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sábado, 27 de agosto de 2022

Jesus Kid, de Lourenço Mutarelli

 

 

"RResus", algo assim, provável mais correta esta pronúncia espanhola, tal qual Jorge vira uma "rrorje" aos hermanos castelhanos. 

 

Jesus Kid, uma saga western em 28 volumes, daqueles livros de bolso de papel meio amarelado, os que lá em terra ianque chamam pulp fiction.

 

Vários "algo assim" pois vai tudo de sua mente, sim, você leitor ou leitora. Sobrevoos infinitos de alma, universos paralelos, permita-se e se entregue às fantasias de Lourenço Mutarelli.

 

Fantasias ou não, quiçá seriam metáforas perspicazes de um cotidiano nu e cru de todos e todas nós, uma realidade mais do que presente.

 

O livro de Lourenço Mutarelli é sim, nada de absurdo ao se afirmar, sim, um exercício convidativo aos devaneios e criatividades, tais quais outros livros do autor. Devaneios nada tolos, para quem ache que todos os devaneios sejam necessariamente tolos e pueris.

 

 

Jesus Kid vem e vai na narrativa do livro, em algumas vezes é ele próprio a atuar, um pistoleiro saído de saga western, ele em carne e osso, talvez ele próprio quem dite mesmo a ação do livro de Mutarelli. 

 

Talvez. Talvez ele seja o próprio protagonista do livro, Eugênio, um escritor imerso em conflitos internos. Eugênio. Eu, gênio? Engana-se quem pense que gênio é coisa boa. Genial sim, um hábito assim chamar, mas gênio é em si, historicamente, um ente ou caráter mais associado ao Mal do que ao Bem, assim dizem.

 

Daí que uma pessoa, quando admiramos, deveria ser mais bem descrita como espirituosa ou iluminada. Uma pessoa geniosa, como muitos dizem, na gênese da palavra, é preponderantemente uma pessoa mais má do que boa. Chatices de escritor metido à besta. 

 

Euler é uma boa, belo nome masculino. Valeria algum escritor ou escritora assim batizar uma de suas proles ao menos. Eu amo ler, Euler, belo nome.

 

No livro não confundir um Lourenço que lá aparece, este o pobre coitado idoso enfermo. Talvez nem tão pobre coitado, a narrativa demonstrará por que, condição fisiológica relacionada às irrigações sanguíneas em extremidades-chave de seu enfermo senil corpo humano em dificuldades de movimento.

 

Quadrinista de mão-cheia, em recente publicação junto a Ferréz, de "Capão Pecado", o autor de Jesus Kid bem pode ter imaginado o texto do livro tal qual uma narrativa de roteiro de uma animação gráfica, desenho animado que seja, daqueles para público adulto, ou um HQ propriamente dito. Aos não familiarizados: História em Quadrinhos, HQ. 

 

 

Mutarelli há tempos se encontra dominando esta arte que detém uma boa dose de ocultismo e perspectivas subliminares em muitos dos casos. Um universo paralelo de fato, outra dimensão logo ao nosso lado, porém acessível apenas para os iniciados.

 

Um exercício ao devaneio não tolo. Diablo Kiddo, do Bem, pois Jesus Kid está mais para o lado do Mal, ele um pistoleiro sangue-frio. Injustiça talvez, Jesus Kid um justiceiro, higienizador de bandidos, extermina-os sem julgamento. 

 

Bem conveniente em dias atuais de Brasil neofascista. Seria talvez ele um representante do deus que está acima de todos nós e ao lado da Pátria amada Brasil.

 

Então Diablo Kiddo seria do Bem, supondo um Jesus do Mal, pistoleiro nato implacável de um bom western de sucesso em vendagens de livros de bolso de páginas grossas amareladas.

 

Diablo Kiddo, seu oposto, aqui se materializa e tenta colher bons e alvissareiros fluidos cristalinos.

 

No livro: "Muito boa aquela hora que ele confunde a cor das fichas de pôquer e acaba transando com a própria mãe, que era a dona do prostíbulo". 

