Logo
na capa do livro se vê a contemporaneidade, a semiótica, signos que
norteiam pensamentos dentre manifestantes de rua e também os de
ar-condicionado e internet.
O
famigerado "Ele não", o pato da FIESP, o Black Lives
Matter, o feminismo, tudo lá está, o panorama do Brasil mais do que
atual.
Ao
longo dos textos, este cordel traz as belas imagens em xilogravura de
Nireuda Longobardi, símbolos diretos, sucintos como devem ser, que
dizem por si só e deliciam os olhos das leitoras/es.
Notem
que "Do Fascínio ao Fascismo" bem pode claramente, ou
subliminarmente, ser um jogo de palavras ardiloso e perspicaz feito
pelo autor.
Vale
pensar a respeito: o fascismo fascina ou há um fascínio de imagens
que levem ao fascismo, portanto a um neofascismo, no caso o
neofascismo brasileiro. Pode parecer mero detalhe, mas não é.
Ademais,
é fundamental elucidar. O fascismo e o nazismo tiveram como pano de
fundo um contexto geopolítico muito peculiar e de época, países
que não mais existem, líderes idem.
Houve
um rearranjo geopolítico mundial e um caminho árduo de cerca de
setenta anos de história transcorridos desde o desastre das grandes
guerras.
Portanto,
hoje, 2022, o mais correto, na singela opinião deste que escreve,
seria adotarmos os termos neofascismo e neonazismo.
Neonazismo
o que ocorre hoje, por exemplo, na Ucrânia, claramente um reflexo do
apoio de parte destes povos em plena época de nazismo de Hitler e
Segunda Guerra Mundial.
Também ainda resquícios na Alemanha, mais
fortes na Hungria, Finlândia e outros países. Finlândia que,
diga-se, tão nobre hoje, mas ladeou tropas com Hitler sem pudor em
épocas passadas.
Neofascismo
portanto o que ocorre hoje no Brasil, EUA, Itália, França,
Filipinas e por aí vai.
O
cordel de Varneci Nascimento está para os cordéis históricos
linearmente, daqueles cordéis expostos nas ruas do agreste
nordestino, em varais de barbante, os pragmáticos e disponíveis
jornais locais, fontes de informação.
O
autor relatou recentemente em feira literária que aqueles cordéis
mais puristas expostos em barbantes esticados nas praças públicas
nordestinas, monocromáticos, de papel mais barato, tais cordéis
clássicos ainda existem, firmes e fortes.
Porém,
explicou Varneci, houve a opção pessoal por cordéis de modelos
outros, uma opção consciente e pragmática, em paralelo não
havendo o abandono por tais citadas apresentações mais rústicas e
históricas, lindas e impagáveis.
Em
"Do Fascínio ao Fascismo" (ou, do fascismo ao fascínio)
os textos de Varneci Nascimento expõem a informação nua e crua,
verídica, detalhada e cronológica, uma veia jornalística se faz
presente.
Há,
como exemplo, uma descrição detalhada e cronológica sobre a
carreira na política daquele que viria a ser o primeiro presidente
neofascista pós-ditadura militar brasileira.
Fato
é o fascismo fascinar, e não se trata de um mero jogo de palavras.
Bem cabe dizer que o nazismo também fascina, as demonstrações
intempestivas de poder fascinam, um lutador de boxe ensanguentado e
vencedor no ringue, ainda muito quente, com as veias de seus bíceps
dilatadas e proeminentes, isto tudo a muitos fascina, o poder bruto,
estúpido e eficaz, liquidador.
Há
quem considere as demonstrações militares recheadas de mísseis
balísticos nucleares na época da antiga União Soviética, aquela
coreografia macabra de tropas soldadescas marchando, em uníssono, a
coreografia militar disciplinada e impecável, quase sobre-humana, há
quem considere também uma clara identificação fascista.
E é,
dizem especialistas, só que com o sinal trocado.
Tudo
isto, força bruta, força sobretudo, poder, capacidade de execução,
coerção, tudo tende a fascinar a grande maioria dos espectadores,
salvo algumas exceções.
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Gravura de Rodrigo Trompaz
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Imagine-se
a dança macabra de uma luz de vela bruxuleante, em um casebre
sombrio na mata escura, casebre rústico em plena tempestade de raios
e trovões, tal dança macabra de sombras e pouca luz de uma vela
tímida, acrescente-se o sobrevoo baixo de impressionantes caças
supersônicos a rasgar o céu acinzentado, aviões e seus estrondos
explosivos mentalmente perturbadores, capazes de estraçalhar amplas
vidraças em uma questão de segundos.
