quarta-feira, 3 de agosto de 2011

POR FAVOR, NÃO ME AME! - José Roberto Rocha

“Assim como o estupro, o amor e seus males também são um assunto tabu. Esse livro é um dos melhores que eu já li sobre esse assunto, sem rodeios e utopias, pois o amor romântico ainda proclama seus efeitos de uma maneira imprecisa.”

Por Elenilson Nascimento

“Ardendo de inveja da beleza de Psiquê, Afrodite ordenou a seu filho Eros que a fizesse apaixonar-se pela mais feia e desprezível das criaturas, mas Eros (ou Cupido), tomado de amor por Psiquê, levou-a para um palácio suntuoso, onde a visitava todas as noites, na escuridão. Sua única exigência era que ela nunca tentasse ver-lhe o rosto. Instigada por suas irmãs, ela quis, numa noite, identificar seu amante adormecido. Ao perceber que era o próprio Amor, ficou perdidamente apaixonada, porém uma gota de óleo da lâmpada caiu no ombro de Eros, despertando-o. Ele desapareceu e o romance ficou a descoberto. Para obter o perdão de Afrodite, Psiquê trabalhou como escrava, cumprindo diversas tarefas consideradas impossíveis. Finalmente, apaziguada, a deusa Afrodite perdoou os dois e permitiu a união”.

O parágrafo acima descreve as desventuras do amor benevolente que se contrapõe ao amor concupiscente (ou apego). No mito grego, o amor benevolente deseja-se fazer o bem ao outro. No amor concupiscente deseja-se possuir o bem que já existe no outro. Exemplo de amor benevolente é o da parábola do bom samaritano. Exemplo de amor concupiscente é a ganância do homem pelo dinheiro. Nas escrituras sagradas agape é traduzido como charitas (caridade). Considerada a maior das virtudes.

Contudo, por mais que o poder e o dinheiro tenham conquistado uma ótima posição no ranking das virtudes, o amor ainda lidera com folga nesse mundo paranóico em que vivemos. Tudo o que todos querem é amar e ser amado. Encontrar alguém na internet, na esquina, na padaria, na igreja, ou sei lá mais onde, que nos faça bater forte o coração e justifique loucuras. Que nos faça entrar em transe, cair de quatro, babar na gravata. Que nos faça revirar os olhos, rir à toa, cantarolar dentro de um ônibus lotado. E isso eu já fiz várias vezes!

Arnaldo Jabor já escreveu que: “Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta”. E nisso eu concordo plenamente com ele, pois depois que acaba esta paixão retumbante, sobra o que? O amor? Mas não o amor mistificado, que muitos julgam ter o poder de fazer levitar. O que sobra é o amor que todos conhecemos o sentimento que temos por mãe, pai, irmão, filho. É tudo o mesmo amor, só que entre amantes existe sexo. Não existem vários tipos de amor, assim como não existem três tipos de saudades, quatro de ódio, seis espécies de inveja.

E é exatamente isso que o autor e jornalista José Roberto Rocha debate em “Por favor, não me ame!”, um dos melhores livros que eu já li sobre a problemática do amor. Neste livro, o autor desmitifica a visão romântica dos alienados apaixonados logo pelo título. Mas como poderia alguém não querer ser amado se todos parecem desesperados procurando algum tipo amor?

Segundo o autor, hoje em dia, ama-se por qualquer motivo, pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pelo tipo de carro, pela quantidade de cartões de credito, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. O "amor", afinal, em muitos casos, segundo o autor, na maior parte das sociedades disfarça sensações como desejo físico, necessidade de companhia, vaidade, desejo de ostentar "um troféu" e por isso acorrenta, abafa, tolhe, controla, coloca limites, define expectativas, modelos etc. Para alguns homens e mulheres tem um peso imenso! Você ama aquela petulante, escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco. Eu já teria deletado faz tempo, mas muitos preferem viver de ilusões.

Ao longo do livro, que é muito curto, mas denso, com cerca de 134 páginas para se pensar - vai-se entendendo e acompanhando o raciocínio desse autor mineiro, que cursou o colégio científico, mas conseguiu diversificar para as artes e ser autor de peças teatrais, ator e músico, que por essas águas turvas é preciso navegar com todo o cuidado e leveza, equilíbrio e moderação, pois o fogo e a incandescência são elementos da paixão e do sexo, não do amor. Segundo o autor, não podemos possuir o ser amado e nem guardá-lo para nós, privando-o do mundo, dos amigos e da vida.

“Queremos amar muito mais do que amamos e, quando praticamos esta intenção, nos surpreendemos querendo e desejando muito mais receber do que dar”, escreveu o autor. No livro nos deparamos com descrições do comportamento de casais que se unem visando a longevidade do matrimônio, mas que ignoram que para o relacionamento durar tem que haver um pouco de silêncio, amigos de infância, vida própria, um tempo pra cada um. Tem que haver confiança. Uma certa camaradagem, às vezes fingir que não viu, fazer de conta que não escutou. Para o autor, as pessoas precisam entender que união não significa, necessariamente, fusão. E que amar, "solamente", não basta. Entre homens e mulheres que acham que o amor é só poesia, tem que haver discernimento, pé no chão, racionalidade. Tem que saber que o amor pode ser bom, pode durar para sempre, mas que sozinho não dá conta do recado. O amor é grande, mas não é dois. É preciso convocar uma turma de sentimentos para amparar esse amor que carrega o ônus da onipotência. O amor até pode nos bastar, mas ele próprio não se basta. Um bom amor aos que já têm! Um bom encontro aos que procuram! E felicidades a nós!

Em suma, um livro maravilhoso que diz num dos capítulos: “No amor nada se controla. Não existe espaço para acertos de contas. Não há como contabilizar ou medir os sentimentos. É impossível avaliar lucros e perdas, frequente balanço do "dar e receber". No amor não devemos nos manifestar assim. A intenção cega de agradar e de ser agradado deve ser repensada e substituída pela livre fluência de nossos afetos. O comportamento de quem ama e quer ser amado passa obrigatoriamente pela espontaneidade das atitudes”. E eu concordo com tudo! (“POR FAVOR, NÃO ME AME!”, de José Roberto Rocha, filosofia, 134 págs, editora Gente – 1995)

>>> Visite o LITERATURA CLANDESTINA e o COMENDO LIVROS.

2 comentários:

  1. Olá!
    Sua resenha está ótima, mas confesso que esse não é meu estilo de leitura. Talvez em um outro momento.
    Bjs

    ResponderExcluir
  2. Resenha interessante. Parabéns.
    Fiquei curiosa com o livro. Acho que vai para a minha pilha de leituras futuras.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...