 

Que raios o autor quis dizer? Várias interpretações de algo que, convenhamos, não deva tomar tempo para qualquer interpretação, algo que pode ser nada mais do que uma viagem em meio a maionese cor-de-rosa. Ou não.

 

Cenas descritas surreais, imagéticas e, aqui digo, deliciosas. Ou, nem tanta fantasia, um exercício excepcional em metáforas perspicazes. Por que não?

 


 

Diablo Kiddo tenta exercer o seu papel do Bem. O sujeito perde a aposta no pôquer por confundir as fichas e, como punição ou paga, vê-se obrigado a fazer sexo blasfêmico e desrespeitoso com a própria mãe. Ou, por outro lado, foi o ato sexual uma recompensa por ganhar a aposta, o que tornaria a transa ainda mais blasfêmica e desrespeitosa. 

 

Mas Diablo Kiddo insiste, afinal se define como do Bem. Tenta e tenta. Impaciente e desesperançoso, por fim desiste em dez minutos, impossível buscar explicação cristã para o desenrolar da cena em questão. 

 

Como raios vá se conseguir uma passagem emotiva e edificante, do Bem, ao se transar com a própria mãe? Ainda mais sendo isto uma decorrência de pura jogatina profana.

 

Diablo desiste, Jesus Kid é implacável, toma brusco o seu lugar de direito. Com ele ninguém pode.

 

Jesus Kid, o pistoleiro sangue-frio, acompanha o protagonista tal qual um demônio apoiado aos ombros. Demônio ou antidemônio. Imaginemos um oposto portanto, novamente um Diablo Kiddo, a tudo criticar no seu antagonista paradisíaco ao menos em nome de batismo, Jesus.

 

Diablo Kiddo portanto oposto a Jesus, a lhe fazer contrapontos, comentários objetivos frutos de reflexão mental sagaz e dosada ao racional, equilibrando o emocional e o racional.

 

Deixa pra lá, Bem e Mal estarão sempre em eterno e desgastante conflito dentre a Humanidade.

 

No enredo de Mutarelli, misteriosos comprimidos coloridos, betabloqueadores, dão uma temperada em todo o transcorrer do texto, da estória. Uma estória imersa em desfocadas e ocultas brumas etéreas, isto pode-se afirmar com razoável precisão.

 


 

"Olha, Eugênio, eu estou querendo filmar a história de um escritor, seu processo criativo, suas dificuldades e sua dor. A dor da criação".

 

[...] "Você vai escrever sobre a sua experiência, vai escrever sobre a dor da criação, dos três meses que viverá em sua clausura criativa, mas isso irá se tornar um roteiro cinematográfico. E, como disse o Máximo, cinema é ação" [...] "Não venha nos encher de conflitos internos e longos diálogos" [...] "Isso, não venha nos trazer um monte de verborragia. Queremos ação, porque cinema é ação".

 

Ação, o protagonista do livro precisa de ação vinda de Jesus Kid, para com isto rechear o seu roteiro de cinema: "Imagino a câmera acompanhando cada uma das cartas. Das mãos de Jesus até caírem dentro do chapéu. Tudo em câmera lenta. Ação refinada".

 

Seria tudo então um laboratório de escritor? Daqueles em que o profissional literato se mete em confusões mil para vivenciá-las na pele e mais bem descrevê-las em narrativas detalhadas e bem ambientadas dentre as páginas de seu livro em elaboração? Uma possibilidade, mais um de tantos talvez ou algo assim.

 

"Que tipo de livro você escreve? / Desses retangulares". Humor cáustico.

 


 

Assuntos cotidianos ganham densidade, tal qual o desaparecimento periódico de uma ridícula, mínima e módica tampinha de plástico de banheira de hotel. 

 

Utensílio módico sim, mas que desempenha enorme função, gigantesca necessidade a um ato nem um pouco desprezível, o preparo de um demorado banho morno perfumado em banheira de hotel.

 

Seriam de fato dilemas existenciais assuntos tão cotidianos?

