sexta-feira, 4 de outubro de 2019

VIAGEM AO ORIENTE – Hermann Hesse



Por incrível que pareça, reler Hermann Hesse me ajudou a ter mais empatia pela absurda figura de nosso atual presidente. Pois percebi que o que Bolsonaro sente por Trump deve ser algo parecido com o que sinto por Hermann Hesse. Se tivesse a oportunidade de chegar perto desse grande escritor, mesmo correndo o risco (muito provável) de ser desprezado, bem que eu gostaria de gritar a plenos pulmões: “I love you, Hesse! Ich liebe Dich!”

Li pela terceira vez, tomado de profunda emoção, essa obra-prima da Literatura Mundial. Considero “Viagem ao Oriente” talvez o mais acessível dos livros de Mahatma Hesse, certamente um dos mais indicados como primeiro contato com o mundo de profundo simbolismo e espiritualidade desse esplêndido autor.

Ao pensar em outras das magníficas obras de Hermann Hesse, tomei consciência de que li duas vezes várias delas: o instigante “Demian”, o abissal “Lobo da Estepe”, o inefável “Sidarta” e o colossal “O Jogo das Contas de Vidro”. Ao ler pela terceira vez justamente “Viagem ao Oriente”, que considero a porta de entrada para o mundo de H.H., penso que é chegada a hora de encetar mais uma vez essa inebriante e desafiadora jornada através de mim mesmo. Pois essa é a grandiosidade ímpar de Hesse: ele é cristalino espelho d'alma, capaz de refletir os recônditos mais profundos de nosso ser. Por isso sua leitura nem sempre é fácil, pelo contrário, muitas vezes é verdadeiramente angustiante. Mas sempre é válida e preciosa.

Fiquei surpreso com o fato de ter ficado tão envolvido na leitura, mesmo sendo a terceira vez. A um determinado ponto, cheguei a prender a respiração, de tanto suspense. É que estava para chegar a uma das frases que mais marcaram minha vida, desde que a li pela primeira vez:

“(...) a vida não passa de um jogo. É exatamente isso a vida, quando é bela e feliz... um jogo! É claro que se podem fazer muitas outras coisas, transformá-la em dever, em campo de batalha, em prisão, mas isso não a torna mais bela.”

Outra surpresa foi encontrar essa frase:
“As crianças vivem em uma das margens do desespero; os lúcidos, em outra.”

Não lembrava dela, mas de alguma forma esse ensinamento ficou guardado em meu coração, tanto que assumiu a forma desse poema, recentemente publicado na antologia “Poesia de Botão”:

SUR LA JOIE

A alegria
É para os inocentes
E para os inteligentes.

A alegria
É para as crianças
E para os capazes.

Outras belas passagens de “Viagem ao Oriente”:
“Toda a história universal parece-me resumir-se em um livro de ilustrações que retrata o desejo mais ardente e absurdo da humanidade – o desejo de esquecer. Não vemos que cada geração, através de repressões, disfarces e ridículos, destrói tudo aquilo que a anterior julgava mais importante?”

Citando o poeta Novalis:
“Para onde caminhamos sempre? Para casa!”

“(...) vivíamos como peregrinos e não fazíamos uso dos expedientes que surgem em um mundo iludido pelo dinheiro, tempo e cifras, que tiram todo o sentido da vida.”

“Quando perdemos algo precioso e irrecuperável, temos a sensação de haver despertado de um sonho.”

“Quem desejar viver muito deve servir, mas aquele que desejar governar não viverá por longo tempo.”

Sobre a motivação para escrever:
“Ou escrevia o livro, ou via-me tomado pelo desespero; era o único meio de escapar da inanidade, do caos e do suicídio.”

Fiquei muito grato e feliz ao perceber que continuo, sim senhor, fazendo parte da Confraria “Só Para Loucos, Só Para Raros” e empreendendo com muito gosto a Viagem ao Oriente!


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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

O jogo POESIA DE BOTÃO faz parte do projeto selecionado pelo Edital Arte Todo Dia – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura de Salvador), com apoio de Athelier PHNX, Verlidelas Editora, Caligo Editora, Suporte Informática e AG1. O propósito do jogo é convidar as crianças a vivenciar o universo da Poesia de forma lúdica e atrativa, como uma “brincadeira de montar versos”. POESIA DE BOTÃO é especialmente indicado para crianças já alfabetizadas, mas nada impede que adultos possam brincar também e se beneficiar com o jogo.





quarta-feira, 2 de outubro de 2019

ÂNIMA – Gleidson Riff



Gostei muito dos poemas do amigo Gleidson Riff, reunidos nesta obra cujo título já é tão poético e repleto de simbolismo. E o melhor é que os poemas fazem jus ao título, expressando fragmentos da alma do poeta em seu lírico desnudamento.

