segunda-feira, 17 de outubro de 2016

MAIS LAIQUIS – MARCIO RENATO DOS SANTOS


O livro de contos oferece 13 histórias rápidas e de agradável leitura, bem humoradas, que fala ao leitor sobre o isolamento e a virtualidade.
O título do livro fala de uma maneira irônica sobre o novo comportamento de conversas por “curtidas”, o desejo de visibilidade instantânea, e o fim da privacidade, a sensação de estar “vivendo o aqui e agora”, levando o leitor a refletir sobre uma nova interpretação da palavra “compartilhar”.
Porém, algo que fica claro é que o humor é apenas aparente, quase todos os contos abordam um tema oculto da alma: a crueldade, mesclada em momentos de narração com momentos de diálogos diretos e bem estruturados como no conto “O dia em que te vi”. O conto Bode Careca, na minha opinião, o melhor conto do livro, demonstra bem como a desconexão com o real, nos afeta diariamente em todas relações, inveja, mentiras, desejo de notoriedade e o limite entre o real, e uma existência fabricada, se mistura com a arte de encher linguiças.
Marcio Renato dos Santos já chegou a ser comparado, devido ao minimalismo de seus contos a um novo Raymond Carver.
Leitura recomendada!

O BODE CARECA

A situação na empresa mudou quando anunciei que iria publicar um livro. Anteriormente a rotina era como deve ser nos outros empregos. Dias agradáveis, outros nem tanto, mas tudo seguindo. E isso por anos — tempo suficiente para eu aprender o momento do alô, quando mostrar os dentes e a hora de calar.
Encher linguiça pode ser um lance legal. Não tem a ver com a frase do Otto Bismarck, que teria dito que uma pessoa não deve saber como são feitas as salsichas. O chanceler alemão realmente disse algo assim? Difícil acreditar. Alguém atribuiu esse equívoco conceitual a ele. Só pode.Bismarck era inteligente. E o cenário do meu ganha-pão nunca foi repugnante, com gordura e sangue escorrendo por todos os lados.
Passei por duas ou três seções antes de trabalhar no setor onde eram produzidas as linguiças, ou melhor, as salsichas de cachorro-quente. Tudo automatizado e limpo. Eu quase não colocava a mão na massa, no composto, a não ser, com luvas, quando vistoriávamos as vísceras de bovinos e suínos e os restos de frango, a matéria-prima das salsichas.
O Bode era o supervisor da linha de produção. Cheguei na empresa com pouca experiência comprovada, menos de três anos de registro em carteira. Mas na minha família, desde onde tenho conhecimento, e pelo que se comenta, todos enchem linguiça. Do tataravô até hoje, aprende-se a fazer embutidos em casa. E, por causa desse histórico, a partir do momento em que entrei no setor a produtividade aumentou.No fim do primeiro mês o salário chegou com bônus. Desde aquele dia, o Bode e eu passamos a almoçar quase diariamente em um mesmo restaurante.“Só não vale pedir salsicha, ok?”. Ele repetia o comentário quando a garçonete se aproximava perguntando sobre o nosso pedido. “O prato do dia, pode ser?”. Essa era a segunda frase que o Bode dizia antes das refeições.
Além de comer e beber, o Bode e eu conversávamos sobre o mais recente filme do Woody Allen ou do Tarantino, as obsessões dos narradores do Enrique Vila-Matas e outras novidades divulgadas nos cadernos de cultura. Não falávamos sobre exportação, juros, política internacional, conjuntura econômica, pecuária ou suinocultura. Naqueles trinta minutos, o intervalo entre os dois turnos, não lembro de ter conversado com o Bode sobre trabalho.
Tenho impressão de que nunca comentei com o Bode que eu escrevia ficção e publicava fragmentos em jornais e revistas. Também não mencionei, durante aqueles almoços, que havia enviado um livro de contos para uma editora.
A produção de salsichas na empresa aumentou, muito, nos quatro primeiros anos. Não preciso dizer, até já havia comentado, mas foi a minha presença, o meu conhecimento, que alterou a produtividade. O Bode sabia disso e se movimentou, com ações e também verbalmente, para que os proprietários e os gestores não soubessem que a atuação de um único funcionário tinha efeito naquele surpreendente ciclo de resultados positivos.
O fato de o Bode ter tomado para si os méritos não me deixou chateado. Os colegas de trabalho passaram a me hostilizar e o Bode me defendeu em várias situações. Passei a ser o alvo de piadas, diretas e indiretas, agressões verbais e sabotagens realizadas pela Anta, pela Mula, pelo Urso, pelo Chacal e pelo Lobo Bobo.
A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo já trabalhavam na empresa antes de eu ser contratado e diziam, diariamente, que eu era o empolgado da vez. Todos eles, isso escutei no banheiro, não lembro quem disse, também teriam trabalhado com entusiasmo e foram responsáveis, individualmente, cada um no seu tempo, pelo aumento da produção de salsichas. Mas apenas no primeiro, no máximo no segundo ano de empresa. Depois, o rendimento de cada um diminuiu, irreversivelmente.