 

"Tá legal. Eugênio, o negócio é o seguinte, nós queremos filmar a história de um escritor. Um escritor que se lança num projeto de escrever um roteiro para um filme. Filme este que falará de um escritor que se lançou a um projeto de escrever um roteiro para um filme. Caralho! Onde pode haver dúvida?!".

 

O protagonista Eugênio em reflexões: "Jesus vai embora. Nunca o vi tão frágil. Nunca havia enxergado a mortalidade em Jesus Kid. Isso me preocupou. Será que ele está morrendo porque o estou deixando de lado?".

 

Outra: "Desconhecia esse gosto amargo do teclado emperrado. Não desconfiava da artrose das mãos que não recebem ordens do cérebro. Cérebro covarde".

 


No livro de Mutarelli, o imagético quadrinista pode bem ser quase sempre evocado: "Parece um desses personagens de desenho animado. Ele é a mistura do capeta com a Penélope Charmosa. Pior é que não consigo reagir. Estou apavorado".

 

Ou trata-se de um imagético cinematográfico, uma outra arte, outra modalidade de cenário: "Para justificar a ação, imagino tudo em câmera rápida, como num filme que vi. Laranja mecânica. Tudo passa acelerado. Eu tomo café, banho, e almoço. Passo a tarde teclando e brindo a chegada da noite com Nurse e vodca importada".
 

Recomendado. Delicie-se. Se possível, leia antes o livro, saboreie o texto de Jesus Kid antes de sequer assistir ao trailer do filme com o excepcional Paulo Miklos. 

 

Saudações a quem se permite aos inspiradores sobrevoos da alma.

 

 

 

[Resenha de Rogério Puerta (o escritor metido à besta)]

domingo, 9 de outubro de 2022

"Do Fascínio ao Fascismo": Cordel de Varneci Nascimento


Logo na capa do livro se vê a contemporaneidade, a semiótica, signos que norteiam pensamentos dentre manifestantes de rua e também os de ar-condicionado e internet. 

O famigerado "Ele não", o pato da FIESP, o Black Lives Matter, o feminismo, tudo lá está, o panorama do Brasil mais do que atual.

Ao longo dos textos, este cordel traz as belas imagens em xilogravura de Nireuda Longobardi, símbolos diretos, sucintos como devem ser, que dizem por si só e deliciam os olhos das leitoras/es.

Notem que "Do Fascínio ao Fascismo" bem pode claramente, ou subliminarmente, ser um jogo de palavras ardiloso e perspicaz feito pelo autor. 

Vale pensar a respeito: o fascismo fascina ou há um fascínio de imagens que levem ao fascismo, portanto a um neofascismo, no caso o neofascismo brasileiro. Pode parecer mero detalhe, mas não é. 

 

Ademais, é fundamental elucidar. O fascismo e o nazismo tiveram como pano de fundo um contexto geopolítico muito peculiar e de época, países que não mais existem, líderes idem. 

 

 

Houve um rearranjo geopolítico mundial e um caminho árduo de cerca de setenta anos de história transcorridos desde o desastre das grandes guerras. 

 

Portanto, hoje, 2022, o mais correto, na singela opinião deste que escreve, seria adotarmos os termos neofascismo e neonazismo. 

 

Neonazismo o que ocorre hoje, por exemplo, na Ucrânia, claramente um reflexo do apoio de parte destes povos em plena época de nazismo de Hitler e Segunda Guerra Mundial. 

 

Também ainda resquícios na Alemanha, mais fortes na Hungria, Finlândia e outros países. Finlândia que, diga-se, tão nobre hoje, mas ladeou tropas com Hitler sem pudor em épocas passadas.

 

Neofascismo portanto o que ocorre hoje no Brasil, EUA, Itália, França, Filipinas e por aí vai.


O cordel de Varneci Nascimento está para os cordéis históricos linearmente, daqueles cordéis expostos nas ruas do agreste nordestino, em varais de barbante, os pragmáticos e disponíveis jornais locais, fontes de informação. 

