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segunda-feira, 20 de agosto de 2018

COMO FAZER A GUERRA: Máximas e pensamentos de Napoleão recolhidos por Honoré de Balzac



Não sou particularmente fascinado pela figura de Napoleão, mas já fui obcecado por uma música que ele inspirou: a sinfonia Heroica de Beethoven, cuja marcha fúnebre acabou se tornando a trilha sonora de meu livro “O Sincronicídio”. Mas isso por culpa de um outro livro, escrito por um de meus autores favoritos: o incrível “Sinfonia Napoleão”, de Anthony Burgess.

Assim, esse livro com citações de Napoleão recolhidas por Balzac tinha tudo para me cativar. Gostei muito, e reproduzo abaixo as frases que mais me impactaram:

“As leis da maioria dos países são feitas para oprimir o infortunado e proteger o homem poderoso.”
*
“Um príncipe acusado por seus súditos não lhes deve nenhuma justificativa.”
*
“A adversidade é a parteira do gênio.”
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“A maior parte dos que não querem que os oprimam quer oprimir.”
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“De cem favoritos de reis, noventa e cinco foram enforcados.”
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“A coragem não se finge, é uma virtude que escapa à hipocrisia.”
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“O maior perigo ocorre no momento da vitória.”
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“As multidões precisam de festas estrepitosas; os tolos gostam do barulho, e a multidão é os tolos.”
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“Um trono é somente uma tábua revestida de veludo.”
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“Ninguém pode dizer o que fará em seus últimos momentos.”
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“O melhor meio de manter a palavra é nunca dá-la.”
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“O termo virtude política é um contrassenso.”
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“É mais fácil enganar do que desenganar.”
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“É batendo a cabeça umas contra as outras que as pessoas aprendem a se conhecer.”
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“O soberano sempre procede mal ao falar colérico.”
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“Aquele que guarda mais imagens em sua memória é o que tem mais imaginação.”
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“Muitas coisas se frustram quando fingimos não vê-las.”
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“Nada mais imperioso que a fraqueza que se sente apoiada pela força.”
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“A inveja é uma confissão de inferioridade.”
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“Quem sabe adular também sabe caluniar.”
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“Impor condições muito duras é dispensar de cumpri-las.”
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“Há crises em que o bem do povo exige a condenação de um inocente.”
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“Nunca é útil inflamar o ódio.”
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“A população avalia a força de Deus pela força dos padres.”
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“O tolo tem uma grande vantagem sobre o homem de espírito, ele está sempre contente consigo mesmo.”
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“As pessoas lutam mais por seus interesses que por seus direitos.”
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“Os grandes poderes morrem de indigestão.”
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“Não há roubo, tudo se paga.”
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“Elevamo-nos acima dos que insultam ao perdoá-los.”
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“O acaso explica todas as nossas tolices.”
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“As loucuras dos outros nunca nos tornam sensatos.”
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“Com o tempo, poder em excesso acaba por depravar o homem mais honesto.”
*
“As únicas conquistas que não causam nenhum pesar são aquelas feitas sobre a ignorância.”



\\\***///


O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
http://caligoeditora.com/?page_id=98
 
eBook:
https://www.amazon.com.br/dp/B07CBJ9LLX?qid=1522951627&sr=1-1&ref=sr_1_1


quinta-feira, 17 de outubro de 2013

ULISSES – James Joyce



Resolvi fazer essa resenha aos poucos, ao longo do caminho, como um diário de bordo. Pois a viagem é longa e cheia de aventuras.

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Para quem nunca leu e nem pretende ler o “Ulisses” de James Joyce, separo esse trecho para dar um gostinho da leitura. É justamente o parágrafo que acabo de ler agora:

“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensado através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por quê em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.”


A tradução é de Antonio Houaiss.

Estou na página 42. Faltam só 811.

(22.02.11)


   
ULISSES – James Joyce

Comecei a ler esse livro há mais de um ano. Até o mês passado, devagar e quase nunca fui chegando até a página 50 e poucos. Agora em menos de um mês li umas duzentas páginas!

Primeiro ponto: demorei mais para ler não pela leitura em si, mas por minha disposição interna. Sempre colocava outra leitura na frente. Mas o fato do livro ser grande e pesado soma-se ao desafio intelectual proporcionado pelo texto, enfim, não resta dúvida de que ninguém mentiu ao afirmar que essa não era uma leitura fácil.

