Não
sou particularmente fascinado pela figura de Napoleão, mas já fui obcecado por
uma música que ele inspirou: a sinfonia Heroica de Beethoven, cuja marcha
fúnebre acabou se tornando a trilha sonora de meu livro “O Sincronicídio”. Mas
isso por culpa de um outro livro, escrito por um de meus autores favoritos: o
incrível “Sinfonia Napoleão”, de Anthony Burgess.
Assim,
esse livro com citações de Napoleão recolhidas por Balzac tinha tudo para me
cativar. Gostei muito, e reproduzo abaixo as frases que mais me impactaram:
“As
leis da maioria dos países são feitas para oprimir o infortunado e proteger o
homem poderoso.”
*
“Um
príncipe acusado por seus súditos não lhes deve nenhuma justificativa.”
*
“A
adversidade é a parteira do gênio.”
*
“A
maior parte dos que não querem que os oprimam quer oprimir.”
*
“De
cem favoritos de reis, noventa e cinco foram enforcados.”
*
“A
coragem não se finge, é uma virtude que escapa à hipocrisia.”
*
“O
maior perigo ocorre no momento da vitória.”
*
“As
multidões precisam de festas estrepitosas; os tolos gostam do barulho, e a
multidão é os tolos.”
*
“Um
trono é somente uma tábua revestida de veludo.”
*
“Ninguém
pode dizer o que fará em seus últimos momentos.”
*
“O
melhor meio de manter a palavra é nunca dá-la.”
*
“O
termo virtude política é um contrassenso.”
*
“É
mais fácil enganar do que desenganar.”
*
“É
batendo a cabeça umas contra as outras que as pessoas aprendem a se conhecer.”
*
“O
soberano sempre procede mal ao falar colérico.”
*
“Aquele
que guarda mais imagens em sua memória é o que tem mais imaginação.”
*
“Muitas
coisas se frustram quando fingimos não vê-las.”
*
“Nada
mais imperioso que a fraqueza que se sente apoiada pela força.”
*
“A
inveja é uma confissão de inferioridade.”
*
“Quem
sabe adular também sabe caluniar.”
*
“Impor
condições muito duras é dispensar de cumpri-las.”
*
“Há
crises em que o bem do povo exige a condenação de um inocente.”
*
“Nunca
é útil inflamar o ódio.”
*
“A
população avalia a força de Deus pela força dos padres.”
*
“O
tolo tem uma grande vantagem sobre o homem de espírito, ele está sempre
contente consigo mesmo.”
*
“As
pessoas lutam mais por seus interesses que por seus direitos.”
*
“Os
grandes poderes morrem de indigestão.”
*
“Não
há roubo, tudo se paga.”
*
“Elevamo-nos
acima dos que insultam ao perdoá-los.”
*
“O
acaso explica todas as nossas tolices.”
*
“As
loucuras dos outros nunca nos tornam sensatos.”
*
“Com
o tempo, poder em excesso acaba por depravar o homem mais honesto.”
*
“As
únicas conquistas que não causam nenhum pesar são aquelas feitas sobre a
ignorância.”
\\\***///
O SINCRONICÍDIO –
Fabio Shiva
“E foi assim que descobri que a inocência é
como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá
um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a
cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia
reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do
Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia
de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos
centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense,
erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo.
Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo
(clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das
Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia
e descubra porque O Sincronicídio
não para de surpreender o leitor.
Resolvi fazer essa resenha aos poucos,
ao longo do caminho, como um diário de bordo. Pois a viagem é longa e cheia de
aventuras.
Amostra grátis
Para quem nunca leu e nem pretende ler o
“Ulisses” de James Joyce, separo esse trecho para dar um gostinho da leitura. É
justamente o parágrafo que acabo de ler agora:
“Inelutável modalidade do visível: pelo
menos isso se não mais, pensado através dos meus olhos. Assinaturas de todas as
coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas
botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites
do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles
corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os
diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por quê em? Diáfano,
adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não
uma porta. Fecha os olhos e vê.”