 

O autor relatou recentemente em feira literária que aqueles cordéis mais puristas expostos em barbantes esticados nas praças públicas nordestinas, monocromáticos, de papel mais barato, tais cordéis clássicos ainda existem, firmes e fortes. 

 

Porém, explicou Varneci, houve a opção pessoal por cordéis de modelos outros, uma opção consciente e pragmática, em paralelo não havendo o abandono por tais citadas apresentações mais rústicas e históricas, lindas e impagáveis. 

 

Em "Do Fascínio ao Fascismo" (ou, do fascismo ao fascínio) os textos de Varneci Nascimento expõem a informação nua e crua, verídica, detalhada e cronológica, uma veia jornalística se faz presente. 

  

Há, como exemplo, uma descrição detalhada e cronológica sobre a carreira na política daquele que viria a ser o primeiro presidente neofascista pós-ditadura militar brasileira.


Fato é o fascismo fascinar, e não se trata de um mero jogo de palavras. 

Bem cabe dizer que o nazismo também fascina, as demonstrações intempestivas de poder fascinam, um lutador de boxe ensanguentado e vencedor no ringue, ainda muito quente, com as veias de seus bíceps dilatadas e proeminentes, isto tudo a muitos fascina, o poder bruto, estúpido e eficaz, liquidador.

 

Há quem considere as demonstrações militares recheadas de mísseis balísticos nucleares na época da antiga União Soviética, aquela coreografia macabra de tropas soldadescas marchando, em uníssono, a coreografia militar disciplinada e impecável, quase sobre-humana, há quem considere também uma clara identificação fascista.

E é, dizem especialistas, só que com o sinal trocado.

 

Tudo isto, força bruta, força sobretudo, poder, capacidade de execução, coerção, tudo tende a fascinar a grande maioria dos espectadores, salvo algumas exceções. 

 

Gravura de Rodrigo Trompaz

  

 

Imagine-se a dança macabra de uma luz de vela bruxuleante, em um casebre sombrio na mata escura, casebre rústico em plena tempestade de raios e trovões, tal dança macabra de sombras e pouca luz de uma vela tímida, acrescente-se o sobrevoo baixo de impressionantes caças supersônicos a rasgar o céu acinzentado, aviões e seus estrondos explosivos mentalmente perturbadores, capazes de estraçalhar amplas vidraças em uma questão de segundos. 

A muitos fascinará. 

 

Historicamente os grandes perpetradores do fascismo e suas variantes foram líderes carismáticos, aceitemos nós humanistas ou não. 

Tais líderes bem souberam com maestria e sagacidade canalizar um pensamento comum, manipular até mesmo a própria vontade voluntária de suas populações nacionais. 

 

Souberam vender um argumento e pauta numa embalagem atrativa e reluzente, higiênica, salutar, que de fato atingia o problema maior demandado por suas mesmas populações nacionais em determinado momento histórico.

 

Por óbvio, e a História demonstrou a duras penas após muito sofrimento e pesar, que o atingimento das propostas apregoadas pelos líderes autoritários com os dois pés no sadismo, leia-se o fascismo e seus congêneres, tais líderes autocráticos não possuíam qualquer escrúpulo ou hesitação em aplicar quais e tais métodos e fórmulas fossem necessárias para solucionar o que defendiam como uma solução definitiva, solução final que seja, a direta eliminação do problema. 

 

De fato não negavam tais líderes autocráticos, por intermédio de uma aversão aos inimigos discordantes, não negavam que o intento higienizador se daria diretamente por meio de um extermínio cabal e direto de seus opositores. 

 

Gravura de Rodrigo Trompaz

  

Fascistas nunca negaram ou deixaram de demonstrar que ao problema mais imediato caberia a taxativa eliminação sumária de adversários.

 

Não fosse fascinante, o fascismo não angariaria prosélitos e seguidores, tal qual uma seita, em que os convertidos sequer hesitariam em se imolar ou se martirizar por um suposto valor superior sacralíssimo, por aquilo que acreditam piamente, um ideário, receituário, os mandamentos máximos e sucintos dentre a ideia que tenham de uma vida melhorada.

