá'í. “As Palavras Ocultas”, escrito em 1858, foi descrito pelo autor como contendo os versos revelados a Fátima, filha do fundador do Islã Maomé, pelo Espírito Santo personificado no Arcanjo Gabriel.

O livro é dividido em duas partes, Árabe (com 71 versos) e Persa (82 versos), dentre os quais reproduzo o verso 44 do Persa, que me marcou especialmente:

“Ó COMPANHEIRO DE MEU TRONO!
Nenhum mal deves tu ouvir, nem ver; não te rebaixes, nem suspires, nem chores. Nenhum mal deves falar, para que não o ouças falado a ti; nem aumentes as faltas alheias, a fim de que as tuas próprias não se afigurem grandes. Não desejes a humilhação de ninguém, para que não se torne evidente a tua própria humilhação. Vive, pois, os dias de tua vida, os quais são menos de um momento fugaz, mantendo sem mancha a tua mente, imaculado teu coração, puros teus pensamentos e santificada tua natureza, de modo que, livre e contente, possas abandonar essa forma mortal, recolher-te ao paraíso místico e habitar, para todo o sempre, no reino eterno.”

Tais ensinamentos, como praticamente tudo o que li nessa bela obra, poderiam perfeitamente ter sido pronunciados (com pequenas diferenças de linguagem) por Jesus, Krishna ou Buda. É muito reconfortante e inspirador confirmar, vez após outra, que todas as religiões foram fundadas sobre as mesmas verdades essenciais. Perceber a unidade fundamental por trás das diferenças superficiais é trilhar de fato o caminho ensinado pelos grandes mestres. Toda briga em nome de Deus nasce apenas da cegueira do ego, e só pode conduzir ao sofrimento e à ignorância.

Essa percepção de que todas as religiões falam do mesmo e único Deus, cada uma a seu modo, deveria ser como um farol a guiar o caminho na interpretação das escrituras de todas as religiões. Confio que será assim que as pessoas estudarão os textos sagrados, em um futuro não muito distante. Essa abordagem plural pode nos livrar de grandes perigos.

Por exemplo, se consideramos o Verso 45 (e os dois seguintes) da parte Árabe, sem fazer uma referência cruzada a outras escrituras, podemos ser levados a interpretações radicalmente opostas:

“Ó FILHO DO SER!
Busca a morte de mártir em Minha senda, satisfeito com Meu prazer e grato por aquilo que Eu ordeno, para que Comigo possas repousar, sob o dossel da majestade, atrás do tabernáculo da glória.”

Uma interpretação literal desse verso pode levar a grandes erros. Contudo consideremos uma famosa fala de Jesus: “Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por minha causa, este a salvará.” (Lucas 9:24, e também Mateus 16:25 e Marcos 8:35). Aí teremos condições de interpretar sob nova e auspiciosa luz o conceito do Jihad, a “Guerra Santa”, que deveria ser travada no interior de cada homem (exatamente como a guerra descrita no Mahabharata hindu), entre seu lado egóico e seu lado divino. E não, de modo algum, uma guerra entre “fiéis e infiéis”. Seria um Deus muito pequeno alguém que desejasse que os homens se matassem (ou mesmo se ofendessem) em Seu nome.

Detalhe: por grande sincronicidade, li esse livro logo após assistir à excelente série “Messiah” (https://www.netflix.com/br/title/80117557) no Netflix.



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!

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