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terça-feira, 28 de maio de 2013

TERRA IMPERIAL – Arthur C. Clarke



Uma interessante história do futuro escrita no passado...

O futuro: 2276. O passado: 1973. Para um leitor de 2012, quase quarenta anos depois que a história foi escrita, outras leituras se impõem, além daquela provavelmente imaginada pelo autor como a principal.

Aqui somos companheiros de Duncan Makenzie, clonado na Terra e criado em Titã, uma das luas de Saturno. Ele é convidado a visitar a Terra e participar das comemorações de 500 anos da proclamação da independência dos Estados Unidos. (Esse ponto, aliás, é um dos exemplos de como o foco dado pelo autor foi perdendo um pouco a força com o passar dos anos. Imagino que os americanos fizeram uma big festa por ocasião do bicentenário da independência, pois na época Isaac Asimov também foi inspirado a escrever uma história do futuro envolvendo a celebração...)

A viagem de Saturno à Terra é contada em detalhes, envolvendo um criativo meio de propulsão para a nave. Depois acompanhamos Duncan em sua adaptação à Terra (tanto emocional quanto física, pois a gravidade em Titã é apenas 1/5 da terrestre), em meio a uma possível conspiração de contrabando de Titanita...

A história em si não é muito empolgante, pois o que conta mais é justamente a janela para o futuro enxergada por Arthur C. Clarke. O mais interessante nesse tipo de leitura não é verificar onde o autor acertou em suas previsões tecnológicas (o comsole descrito por ele parece muito com um palmtop, por exemplo), mas justamente onde ele foi superado, onde a realidade em tão pouco tempo já suplantou a fértil imaginação. Por exemplo: no futuro de Clarke, Titã e Terra sofrem ainda nas comunicações, contando palavras para serem enviadas por telex – hoje seria mais fácil mandar um e-mail!



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terça-feira, 5 de março de 2013

A CIDADE E AS ESTRELAS – Arthur C. Clarke



O que primeiro me chamou a atenção foi o resumo na contracapa, que começa assim: “Estamos a mais de um milhão de anos no futuro.”

Parece grandioso, mesmo para uma história de ficção científica... um milhão de anos no futuro? É muito tempo...

Pois ao começar a leitura percebi que os editores foram conservadores em seu resumo: a história acontece a mais de um BILHÃO de anos no futuro!

Só mesmo Arthur C. Clarke para levar a cabo uma história tão audaciosa. Ao término da leitura, fiquei com a impressão de que esse livro é a “Fundação” de Clarke, é a sua versão muito própria e original do tema “Império Galático”. Mas talvez só tenha pensado isso porque fiquei durante a leitura alimentando essa comparação: Isaac Asimov (autor de “Fundação”) está para Arthur C. Clarke assim como Agatha Christie está para P. D. James!

Explico: nos livros de Isaac e Agatha, temos a fórmula “clássica”, que A.C. e P.D. seguem e aprofundam...

A história começa na cidade de Diaspar, supostamente o último bastião remanescente da humanidade. Só a concepção dessa cidade já vale a leitura: um universo fechado em si mesmo, totalmente controlado por máquinas, onde os seres humanos são gerados por computador, com reencarnações programadas... e isso é só o começo.

Curiosamente, só quando estava no meio do livro foi que lembrei que já havia lido muito tempo atrás...



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terça-feira, 17 de abril de 2012

ALÉM DO CAIR DA NOITE – Arthur C. Clarke & Gregory Benford


Tudo começou com “Contra o Cair da Noite”, que foi a primeira história publicada de Arthur C. Clarke. O título foi retirado de um poema de A. E. Housman, que diz:

“O que devo fazer ou escrever
Contra o cair da noite?”

Curiosamente, “O Cair da Noite” é também o título de uma das histórias mais famosas de outro grande autor de ficção científica, Isaac Asimov. Só que em inglês os títulos ficam menos parecidos, com o “Nightfall” de Asimov e o “The Fall of Night” de Clarke. Mas não deixa de ser interessante a coincidência.

Essa primeira história de Clarke fez bastante sucesso, e tempos depois o autor retomou a mesma temática no romance “A Cidade e as Estrelas” (“The City and the Stars”).

Tempos e tempos depois, mais de meio século após a publicação de “Contra o Cair da Noite”, o escritor Gregory Benford propôs reescrever e ampliar a história original de Clarke. O resultado é esse livro, “Além do Cair da Noite” (“Beyond the Fall of Night” no original).

De todas essas histórias, a única que eu li mesmo foi a última. Por isso não me sinto tão à vontade para fazer uma avaliação mais completa, como eu gostaria. O livro é dividido em duas partes. Basta dizer que eu amei a primeira e detestei a segunda!