A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal, o Lobo Bobo, o Bode e outros funcionários não entendiam o motivo de eu seguir por quatro, cinco anos empolgado. E eu poderia estar rendendo na empresa até hoje. Só não continuei no mesmo ritmo por que uma editora, aquela para onde enviei uns contos, anunciou a publicação daquele que seria o meu primeiro livro.
Esse fato mudou tudo.
Não, não me tornei famoso. Nem como escritor, nem na minha profissão. Continuo enchendo linguiça oito horas por dia, de segunda à sexta, mas, agora, em outra empresa. Este é o meu quinto livro e, quem quiser, pode perguntar por aí: conhece o Jony Rios? Fora os parentes e alguns colegas de trabalho, quem conhece? Nem os vizinhos.
Quando foi anunciada a publicação do meu livro de estreia, algumas pessoas, colegas e parentes, comentaram que eu me tornaria conhecido. Poucos comemoraram e houve, para mim, reações surpreendentes. O Bode, por exemplo, se tornou um inimigo declarado.
Em um primeiro momento, ele me parabenizou, comentando que, enfim, teria um colega famoso. A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo também me cumprimentaram após a divulgação da notícia.
Já no dia seguinte, os colegas começaram a fazer comentários, por exemplo: ele não está enchendo linguiça na literatura? A Anta perguntava durante o expediente sobre a conjugação de verbos irregulares. O Urso queria saber se eu conseguia explicar a diferença entre ditongos orais e nasais. Eu começava a falar, mas como, em geral, não respondia imediatamente às perguntas, os colegas riam, dizendo mais ou menos o seguinte:como alguém pode escrever ficção sem dominar a norma culta do idioma?
Em seguida, o Bode estimulou o conflito entre os funcionários. No caso, entre os colegas e eu. A Anta, a Mula, o Urso, o Chacal e o Lobo Bobo agiam coletivamente contra tudo o que eu fazia. Se eu sugeria uma modificação nos processos, eles reagiam negativamente, quase ao mesmo tempo. O Bode também me sobrecarregou de tarefas, que eu realizava praticamente sem cometer erros. Mas quando algo, mínimo, apresentava problemas, ele parava toda a produção e, na frente de todos, chamava a minha atenção por meio de críticas que, antes da notícia da publicação do meu livro, não eram feitas, mesmo quando eu errava.
O Bode disse para os proprietários que eu estava distraído, preocupado com o lançamento do livro, já não rendia como antes e que, por isso, eu deveria ser demitido. Soube dessa e de outras informações durante uma conversa, reservada, com um dos donos da empresa.
Aconteceram incidentes, a respeito dos quais prefiro não comentar e, quando o Bode foi encontrado morto, fui um dos primeiros a ser chamado para depor.
Naquele período, durante um jantar, dividi a mesa com um conhecido, o Pavão, um terapeuta, amigo do Bode. Depois de algumas taças de vinho, eu disse para o Pavão que, se o Bode continuasse me prejudicando na empresa, eu daria uma surra nele. Ou contrataria alguém para espancá-lo. O Pavão sorriu e afirmou que o Bode, de fato, passou a agir com agressividade, até com os amigos, a partir do momento em que foi anunciada a publicação do meu livro. O Bode, isso quem me contou foi o Pavão, também escrevia contos e sonhava ter um livro publicado.
O Bode raspava o cabelo e algumas pessoas o chamavam de Bode Careca. Cultivou um cavanhaque nos últimos meses de vida. Na última imagem dele, registrada pelo circuito de câmeras da empresa, o Bode estava sem roupas, com o cabelo raspado e de cavanhaque. Ele se jogou dentro do triturador de carnes.
O investigador disse que o meu nome aparece em vários textos encontrados no computador do Bode. Prestei depoimento, apesar de que, no horário da morte do colega, eu estava autografando o meu primeiro livro.
O suicídio do Bode foi divulgado como parada cardíaca.
Na delegacia, tive acesso aos arquivos onde encontrei referências diretas e indiretas ao meu nome. O colega de trabalho condenava as minhas ações, reprovava o jeito de eu mastigar, de rir, entre tantas observações. De maneira geral, ele tinha convicção que eu era um sujeito desprezível, sem refinamento intelectual, um enchedor de linguiça que estava querendo se fazer passar por escritor.
O Bode repetiu uma mesma ideia em quatro ou cinco arquivos: queria telefonar para jornais e revistas denunciando que, literariamente, eu era uma mentira. E ele nem precisou acionar a imprensa: os jornais e as revistas praticamente ignoraram o meu primeiro livro, e também o segundo, o terceiro, o quarto e, provavelmente, este quinto não terá nenhuma visibilidade.
Se o Bode soubesse que eu continuaria ganhando a vida como um anônimo que enche linguiça, quem sabe, ele ainda não poderia estar por aqui, para rir dessa piada, dessa farsa, dessa encenação toda?