A poesia de Riff saboreia aliterações e trocadilhos, buscando no embate sonoro, talvez, que as palavras se rompam ao se chocar umas contra as outras, permitindo que delas escorra o mel de novos e profundos sentidos... esse é o tipo de magia que só na Poesia se faz possível.

Algumas imagens aqui evocadas são muito sugestivas, como:

“Até agora o asfalto
que a bicicleta lambia
ressoa o grito.”

Outras passagens são fortes, até assustadoras:

“Um novo dia se apressa
no umbral do saguão
e um deus vomita sobre minha cabeça
e corrói meu cérebro
e abre vielas sobre os despojos
de uma melancolia inútil.”

O que há de comum em todos os poemas é a autenticidade, a primeira e fundamental qualidade de todo verdadeiro artista. Bravo! E viva a Poesia!






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sexta-feira, 27 de setembro de 2019

OUTROS TEMPOS, OUTROS MUNDOS – Robert Silverberg



Algumas leituras somam não tanto pelo que proporcionam, e sim pelo que lhes falta. Ler essa antologia de contos foi para mim uma verdadeira aula de escrita, principalmente onde me senti frustrado!

Um ponto positivo certamente se destaca: Robert Silverberg possui muita imaginação! As ideias que motivam os dez contos desse livro são bastante instigantes, como por exemplo: um computador psicólogo que começa a enlouquecer (“Um descer suave”), um golfinho inteligente que se apaixona pela humana que é sua colega de trabalho (“Ismael apaixonado”), o sobrevivente de um acidente espacial que é reconstruído por uma raça superior e enviado de volta à Terra como um experimento científico...

Contudo o que mais me chamou a atenção nessa leitura foi o que ficou faltando em cada uma dessas histórias, que foi justamente a história em si, propriamente: uma certa maneira de organizar e apresentar a sequência de acontecimentos em um arco dramático, de modo a gerar no leitor as emoções associadas à leitura de um bom conto. O que senti aqui, em todos os contos, foi um encantamento inicial pela inventividade da ideia, seguido pela expectativa de como o tema seria trabalhado pelo autor, culminando em uma fria frustração, quando constatava que a narrativa terminava dando a impressão de não ter chegado a lugar nenhum.

O melhor exemplo disso está no primeiro conto, “O homem que jamais esquecia”, por justamente apresentar o mesmo tema de um espetacular conto de Jorge Luis Borges, “Funes, o Memorioso”. Comparar a história de Silverberg e a de Borges é como colocar lado a lado o desenho de uma mulher feito por um talentoso iniciante e a “Mona Lisa”. Resumindo: como autor de ficção científica Robert Silverberg é ótimo na parte da ciência, mas não tanto na da ficção...

Um detalhe que achei interessante: o título em português não tem nada a ver com o original, “Parsecs and Parables”, mas me pareceu bem mais atraente e sugestivo!

Não quero passar uma impressão errada: foi divertido ler esse livro. Estou enfatizando o que me desagradou na leitura porque foi justamente o que mais me trouxe aprendizado como escritor. Ou seja, a parte que eu mais gostei foi a que eu não gostei!


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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”


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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

A CASA DAS BELAS ADORMECIDAS – Yasunari Kawabata



Tocante. Surpreendente. Instigante.

Essas são as palavras que me ocorrem para descrever essa inesperada narrativa sobre um bordel frequentado apenas por velhos decrépitos e “inofensivos”, que passam a noite com jovens nuas narcotizadas, ao ponto de permanecerem inconscientes não importa o que se faça com elas...

Yasunari Kawabata (https://pt.wikipedia.org/wiki/Yasunari_Kawabata), prêmio Nobel de 1968, arrebata o leitor em sua estranha história, repleta de sugestões poéticas e profundas reflexões sobre o mundo feminino:

“Entretanto, o velho divagava, refletindo sobre como era possível que, dentre todos os animais, somente a forma dos seios da mulher tenha adquirido, após longa evolução, um formato tão belo. O esplendor alcançado por eles não seria a própria glória resplandecente da história do ser humano?”

“Afinal, qual seria a pior maldade de um homem contra uma mulher? (...) Seu próprio casamento e a criação das filhas certamente eram considerados boas ações. No entanto, o tempo, o longo tempo em que ele supervisionou e teve poder sobre a vida dessas mulheres, ou até mesmo deformado suas personalidades, poderia ser considerado um grande mal cometido. Talvez o sentimento do mal tivesse ficado anestesiado, confundido com costumes e ordens sociais.”

