domingo, 15 de setembro de 2019

STUPID WHITE MEN – Uma Nação de Idiotas – Michael Moore



Foi uma surpresa irresistível encontrar um exemplar desse livro, no original em inglês ainda por cima, na Mansão dos Livros de Itapuã. Levei e comecei a ler no mesmo dia.

Desde que assisti ao impactante documentário “Tiros em Columbine”, sou fã da inteligência ágil, do humor ferino, da impressionante capacidade de pesquisa e da imensa cara-de-pau de Roger Moore. Aliás, se você defende a posse de armas pela população, desafio você a assistir esse filme e continuar com a mesma opinião. Está disponível no YouTube: https://youtu.be/X5QwnQUqZeA


Sobre o livro: dei risada em alguns trechos, fiquei chocado em outros, senti muita raiva e até fiquei deprimido durante essa leitura. Publicado em 2001, o foco do texto é sobre os Estados Unidos durante os primeiros meses do governo de George W. Bush, ou seja, antes do “atentado” de 11 de setembro. Apesar desse recorte bem limitado, e da prosa hilariante de Moore, o livro oferece um nauseante passeio pela podridão generalizada de nossa Civilização Ocidental. O “vírus da estupidez branca”, tão vividamente descrito pelo autor, não atinge exclusivamente caucasianos do sexo masculino. É uma epidemia planetária que, lamento dizer, tem atingido de modo muito severo o nosso Brasil tão gloriosamente mestiço.

Terminei a leitura ainda mais convencido de como são ultrapassadas e inúteis as discussões sobre “esquerda” e “direita”. Tanto o capitalismo quanto o comunismo são ideias do milênio passado, que na prática se tornaram apenas variações da mesma e velha dominação e exploração do homem pelo homem e de desprezo por nosso planeta. Essas ideias caquéticas precisam ser urgentemente descartadas e substituídas por novas propostas. Tenho plena convicção de que podemos fazer melhor do que fizemos até aqui. Ainda há tempo. Mas precisamos nos apressar.




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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”

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sexta-feira, 13 de setembro de 2019

O NARIZ DO GENERAL – May Shuravel



Fui imediatamente atraído por esse livro ao encontrá-lo na Mansão dos Livros, belo projeto do querido amigo professor Carlinhos Santana. Contudo imaginei uma obra totalmente diferente, a julgar pelo título e pela capa: um libelo contra as mentiras que recentemente têm circulado nas redes sociais, negando os crimes cometidos durante a ditadura militar no Brasil.

Nada poderia estar mais distante do que encontrei ao ler “O Nariz do General”, uma singela e divertida narrativa infantojuvenil sobre uma cidadezinha que não tinha nada de belo, até que um dia aparece do nada uma bela estátua de um general, esculpida em mármore. A vida social da cidade passa a girar ao redor dessa estátua, até que acontece a tragédia: durante uma tempestade, o nariz da estátua é quebrado. O que se poderia fazer?

Enquanto a história segue, com um inspirador exemplo de superação, há uma narrativa paralela, que para mim foi a delícia maior dessa leitura: no começo de cada capítulo são apresentadas as cartas trocadas entre a autora May Shuravel e o ilustrador Yam, com grande senso de humor, até porque logo fica evidente que se trata da mesma pessoa (Yam é May ao contrário). Muito criativo e divertido!

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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

O jogo POESIA DE BOTÃO faz parte do projeto selecionado pelo Edital Arte Todo Dia – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura de Salvador), com apoio de Athelier PHNX, Verlidelas Editora, Caligo Editora, Suporte Informática e AG1. O propósito do jogo é convidar as crianças a vivenciar o universo da Poesia de forma lúdica e atrativa, como uma “brincadeira de montar versos”. POESIA DE BOTÃO é especialmente indicado para crianças já alfabetizadas, mas nada impede que adultos possam brincar também e se beneficiar com o jogo.



segunda-feira, 9 de setembro de 2019

O NATAL DE POIROT – Agatha Christie



Essa foi no mínimo a terceira vez (possivelmente a quarta!) que li esse livro. E só consegui descobrir o assassino na página 188 (de um total de 223). Como é que Agatha consegue me enganar assim, rapaz???