A tradução é de Antonio Houaiss.
Estou na página 42. Faltam só 811.
(22.02.11)
ULISSES
– James Joyce
Comecei a ler esse livro há mais de um
ano. Até o mês passado, devagar e quase nunca fui chegando até a página 50 e
poucos. Agora em menos de um mês li umas duzentas páginas!
Primeiro ponto: demorei mais para ler
não pela leitura em si, mas por minha disposição interna. Sempre colocava outra
leitura na frente. Mas o fato do livro ser grande e pesado soma-se ao desafio
intelectual proporcionado pelo texto, enfim, não resta dúvida de que ninguém
mentiu ao afirmar que essa não era uma leitura fácil.
Mas em meados de junho resolvi tomar vergonha
na cara e ler o Ulisses de verdade. O tempo todo é uma leitura tensa e intensa.
A ideia do fluxo da consciência, de
registrar na minúcia cada pensamento dos personagens, de forma fragmentária
como são os pensamentos... dificilmente alguém poderá mergulhar tão fundo de
novo. Embora Virginia Woolf com sua Mrs
Dalloway tenha ao menos a vantagem de ter usado muito menos papel.
Joyce é magistral e exasperador. Fui
conferir agora: estou exatamente na página 273.
Uma coisa dá para dizer: é uma leitura
muito pessoal. Então vou falar de mim.
Entendo agora um pouco melhor o porquê
do estudioso Edwin Muir ter chamado o Ulisses de um fracasso genial, e também
entendo mais a admiração de Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânica entre outros igualmente bons e totalmente
diferentes).
Em algumas partes consegui surfar melhor
na onda de Joyce, especialmente ao acompanhar as divagações, suspeitas,
julgamentos, repressões e hábitos secretos do senhor Bloom. Uma experiência
muito interessante, realmente.
Mas tem outros momentos, camaradas! que
dá vontade de atirar o livro pela janela. A imagem mais próxima que encontro
para descrever essa sensação é ficar o tempo todo tentando enxergar por cima do
ombro dos outros algo que só se mostra de relance, é uma maçaroca de informação
tão doida que até faz sentido agora que estou escrevendo essa resenha parcial,
mas que na hora de ler foi penoso...
Por isso é que eu mesmo me espanto
comigo ao pensar que ainda desejo ardentemente ler Retrato do Artista Quando Jovem, que tenho na versão original,
depois que terminar Ulisses!
Adiante!
(12/07/12)
ULISSES
– James Joyce
1)Hoje
é um dia especial: terminei de ler “Ulisses”!!! Viva viva!!! Que dizer desse
livro que eu achei chatíssimo até a metade (por volta da página 400), para então
começar a gostar mais e mais e terminar achando uma obra linda, genial e
muuuito louca???
2)Para
escapar de fazer uma resenha interminável, me proponho o desafio de escrever
somente dezoito tópicos, um para cada capítulo do livro, cada qual correspondendo
a um episódio da “Odisseia” de Homero (Ulisses
é o nome latino para Odisseu,
originado na palavra grega para “guardar ressentimento”).
3)Nessa
obra Joyce se propõe a atingir o mais alto anseio da literatura, que é
expressar no romance a totalidade da vida. Mas a complexidade cada vez maior da
vida moderna (início do século XX) só pode ser retratada de fato caso o romance
se reinvente, extrapole os limites, transcenda as barreiras. E é bem isso o que
“Ulisses” faz.
4)A
história toda acontece em um único dia, que traz Leopold Bloom (Ulisses) em
suas peregrinações pela cidade de Dublin. Stephen Dedalus, o jovem artista, é
Telêmaco, e Molly Bloom, a esposa adúltera, é Penélope.