A muitos fascinará.
Historicamente
os grandes perpetradores do fascismo e suas variantes foram líderes
carismáticos, aceitemos nós humanistas ou não.
Tais líderes bem
souberam com maestria e sagacidade canalizar um pensamento comum,
manipular até mesmo a própria vontade voluntária de suas
populações nacionais.
Souberam
vender um argumento e pauta numa embalagem atrativa e reluzente,
higiênica, salutar, que de fato atingia o problema maior demandado
por suas mesmas populações nacionais em determinado momento
histórico.
Por
óbvio, e a História demonstrou a duras penas após muito sofrimento
e pesar, que o atingimento das propostas apregoadas pelos líderes
autoritários com os dois pés no sadismo, leia-se o fascismo e seus
congêneres, tais líderes autocráticos não possuíam qualquer
escrúpulo ou hesitação em aplicar quais e tais métodos e fórmulas
fossem necessárias para solucionar o que defendiam como uma solução
definitiva, solução final que seja, a direta eliminação do
problema.
De
fato não negavam tais líderes autocráticos, por intermédio de uma
aversão aos inimigos discordantes, não negavam que o intento
higienizador se daria diretamente por meio de um extermínio cabal e
direto de seus opositores.
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Gravura de Rodrigo Trompaz
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Fascistas
nunca negaram ou deixaram de demonstrar que ao problema mais imediato
caberia a taxativa eliminação sumária de adversários.
Não
fosse fascinante, o fascismo não angariaria prosélitos e
seguidores, tal qual uma seita, em que os convertidos sequer
hesitariam em se imolar ou se martirizar por um suposto valor
superior sacralíssimo, por aquilo que acreditam piamente, um
ideário, receituário, os mandamentos máximos e sucintos dentre a
ideia que tenham de uma vida melhorada.
Conceito
tão repetidamente frisado, o fascismo de Mussolini para alguns
leitores/as mais desatentas pode escapar ao significado.
O mesmo
ocorre com sua cria direta, o nazismo de Hitler, o
nacional-socialismo, que de socialismo nada teve, a não ser se a
mente amalucada de seu líder pensasse a sociedade enquanto
exclusivamente a dita etnia social ariana, o que é sim importante
considerar como aquilo de fato pensado por Hitler.
Mas
a Varneci Nascimento a História e os seus devidos atores não passam
impunes:
[...]
À questão socialista / Hitler
jamais foi ligado, / Pois só havia o vocábulo / Socialista
empregado. / No nome do seu partido / De um modo equivocado. [...]
[...]
O ditador do Nazismo / Tinha o
palavrório feio / Falando a sua verdade / Só enganando o alheio, /
Porém a boca só fala / Do que o coração é cheio. [...]
[...]
A semelhança de Hitler / O Hitler
daqui também / Não possui projeto claro / Visando fazer o bem /
Pela falta de preparo, / E
clareza, que não tem. [...]
Que
os leitores/as fiquem atentas em seus cotidianos cidadãos às
armadilhas históricas e às análises rasas de uma triste
profundidade de pires.
Geopolítica sempre foi tema complexo, que se
atente. Atualmente, 2022, aquele que diz combater o neofascismo
ucraniano é, ele próprio, um representante do neofascismo russo.
Varneci
Nascimento alerta:
[...]
O sujeito é misógino e racista, / Opressor
declarado da mulher / Defensor do estupro a quem quiser, / Sem contar
que é um terraplanista / Tem a prática frequente de fascista, /
Mussolini é seu ídolo italiano, / Seu guru conhecido é outro
insano / Outro
tóxico pior que Chernobyl [...]
Varneci
Nascimento discorre sobre vários temas mais aprofundados, tais
quais:
"Nosso povo brasileiro vive caindo em cilada"; "O
sangue dos explorados sustenta os exploradores"; "Democracia
ferida"; dentre outros.
Não
escapam ao olhar social do autor também outros tantos temas, tais
quais, por exemplos, um impagável diálogo dentre políticos, além
da discriminação de parte da sociedade contra os profissionais
lixeiros, os garis Brasil afora:
[...]
Na política eu vou poder / Acumular muita grana, / A fim de ajudar
alguém, Morrendo em qualquer semana. / Pagar seu lindo caixão / Bem
como a cova bacana. [...]
[...]
A pessoa inconsciente, / Não valoriza a bravura / Do trabalhador
braçal / Às vezes sem estrutura / De cumpridor da tarefa / Ingrata,
pesada e dura [...]