Tive alguns aprendizados preciosos nessa releitura. Quando avistei o livro no P.U.L.A. (Passe Um Livro Adiante), peguei imediatamente. Mesmo lembrando que já havia lido, não lembrava ao certo da história. Logo de cara, contudo, o livro traz a citação de “Macbeth”, que é o mote da trama:

“Quem jamais poderia imaginar que aquele velho guardasse tanto sangue dentro de si?”

Ao ler essa frase, imediatamente lembrei de quase tudo, menos de um mero detalhe: a solução do mistério! Comecei a leitura achando que a qualquer momento iria lembrar de tudo e, então, abandonar o livro. Qual o quê! Fui mais uma vez capturado pela magia de Agatha, e inclusive larguei todas as minhas outras leituras paralelas para acabar logo de ler “O Natal de Poirot” pela terceira (ou quarta) vez.

Por que é tão fácil esquecer uma trama de Agatha Christie, se gosto tanto de ler os livros dela? De modo geral minha memória é excelente para livros: às vezes chego a lembrar a página de uma determinada citação! Nessa releitura tive a oportunidade de encontrar mais uma pista para desvendar esse meu intrigante paradoxo de fã.

É que em “O Natal de Poirot” e muitos outros livros da Rainha, os personagens são extremamente superficiais, rasos mesmo, e muitas vezes até incongruentes do ponto de vista psicológico. Ao terminar essa releitura, tive a sensação de que os personagens não passavam de figuras bidimensionais de cartolina... e é ótimo que seja assim! Creio que essa superficialidade dos personagens é um dos ingredientes do sucesso de Agatha, pois não nos desviamos do propósito essencial de seus livros, que é o jogo do detetive.

Ao pensar nessa descoberta, evoquei como comparação as histórias de P. D. James, que assim como Agatha é também uma respeitável senhorinha inglesa que se dedicava a escrever livros de assassinato e mistério. Contudo nos livros de P. D. James os personagens são complexos e profundos, chegando ao ponto de termos a figura de Adam Dalgliesh, um “policial poeta”. Os livros de James são incríveis, e certamente mais “literários” que os de Agatha. Contudo, no quesito “whodunit” (o jogo para descobrir quem matou) Agatha é (e, desconfio, sempre será) insuperável!


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A MARCA – Fabio Shiva

Um intrigante conto de mistério e assassinato que tem como pano de fundo a saga dos Anunnaki... “A MARCA” foi originalmente publicada em “REDRUM – Contos de Crime e Morte” (Caligo Editora, 2014), sendo um dos sete contos selecionados para a antologia. Em 2016 a história foi republicada no livro duplo de contos “Labirinto Circular / Isso Tudo É Muito Raro”, de Fabio Shiva (Cogito Editora). E agora está disponível aqui. Boa leitura!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5825862
 

sábado, 7 de setembro de 2019

BAHIA DE IAIÁ E DE IOIÔ: Crônicas de um Tempo que Passou – Giraldo Balthazar da Silveira



O professor Giraldo Balthazar da Silveira, nascido em Salvador no ano de 1886, foi um atento observador dos usos e costumes de sua terra. Muito estimado por seus alunos, a pedido deles começou a escrever um relato sobre a Bahia de sua infância, desse “tempo que passou”. Contudo a morte o levou antes que pudesse concluir o trabalho. Ainda assim, graças ao carinho e dedicação dos antigos alunos, as crônicas que escreveu foram reunidas em um singelo volume, acompanhadas por belas ilustrações.

Minha motivação principal ao ler esse livro foi encontrar relatos de expressões antigas, já não usadas na Bahia de hoje. Fui recompensado, especialmente na narrativa sobre os ritos fúnebres, quando tomei conhecimento do “banguê”, que era um carro funerário utilizado pelos muito pobres, que transportava os defuntos do hospital Santa Izabel para o cemitério, acompanhado pela cantiga inclemente do povo:

“Nêgo gêge quando morre,
Vai à tumba de banguê
E os parentes vão dizendo:
Urubu tem o que comê!”

Outro trecho delicioso trata de tipos populares como o “Macaco Beleza” (será que influenciou Raulzito a conceber o seu “Maluco Beleza”?). Há uma parte que descreve a discussão entre o figuraça Professor Gusmão e o poeta Manoel Tolentino, que o desacatou com essa quadra:

“A onça, bicho feroz,
Que tudo come ou devora
Pegou professor Gusmão
Mastigou, mastigou... e jogou fora!