 

Conceito tão repetidamente frisado, o fascismo de Mussolini para alguns leitores/as mais desatentas pode escapar ao significado. 

O mesmo ocorre com sua cria direta, o nazismo de Hitler, o nacional-socialismo, que de socialismo nada teve, a não ser se a mente amalucada de seu líder pensasse a sociedade enquanto exclusivamente a dita etnia social ariana, o que é sim importante considerar como aquilo de fato pensado por Hitler.

 

Mas a Varneci Nascimento a História e os seus devidos atores não passam impunes:


[...] À questão socialista / Hitler jamais foi ligado, / Pois só havia o vocábulo / Socialista empregado. / No nome do seu partido / De um modo equivocado. [...]


[...] O ditador do Nazismo / Tinha o palavrório feio / Falando a sua verdade / Só enganando o alheio, / Porém a boca só fala / Do que o coração é cheio. [...]


[...] A semelhança de Hitler / O Hitler daqui também / Não possui projeto claro / Visando fazer o bem / Pela falta de preparo, / E clareza, que não tem. [...]


Que os leitores/as fiquem atentas em seus cotidianos cidadãos às armadilhas históricas e às análises rasas de uma triste profundidade de pires.

 

Geopolítica sempre foi tema complexo, que se atente. Atualmente, 2022, aquele que diz combater o neofascismo ucraniano é, ele próprio, um representante do neofascismo russo.

 

Varneci Nascimento alerta:


[...] O sujeito é misógino e racista, / Opressor declarado da mulher / Defensor do estupro a quem quiser, / Sem contar que é um terraplanista / Tem a prática frequente de fascista, / Mussolini é seu ídolo italiano, / Seu guru conhecido é outro insano / Outro tóxico pior que Chernobyl [...]



Varneci Nascimento discorre sobre vários temas mais aprofundados, tais quais:

 

"Nosso povo brasileiro vive caindo em cilada"; "O sangue dos explorados sustenta os exploradores"; "Democracia ferida"; dentre outros. 

 

Não escapam ao olhar social do autor também outros tantos temas, tais quais, por exemplos, um impagável diálogo dentre políticos, além da discriminação de parte da sociedade contra os profissionais lixeiros, os garis Brasil afora:


[...] Na política eu vou poder / Acumular muita grana, / A fim de ajudar alguém, Morrendo em qualquer semana. / Pagar seu lindo caixão / Bem como a cova bacana. [...]


[...] A pessoa inconsciente, / Não valoriza a bravura / Do trabalhador braçal / Às vezes sem estrutura / De cumpridor da tarefa / Ingrata, pesada e dura [...]


No texto não falta senso de humor, humor negro, diga-se. Em um diálogo impagável dentre dois políticos inescrupulosos:


[...] Obra maior nos convém: / Propor um anel viário / Ao redor do oceano / No papel imaginário, /Só para justificar / O sumiço desse erário. [...]




Aqui a desigualdade social histórica no Brasil:

 

[...] Quero dar melhor sentido, / Já basta desta esperteza. / Enquanto a classe política / Nada no mar da riqueza / Vemos tantos brasileiros / Padecendo na pobreza. [...]


Sobre a pandemia:


[...] Quantos seres têm morrido / Nas filas dos hospitais, / Viroses, gripes letais, [...]


A carreira profissional dos políticos corruptíveis:


[...] Nessa escola quem entrar / Sai com diploma na mão, / Um pós-doutor em desvio, / Quadrilheiro, fanfarrão, / Espertíssimo no escândalo, / Genial na enganação. / De superfaturação [...]


[...] Fazer escarcéu e jura, / Ter amnésia constante, / Filmado no celular / Negar em qualquer instante / Não ser ele nessa imagem / É montagem degradante! [...]


Mas Varneci Nascimento não se rende ao pessimismo e intui haver esperanças quanto aos corretivos sociais:


[...] Portanto você repense / Cada gesto de aspereza / Melhore, tenha grandeza, [...]