Mas em meados de junho resolvi tomar vergonha na cara e ler o Ulisses de verdade. O tempo todo é uma leitura tensa e intensa. A ideia do fluxo da consciência, de registrar na minúcia cada pensamento dos personagens, de forma fragmentária como são os pensamentos... dificilmente alguém poderá mergulhar tão fundo de novo. Embora Virginia Woolf com sua Mrs Dalloway tenha ao menos a vantagem de ter usado muito menos papel.

Joyce é magistral e exasperador. Fui conferir agora: estou exatamente na página 273.

Uma coisa dá para dizer: é uma leitura muito pessoal. Então vou falar de mim.

Entendo agora um pouco melhor o porquê do estudioso Edwin Muir ter chamado o Ulisses de um fracasso genial, e também entendo mais a admiração de Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânica entre outros igualmente bons e totalmente diferentes).

Em algumas partes consegui surfar melhor na onda de Joyce, especialmente ao acompanhar as divagações, suspeitas, julgamentos, repressões e hábitos secretos do senhor Bloom. Uma experiência muito interessante, realmente.

Mas tem outros momentos, camaradas! que dá vontade de atirar o livro pela janela. A imagem mais próxima que encontro para descrever essa sensação é ficar o tempo todo tentando enxergar por cima do ombro dos outros algo que só se mostra de relance, é uma maçaroca de informação tão doida que até faz sentido agora que estou escrevendo essa resenha parcial, mas que na hora de ler foi penoso...

Por isso é que eu mesmo me espanto comigo ao pensar que ainda desejo ardentemente ler Retrato do Artista Quando Jovem, que tenho na versão original, depois que terminar Ulisses!

Adiante!

(12/07/12)



ULISSES – James Joyce

1)    Hoje é um dia especial: terminei de ler “Ulisses”!!! Viva viva!!! Que dizer desse livro que eu achei chatíssimo até a metade (por volta da página 400), para então começar a gostar mais e mais e terminar achando uma obra linda, genial e muuuito louca???
2)    Para escapar de fazer uma resenha interminável, me proponho o desafio de escrever somente dezoito tópicos, um para cada capítulo do livro, cada qual correspondendo a um episódio da “Odisseia” de Homero (Ulisses é o nome latino para Odisseu, originado na palavra grega para “guardar ressentimento”).
3)    Nessa obra Joyce se propõe a atingir o mais alto anseio da literatura, que é expressar no romance a totalidade da vida. Mas a complexidade cada vez maior da vida moderna (início do século XX) só pode ser retratada de fato caso o romance se reinvente, extrapole os limites, transcenda as barreiras. E é bem isso o que “Ulisses” faz.
4)    A história toda acontece em um único dia, que traz Leopold Bloom (Ulisses) em suas peregrinações pela cidade de Dublin. Stephen Dedalus, o jovem artista, é Telêmaco, e Molly Bloom, a esposa adúltera, é Penélope.
5)    Cada um dos dezoito capítulos é escrito em um estilo único e totalmente diferente dos demais. São quase dezoito obras diferentes aglutinadas no mesmo livro.
6)    Coisa surpreendente: “Ulisses” tem algumas partes muito engraçadas! Rachei o bico de dar risada em várias cenas, com destaque para o invento da obramaravilha, uma espécie de apito (que deve ser introduzido pela ponta redonda) para descongestionar os gases intestinais de cavalheiros e damas constipados. A suprema invenção do século XX!