Uma sensação estranha tive nessa leitura, ao deparar com trechos como:

“O carnaval era a festa preferida pelo povo baiano...”

Ou:

“A capoeira sempre gozou do maior prestígio e fama, na Bahia; era realizada ao som de berimbaus, pandeiros e outros instrumentos primitivos...”

Foi muito esquisito ler essas narrativas “de um tempo que passou” referindo-se a situações que ainda são atuais como se já fizessem parte de um passado remoto e esquecido. Tirei dessa estranheza uma oportuna e grata reflexão sobre como tudo nessa vida é fugaz e passageiro, como “um sonho dentro de um sonho”... O que pode servir de consolo, diante de um presente muitas vezes tão medonho: “Isso também vai passar”.

“Hoc opus, hic labor est”: “Esse é o trabalho, essa é a fadiga”.

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Agora disponível gratuitamente no Wattpad, LABIRINTO CIRCULAR / ISSO TUDO É MUITO RARO é um livro duplo de contos estruturados como seis pares de “opostos espelhados”. São ao todo doze histórias que têm como fio condutor a polarização entre o Olhar e a Consciência (representados nas capas do livro como as pupilas sobrepostas e o cérebro, respectivamente) e que abordam, cada uma a seu modo, alguns dos antagonismos essenciais: Amor e Morte, Cotidiano e Fantástico, Concreto e Absurdo. Um exercício literário para mentes inquietas e questionadoras.

LABIRINTO CIRCULAR

ISSO TUDO É MUITO RARO


quarta-feira, 4 de setembro de 2019

A COLONIA PENAL – Franz Kafka



Essa coletânea de contos do genial autor de “A Metamorfose” representou (como sempre, em se tratando de Kafka) um desafio e tanto. São dezenas de contos, alguns tão curtos que nem chegam a ocupar uma página inteira, outros chegando a vinte ou trinta páginas. Os temas dessas narrativas são os mais diversos e muitas vezes surpreendentes, e o que há de comum a todas, penso eu, é certa qualidade onírica que “respinga” das histórias. Não é que ler esses contos cause a impressão de estarmos lendo alguém contando seus sonhos... a impressão que essa leitura provoca é a de estarmos sonhando lendo contos!

Fui atraído por essa leitura por pura intuição. À medida que ia lendo, foi ficando evidente a conexão entre esses contos de Kafka e a maravilhosa experiência que tive com as “Aulas de Literatura” de Julio Cortázar. Kafka pode ser considerado um pai literário de Cortázar, ao engendrar os primórdios da fascinante Literatura Fantástica.

Para ser muito sincero, achei a maioria dos contos desse livro chatésimos! Contudo, quando fui tocado pela magia literária de Kafka, não houve meias-medidas: o feitiço bateu certeiro! O maior exemplo do alto poder de impacto que Kafka pode alcançar é o próprio “Na Colônia Penal”, que é simplesmente apavorante, ainda mais por continuar extremamente atual. Penso que muitas pessoas no Brasil e no mundo de hoje se identificariam com o oficial responsável pela intrincada máquina que executa os condenados à morte (sem direito a julgamento) com requintes de crueldade. O oficial demonstra uma tocante dedicação e lealdade à antiquada máquina caindo aos pedaços, que nos “bons tempos” levava doze horas para matar um ser humano cortando-o lentamente em pedaços. Tamanho é seu amor à máquina de extermínio, que prefere antes morrer a ver alguma modificação do velho e desumano sistema. Qualquer semelhança com a realidade atual, infelizmente não será mera coincidência...

Outros contos muito fortes: “Um Fratricídio”, “O Jejuador” (ou “O Artista da Fome”) e “Um Médico de Aldeia”. Desse conto, aliás, é essa marcante frase que tanto fala sobre a obra de Kafka:

“Uma bela ferida foi tudo que trouxe para este mundo; ela foi meu único dote.”



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terça-feira, 3 de setembro de 2019

A ESPIRITUALIDADE NOS RELACIONAMENTOS – Paramahansa Yogananda



Esse livro faz parte dos textos “apócrifos” de Yogananda, por não ter sido editado pela Self-Realization Fellowship, instituição fundada pelo próprio Yogananda para a difusão de seus ensinamentos. Alguns dos textos que encontrei aqui já havia lido em outras obras do Mestre, outros li pela primeira vez.