5)Cada
um dos dezoito capítulos é escrito em um estilo único e totalmente diferente
dos demais. São quase dezoito obras diferentes aglutinadas no mesmo livro.
6)Coisa
surpreendente: “Ulisses” tem algumas partes muito engraçadas! Rachei o bico de
dar risada em várias cenas, com destaque para o invento da obramaravilha, uma
espécie de apito (que deve ser introduzido pela ponta redonda) para
descongestionar os gases intestinais de cavalheiros e damas constipados. A
suprema invenção do século XX!
7)Outra
constatação surpreendente: a obra é realmente revolucionária e genial, mas
creio que alcançou tamanha repercussão mesmo foi pelo tanto de putaria: como
tem sacanagem nesse Ulisses! Não causa surpresa o livro ter ficado proibido
durante 11 anos nos Estados Unidos.
8)E
aí é que está a fórmula explosiva: uma linguagem inovadora, uma estrutura
intelectualmente desafiadora e, de quebra, a transgressão dos valores morais
vigentes, nas muitas referências explícitas e até grosseiras ao sexo.
9)O
que leva à reflexão: a literatura parece ter perdido a capacidade de chocar.
Não dá para imaginar um livro hoje sendo proibido por ofender “a moral e os
bons costumes”. Vitória da liberdade de expressão ou sinal de decadência da
civilização? Você decide.
10)O
que leva ao questionamento: por que hoje em dia não temos escritores como James
Joyce? Corajosos, inventivos, audaciosamente indo onde a literatura jamais
esteve? Os escritores do século XX parecem muito mais “avançados” que os
atuais. Será que tudo já foi inventado e nada mais resta por inovar? O futuro
dirá.
11)Dizem
que por conta de suas invenções linguísticas “Ulisses” é mais fácil de ler no
original que traduzido. A edição que li foi com a tradução pioneira de Antonio
Houaiss. Bem, só posso dizer que não concebo o texto em inglês sendo mais
difícil de ler que essa tradução abençoada do Houaiss!!! Parece que o tradutor
quis dar conta de todas as possibilidades semânticas, e o resultado foi que o
texto em português ficou bem mais erudito e intelectualizado que o original (é
o que comentam pela internet). Sorte de quem for ler o livro agora, que já
estão disponíveis duas outras traduções em português, e mais focadas na
linguagem cotidiana.
12)Uma
das partes que mais gostei é o capítulo que corresponde ao palácio de Circe,
quando Bloom e o jovem Dedalus visitam um bordel pra lá de animado. O estilo da
narrativa é o de uma peça de teatro onde o autor e todos os personagens
ingeriram doses maciças de LSD. Lisergia pura!
13)Outro
trecho marcante é o capítulo final, com o monólogo da senhora Bloom. São 50
páginas sem uma única vírgula ou ponto, na mais contundente expressão literária
do “fluxo de consciência”, com a representação do fluir incessante dos
pensamentos do personagem. Podemos dizer que Saramago, em comparação, foi até
bem conservador ao inventar o seu estilo próprio de escrever... E Joyce, de
brinde, ainda criou uma das mais marcantes figuras femininas da literatura:
Molly Bloom.
14)Tudo
considerado, apesar de “Ulisses” ser considerada uma obra de estrutura
matematicamente perfeita, penso que o livro seria mais gostoso de ler se
tivesse a metade das páginas, ou mesmo um terço.
15)Mais
fácil de ler, sim, mas não necessariamente melhor. Entendo a proposta do livro,
que exige tantas páginas de elucubrações sem fim. No mundo atual, que prioriza
a velocidade e multiplicidade de informações, é provável que cada vez menos
pessoas se interessem em ler “Ulisses”.
16)Desde
o capítulo do bordel, uma ideia louca ficou martelando minha mente: imagine
como seria esse livro transformado em filme! Impensável! Impossível! Ainda
assim, creio que o David Lynch estivesse à altura da tarefa.