7)    Outra constatação surpreendente: a obra é realmente revolucionária e genial, mas creio que alcançou tamanha repercussão mesmo foi pelo tanto de putaria: como tem sacanagem nesse Ulisses! Não causa surpresa o livro ter ficado proibido durante 11 anos nos Estados Unidos.
8)    E aí é que está a fórmula explosiva: uma linguagem inovadora, uma estrutura intelectualmente desafiadora e, de quebra, a transgressão dos valores morais vigentes, nas muitas referências explícitas e até grosseiras ao sexo.
9)    O que leva à reflexão: a literatura parece ter perdido a capacidade de chocar. Não dá para imaginar um livro hoje sendo proibido por ofender “a moral e os bons costumes”. Vitória da liberdade de expressão ou sinal de decadência da civilização? Você decide.
10) O que leva ao questionamento: por que hoje em dia não temos escritores como James Joyce? Corajosos, inventivos, audaciosamente indo onde a literatura jamais esteve? Os escritores do século XX parecem muito mais “avançados” que os atuais. Será que tudo já foi inventado e nada mais resta por inovar? O futuro dirá.
11) Dizem que por conta de suas invenções linguísticas “Ulisses” é mais fácil de ler no original que traduzido. A edição que li foi com a tradução pioneira de Antonio Houaiss. Bem, só posso dizer que não concebo o texto em inglês sendo mais difícil de ler que essa tradução abençoada do Houaiss!!! Parece que o tradutor quis dar conta de todas as possibilidades semânticas, e o resultado foi que o texto em português ficou bem mais erudito e intelectualizado que o original (é o que comentam pela internet). Sorte de quem for ler o livro agora, que já estão disponíveis duas outras traduções em português, e mais focadas na linguagem cotidiana.
12) Uma das partes que mais gostei é o capítulo que corresponde ao palácio de Circe, quando Bloom e o jovem Dedalus visitam um bordel pra lá de animado. O estilo da narrativa é o de uma peça de teatro onde o autor e todos os personagens ingeriram doses maciças de LSD. Lisergia pura!

13) Outro trecho marcante é o capítulo final, com o monólogo da senhora Bloom. São 50 páginas sem uma única vírgula ou ponto, na mais contundente expressão literária do “fluxo de consciência”, com a representação do fluir incessante dos pensamentos do personagem. Podemos dizer que Saramago, em comparação, foi até bem conservador ao inventar o seu estilo próprio de escrever... E Joyce, de brinde, ainda criou uma das mais marcantes figuras femininas da literatura: Molly Bloom.
14) Tudo considerado, apesar de “Ulisses” ser considerada uma obra de estrutura matematicamente perfeita, penso que o livro seria mais gostoso de ler se tivesse a metade das páginas, ou mesmo um terço.
15) Mais fácil de ler, sim, mas não necessariamente melhor. Entendo a proposta do livro, que exige tantas páginas de elucubrações sem fim. No mundo atual, que prioriza a velocidade e multiplicidade de informações, é provável que cada vez menos pessoas se interessem em ler “Ulisses”.
16) Desde o capítulo do bordel, uma ideia louca ficou martelando minha mente: imagine como seria esse livro transformado em filme! Impensável! Impossível! Ainda assim, creio que o David Lynch estivesse à altura da tarefa.
17) Comecei a ler “Ulisses” pela primeira vez há mais de dez anos, e acabei desistindo por volta da página 100. Mas fucei o “Roteiro-chave” que vem no final do livro, e hoje percebo o tamanho dessa influência em minha própria criação literária. Essa estrutura foi um eco distante na composição das letras da ópera-rock VIDA (gravada pela banda Imago Mortis), e teve uma força maior, ainda que mais distante ainda, na estrutura de meu romance “O Sincronicídio”. Que bom perceber isso hoje!
18) Não é fácil ler “Ulisses”, mas o esforço vale a pena – dependendo da motivação do leitor. Para mim, foi como galgar um Everest literário: veni vidi vici!!!

(26.09.12)



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quinta-feira, 6 de junho de 2013

O FIO DA NAVALHA – W. Somerset Maugham



Foi muita sincronicidade ter lido esse livro logo na sequência de “Sidarta” do Hermann Hesse. Pois os dois livros tratam da questão da iluminação ou samadhi. Então ler Maugham complementou e ajudou na leitura de Hesse!

Primeiro, a questão do ponto de vista. Ambos os livros tratam de um tema oriental, e ambos foram escritos por autores ocidentais. No entanto em Hesse temos um amálgama genuíno entre o oriental e o ocidental, uma mistura originalíssima a ponto de ser universal. E aqui em Maugham (pronuncia-se algo como MAWM) a história nunca deixa de ser contada por um ocidental.

Não é vergonha para ninguém ser menor que Hesse, pelo contrário: só a comparação com Hesse, em si, é o maior dos elogios!