O que de imediato chama a atenção nessa edição é a foto escolhida para a capa, que captou de forma admirável o magnetismo do olhar do grande Guru. Sinto dificuldade em desviar os olhos desse olhar tão impregnado do conhecimento da Verdade – aliás, por que desejaria eu me desviar desse sublime darshan (benção espiritual que advém de contemplar um ser iluminado)?

Quanto aos textos, o foco é, como o título já mostra, como vivenciar os relacionamentos humanos de forma espiritualizada, seja nas amizades, nas relações com familiares, na relação de par e na relação com o mundo de modo geral.

“MEDITAÇÃO SOBRE A EXPANSÃO DO AMOR

Diga a si mesmo: ‘O império do meu amor tem de expandir-se. Amei meu corpo mais que a qualquer outra coisa. Por isso me identifiquei com ele e fiquei por ele limitado. O amor que tenho por esse corpo será estendido a todos quantos me amem. O maro expandido daqueles que me amam será por mim votado àqueles que são meus. O amor a mim mesmo e o amor aos que são meus pertencerão aos estranhos. De todo o coração amarei os que me detestam tanto quanto os que me amam. Banharei todas as almas em meu afeto desprendido. No mar do meu amor nadarão meus familiares, meus compatriotas, todas as nações, todas as criaturas. A criação inteira, as miríades de pequeninos seres vivos dançarão nas ondas do meu amor!’”

Jai Guru!


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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590


sábado, 24 de agosto de 2019

O PAÍS DO CARNAVAL – Jorge Amado



Esse foi o primeiro de tantos livros de Jorge que eu li e que achei menos que excelente. Também pudera, foi o primeiro que ele escreveu, em 1931, quando tinha apenas dezoito para dezenove anos (sem contar um livro de poemas e uma novela que o próprio autor retirou da lista de suas obras completas). Ainda assim, a obra foi forte o suficiente para ser considerada subversiva e até foi queimada em praça pública, por determinação da polícia do Estado Novo, em 1937.

Sobretudo se comparado com seus livros posteriores, “O País do Carnaval” revela um autor ainda tentando acertar a mão. Aqui Jorge aparece raivoso em suas críticas à sociedade, sem a leveza e o fino humor que iriam caracterizar seu texto mais para a frente. Veja-se essa fala do protagonista Paulo Rigger logo no primeiro capítulo, como exemplo marcante:

“Hoje o feitiço domina. No Norte, senhor bispo, a religião é uma mistura de fetichismo, espiritismo e catolicismo. Aliás, eu não acredito que Cristo haja pregado religiões. Cristo foi apenas um romântico judeu revoltoso. Os senhores, Padres e Papas, é que fizeram a religião... Mas se o senhor pensa que essa religião domina o Brasil, está enganado. Há uma falsificação africana dessa religião. A macumba, no Norte, substitui a Igreja, que, no Sul, é substituída pelas lojas espíritas. No Brasil a questão de religião é uma questão de medo.”

A história gira em torno de Paulo Rigger, brasileiro filho de fazendeiro que foi educado na Europa e que não se sente identificado com seu país natal, de regresso ao lar em busca da “felicidade”, que poderia ser traduzida por um “sentido da vida”. Com seu grupo de amigos intelectuais, discute qual o segredo do bom viver, que uns acham que está no amor, outros na religião, outros na filosofia e outros ainda na renúncia a todos os desejos, no “viver por viver”. Achei interessante esse ser o tema central do primeiro livro de Jorge Amado, e sobretudo ele ter passado de raspão nas respostas que o Bhagavad Gita, principal obra da filosofia e da espiritualidade na Índia, dá para essas mesmas questões. Segundo o Gita, o segredo da felicidade está em agir livre de desejos, dedicando todas as ações a Deus.

Essa leitura reforçou em mim a percepção mística de um secreto parentesco entre a Bahia e a Índia, sendo as duas terras povoadas por uma gente de pele escura com uma profunda espiritualidade inata e uma inesgotável capacidade para a alegria. O fato do grande avatar da literatura baiana ter iniciado sua obra com uma pergunta que encontra sua resposta na mais sagrada escritura da Índia, para meu coração, não pode ser apenas uma simples coincidência.

