segunda-feira, 17 de fevereiro de 2020

OS RATOS AMESTRADOS FAZEM ACROBACIAS AO AMANHECER – Políbio Alves



Incrível como um livro tão fininho pôde suscitar tantas reflexões sobre a Literatura!

Fui atraído inicialmente pelo insólito título e também pela sincronicidade, pois acabo de finalizar um livro de contos (a ser lançado brevemente) cujo título me pareceu ter a mesma métrica deste: “Tanto Tempo Dirigindo Sem Ninguém No Retrovisor”. Então notei que o livro foi laureado com o 1º lugar no Prêmio Literário Augusto dos Anjos (FUNESC – 2013), o que aumentou minha curiosidade.

O texto foi uma completa surpresa. Não sei bem o que eu esperava, mas decerto não era aquele hermetismo denso de noite sem lua, a ponto de às vezes parecer que o autor estava brincando de falar só consigo mesmo. Li os primeiros dois contos (“As moças do sobrado” e “Meteorango dia”) dividido entre a admiração e a irritação. Então tomei a decisão de ler atentamente o terceiro conto, “As miudezas cotidianas”, determinado a me esforçar ao máximo para decifrar o código proposto pelo autor. Lá pela metade do conto, imaginei risonho que a história poderia ser interpretada como um troca-troca entre o protagonista e seu primo Luciano. Ao chegar ao fim do conto, confirmei o inesperado enredo com a mesma alegria de quem descobre o assassino em um livro de Agatha Christie! Daí em diante, consegui perambular tranquilo pelo universo semântico de Políbio Alves.

“Esse texto escrevi. Com fôlego. Não é outra coisa. É real, dizem. Em suma, pensado. Incomoda. Eu sei. Desordena qualquer conjectura. Embora tenha reinventado tudo. Estritamente infestado do cotidiano. Vertiginoso. Deve ser isso. Numa só reencarnação escolástica de estrosa ousadia. Claro. Só para espantar as pessoas.”

Achei digna e muito válida a proposta literária do autor, e celebro a existência de um Prêmio Literário que reconheça tais iniciativas. Não se trata de uma leitura fácil, sequer agradável. Mas quem foi que disse que a Literatura tem que ser fácil e agradável?

Como escritor, tenho buscado escrever da forma mais direta e simples possível. O que não me impede de apreciar algo que trilha caminhos totalmente diversos, e de considerar muito necessário e valioso esse lembrete de que a Arte de modo geral e a Literatura em particular também precisam incomodar, cutucar feridas, nos arrancar a tapas de nossa zona de conforto. Pois tenho notado muitos leitores que parecem ficar ofendidos quando o autor expressa algo que vai além de seu sistema de crenças, ou mesmo ousa experimentar algo criativo, que obriga a algum esforço mental a mais. O que me faz lembrar os proféticos versos de Kurt Cobain em seu hino “Smells Like a Teen Spirit” (https://youtu.be/hTWKbfoikeg):


“I feel stupid and contagious
Here we are now, entertain us
[“Eu me sinto estúpido e contagioso
Aqui estamos, entretenha-nos”]

Pelo bem da humanidade, penso que a Literatura pode e deve ser mais que mera e inócua diversão. Gratidão a Políbio Alves por nos lembrar disso. E salve nossa Literatura Brasileira!


\\\***///


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“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”


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