No
texto não falta senso de humor, humor negro, diga-se. Em um diálogo
impagável dentre dois políticos inescrupulosos:
[...]
Obra maior nos convém: / Propor um anel viário / Ao redor do
oceano / No papel imaginário, /Só para justificar / O sumiço desse
erário. [...]
Aqui
a desigualdade social histórica no Brasil:
[...]
Quero dar melhor sentido, / Já basta desta esperteza. / Enquanto a
classe política / Nada no mar da riqueza / Vemos tantos brasileiros
/ Padecendo na pobreza. [...]
Sobre
a pandemia:
[...]
Quantos seres têm morrido / Nas filas dos hospitais, / Viroses,
gripes letais, [...]
A
carreira profissional dos políticos corruptíveis:
[...]
Nessa escola quem entrar / Sai com diploma na mão, / Um pós-doutor
em desvio, / Quadrilheiro, fanfarrão, / Espertíssimo no escândalo,
/ Genial na enganação. / De superfaturação [...]
[...]
Fazer escarcéu e jura, / Ter amnésia constante, / Filmado no
celular / Negar em qualquer instante / Não ser ele nessa imagem / É
montagem degradante! [...]
Mas
Varneci Nascimento não se rende ao pessimismo e intui haver
esperanças quanto aos corretivos sociais:
[...]
Portanto você repense / Cada gesto de aspereza / Melhore, tenha
grandeza, [...]
[...]
Uma consciência crítica / Esclarece, compromete / Nesse jogo
democrático / O cidadão bom se mete [...]
[...]
Exercer cargo eletivo / Vai além da competência, / Porque deve ser
regado / Pela água da decência / Ser tão claro quanto a luz, /
Cultivar a transparência. [...]
[...]
Todo vendedor de voto / Atenta contra a lisura, / Do processo
eleitoral / Cometendo uma loucura / De condenar brasileiros / A viver
sem ter cultura. [...]
[...]
O eleitor quando é crítico / Analisa a conjuntura / Se acaso tiver
caráter / Ao errado faz censura / Contra proposta maldosa / Assume
clara postura. [...]
[...]
Quero as armas mais vendidas /
Dentro da nossa nação / Aquela chamada livro / Nas mãos da
população / A moradia de sobra / Com mesa farta de pão. [...]
Os
versos de Varneci Nascimento são retratos da vida nua e crua, podem
bem ser pendurados em mural na sala de estar de casas dos cidadãos
comuns. São versos poéticos de aprimorada rima, atemporais,
elucidativos.
Nesta
obra específica muitos dos versos do autor chocam, tais quais nos
chocam algumas cenas cotidianas, verdades, as quais não podemos
jamais fechar olhos e omitir.
O
cordel de Varneci Nascimento em "Do Fascínio ao Fascismo"
(ou vice-versa) é um chacoalhão em nosso ser, para que não ajamos
tais quais avestruzes que se escondem dos problemas colocando a
cabeça num buraco ao solo:
[...]
O descompromisso impera / Nos conchavos do país / A escassez de
projetos / Trazem terríveis perfis, / A violência é um deles / Que
deixa o povo infeliz. [...]
[...]
Repare os países pobres / De todo o Terceiro Mundo / Tem desnutrição
de sobra / O desespero é profundo. / Por faltar governos sérios / O
lamaçal é fecundo. [...]
Àqueles
que acreditem em karma, perguntem-se se haverá pior deles, passar em
vida por um desgoverno ao qual você tenha de convier por anos,
décadas talvez, de atraso e ódio desenfreado?
[...]
Toda pessoa bondosa / Deve combater o carma / Com a melhor
consciência / Esse gatilho desarma / Apontando direitinho / Seu voto
como uma arma. [...]
Nossa
belíssima língua portuguesa, muito bem tratada por Varneci
Nascimento, em várias passagens onde, muito provavelmente, o
leitor/a precise aprofundar seus conhecimentos léxicos e enriquecer
a mente construtivamente:
[...]
Sorrateiro, não sabe ser cordato, / É avesso a lhaneza dos deveres.
[...]
Abaixo
um trecho impressionante de excelente didatismo ao leitor/a.
Descrições pormenorizadas, jornalísticas, que nutrem e informam,
inclusa ainda a necessária dose crítica do cordelista informante do
povo nas praças públicas.
[...]
Não somente os deputados / Na Câmara podem propor / Porque tem uma
abertura / Facultando ao eleitor / Recolher assinaturas / E ser seu
propositor. [...]
[...]
O que se vota na Câmara, / Depois é encaminhado. / Para também
discutir, / Pelos membros do Senado, / Que podem manter intacto, / Ou
ser de fato alterado. [...]