Salve Jorge!



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quarta-feira, 21 de agosto de 2019

TODOS OS CONTOS DE MAIGRET – VOL. I – Georges Simenon



Georges Simenon, definitivamente, é um de meus autores favoritos. A cada livro dele que leio, seja ou não protagonizado pelo comissário Jules Maigret, só aumenta o meu fascínio diante de um irresistível contador de histórias. E boa parte desse encanto, só pude perceber agora, reside justamente no fato de não saber ao certo o que torna os livros de Simenon tão incrivelmente bons!

E agora, ao ler em sequência nada menos que dezessete histórias curtas de Maigret reunidas em um tijolo que corresponde, em número de páginas, a cerca de três romances de Simenon, tive uma bela oportunidade de apreciar um pouco melhor as qualidades literárias desse grande autor.

O ponto central das tramas de Simenon, e especialmente das estreladas por Maigret, é a chamada “atmosfera”. O próprio método de detecção do comissário, bem diverso de seus colegas Sherlock Holmes ou Hercule Poirot, consiste em justamente absorver e ser absorvido pelo cenário onde foi cometido o crime. A tal ponto que, no conto “A barcaça dos dois enforcados”, Maigret revela que precisa “pensar barcaça” para conseguir desvendar o mistério.

Mas como são construídas essas atmosferas tão envolventes das histórias de Simenon? O autor possui uma técnica incomparável ao descrever cenários, que sempre são retratados interagindo de alguma forma com as pessoas, e até dotados de algo como um “estado de espírito”. Os cenários de Simenon estão longe de serem objetos inanimados: vivem e respiram, participando ativamente da trama.

Até aí eu já havia percebido em outras leituras, e até cheguei a comentar em algumas resenhas. O que a leitura desses contos me trouxe, em termos de novas descobertas, foram duas percepções principais:

1) O DRAMA ACIMA DO CRIME
Em boa parte das histórias de Maigret o “crime” cometido não se enquadra, de forma exata e precisa, em termos de uma “infração à lei”. Em algumas histórias, quando o mistério é solucionado, o “culpado” sequer chega a ser preso, pois não cabe punição legal à ofensa que ele cometeu. Em outras, o próprio Maigret resolve fazer vista grossa e liberar o ofensor das garras da lei, por entender bem demais o drama humano que motivou o “crime”. Por aí já se percebe que “descobrir o assassino” nas histórias de Simenon é sempre secundário, ao contrário de boa parte das histórias policiais.

2) ADORÁVEL TRAPACEIRO
Uma vez que o drama está acima do crime, uma consequência direta é que o “personagem” está acima do “detetive”. Por conta disso, Simenon trapaceia, com charmosa cara-de-pau, em algumas das famosas e não escritas regras da história policial. Uma das principais regras reza que o leitor deve ter acesso a todas as pistas junto com o detetive, e o grande divertimento da leitura consiste justamente no leitor tentar ser mais esperto que o detetive, desvendando antes dele o mistério. Com Maigret, essa regra é totalmente subvertida, pois muitas vezes as “pistas” são reveladas pelo próprio comissário, que invariavelmente surpreendem o leitor pelo tanto que o comissário já depreendeu do drama humano que está sendo apresentado. Se por um lado o jogo clássico da leitura policial é frustrado, Simenon obtém grandes compensações por essa “trapaça”. Como quem não quer nada, seu Maigret vai aos poucos se mostrando um verdadeiro super-homem da intuição, capaz de reconstruir em um relance profundas tragédias a partir das mínimas pistas. E ganha também o leitor, penso eu.

Esta edição apresenta três ótimas introduções com análises feitas pelos escritores Dominique Fernandez, Pierre Assouline e Denis Tillinac. Sugiro que sejam lidas após a leitura dos contos em si, pois aparentemente a palavra “spoiler” ainda não foi traduzida para o francês!