A história se passa em um futuro inimaginavelmente distante, papo de um bilhão de anos ou mais. Confesso que tive dificuldades em aceitar essa premissa, o que revelou (para mim mesmo) minha descrença na capacidade da espécie humana de durar tanto. Ainda assim, o futuro concebido por Clarke (possivelmente com adições de Benford) é instigante e arrebatador. Muitos conceitos são apresentados de forma brilhante, conceitos que dão margem a muitas especulações e filosofias... um exemplo claro do alto patamar que pode ser alcançado pela ficção científica.

Mas na segunda parte, infelizmente, o caldo entorna, e o que era virtude se transforma em defeito. Li com raiva de uma história tão boa ter se transformado nisso.

O melhor exemplo que me ocorreu só fará sentido para os fãs de quadrinhos. Alan Moore, o genial roteirista inglês, teve uma passagem marcante pela revista do Monstro do Pântano, que de um personagem de segunda foi alçado ao primeiro time e ainda além, trazendo grandes inovações como até as questões ambientais que passaram a ser tratadas nas histórias. Depois que Moore saiu, os roteiristas que o substituíram bem que tentaram manter aquele climão mágico, mas o resultado foi um pastiche chatésimo, que nem era “chiclete” como as outras histórias de herói, e tampouco era “cabeça” como as histórias da fase de Moore. Ou seja, ficou no meio termo.

E assim foi com essa segunda parte de “Além do Cair da Noite”: não é nem barro, nem tijolo.

Mesmo sem ter lido, recomendo antes a história original.

sábado, 10 de março de 2012

EM BUSCA DO AMANHÃ – Arthur C. Clarke


Quem é o maioral da ficção científica??? Isaac Asimov??? Ou Arthur C. Clarke???

Há pelo menos cinqüenta anos esse debate faz a diversão dos apaixonados pela FC, esse gênero literário tantas vezes subestimado...

Asimov tem a seu favor o fato de ser um dos escritores mais prolíficos de todos os tempos (escreveu centenas de livros, muitos mais que Clarke), mas de resto o confronto é bem equilibrado. Vejam só:

* Asimov criou as famosas “3 leis da robótica”. O próprio termo foi cunhado por ele. As suas histórias sobre robôs foram uma inegável inspiração para o avanço tecnológico nessa área. Clarke foi o pai intelectual da comunicação via satélite e um dos maiores incentivadores da viagem à Lua. Durante a década de 50, a sua incansável e entusiasmada defesa da capacidade do homem de chegar até a Lua acabou convencendo os céticos e provando estar correta.


* Asimov foi o autor de “Fundação”, série premiada como a melhor de ficção científica e fantasia de todos os tempos (esse prêmio foi concedido uma única vez, e o próprio Asimov achou injusto ter superado o “Senhor dos Anéis” de Tolkien). Clarke escreveu “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, uma das obras de ficção científica que maior impacto teve na cultura ocidental.

Eu, como fã declarado de ficção científica, já dediquei alguns bons momentos de ócio a esse questionamento aparentemente vazio. Eu me sentia especialmente provocado por detectar uma contradição, que surgia sempre que eu lia algum livro do Arthur C. Clarke. Pois a literatura de Clarke parece nitidamente superior, mais madura e filosófica, envolvendo temas mais profundos. Por que, então, é que eu sempre preferi ler o Asimov???

Nessa coletânea de contos (“Reach For Tomorrow”), a segunda de sua carreira, o próprio Arthur C. Clarke deu a pista para a solução do enigma. A história que abre a coletânea, “Grupo de Resgate”, foi escrita em 1945 e a primeira de Clarke a ser publicada. No prefácio do livro, Clarke reclama de forma bem-humorada do fato de “Grupo de Resgate” ser considerada por muitos a sua melhor história, o que seria uma evidência de que seu estilo só fez piorar desde a estréia (isso está longe de ser verdade, é claro!).

“Grupo de Resgate” é, fundamentalmente, uma ode à raça humana, a sua capacidade e inventividade. Nessa história, os homens aparecem como herdeiros legítimos do universo, os futuros conquistadores do cosmo. E esse é, justamente, o mote preferido de Isaac Asimov!!!

Nas histórias de Asimov, a galáxia inteira foi povoada por emigrantes da Terra, e o homem é o senhor incontestável do espaço. Já nas histórias de Clarke, com a memorável exceção desta “Grupo de Resgate”, a humanidade é insignificante diante da vastidão do universo, uma espécie imatura e subdesenvolvida diante dos visitantes de outras culturas planetárias, tão mais avançados que os homens que às vezes nem se dignam a fazer contato conosco...