“Por mais desumano que seja o mundo, ele pode se tornar humano pelo hábito. Todas as depravações dissimulam-se na escuridão do mundo.”

“A mulher é infinita.”

Tomei um choque ao saber, ao final da leitura, que Kawabata se suicidou, aos 73 anos. É assustadora a quantidade de escritores que escolhem sair da vida pelas próprias mãos. Para exorcizar esse temor, escrevi há tempos o conto “O Armazém” (https://www.wattpad.com/567654057-labirinto-circular-o-armaz%C3%A9m).

Gratidão ao querido professor Carlinhos Santos da Silva pelo carinho de me presentear com esse livro tão pleno de Literatura!




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domingo, 22 de setembro de 2019

O HOMEM À PROCURA DE SI MESMO – Rollo May



Li há muitos anos “Eros e Repressão”. Em resumo, Rollo May faz nesse livro uma comparação entre a sociedade vitoriana e a sociedade de sua época moderna (por volta dos anos 1950), mostrando que nos dois casos há uma incapacidade patológica de lidar com o sexo. Na era vitoriana, o sexo era reprimido de forma doentia, assim como na era moderna o sexo é exacerbado de forma doentia. Foi uma leitura que me marcou profundamente, e cujos ensinamentos têm me ajudado a entender muita coisa estranha que tenho visto desde então.

Por isso fiquei tão feliz ao me deparar com “O Homem à Procura de Si Mesmo”. Aqui a proposta do autor é mais abrangente e mais ambiciosa, como o próprio título do livro já mostra. Talvez por isso, algumas das ideias e argumentos desta obra de 1953 pareçam um pouco defasados a um olhar de 2019. Contudo, encontrei muito mais “gols certeiros” que “bolas para fora” nesse livro, e fiquei muito impressionado sobre como alguns trechos parecem ter sido escritos para descrever o Brasil de hoje:

“Quando uma nação é presa de insuportável crise econômica e se encontra vazia psicológica e espiritualmente o totalitarismo surge para preencher o vácuo e as pessoas vendem a liberdade pela precisão de livrar-se da ansiedade demasiado intensa.”

“A característica de um período de transição como o atual é precisamente o fato de todos fazerem perguntas erradas.”

“Outra prova de que as pessoas que renunciam à liberdade precisam odiar está evidente no fato de que os governos totalitários fornecem ao povo um objeto de ódio, sentimento gerado pela suspensão da liberdade.”

“Quando as pessoas se sentem ameaçadas e ansiosas tornam-se mais rígidas, e quando em dúvida tendem a tornar-se dogmáticas, perdendo assim sua vitalidade.”

“A perda da eficácia da linguagem, por estranho que pareça, é sintoma de uma época histórica conturbada.”

Além dessas passagens, anotei outras que pretendo reler no futuro:

“O fato central é vivermos num daqueles momentos da história em que um tipo de vida se encontra em agonia e outro começa a surgir, isto é, os valores e objetivos da sociedade ocidental encontram-se em estado de transição.”

O autor assinala que o que está em crise é o valor da competição:
“Aprendemos a esforçar-nos para passar à frente dos outros, mas na verdade o êxito de cada um depende muito mais, hoje em dia, de saber trabalhar em equipe.”

Sobre a perda do senso trágico na sociedade moderna:
“Pois a visão trágica indica que levamos a sério a liberdade do homem e sua necessidade de realizar-se; demonstra ainda nossa fé na ‘vontade indestrutível do homem para realizar sua humanidade’.”

“A ciência pode ser utilizada como fé rígida e dogmática, por meio da qual a pessoa foge à insegurança emocional e às dúvidas, ou pode ser uma busca sincera de novas verdades.”

“O homem moderno perdeu em grande parte a capacidade de crer e afirmar qualquer valor.”

Citando Meister Eckhart: “Ninguém conhece a Deus antes de conhecer a si mesmo. Voe para a alma, o lugar secreto do Altíssimo.”

“Recebemos amor – tanto dos filhos, como de todos os demais – não na medida de nossas exigências, sacrifícios ou necessidades, e sim na proporção de nossa capacidade de amar.”

Citando um autor de sucesso: “Quem quiser ter sucesso escreva o que bem entender.”




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sexta-feira, 20 de setembro de 2019

ECOS HUMANOS – Ciberpajé e Eder Santos



Dá gosto de ver uma Graphic Novel tão primorosa sendo feita no Brasil! O roteiro é do querido artista multimídia Ciberpajé Edgar Franco e os desenhos são do talentoso e inspirado Eder Santos.