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sexta-feira, 16 de agosto de 2019

BLADE RUNNER: ANDROIDES SONHAM COM OVELHAS ELÉTRICAS? – Philip K. Dick



Há muito queria ler esse que é o livro mais famoso do controverso autor Philip K. Dick, e a oportunidade surgiu nessa excelente versão do livro com o texto completo e apresentado em forma gráfica, disponível em inglês no link:

Curiosamente, levei algum tempo para me adaptar a essa linguagem, que apresenta o texto do livro na forma de uma história em quadrinhos, dividida em 24 episódios. Eu amo ler livros e também amo HQs, mas nesse contato inicial achei a leitura um pouco pesada. Contudo, como eu realmente queria ler esse livro, insisti e fui grandemente recompensado. Da metade para o final eu simplesmente não conseguia mais parar de ler.

Sabe aquele livro que mexe com sua cabeça? Que faz você repensar muitos valores até então tidos como imutáveis? Que atiça sua imaginação a ponto de você se sentir vivendo mais dentro da história do livro que na sua própria? Pois é, esse é um livro desse tipo, que não se lê impunemente.

Essa obra ficou célebre principalmente por ter inspirado o icônico filme “Blade Runner”, de Ridley Scott (vide trailer: https://youtu.be/eogpIG53Cis). Embora seja inegavelmente uma grande película, “Blade Runner” é tão diferente de “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?” que nem cabe aqui a tradicional pergunta sobre qual é melhor, o livro ou o filme. Penso que o livro mergulha mais fundo e traz mais inquietações.



Uma das grandes sacações do livro que ficaram totalmente de fora no filme foi a religião do Mercerismo, que consiste em uma espécie de videogame interativo onde o profeta Mercer sobe uma montanha, enquanto uma figura indistinta atira pedras sobre ele. As pessoas participam da religião experimentando tudo o que Mercer experimenta, inclusive sangrando quando ele recebe uma pedrada, e também compartilhando umas com as outras as emoções que estão sentindo.

Outra diferença importante é a motivação do caçador de recompensas Rick Deckard, que no filme é retratado de forma glamourizada por Harrison Ford. No livro, Rick mata os androides para conseguir comprar um animal vivo, que na Terra devastada por uma guerra nuclear se tornou um símbolo de status social. Quem não tem dinheiro para possuir um animal vivo tem que se contentar com substitutos mecânicos, como o próprio Rick, que é o infeliz dono de uma ovelha elétrica...

A questão crucial do livro (de 1968), contudo, é a difícil distinção entre um ser humano e um androide, que é colocada em um cenário futurista apocalíptico que, no filme (de 1982), situa-se no então distante ano de 2019... Na concepção de Philip K. Dick, existe uma diferença fundamental que separa androides e homens: a capacidade de empatia.

Embora sejam máquinas refinadíssimas, que imitam a vida a tal ponto que só podem ser diferenciadas dos seres humanos por um teste de medula, os androides são incapazes de se colocar no lugar de outro ser vivo.

Impossível ler esse livro nos dias de hoje e não vê-lo como uma sinistra e acurada profecia. Natureza devastada, animais extintos e simulacros de seres humanos que são incapazes de se colocar no lugar do outro... Caras, que pesadelo!!! Estamos cercados por androides!!!




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quarta-feira, 7 de agosto de 2019

FAVELA GÓTICA - Fabio Shiva



SHIVA, Fábio. Favela Gótica. Rio de Janeiro: Verlidelas Editora, 2019, 276p.

     Necessariamente não é uma resenha, mas um apanhado de impressões que o livro despertou. Favela Gótica não pertence ao gênero das minhas preferências, no entanto, comprei-o por um, posso dizer, feliz acaso, ao tomar conhecimento do seu lançamento, por cujo autor tenho grande admiração. Comprei o livro e, de imediato, dispus-me a lê-lo. Como costumo fazer, passei de relance os olhos numa primeira leitura dinâmica. Encantei-me desde a primeira página (a epígrafe) pelo estilo que prendeu a minha atenção, fazendo-me querer de fato conhecer a trama de toda a história. Daí fiz uma primeira leitura mais aprofundada, e depois mais outra, e mais outra, passando então a pesquisar o que era estranho para mim.


