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quinta-feira, 14 de março de 2013

LÀ-BAS (THE DAMNED) – J. K. Huysmans



“Eu quero [provar] que o Diabo existe, que o Diabo reina supremo, que o poder que ele desfrutou durante a Idade Média não foi tomado, e que hoje ele é o mestre absoluto do mundo.”

Nas palavras do próprio autor, essa foi a sua intenção primordial ao escrever essa obra, que veio a público pela primeira vez na Paris de 1891.

Huysmans é lembrado principalmente pelo livro “Au Rebours” [lançado em inglês com o título “Against Nature”, “Contra a Natureza” – não consegui encontrar os títulos em português e ignoro se o autor foi lançado por aqui], citado como influência de Oscar Wilde para compor o seu Dorian Gray. Pois bem, esse eu não li. Mas sobre “Là-Bas”, posso dizer que se trata de um livro escrito por um autor original, talentoso e também perigoso...

Fiquei de boca aberta com esse livro, e sou capaz de apostar duas tampinhas de refrigerante como “Là-Bas” foi uma influência enorme para um de meus autores prediletos: Umberto Eco. “O Pêndulo de Foucault”, meu favorito de Eco, poderia ser considerado uma versão ampliada e melhorada de “Là-Bas”...

A história é apresentada de forma bem atraente, no esquema do livro-dentro-do-livro: Durtal (alterego de Huysmans) é o escritor empenhado em contar a biografia de Gilles de Rais, companheiro de armas de Joana D’Arc que acabou se tornando o maior serial killer de todos os tempos, ao estuprar e eviscerar centenas e centenas de crianças.

Ao investigar a história de Rais, Durtal sente-se compelido a investigar as origens do Mal, e assim acaba mergulhando em uma tenebrosa rede de satanismo e missas negras, proliferando selvagemente na “moderna” Paris do fim do século XIX. Muito trabalho de pesquisa para gerar uma combinação bem original: o refinamento intelectual e estético associado com as descrições mais escatológicas e repugnantes. Se o livro impressiona hoje, imaginem na época em que foi lançado!

Excelente leitura, do ponto de vista do aprendizado literário. Sobre o tema, é apresentado com tanta riqueza de detalhes que acaba impregnando a mente do leitor... cuidado!



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Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:

Booktrailler:
http://youtu.be/Umq25bFP1HI

Blog:
http://sincronicidio.blogspot.com/
 
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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
LEIA AGORA (porque não existe outro momento):

quinta-feira, 3 de maio de 2012

A FÚRIA DE MAIGRET – Georges Simenon



Emile Boulay, dono algumas boates de strip-tease em Montmartre, está desaparecido. Três dias depois é encontrado: seu cadáver já está fedendo, castigado pelo verão parisiense.

O comissário Maigret fica obcecado pelo caso, e sai em campo. Seu método de investigação é desconcertante:

“Maigret não seguia um plano preestabelecido. Não tinha nenhuma ideia. Estava um pouco como um cão de caça que vai e vem a farejar. E, no fundo, o fato de reencontrar o ar de Montmartre, que não respirava há anos, não o desagradava.”

O Jules Maigret de Georges Simenon é um dos grandes nomes da ficção policial, juntamente com o Hercule Poirot de Agatha Christie, talvez o seu alter-ego, seu oposto simétrico. Pois não há como conceber dois personagens mais antagônicos. Talvez não seja mero acaso essa curiosa dessemelhança. Para quem não conhece ainda Maigret, essa é uma boa descrição: imagine alguém que é o contrário de Hercule Poirot!

O texto na orelha do livro (na excelente coleção da Nova Fronteira) define muito bem:

“Maigret não investiga, não raciocina, não deduz; o próprio crime o entedia; o que interessa é o executor e o objeto do crime. Maigret não julga: ele simplesmente ‘acompanha’ o encaminhamento de suas tarefas como quem sabe que o importante não é apenas realizá-las bem, mas, com paciência, carinho – e fúria quando preciso -, desnudar os motivos que levam o homem a matar.”

Os romances policiais de Simenon tem um sabor único, inigualável. Onde reside o seu misterioso encanto? Nada parece acontecer que não seja rotineiro; no entanto, ficamos irresistivelmente atraídos pela história. Nos diálogos, então, que efeito de mestre! Parece que só coisas banais estão sendo ditas, mas ficamos com a impressão de que coisas essenciais flutuam além das palavras, que o sentido se esconde no que não é dito, no que não chega a ser pronunciado.

O que é inegável é que o jeito pesadão de Maigret tem um charme! Ele me lembra um pouco a tartaruga disputando corrida com a lebre: mesmo com toda lentidão, mesmo sem parecer o mais esperto, sabemos que de alguma forma ele vai vencer a corrida, vai chegar primeiro. E é claro que nós o amamos por isso.

Já li muitas boas aventuras do Maigret, e também alguns policiais de Simenon sem a participação do comissário. Esse “A Fúria de Maigret” foi um reencontro com esses bons momentos.

Uma curiosidade ainda a respeito do autor, Georges Simenon.

Ele certamente devia ser uma figura e tanto, pois escreveu centenas de livros e gabava-se de ter ido para a cama com 10.000 mulheres.

Perguntada a respeito, sua esposa deu uma resposta inesquecível:

“Mentira dele. Foram no máximo 2.500.”


sexta-feira, 27 de maio de 2011

O PORTO DAS BRUMAS – Georges Simenon


Que clima absurdo!!!

Uma pequena obra-prima do romance policial!!!

O porto de Ouistreham durante o inverno bem poderia ser chamado de Hades: uma espessa bruma envolve todas as coisas, transformando as pessoas em meros vultos na neblina, vozes no vazio. A paisagem é inexistente: só é possível perceber algum indício de civilização ao se adentrar na taberna mal iluminada e impregnada de odores. Beba uma caneca fervente de grogue, para espantar o frio dos ossos, e compartilhe com os marinheiros o silêncio repleto de uma expectativa angustiosa.

É nesse cenário que Maigret precisa mergulhar para desvendar o mistério por detrás da bizarra cadeia de acontecimentos que culminam no assassinato de um homem. Ele precisa se embrenhar na atmosfera, sentir as pessoas, capturar a essência do local, se ambiciona um dia chegar à verdade. Que não espere encontrar muita ajuda: uma conspiração de silêncio sela a boca de todos que poderiam trazer alguma luz ao caso.

Sorte que Maigret está em sua melhor forma, “no vigor de seus anos”. Ele está mais intuitivo do que nunca, tirando um coelho atrás do outro da cartola, capturando no ar espesso fragmentos de pistas que o fazem pouco a pouco ir tecendo uma teia complexa e repleta de paixões humanas.

Não leia esperando uma Agatha Christie, que a decepção será certa. A viagem de Simenon é bem diferente. Seu romance policial é menos “policial” e mais “romance”. No sentido de que o jogo de detecção existe, sim. Mas é apenas o pretexto para um mergulho profundo na natureza humana.

Viva Maigret!!!

(20.05.11)


Números de Simenon

Os números impressionam mesmo:

* Mais de 400 milhões de exemplares vendidos.
* Traduzido em 131 línguas.
* Média de 80 páginas escritas por dia.
* Chegou a escrever um romance inteiro em 25 horas.
* 215 livros assinados com seu próprio nome (vários outros com pseudônimos diversos).
* 80 livros só com Maigret como personagem principal.
* Gabava-se de ter ido para a cama com 10.000 mulheres (sua esposa logo o desmentiu: “foram apenas 2.500”!).

Viva Simenon!!!
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