Pois no quesito estritamente da literatura, Somerset Maugham bate um bolão! É uma delícia de se ler esse livro! O autor é muito charmoso e sedutor ao contar a sua história, sempre com muita elegância. Esse é o segundo livro dele que leio (o primeiro foi Of Human Bondage, que pude de ler em inglês), e nos dois tive essa mesma sensação de encantamento: comecei a ler, e fui lendo e lendo até que de repente o livro chega ao fim, que pena! Bom demais!

Um recurso pra lá de original foi alegar que a história toda não era invenção, mas um relato fiel de fatos, onde o autor somente se preocupou em proteger a identidade das pessoas envolvidas. A originalidade não está nesse recurso apenas, uma vez que Conan Doyle já fazia isso nas aventuras de Sherlock Holmes (só para citar um inglês mais antigo). A grande sacação de Somerset Maugham foi a de incluir a si mesmo no livro, como personagem secundário que vai testemunhando o desenrolar dos acontecimentos.

Gostaria de falar muita coisa ainda a respeito desse livro, mas enfim! Vou me limitar a dois comentários finais. Primeiro, foi que durante a leitura veio crescendo uma forte desconfiança: acho que Somerset Maugham foi o modelo parodiado por Anthony Burgess para o seu escritor Toomey, impagável criação que ganha vida no livro “Poderes Terrenos”. Segundo, foi muito interessante ver temas tão caros por essa ótica do autor!

Um livro que faz pontes com tantos livros excelentes! Só por isso já seria altamente recomendável! Mas o melhor de tudo é que é realmente muito bem escrito!



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domingo, 28 de abril de 2013

QUALQUER FERRO VELHO – Anthony Burgess



Mais um “típico” romance de Anthony Burgess: brilhante, erudito, totalmente irônico e muuuito esquisito!!!

E mais uma vez me pego pensando, ao ler um livro dele: mas o que é que se passava nessa cabecinha????

Dessa vez o ponto de partida (ou de chegada) é a redescoberta da famosa espada Excalibur, pertencente ao lendário Rei Arthur. Para contar essa história, Burgess passa pelo naufrágio do Titanic, pelas duas grandes guerras mundiais, pela fundação de Israel e por muito mais! É um prodígio da vívida imaginação esse homem! E mais uma vez eu penso também: Anthony Burgess poderia escrever o livro que quisesse (com a possível exceção do “Ulisses” de Joyce, de quem é grande admirador)... mas os livros de Burgess só poderiam ter sido escritos por ele!

E ainda uma outra vez eu penso: quem será que, além de mim, acha esse cara tão genial??? Pois é certo que os livros dele não são para todos os paladares. Ele sempre dá um jeito de contar a história do ponto de vista mais inusitado possível, e não tem a menor complacência com o leitor, que tem motivos para se sentir culto e inteligente por ler (e entender) um livro dele.

Esse foi o livro mais próximo do estilo de “Poderes Terrenos”, meu livro favorito de Burgess (também autor de “Laranja Mecânica”, transformado pelo Kubrick em uma maravilha do cinema), um de meus autores favoritos. O alto efeito alcançado em sua obra-prima infelizmente não foi repetido aqui, talvez pelo excesso de ironia que tornou a leitura toda um tanto ácida... ainda assim, que viagem, meus camaradas!

Tive uma especial alegria ao perceber que começo a desvendar alguns dos pequenos truques do autor... isso é motivo de grande comemoração para mim, que colocava Burgess no patamar dos semideuses!

Literatura de primeira!!!



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sábado, 27 de outubro de 2012

ENDERBY POR DENTRO – Anthony Burgess



Da primeira vez que li esse livro, foi uma decepção. Eu havia acabado de assistir “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, genialíssimo filme baseado no livro mais famoso de Anthony Burgess, que li como quem degusta a obra mais horrorshow de toda a literatura mundial! É claro que queria ler mais livros de Burgess.  O primeiro que apareceu foi “Enderby por Dentro”, por coincidência o livro que Burgess publicou no ano seguinte ao da aparição de “Laranja Mecânica”, em 1963. Ou seja, li os dois na sequência em que foram escritos.
Mas não poderia haver dois livros mais diferentes, pensei ao ler pela primeira vez. Enderby é um poeta de meia-idade, razoavelmente respeitado e incompreendido, que vive totalmente isolado do resto do mundo. Mas o mundo insiste em se intrometer em sua pacata rotina de se dedicar ao onanismo e à composição de poemas em seu banheiro (a banheira que nunca é usada para o banho está atulhada de velhos poemas, restos de sanduíches e pequenos camundongos que são a única companhia do poeta punheteiro). Enderby se mete (ou é metido) em situações insólitas e bizarras, diante das quais reage de forma ainda mais esquisita... enquanto isso, vai escrevendo seus poemas que quase ninguém lê.