[...] Uma consciência crítica / Esclarece, compromete / Nesse jogo democrático / O cidadão bom se mete [...]


[...] Exercer cargo eletivo / Vai além da competência, / Porque deve ser regado / Pela água da decência / Ser tão claro quanto a luz, / Cultivar a transparência. [...]


[...] Todo vendedor de voto / Atenta contra a lisura, / Do processo eleitoral / Cometendo uma loucura / De condenar brasileiros / A viver sem ter cultura. [...]


[...] O eleitor quando é crítico / Analisa a conjuntura / Se acaso tiver caráter / Ao errado faz censura / Contra proposta maldosa / Assume clara postura. [...]


[...] Quero as armas mais vendidas / Dentro da nossa nação / Aquela chamada livro / Nas mãos da população / A moradia de sobra / Com mesa farta de pão. [...]



Os versos de Varneci Nascimento são retratos da vida nua e crua, podem bem ser pendurados em mural na sala de estar de casas dos cidadãos comuns. São versos poéticos de aprimorada rima, atemporais, elucidativos. 

 

Nesta obra específica muitos dos versos do autor chocam, tais quais nos chocam algumas cenas cotidianas, verdades, as quais não podemos jamais fechar olhos e omitir. 

 

O cordel de Varneci Nascimento em "Do Fascínio ao Fascismo" (ou vice-versa) é um chacoalhão em nosso ser, para que não ajamos tais quais avestruzes que se escondem dos problemas colocando a cabeça num buraco ao solo:

 

[...] O descompromisso impera / Nos conchavos do país / A escassez de projetos / Trazem terríveis perfis, / A violência é um deles / Que deixa o povo infeliz. [...]


[...] Repare os países pobres / De todo o Terceiro Mundo / Tem desnutrição de sobra / O desespero é profundo. / Por faltar governos sérios / O lamaçal é fecundo. [...]


Àqueles que acreditem em karma, perguntem-se se haverá pior deles, passar em vida por um desgoverno ao qual você tenha de convier por anos, décadas talvez, de atraso e ódio desenfreado?


[...] Toda pessoa bondosa / Deve combater o carma / Com a melhor consciência / Esse gatilho desarma / Apontando direitinho / Seu voto como uma arma. [...]


Nossa belíssima língua portuguesa, muito bem tratada por Varneci Nascimento, em várias passagens onde, muito provavelmente, o leitor/a precise aprofundar seus conhecimentos léxicos e enriquecer a mente construtivamente:

 

[...] Sorrateiro, não sabe ser cordato, / É avesso a lhaneza dos deveres. [...]




Abaixo um trecho impressionante de excelente didatismo ao leitor/a. Descrições pormenorizadas, jornalísticas, que nutrem e informam, inclusa ainda a necessária dose crítica do cordelista informante do povo nas praças públicas.



[...] Não somente os deputados / Na Câmara podem propor / Porque tem uma abertura / Facultando ao eleitor / Recolher assinaturas / E ser seu propositor. [...]


[...] O que se vota na Câmara, / Depois é encaminhado. / Para também discutir, / Pelos membros do Senado, / Que podem manter intacto, / Ou ser de fato alterado. [...]


[...] O Senado tem por meta / Aprimorar o projeto / Visando dar equilíbrio / Caso pareça incompleto / É a função desta casa: / A revisão no trajeto. [...]


[...] Compete ao Legislativo, / Realmente legislar. / Outra função inerente / É a de fiscalizar / Para que o Executivo / Consiga se controlar. [...]


[...] Sendo feita alteração / Volta a Câmara novamente / Para a nova votação / No plenário, é evidente. / Será o melhor sistema? / Ou menos eficiente? [...]


O cristianismo, tão alegado aos quatro ventos, não estará mal interpretado atualmente?


[...] O mandamento de Cristo / Ordenando não matar / Trocado arbitrariamente / Por alguém incentivar / Cada brasileiro a ter / O direito de se armar. [...]


