Um livro que supera completamente as expectativas do leitor. E as minhas não eram pequenas ao começar a ler: esperava um excelente thriller de ficção científica que fosse capaz, com muita engenhosidade, de prender o leitor durante as quase 600 páginas em letra miúda.
Não fui decepcionado e recebi o que estava esperando. O bônus que surpreendeu foi encontrar nesta obra tantas e tão profundas reflexões sobre a natureza humana e sobre as falhas intrínsecas de uma sociedade baseada no medo e na força.
A história começa com a descoberta acidental de um dispositivo que provoca a detonação de qualquer explosivo a base de nitrato - o tal “Gatilho”. Como praticamente todas as munições e bombas da indústria bélica são feitos a partir do nitrato, o Gatilho acaba se tornando a anti-arma definitiva, a “arma para acabar com todas as armas”.
Seria o prenúncio do fim de todas as guerras? Uma nova era de paz e harmonia para a humanidade? Talvez resolver a questão da violência não seja tão simples assim...
O livro foi publicado em 1999, quando Arthur C. Clarke já avançava em sua oitava década de vida. Uma bela obra de maturidade, que contou com o auxílio certamente não pequeno de Michael Kube-McDowell, escritor especializado em histórias passadas em um futuro próximo e com um enfoque humano.
E assim é em “O Gatilho”. O futuro descrito parece tão próximo que poderia estar a meros cinco ou dez anos à frente. Na verdade, a história é tão bem escrita e convincente que chega a parecer não-ficção, um romance-reportagem sobre amanhã ou depois. Vou demorar a me convencer de que o Gatilho ainda não foi inventado na vida real.
Fora isso, algumas previsões interessantes. A mais bem-vinda delas é a do fim da era de comunicação de massas. Com a propagação da Internet e a absorção da televisão e das outras mídias pela rede, as grandes emissoras são extintas, dando lugar a uma infinidade de canais que pulverizam a audiência em diversos segmentos de interesse. Uma “profecia” que nós podemos muito bem chegar a testemunhar. Vale lembrar que foi o mesmo Clarke quem “profetizou” a era das comunicações via satélite.
Algumas passagens do livro são realmente marcantes. Eis algumas delas:
* Sobre a realidade quântica:
“A realidade em si provou ser a maior e mais fascinante ilusão de todas – a matéria sólida era em sua maior parte espaços vazios, objetos estacionários estavam em constante movimento, linhas retas na verdade eram curvas, a maior parte do universo era invisível, a matéria criava a si mesma espontaneamente a partir do vácuo, o tempo era uma variável, e cada resposta levava a mais perguntas.” (276)