Marcio Renato dos Santos é escritor, autor dos livros de contos Minda-Au (2010, Record), Golegolegolegolegah! (2013, Travessa dos Editores), 2,99 (2014, Tulipas Negras Editora) e Mais laiquis (2015)

Onde comprar? 

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

SUPERGENES – Deepak Chopra e Rudolph E. Tanzi


Sou muito fã do Deepak Chopra! Ele é o autor de um dos livros que mais me influenciaram na vida: “As Sete Leis Espirituais do Sucesso”, cujo resumo tenho lido e relido diariamente já há vários anos, encontrando sempre inspiração, aprendizado e evolução.

E “evolução” é a palavra-chave nesse incrível livro “Supergenes”, escrito por Deepak Chopra em parceria com Rudolph E. Tanzi (continuando o êxito iniciado com “Supercérebro”). O cerne do livro é auxiliar o leitor a compreender o conceito de “supergenoma” e o modo como esse conceito pode ser utilizado para cumprir o propósito maior da vida: a evolução.

O grande carisma de Chopra está em sintetizar de forma simples e didática conceitos complexos que representam as descobertas mais recentes da ciência. Aqui ele segmenta as áreas de atuação e de escolhas que podemos fazer em prol de um “bem-estar radical”: Alimentação, Estresse, Atividade Física, Meditação, Sono e Emoções, subdividindo cada área entre “escolhas fáceis”, “escolhas mais difíceis” e “escolhas experimentais”. Isso proporciona ao leitor um instrumental válido e prático para promover melhorias tanto no cotidiano de seu dia-a-dia quanto em suas metas mais elevadas.

O foco maior do livro está no poder da consciência, que vem sendo cada vez mais discutido seriamente nos meios acadêmicos, embora já tenha sido afirmado inúmeras vezes por muitas tradições espiritualistas. Algumas pérolas para reflexão:

* As suas intenções provocam um efeito poderoso no seu genoma.

* Se você determinar um objetivo, os seus genes irão se organizar de acordo com esse desejo, para ajudá-lo a alcançar o objetivo.

* A criatividade é o seu estado natural; você só precisa se abrir para ela.

* Você está aqui para evoluir e o supergenoma tem o mesmo propósito.

Recomendado!