Neste cordel, pelo tema e título, por óbvio se faz notar o insano e corrosivo ódio social:


[...] As doses de sua fúria / A princípio homeopáticas / Aumentaram de tamanho, / Sendo menos pragmáticas / Lançando as ervas daninhas / Em quantidades dramáticas. [...]


[...] “Negro se pesa em arroba” / Mesma medida de gado / Proferiu essa sandice / Achando até engraçado / Quem pensava deste jeito / Foi no laço cooptado. [...]


[...] Porém você se pergunta: / Como quem possui cultura? / Apoia alguém desse nível / Antes disso não mensura / Não consegue perceber / Seu estado de loucura? [...]


[...] O mais terrível de ver / Nessa falta de postura / São amigos aplaudindo / Numa insanidade pura. / Quem defende o extermínio, / É dono de uma alma impura. [...]


[...] Em relação às mulheres / É mestre na tirania. / Já votou contra as domésticas / Na PEC que se exigia / Os direitos trabalhistas / Em clara misoginia. [...]


[...] “Mulher deve ganhar menos” / Sem nenhum pudor aduz, / Pois além de sexo frágil, / Engravida e reproduz / Chamando de inferior / O ser que lhe deu a luz. [...]


[...] Em nosso Brasil racista / Muitos acham inferior, / Favelado, preto, indígena, / Mas louva torturador / Trata melhor seu cachorro / Do que um trabalhador. [...]


[...] Ele nem suporta ouvir / O nome de jornalista, / Se algum fizer pergunta, / Espinhosa, caso insista / Pela resposta, se zanga, / Já encerra a entrevista. [...]



Sobre o desrespeito e desconsideração ao meio ambiente:


[...] Com nossa rica Amazônia / A coisa vai muito mal, / Quer desmatar a floresta / Para fazer capinzal / Porque não entende nada / Da questão ambiental. [...]


Homens, mulheres, qualquer orientação sexual, por óbvio humanos são, gente tal quais nós próprios:


[...] Ideologia de gênero / Que você tanto espalhou / Vendeu aos seus seguidores / E essa gente acreditou. / Feito as armas do Iraque / Que ninguém nunca encontrou. [...]


A história brasileira e os necessários alertas atuais:


[...] Preserve bem na memória / O ano sessenta e quatro, / Pois longe de ser teatro, / É peça chave da história. / Uma mancha vexatória, [...]


[...] Revés que não se mensura, / Começo da época dura / Do período militar, [...]


[...] Se você pouco acredita, / Vá estudar o passado, / Conversar com torturado, / Vítima daquela desdita. / Conheça a trama maldita / Por trás da pesada agrura. [...]


[...] Veja quanta desventura / Enfrentar tamanho monstro. / Enquanto viver, demonstro, / Nunca mais a ditadura. [...]




Acrescente-se uma importante mensagem:

 

[...] Senhor mito e sua claque [...] Não venha ler o meu livro / Porque tem muita palavra. [...]


Livro, cordel, poesia convictamente recomendada.

 

Delicie-se com os versos poéticos elevados e iluminados de Varneci Nascimento. 

Se proferidos por ele próprio, sempre em cândida fala, um adendo mais do que especial ao saboroso e bem temperado sotaque nordestino tão belo e representativo.




Resenha de Rogério Puerta

Mais resenhas deste, aqui abaixo:

 


Paulo Freire - Um Educador Diferente (Varneci Nascimento):

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=varneci

My Way - A Periferia de Moicano (punk Valo Velho):

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=valo+velho

Meditação para Crianças / A Menininha Azul (Fabio Shiva):

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=medita%C3%A7%C3%A3o+para+crian%C3%A7as

Diário de um Imago (Fabio Shiva)

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=di%C3%A1rio+de+um+imago

Jesus Kid (Lourenço Mutarelli):

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=jesus+kid

Deus Foi Almoçar (Ferréz)

https://comunidaderesenhasliterarias.blogspot.com/search?q=ferr%C3%A9z 

 

Contos Antifascistas, de Rogério Puerta, para baixar gratuitamente em livro digital aqui:

 


https://www.recantodasletras.com.br/autor_textos.php?id=219852&categoria=M


 



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