O que de imediato chama a atenção nessa belíssima história em quadrinhos, além da qualidade dos desenhos, é que não há uma única palavra de texto. Toda a narrativa é visual, profundamente simbólica e metafórica. A tal ponto que eu considero a obra, que desafia rotulações, como um tocante poema gráfico.


Outro fator que me marcou nessa leitura é o quanto a história se abre para uma diversidade de interpretações, sempre preferindo sugerir a afirmar. Ciberpajé consegue a proeza de aliar sutileza e provocação em sua narrativa, construindo uma trama que ao mesmo tempo nos emociona por sua delicadeza e nos instiga pelos questionamentos que proporciona. E o traço elegante de Eder Santos é o veículo mais que adequado para transmitir esse vigoroso lirismo visual.

E viva a nossa Arte Brasileira!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


domingo, 15 de setembro de 2019

STUPID WHITE MEN – Uma Nação de Idiotas – Michael Moore



Foi uma surpresa irresistível encontrar um exemplar desse livro, no original em inglês ainda por cima, na Mansão dos Livros de Itapuã. Levei e comecei a ler no mesmo dia.

Desde que assisti ao impactante documentário “Tiros em Columbine”, sou fã da inteligência ágil, do humor ferino, da impressionante capacidade de pesquisa e da imensa cara-de-pau de Roger Moore. Aliás, se você defende a posse de armas pela população, desafio você a assistir esse filme e continuar com a mesma opinião. Está disponível no YouTube: https://youtu.be/X5QwnQUqZeA


Sobre o livro: dei risada em alguns trechos, fiquei chocado em outros, senti muita raiva e até fiquei deprimido durante essa leitura. Publicado em 2001, o foco do texto é sobre os Estados Unidos durante os primeiros meses do governo de George W. Bush, ou seja, antes do “atentado” de 11 de setembro. Apesar desse recorte bem limitado, e da prosa hilariante de Moore, o livro oferece um nauseante passeio pela podridão generalizada de nossa Civilização Ocidental. O “vírus da estupidez branca”, tão vividamente descrito pelo autor, não atinge exclusivamente caucasianos do sexo masculino. É uma epidemia planetária que, lamento dizer, tem atingido de modo muito severo o nosso Brasil tão gloriosamente mestiço.

Terminei a leitura ainda mais convencido de como são ultrapassadas e inúteis as discussões sobre “esquerda” e “direita”. Tanto o capitalismo quanto o comunismo são ideias do milênio passado, que na prática se tornaram apenas variações da mesma e velha dominação e exploração do homem pelo homem e de desprezo por nosso planeta. Essas ideias caquéticas precisam ser urgentemente descartadas e substituídas por novas propostas. Tenho plena convicção de que podemos fazer melhor do que fizemos até aqui. Ainda há tempo. Mas precisamos nos apressar.




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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O NARIZ DO GENERAL – May Shuravel



Fui imediatamente atraído por esse livro ao encontrá-lo na Mansão dos Livros, belo projeto do querido amigo professor Carlinhos Santana. Contudo imaginei uma obra totalmente diferente, a julgar pelo título e pela capa: um libelo contra as mentiras que recentemente têm circulado nas redes sociais, negando os crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil.

Nada poderia estar mais distante do que encontrei ao ler “O Nariz do General”, uma singela e divertida narrativa infantojuvenil sobre uma cidadezinha que não tinha nada de belo, até que um dia aparece do nada uma bela estátua de um general, esculpida em mármore. A vida social da cidade passa a girar ao redor dessa estátua, até que acontece a tragédia: durante uma tempestade, o nariz da estátua é quebrado. O que se poderia fazer?

Enquanto a história segue, com um inspirador exemplo de superação, há uma narrativa paralela, que para mim foi a delícia maior dessa leitura: no começo de cada capítulo são apresentadas as cartas trocadas entre a autora May Shuravel e o ilustrador Yam, com grande senso de humor, até porque logo fica evidente que se trata da mesma pessoa (Yam é May ao contrário). Muito criativo e divertido!

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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O NATAL DE POIROT – Agatha Christie



Essa foi no mínimo a terceira vez (possivelmente a quarta!) que li esse livro. E só consegui descobrir o assassino na página 188 (de um total de 223). Como é que Agatha consegue me enganar assim, rapaz???