Para quem esperava uma continuação de “Laranja Mecânica”, nada poderia ser mais frustrante. Achei o livro uma porcaria, chato, sem pé nem cabeça. Mas acabei deixando guardadinho, pelo respeito crescente que fui adquirindo pelo autor após as leituras de “Poderes Terrenos”, “As Últimas Notícias do Mundo”, “A Sinfonia Napoleão”, entre outros. Eu olhava para a capa cômica de “Enderby por Dentro” e pensava: não é possível que Burgess tenha escrito um livro tão ruim como eu acho que esse é. Preciso lê-lo novamente algum dia.

E esse dia chegou. Ao ler pela segunda vez, fiquei muito surpreso ao encontrar espantosas semelhanças com “Laranja Mecânica”!!! Tal como Alex, Enderby é um ser antissocial, que por sua obstinada individualidade revela a insanidade e hipocrisia do mundo ao seu redor. E passei a apreciar o livro intensamente! Algumas passagens, que eu antes achei chatas, agora me arrancaram gargalhadas no ônibus e na fila do banco! E pude enxergar bem mais as profundezas do olhar de Burgess ao devassar o processo criativo de seu esquisitíssimo e adorável Enderby.

Pude apreciar também a excelência da tradução de Paulo Henrique Britto, que mandou muito bem tanto nos poemas quanto na fala “cockney” de alguns personagens. Excelente tradução para o português!

Quero ler de novo!




Essa leitura despertou minha veia poética, que se manifestou nesse poeminha:

DUETO PARA CHAMA E PAVIO

(Canção da Vela):

- O teu carinho é abrasador, linda chama!
Arde quando ilumina, queima quando inflama,
devora enquanto aquece, destrói o que mais ama.

(Canção do Fogo):

- O teu carinho é enganador, sutil pavio!
Some quando eu chamo, me deixa por um fio,
recua quando mais preciso, amor que se torna o vazio.


***

Não tem nada a ver com a lírica de Enderby, mas de alguma forma ele foi a grande influência.

Viva Enderby!!!

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quarta-feira, 10 de outubro de 2012

PODERES TERRENOS – Anthony Burgess




Sob muitos aspectos, Anthony Burgess é o meu escritor favorito. A impressão que tenho é que ele poderia facilmente escrever o livro que quisesse, qualquer livro. Talvez por isso, tenha se dedicado a escrever livros que ninguém mais poderia escrever, a não ser ele.

Minha paixão por Burgess começou indiretamente, quando assisti pela primeira vez ao filme “Laranja Mecânica”, dirigido por Stanley Kubrick. O filme me deixou de boca aberta e babando. Corri atrás do livro que o havia inspirado, e é claro que o livro era ainda melhor! Burgess conseguiu construir uma história incrivelmente cínica sobre os chamados “tempos modernos” e, de quebra, inventou um delicioso dialeto que mistura russo e cockney (gíria da classe trabalhadora inglesa). Totalmente horrorshow, meus camaradas! Um verdadeiro alimento para a gúliver. Pretendo reler em breve.

Outros livros de Anthony Burgess que li:


AS ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO MUNDO – três histórias totalmente distintas sendo narradas em paralelo: a invenção da psicanálise por Freud, um musical na Broadway sobre Trotsky e a iminente destruição da Terra por um asteróide. Uma verdadeira ‘tour-de-force’ intelectual, absolutamente brilhante!