     Fábio Shiva, como leitor, tem o dom de despertar o desejo para a leitura dos livros aos quais ele faz resenhas, tornando-os  atraentes e convidativos. Como escritor, ele tem o dom de atrair os leitores para suas próprias obras, devido às características do seu estilo, que, no caso, mesmo abordando o lado degradado do ser humano, o faz de maneira muito humana. Que paradoxo! Em Favela Gótica encontramos poesia (incrível!) ao lado do horror! Seus personagens são os anti-heróis, que retratam a miséria do submundo do crime, sem artifícios, mas com a emoção que o tema permite. Há frases que caracterizam uma filosofia de sobrevivência, tipo: “A fome nunca existe no futuro ou no passado, somente no eterno agora” (p.13). “Lar de multidões de solitários ... destituídos de qualquer laço de identidade ...”  “Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso” (p. 14). O sumário, a princípio, de difícil entendimento, mostra o conteúdo dividido em duas intrigantes partes: 1ª – Das trevas (per asper); 2ª – Para a luz (ad astra), enriquecidos ou enfatizados pelo uso das mesmas expressões em latim. Cada capítulo, distinguido pelo título, traz uma ilustração referente ao seu teor, além de uma espécie de introito ao mesmo, seguido de algum contundente dito de algum famoso, como Mark Twain (1º capítulo), Oscar Wilde (3º), Platão (4º), Sócrates (5º capítulo) e tantos outros encimando os 10 capítulos em que a história é montada.


     Muito interessante também é a presença dos “Registros Akáshicos”, que permeiam toda a história, no intuito de dar maiores informações ao próprio desenvolvimento de todo o enredo. Nestes registros aparecem histórias paralelas entrecortando a história principal, os quais, numa leitura também paralela, porém, sequenciada, pode-se perceber seus liames com a temática. Em um desses enigmáticos registros, destaquei o lirismo contido no meio do horror: “ ... o poder de devastação da droga é revelado em toda a sua horripilante exuberância. Como também a frágil obstinação da carne, persistindo no engano da vida, mesmo quando maltratada além de toda esperança” (p. 21).


     A história tem o foco em Liana, descrevendo sua degradante vida, cercada por outros personagens de um mesmo cenário criminoso, mas contada com tanta expressividade, que acaba levando o leitor (no caso, eu) a torcer e até a amar Liana, desejando que ela consiga sair ilesa dos tentáculos dos males que lhe perseguem. Felizmente, e para alívio dos que captam a chama da vida (ah, ela possui vida, apesar dos pesares), a história termina bem, ainda bem! A trama é incrível, já foi dito. E o que muito impressiona é a apresentação dos povoadores de toda a história. O autor lança mão de recursos estilísticos da antiguidade clássica, criando personagens mitológicos, que poderiam estar nos contos de Homero, quando os compara a figuras antropomórficas, tais como: “ ... um sapo velhinho e encarquilhado” (p. 53), “ ... um sagui baixinho e gorducho” (p. 62), “ ... uma ratazana gorda e nariguda” (p. 76), outras, como uma freira de lindos chifres de cabra, ou outras freiras que parecem hienas, cobras, aranhas, etc. (p. 163). Sua história esbanja metáforas de alto nível literário, quando apresenta homens e mulheres como: jacarés, lobos, múmias, fantasmas, etc. e até um Monstro Elemental, cujo registro akáshico o apresenta como alguma entidade da natureza, banida pelas circunstâncias da atualidade. “O progresso científico e tecnológico, entretanto, erigiu novos altares sobre as ruínas dos velhos templos, e os luminosos seres que zelavam pelo bom funcionamento dos ciclos naturais, foram gradualmente sendo esquecidos, degradados, vilipendiados” (p. 106).  Algumas figuras evocam heróis de escritores famosos, como Quasie, uma freira monstruosa de aparência, porém doce e protetora de Liana, tal qual o Quasímodo, com a sua Esmeralda, no “O Corcunda de Notre Dame”, de Vitor Hugo. Além de encontrarmos seres alienígenas vivendo disfarçada e livremente entre os mortais (p. 193 e outras).  Um outro personagem, que no final torna-se tão importante ao clímax da história, o Mandrá, passa quase despercebido nos relatos anteriores onde aparece, até o momento em que ele mesmo se revela como peça importante no desenlace finalmente revelado no capítulo 10. Enfim, é uma história incrivelmente bem elaborada e interessante, que arrasta o leitor até seu final com o mesmo brilho, mesmo nos momentos mais macabros.

Neuza de Brito Carneiro
Feira de Santana, 06 de agosto de 2019.



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