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terça-feira, 12 de março de 2019

A CIVILIZAÇÃO DO ESPETÁCULO – Mario Vargas Llosa



Se eu fosse escrever tudo o que esse livro me fez pensar, acabaria com um outro livro quase do mesmo tamanho, composto por três quintos de entusiásticas louvações ao pensamento de Vargas Llosa, um quinto de veemente discordância às ideias do autor e mais um quinto de tenebrosas lamentações pelo triste estado da cultura e da arte nos dias de hoje, objeto das reflexões e denúncias desta incrível e marcante obra que é “A Civilização do Espetáculo”.

Schopenhauer aconselha a nunca ler um livro sem ter antes refletido sobre o assunto que é tratado por ele. Ao menos dessa vez cumpri esse sábio conselho, pois venho pensando sobre esse tema há um bom tempo: a decadência das artes e o esvaziamento do conceito de “cultura”. Ao observar pela primeira vez esse fenômeno, eu timidamente o chamei de “revolução da simplificação”. Tempos depois, já convencido por A mais B de que de fato isso estava acontecendo, chamei de “ditadura da mediocridade” (em uma entrevista para a FM Cultura de Porto Alegre com o querido amigo escritor Luis Dill, confira no link: https://www.facebook.com/sincronicidio/videos/1141766595933585/).

Pois bem, essa percepção que vinha me atazanando há tempos foi definida com muito mais elegância e precisão por Mario Vargas Llosa: “a civilização do espetáculo”, onde o entretenimento é o fim e a meta de toda e qualquer produção artística, de toda cultura, de toda política, de toda religião. Nada melhor que deixar o próprio autor explicar do que se trata:



A questão é muito complexa e suscita inúmeros questionamentos. Será que a função da arte como transcendência e libertação para o homem só pode ser acessada por uma pequena elite cultural? Será que as massas estarão sempre condenadas a “ralar no chão”, como são comandadas a fazer pelos atuais sucessos da música baiana (e brasileira e mundial, pois a mensagem de emburrecimento e alienação é sempre a mesma, só muda o sotaque)?

Lendo esse livro compreendi melhor muitos fenômenos bizarros de nossa atualidade, como por exemplo e principalmente a “estupidez arrogante”. Fomos levados a crer que tudo é a mesma coisa, em matéria de cultura e arte. Por exemplo: Anitta e Pablo Vittar são “a mesma coisa” que Chico, Caetano e Gil. Nora Roberts e E. L. James são “a mesma coisa” que Aldous Huxley ou Jorge Amado. Por extensão, tornou-se mera questão de “opinião” se a Terra é plana ou não, se houve ditadura militar no Brasil ou não e assim por diante. A opinião de um historiador ou cientista vale tanto quanto a de qualquer youtuber bombado, e talvez até menos: pois na civilização do espetáculo, não importa se algo é verdadeiro ou Fake News, mas apenas quantas curtidas e compartilhamentos recebeu.

Preciso registrar que discordei de duas posições do autor, no tocante às relações da cultura com a política e com a religião. No primeiro caso, ele condena a exposição exagerada dos podres dos políticos, que ao seu ver leva a uma descrença geral com a política e com a classe dos políticos. Eu acho que antes de mais nada não adianta muito discordar disso, pois não irá alterar as forças em curso. E sobretudo acredito que essa desmoralização total e absoluta dos políticos serve para a superação desse paradigma para lá de obsoleto: o futuro dirá.

Com relação à religião, Llosa comente o erro de todo ateu, ao confundir religião com espiritualidade. Todo ateu que conheci se coloca contrário a algum sistema religioso (geralmente a Igreja Católica), mas a espiritualidade é muito mais abrangente que qualquer religião. Afirmar que Deus não existe é tão anticientífico quanto afirmar que Ele existe, mas a maioria dos cientistas (não todos, felizmente) alegremente adere ao dogma de que Deus não existe, e é por isso que temos uma ciência desconectada da espiritualidade, que serve à ganância humana (ajudando a destruir o planeta) e não à meta da verdadeira sabedoria, que só poderia conduzir à felicidade de todos.

(coloco entre parênteses uma ironia: fiquei espantado com o vigor de Llosa ao discordar de pensadores como Foucault e Baudrillard, e no entanto eis-me aqui, discordando de Llosa!)

A conclusão que cheguei, ao término dessa leitura, é a de que estamos testemunhando “fim do mundo como o conhecemos”. Independente de toda a devastação que o homem está promovendo na natureza (que já está cobrando o seu preço), uma sociedade com a arte e a cultura decadentes certamente está com os dias contados. Só quero viver para ver o Novo chegando!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

terça-feira, 3 de abril de 2012

TRAVESSURAS DA MENINA MÁ - Mario Vargas Llosa



O peruano Ricardo é uma pessoa sem muitas ambições na vida. Aliás, é dono apenas de uma: mudar-se para Paris e ali viver o resto da vida. E essa meta ele alcança bem cedo. Aos vinte e poucos anos, está na cidade dos seus sonhos, começando a ganhar a vida como intérprete. E é nessa cidade que, quando menos espera, reencontra o primeiro amor de sua vida. Aos quinze anos, ainda em Miraflores, na capital peruana, Ricardo teve sua primeira paixonite por Lily, menina cheia de encantos e mistérios que zombava de suas declarações de amor. Dez anos depois, Ricardo a reencontra em Paris, com outro nome, como uma dos jovens latinos a caminho de Cuba, depois da ascensão de Fidel Castro, para treinamento militar no intuito de também fazer a “revolução” no Peru. Ricardo desconfia que Arlete (o nome atual da moça) não tenha tantos arroubos ideológicos, como poderia supor-se de uma aspirante a guerrilheira. Aliás, essa a grande característica dessa instigante menina: o mistério. Quem é ela de verdade? Ricardo só sabe de uma coisa: está apaixonado pela menina, mais uma vez. Ela aceita o amor de Ricardo sem demonstrações de afeto, rindo de suas declarações de amor. “Quantas breguices, Ricardito!”. E um belo dia, some de novo de sua vida. Para reaparecer outra vez. Assim, a trama do livro vai passando, assim como os anos, e essa mulher vai ressurgindo na vida de Ricardo, sempre com outro nome, outra vida e a mesma necessidade: ter dinheiro, roupas bonitas, tudo o que o bom menino Ricardo nunca poderia lhe oferecer. O que afinal ela sente por Ricardo? Qual é a verdadeira face da menina má? Ou como diz a contracapa do livro, qual é a verdadeira face do amor?

Gostei demais desse livro. E fiquei apaixonada pelo Ricardo, ou Ricardito, ou simplesmente, bom menino, como é chamado pela menina má. Em relação a esta, fiquei quase sempre morrendo de raiva dela...rsss... uma personagem misteriosa e exasperante, cheia de segredos e subterfúgios, arrasando com o coração do pobre e bom menino. Vargas Llosa a descreve tão bem, com aquele jeitinho faceiro, que é daquelas personagens que ficam na memória. A história dos dois nos faz refletir sobre o que é o amor, o destino (será que existe mesmo?), sobre as escolhas que a gente faz na vida, ou que a vida faz pela gente. Gostei também do contexto histórico: Paris nos anos 60, Londres nos 70, a situação política do Peru... e outros personagens interessantes que, de certa forma, servem de elo entre Ricardo e sua amada. Em suma: uma leitura deliciosa, como as breguices do Ricardito.
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