A SINFONIA NAPOLEÃO – audacioso experimento literário: traduzir em forma de romance a “Heróica”, Sinfonia Número 3 de Beethoven, dedicada e depois ‘desdedicada’ a Napoleão. Esquizofrenia genial e muito pouco indulgente com o leitor. Acredito ter sido fortemente inspirada pelo “Ulisses” de James Joyce. Ler esse livro foi uma experiência inigualável, a minha maior influência literária até hoje. Durante cerca de três meses, ouvi a “Heróica” no talo uma média de 16 vezes seguidas por dia (sério!). Só parei quando o vizinho, em um justificado ato de vingança, colocou para tocar no mais alto volume uma mesma música brega durante toda uma tarde de sábado.


A ÚLTIMA MISSÃO – debochada e bizarra história de espionagem, que gostaria de reler.


ENDERBY POR DENTRO – achei a história sem graça, um livro chato e insuportável. Isso da primeira vez. Ao reler, achei genial, engraçadíssima e inspiradora!

Mas a obra-prima de Burgess é, sem dúvida, “Poderes Terrenos”! Livraaaaaaaaaaaaaaaço!!!!


“Era a tarde do meu octogésimo primeiro aniversário e estava na cama com meu veado quando Ali anunciou a visita do arcebispo.”

Em minha opinião, essa é simplesmente a melhor frase de abertura da literatura mundial!!!

E assim somos apresentados a (frase da orelha do livro) “um dos personagens mais encantadores que a literatura inglesa já produziu”: Kenneth Marchal Toomey, escritor, octagenário, homossexual. Não necessariamente nessa ordem.

O motivo da visita do arcebispo: ele quer que Toomey escreva um depoimento sobre um suposto milagre que o escritor teria testemunhado há muitos anos. O objetivo desse texto seria ajudar no processo de canonização do papa recentemente falecido.

Toomey decide fazer isso à sua maneira, contando a história de sua longa vida e ao mesmo tempo a história do século XX. E assim somos arrebatados por uma aventura intelectual sem precedentes. Personalidades e fatos históricos misturam-se com a delirante imaginação de Burgess em um resultado de brilho incomparável.

Li agora pela segunda vez essas impressionantes 604 páginas. Esse livro fala sobre muitas coisas. Creio ter percebido, no virar da última página, as intenções primordiais da obra. O ato de escrever um livro como reflexo do ato original da criação do universo. Deus como Demiurgo. Os homens como personagens de um romance. A questão da liberdade. Tudo sempre contado com um irônico sorriso nos lábios.

Embora a leitura seja intensa e divertida, não é exatamente um livro fácil. Há uma profusão de frases nos mais diversos idiomas, e um senso de humor muito específico, que mistura rudes zombarias com citações eruditas. Não é para todos. Considero especialmente recomendável para escritores.  Um dos melhores livros que li na vida.


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terça-feira, 10 de julho de 2012

ADMIRÁVEL MUNDO NOVO – Aldous Huxley



Lendo esse esplêndido livro pela segunda vez, alguns detalhes me chamaram a atenção:

* É interessante que a tecnologia é usada para diminuir e cercear o homem, e não para fazê-lo crescer e avançar. As técnicas de eugenia seriam suficientes para criar um “Alfa Mais Mais”, ou seja, um ser humano mais evoluído, um super-homem. No entanto, o que a tecnologia produz são seres subumanos, Deltas dolicocéfalos e Ípsilons semi aleijões... o motivo? Criaturas imbecilizadas são mais fáceis de controlar...

* A figura do Selvagem John, que foi criticada como inverossímil pelo próprio autor em prefácio de 1946, cresceu ainda mais nessa segunda leitura. Realmente um achado genial uma pessoa que conhece a civilização ocidental unicamente pela obra de Shakespeare.

* Por falar em Shakespeare, fiquei com muita vontade de ler “Tróilo e Cressida”, que tem belíssimas frases citadas pelo Selvagem.

* Mas a conclusão final foi a seguinte: o Admirável Mundo Novo é aqui! Fiquei impressionado com as semelhanças entre a sociedade descrita por Huxley e os valores pregados pela civilização ocidental: hedonismo, consumismo ao extremo, sexualidade exacerbada, felicidade sustentada por drogas, espiritualidade substituída pela busca incessante e histérica de prazeres vazios...

* Impressionante sempre é o poderoso intelecto que gerou essa magnífica obra! Que escritor sem igual! Lembro sempre do apelido que outro grande, Anthony Burgess, deu a Aldous Huxley: um deus distraído!

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