Tive alguns aprendizados preciosos nessa releitura. Quando avistei o livro no P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), peguei imediatamente. Mesmo lembrando que já havia lido, não lembrava ao certo da história. Logo de cara, contudo, o livro traz a citação de “Macbeth”, que é o mote da trama:

“Quem jamais poderia imaginar que aquele velho guardasse tanto sangue dentro de si?”

Ao ler essa frase, imediatamente lembrei de quase tudo, menos de um mero detalhe: a solução do mistério! Comecei a leitura achando que a qualquer momento iria lembrar de tudo e, então, abandonar o livro. Qual o quê! Fui mais uma vez capturado pela magia de Agatha, e inclusive larguei todas as minhas outras leituras paralelas para acabar logo de ler “O Natal de Poirot” pela terceira (ou quarta) vez.

Por que é tão fácil esquecer uma trama de Agatha Christie, se gosto tanto de ler os livros dela? De modo geral minha memória é excelente para livros: às vezes chego a lembrar a página de uma determinada citação! Nessa releitura tive a oportunidade de encontrar mais uma pista para desvendar esse meu intrigante paradoxo de fã.

É que em “O Natal de Poirot” e muitos outros livros da Rainha, os personagens são extremamente superficiais, rasos mesmo, e muitas vezes até incongruentes do ponto de vista psicológico. Ao terminar essa releitura, tive a sensação de que os personagens não passavam de figuras bidimensionais de cartolina... e é ótimo que seja assim! Creio que essa superficialidade dos personagens é um dos ingredientes do sucesso de Agatha, pois não nos desviamos do propósito essencial de seus livros, que é o jogo do detetive.

Ao pensar nessa descoberta, evoquei como comparação as histórias de P. D. James, que assim como Agatha é também uma respeitável senhorinha inglesa que se dedicava a escrever livros de assassinato e mistério. Contudo nos livros de P. D. James os personagens são complexos e profundos, chegando ao ponto de termos a figura de Adam Dalgliesh, um “policial poeta”. Os livros de James são incríveis, e certamente mais “literários” que os de Agatha. Contudo, no quesito “whodunit” (o jogo para descobrir quem matou) Agatha é (e, desconfio, sempre será) insuperável!


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 

sábado, 7 de setembro de 2019

BAHIA DE IAIÁ E DE IOIÔ: Crônicas de um Tempo que Passou – Giraldo Balthazar da Silveira



O professor Giraldo Balthazar da Silveira, nascido em Salvador no ano de 1886, foi um atento observador dos usos e costumes de sua terra. Muito estimado por seus alunos, a pedido deles começou a escrever um relato sobre a Bahia de sua infância, desse “tempo que passou”. Contudo a morte o levou antes que pudesse concluir o trabalho. Ainda assim, graças ao carinho e dedicação dos antigos alunos, as crônicas que escreveu foram reunidas em um singelo volume, acompanhadas por belas ilustrações.

Minha motivação principal ao ler esse livro foi encontrar relatos de expressões antigas, já não usadas na Bahia de hoje. Fui recompensado, especialmente na narrativa sobre os ritos fúnebres, quando tomei conhecimento do “banguê”, que era um carro funerário utilizado pelos muito pobres, que transportava os defuntos do hospital Santa Izabel para o cemitério, acompanhado pela cantiga inclemente do povo:

“Nêgo gêge quando morre,
Vai à tumba de banguê
E os parentes vão dizendo:
Urubu tem o que comê!”

Outro trecho delicioso trata de tipos populares como o “Macaco Beleza” (será que influenciou Raulzito a conceber o seu “Maluco Beleza”?). Há uma parte que descreve a discussão entre o figuraça Professor Gusmão e o poeta Manoel Tolentino, que o desacatou com essa quadra:

“A onça, bicho feroz,
Que tudo come ou devora
Pegou professor Gusmão
Mastigou, mastigou... e jogou fora!

Uma sensação estranha tive nessa leitura, ao deparar com trechos como:

“O carnaval era a festa preferida pelo povo baiano...”

Ou:

“A capoeira sempre gozou do maior prestígio e fama, na Bahia; era realizada ao som de berimbaus, pandeiros e outros instrumentos primitivos...”

Foi muito esquisito ler essas narrativas “de um tempo que passou” referindo-se a situações que ainda são atuais como se já fizessem parte de um passado remoto e esquecido. Tirei dessa estranheza uma oportuna e grata reflexão sobre como tudo nessa vida é fugaz e passageiro, como “um sonho dentro de um sonho”... O que pode servir de consolo, diante de um presente muitas vezes tão medonho: “Isso também vai passar”.

“Hoc opus, hic labor est”: “Esse é o trabalho, essa é a fadiga”.

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