terça-feira, 4 de outubro de 2016


Para uma experiência de brutalidade inaudita, uma prosa de concentração inaudita

por Alessandra Barcelar





Detido pela primeira vez em 1929 como “elemento socialmente perigoso”, e com a última sentença encerrada em 1951, Chalámov passou, entre prisões e breves períodos de liberdade, cerca de 20 anos nos campos de trabalho da URSS. A condenação pelo artigo 58 do código penal soviético de 1922, relativo a crimes políticos por atividade cotrarrevolucionárias, levou-o num primeiro momento aos Urais e, mais tarde, à região de Kolimá.
Os Contos de Kolimá, materialização literária de sua experiência nos campos, circularam intensamente na URSS sob a forma clandestina de samizdat, antes de, beneficiando-se da glásnost, finalmente serem editados em 1989, todos os 103 contos – sete anos após o falecimento do escritor que jamais deixara o país, onde atuou como jornalista e conseguiu editar poemas.
Contos de Kolimá representa o mais importante testemunho da tragédia do século XX, e é um fenômeno único na literatura russa. Diz Chalámov:
Por que escrevo contos? Eu não acredito na literatura. Não acredito em sua capacidade de corrigir o homem. A experiência da literatura humanista russa resultou, diante dos meus olhos, nas sangrentas execuções do século XX. Eu não acredito na possibilidade de evitar um fato, de anular sua repetição. A história se repete. E qualquer fuzilamento de 1937 pode ser repetido. Por que então escrevo? Escrevo para que alguém, apoiando-se em minha prosa alheia a qualquer mentira, possa contar sua própria vida, num outro plano. Afinal, um homem tem de fazer algo.
E Chalámov fez. Para escrever seus contos, precisou novamente voltar a Kolimá e reviver todo o terror, a fome, o frio, o confronto com o Estado totalitário. E venceu o inferno com a criação.
Era preciso decidir algo, inventar algo com seu cérebro enfraquecido. Ou então morrer. Potáchnikov não temia a morte. Mas sentia um desejo apaixonado e secreto, como uma última teimosia, o desejo de morrer em outro lugar, num hospital, num leito rodeado de atenção de outras pessoas, nem que fosse uma atenção burocrática, e não na rua, não no frio, não sob as botas da escolta, não no pavilhão, no meio dos palavrões e imundície, sujeito à completa indiferença de todos. Ele não culpava as pessoas pela indiferença. Há muito entendera de onde vinha esse embotamento da alma, esse frio espiritual. O frio cortante, aquele mesmo que transformava o cuspe em gelo no ar, antingia a alma humana. Se ossos podiam congelar, também o cérebro podia congelar e embotar, também a alma podia congelar. No frio intenso, não era possível pensar em nada. tudo fica simples. Com frio e com fome, o cérebro abastecia-se mal, as células cerebrais secavam – um processo material evidente, e só Deus sabe se esse processo é reversível, como dizem na medicina, semelhante ao congelamento dos membros, ou se os danos são permanentes. Era assim com a alma, congelava inteira, encolhia-se e talvez ficasse fria para sempre. [Conto “Os Carpinteiros”]
O leitor de contos de Kolimá não tem tempo para “histórias inventadas”, e a única forma de literatura que poderia satisfazê-lo seria um documento de memória, emocionalmente marcado com a alma e o sangue, onde tudo é documento e, ao mesmo tempo, constitui uma prosa emocional.
Varlam Chalámov definiu cada conto seu como “uma bofetada no stalinismo”. E, como uma bofetada, deve ser curta, sonora.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

A MARCA - Fabio Shiva


Uma intrigante história de assassinato que tem como pano de fundo a incrível saga dos ANUNNAKI, “aqueles que do céu para a terra vieram”. Confira no conto “A MARCA”, de Fabio Shiva, disponível na íntegra no link abaixo:




quarta-feira, 20 de julho de 2016

Livro: "Quem matou dona Izaura?"


Leia GRÁTIS o livro que será filme em 2017. NoAmazon Kindle, além de ler grátis o livro:"Quem matou dona Izaura?", você ainda poderá ler mais de UM MILHÃO de livros da mesma forma.


Sinopse:

Quatro amigos vão passar as férias na casa de dona Izaura, avó de Marrone, na Cidade Pedro Nunes, Zona Leste de São Paulo. Marrone está acompanhado de sua namorada Elisa. Douglas, advogado, com sua namorada Marli. A visita poderia ser considerada normal se não fosse alguns acontecimentos estranhos. O medo que dona Izaura sentia do bandido Querosene e a discussão verbal que ela teve com o senhor Manézinho, seu antigo jardineiro. Além disso, dona Izaura parara repentinamente de dar atenção ao Douglas. 
Numa noite que parecia ser normal, todos foram para seus quartos, no dia seguinte, a espantosa surpresa... dona Izaura estava morta em sua cama, ela fora assassinada a golpes de punhal. O intrigante em tudo isso é que o quarto de dona Izaura estava com a porta trancada pelo lado de dentro com um trinco de ferro feito especialmente para não ser manuseado por fora. No lado de fora da janela, que ficava na parte superior da casa, não havia sinal de que alguém havia escalado a parede e nem sinal de arrombamento na janela. A pergunta então é: Quem matou dona Izaura? O detetive Jorge, amigo da família, apesar de desconfiar dos casais, ainda assim solicitou a ajuda de Marrone, o neto da senhora assassinada. O final da história é surpreendente.  




O livro ficou por cinco dias entre os mais lidos no Site do Amazon Kindle. Hoje o livro foi escolhido pelo ator e diretor, Cristiano Vieira, para ser transformado em filme no ano de 2017.
















Encontre o autor no Facebook: Paulinho Dhi Andrade
Página do livro no Facebook: Quem matou dona Izaura?


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