[...]
O Senado tem por meta / Aprimorar o projeto / Visando dar equilíbrio
/ Caso pareça incompleto / É a função desta casa: / A revisão no
trajeto. [...]
[...]
Compete ao Legislativo, / Realmente legislar. / Outra função
inerente / É a de fiscalizar / Para que o Executivo / Consiga se
controlar. [...]
[...]
Sendo feita alteração / Volta a Câmara novamente / Para a nova
votação / No plenário, é evidente. / Será o melhor sistema? / Ou
menos eficiente? [...]
O
cristianismo, tão alegado aos quatro ventos, não estará mal
interpretado atualmente?
[...]
O mandamento de Cristo / Ordenando não matar / Trocado
arbitrariamente / Por alguém incentivar / Cada brasileiro a ter / O
direito de se armar. [...]
Neste
cordel, pelo tema e título, por óbvio se faz notar o insano e
corrosivo ódio social:
[...]
As doses de sua fúria / A princípio
homeopáticas / Aumentaram de tamanho, / Sendo menos pragmáticas /
Lançando as ervas daninhas / Em quantidades dramáticas. [...]
[...]
“Negro se pesa em arroba” /
Mesma medida de gado / Proferiu essa sandice / Achando até engraçado
/ Quem pensava deste jeito / Foi no laço cooptado. [...]
[...]
Porém você se pergunta: / Como
quem possui cultura? / Apoia alguém desse nível / Antes disso não
mensura / Não consegue perceber / Seu estado de loucura? [...]
[...]
O mais terrível de ver / Nessa
falta de postura / São amigos aplaudindo / Numa insanidade pura. /
Quem defende o extermínio, / É dono de uma alma impura. [...]
[...]
Em relação às mulheres / É
mestre na tirania. / Já votou contra as domésticas / Na PEC que se
exigia / Os direitos trabalhistas / Em clara misoginia. [...]
[...]
“Mulher deve ganhar menos” / Sem
nenhum pudor aduz, / Pois além de sexo frágil, / Engravida e
reproduz / Chamando de inferior / O ser que lhe deu a luz. [...]
[...]
Em nosso Brasil racista / Muitos
acham inferior, / Favelado, preto, indígena, / Mas louva torturador
/ Trata melhor seu cachorro / Do que um trabalhador. [...]
[...]
Ele nem suporta ouvir / O nome de
jornalista, / Se algum fizer pergunta, / Espinhosa, caso insista /
Pela resposta, se zanga, / Já encerra a entrevista. [...]
Sobre
o desrespeito e desconsideração ao meio ambiente:
[...]
Com nossa rica Amazônia / A coisa
vai muito mal, / Quer desmatar a floresta / Para fazer capinzal /
Porque não entende nada / Da questão ambiental. [...]
Homens,
mulheres, qualquer orientação sexual, por óbvio humanos são,
gente tal quais nós próprios:
[...]
Ideologia de gênero / Que você
tanto espalhou / Vendeu aos seus seguidores / E essa gente acreditou.
/ Feito as armas do Iraque / Que ninguém nunca encontrou. [...]
A
história brasileira e os necessários alertas atuais:
[...]
Preserve bem na memória / O ano
sessenta e quatro, / Pois longe de ser teatro, / É peça chave da
história. / Uma mancha vexatória, [...]
[...]
Revés que não se mensura, / Começo
da época dura / Do período militar, [...]
[...]
Se você pouco acredita, / Vá
estudar o passado, / Conversar com torturado, / Vítima daquela
desdita. / Conheça a trama maldita / Por trás da pesada agrura.
[...]
[...]
Veja quanta desventura / Enfrentar
tamanho monstro. / Enquanto viver, demonstro, /
Nunca mais a ditadura. [...]
Acrescente-se
uma importante mensagem:
[...]
Senhor mito e sua claque [...] Não
venha ler o meu livro / Porque tem muita palavra. [...]
Livro,
cordel, poesia convictamente recomendada.
Delicie-se
com os versos poéticos elevados e iluminados de Varneci Nascimento.
Se proferidos por ele próprio, sempre em
cândida fala,
um adendo mais do que especial ao saboroso e bem temperado sotaque
nordestino tão belo e representativo.
Resenha
de Rogério Puerta
Mais
resenhas deste, aqui abaixo:
Paulo
Freire - Um Educador Diferente (Varneci Nascimento):
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Valo Velho):
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Contos
Antifascistas, de Rogério Puerta, para baixar gratuitamente em livro
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