17)Comecei
a ler “Ulisses” pela primeira vez há mais de dez anos, e acabei desistindo por
volta da página 100. Mas fucei o “Roteiro-chave” que vem no final do livro, e
hoje percebo o tamanho dessa influência em minha própria criação literária.
Essa estrutura foi um eco distante na composição das letras da ópera-rock VIDA
(gravada pela banda Imago Mortis), e teve uma força maior, ainda que mais
distante ainda, na estrutura de meu romance “O Sincronicídio”. Que bom perceber
isso hoje!
18)Não
é fácil ler “Ulisses”, mas o esforço vale a pena – dependendo da motivação do
leitor. Para mim, foi como galgar um Everest literário: veni vidi vici!!!
Foi muita sincronicidade ter lido esse
livro logo na sequência de “Sidarta” do Hermann Hesse. Pois os dois livros
tratam da questão da iluminação ou samadhi.
Então ler Maugham complementou e ajudou na leitura de Hesse!
Primeiro, a questão do ponto de vista.
Ambos os livros tratam de um tema oriental, e ambos foram escritos por autores
ocidentais. No entanto em Hesse temos um amálgama genuíno entre o oriental e o
ocidental, uma mistura originalíssima a ponto de ser universal. E aqui em
Maugham (pronuncia-se algo como MAWM) a história nunca deixa de ser contada por
um ocidental.
Não é vergonha para ninguém ser menor
que Hesse, pelo contrário: só a comparação com Hesse, em si, é o maior dos
elogios!
Pois no quesito estritamente da
literatura, Somerset Maugham bate um bolão! É uma delícia de se ler esse livro!
O autor é muito charmoso e sedutor ao contar a sua história, sempre com muita
elegância. Esse é o segundo livro dele que leio (o primeiro foi Of Human Bondage, que pude de ler em
inglês), e nos dois tive essa mesma sensação de encantamento: comecei a ler, e
fui lendo e lendo até que de repente o livro chega ao fim, que pena! Bom
demais!
Um recurso pra lá de original foi alegar
que a história toda não era invenção, mas um relato fiel de fatos, onde o autor
somente se preocupou em proteger a identidade das pessoas envolvidas. A
originalidade não está nesse recurso apenas, uma vez que Conan Doyle já fazia
isso nas aventuras de Sherlock Holmes (só para citar um inglês mais antigo). A
grande sacação de Somerset Maugham foi a de incluir a si mesmo no livro, como
personagem secundário que vai testemunhando o desenrolar dos acontecimentos.
Gostaria de falar muita coisa ainda a
respeito desse livro, mas enfim! Vou me limitar a dois comentários finais.
Primeiro, foi que durante a leitura veio crescendo uma forte desconfiança: acho
que Somerset Maugham foi o modelo parodiado por Anthony Burgess para o seu
escritor Toomey, impagável criação que ganha vida no livro “Poderes Terrenos”.
Segundo, foi muito interessante ver temas tão caros por essa ótica do autor!
Um livro que faz pontes com tantos
livros excelentes! Só por isso já seria altamente recomendável! Mas o melhor de
tudo é que é realmente muito bem escrito!
Mais um “típico” romance de Anthony
Burgess: brilhante, erudito, totalmente irônico e muuuito esquisito!!!
E mais uma vez me pego pensando, ao ler
um livro dele: mas o que é que se passava nessa cabecinha????
Dessa vez o ponto de partida (ou de
chegada) é a redescoberta da famosa espada Excalibur, pertencente ao lendário
Rei Arthur. Para contar essa história, Burgess passa pelo naufrágio do Titanic,
pelas duas grandes guerras mundiais, pela fundação de Israel e por muito mais!
É um prodígio da vívida imaginação esse homem! E mais uma vez eu penso também:
Anthony Burgess poderia escrever o livro que quisesse (com a possível exceção
do “Ulisses” de Joyce, de quem é grande admirador)... mas os livros de Burgess
só poderiam ter sido escritos por ele!