Resumindo: a literatura de Asimov fala da grandeza do homem, enquanto a literatura de Clarke fala da pequenez no homem. Já entendi porque prefiro o primeiro!

Mas na verdade tanto Asimov quanto Clarke estão acima dessa discussão sobre quem é o melhor. Melhor mesmo é ler os dois e contrabalançar o heroísmo pueril do primeiro com o pessimismo filosófico do segundo!!! Quem sairá ganhando sempre é o leitor.

“Em Busca do Amanhã” contém outros 11 contos de ficção científica de primeira qualidade, o que equivale a dizer que são uma ótima combinação de imaginação e ciência, entretenimento e informação.

sexta-feira, 9 de março de 2012

O GATILHO – Arthur C. Clarke e Michael Kube-McDowell


Um livro que supera completamente as expectativas do leitor. E as minhas não eram pequenas ao começar a ler: esperava um excelente thriller de ficção científica que fosse capaz, com muita engenhosidade, de prender o leitor durante as quase 600 páginas em letra miúda.

Não fui decepcionado e recebi o que estava esperando. O bônus que surpreendeu foi encontrar nesta obra tantas e tão profundas reflexões sobre a natureza humana e sobre as falhas intrínsecas de uma sociedade baseada no medo e na força.

A história começa com a descoberta acidental de um dispositivo que provoca a detonação de qualquer explosivo a base de nitrato -  o tal “Gatilho”. Como praticamente todas as munições e bombas da indústria bélica são feitos a partir do nitrato, o Gatilho acaba se tornando a anti-arma definitiva, a “arma para acabar com todas as armas”.

Seria o prenúncio do fim de todas as guerras? Uma nova era de paz e harmonia para a humanidade? Talvez resolver a questão da violência não seja tão simples assim...

O livro foi publicado em 1999, quando Arthur C. Clarke já avançava em sua oitava década de vida. Uma bela obra de maturidade, que contou com o auxílio certamente não pequeno de Michael Kube-McDowell, escritor especializado em histórias passadas em um futuro próximo e com um enfoque humano.

E assim é em “O Gatilho”. O futuro descrito parece tão próximo que poderia estar a meros cinco ou dez anos à frente. Na verdade, a história é tão bem escrita e convincente que chega a parecer não-ficção, um romance-reportagem sobre amanhã ou depois. Vou demorar a me convencer de que o Gatilho ainda não foi inventado na vida real.

Fora isso, algumas previsões interessantes. A mais bem-vinda delas é a do fim da era de comunicação de massas. Com a propagação da Internet e a absorção da televisão e das outras mídias pela rede, as grandes emissoras são extintas, dando lugar a uma infinidade de canais que pulverizam a audiência em diversos segmentos de interesse. Uma “profecia” que nós podemos muito bem chegar a testemunhar. Vale lembrar que foi o mesmo Clarke quem “profetizou” a era das comunicações via satélite.



Algumas passagens do livro são realmente marcantes. Eis algumas delas:

* Sobre a realidade quântica:

“A realidade em si provou ser a maior e mais fascinante ilusão de todas – a matéria sólida era em sua maior parte espaços vazios, objetos estacionários estavam em constante movimento, linhas retas na verdade eram curvas, a maior parte do universo era invisível, a matéria criava a si mesma espontaneamente a partir do vácuo, o tempo era uma variável, e cada resposta levava a mais perguntas.” (276)

segunda-feira, 5 de março de 2012

EXPEDIÇÃO À TERRA – Arthur C. Clarke


Esta coletânea de contos de ficção científica foi originalmente publicada em 1953, ou seja, há mais de meio século atrás. Que as onze histórias da antologia continuem atuais e relevantes nos dias de hoje é apenas uma pequena amostra do gênio de Arthur C. Clarke.

As histórias são bem diferentes entre si, e cada uma delas um exemplo da prodigiosa imaginação do autor. Em alguns momentos parece ser possível prever o final da história, mas Clarke sempre vai além, sempre oferece algo mais. Nem que seja o seu estilo refinado, criador de frases memoráveis. Eis uma delas:

“...quando alguém cai na África de uma altura de duzentos e cinqüenta quilômetros, um tornozelo quebrado pode ser anticlimático, mas não é menos doloroso por isso.”

Gostei bastante de todas as histórias, mas o destaque vai sem dúvida para “A Sentinela”, que encerra o livro. Esse conto foi a centelha original de inspiração para o filme “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, dirigido por Stanley Kubrick e roteirizado pelo próprio Clarke.

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