E ainda uma outra vez eu penso: quem
será que, além de mim, acha esse cara tão genial??? Pois é certo que os livros
dele não são para todos os paladares. Ele sempre dá um jeito de contar a
história do ponto de vista mais inusitado possível, e não tem a menor
complacência com o leitor, que tem motivos para se sentir culto e inteligente
por ler (e entender) um livro dele.
Esse foi o livro mais próximo do estilo
de “Poderes Terrenos”, meu livro favorito de Burgess (também autor de “Laranja
Mecânica”, transformado pelo Kubrick em uma maravilha do cinema), um de meus
autores favoritos. O alto efeito alcançado em sua obra-prima infelizmente não
foi repetido aqui, talvez pelo excesso de ironia que tornou a leitura toda um
tanto ácida... ainda assim, que viagem, meus camaradas!
Tive uma especial alegria ao perceber
que começo a desvendar alguns dos pequenos truques do autor... isso é motivo de
grande comemoração para mim, que colocava Burgess no patamar dos semideuses!
Literatura de primeira!!!
***///***
Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:
Da
primeira vez que li esse livro, foi uma decepção. Eu havia acabado de assistir
“Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick, genialíssimo filme baseado no livro mais
famoso de Anthony Burgess, que li como quem degusta a obra mais horrorshow de
toda a literatura mundial! É claro que queria ler mais livros de Burgess. O primeiro que apareceu foi “Enderby por Dentro”,
por coincidência o livro que Burgess publicou no ano seguinte ao da aparição de
“Laranja Mecânica”, em 1963. Ou seja, li os dois na sequência em que foram
escritos.
Mas não
poderia haver dois livros mais diferentes, pensei ao ler pela primeira vez. Enderby
é um poeta de meia-idade, razoavelmente respeitado e incompreendido, que vive
totalmente isolado do resto do mundo. Mas o mundo insiste em se intrometer em
sua pacata rotina de se dedicar ao onanismo e à composição de poemas em seu
banheiro (a banheira que nunca é usada para o banho está atulhada de velhos
poemas, restos de sanduíches e pequenos camundongos que são a única companhia
do poeta punheteiro). Enderby se mete (ou é metido) em situações insólitas e
bizarras, diante das quais reage de forma ainda mais esquisita... enquanto
isso, vai escrevendo seus poemas que quase ninguém lê.
Para
quem esperava uma continuação de “Laranja Mecânica”, nada poderia ser mais
frustrante. Achei o livro uma porcaria, chato, sem pé nem cabeça. Mas acabei
deixando guardadinho, pelo respeito crescente que fui adquirindo pelo autor
após as leituras de “Poderes Terrenos”, “As Últimas Notícias do Mundo”, “A
Sinfonia Napoleão”, entre outros. Eu olhava para a capa cômica de “Enderby por
Dentro” e pensava: não é possível que Burgess tenha escrito um livro tão ruim
como eu acho que esse é. Preciso lê-lo novamente algum dia.
E esse
dia chegou. Ao ler pela segunda vez, fiquei muito surpreso ao encontrar
espantosas semelhanças com “Laranja Mecânica”!!! Tal como Alex, Enderby é um
ser antissocial, que por sua obstinada individualidade revela a insanidade e
hipocrisia do mundo ao seu redor. E passei a apreciar o livro intensamente!
Algumas passagens, que eu antes achei chatas, agora me arrancaram gargalhadas
no ônibus e na fila do banco! E pude enxergar bem mais as profundezas do olhar
de Burgess ao devassar o processo criativo de seu esquisitíssimo e adorável
Enderby.
Pude
apreciar também a excelência da tradução de Paulo Henrique Britto, que mandou
muito bem tanto nos poemas quanto na fala “cockney” de alguns personagens.
Excelente tradução para o português!
Quero
ler de novo!
Essa
leitura despertou minha veia poética, que se manifestou nesse poeminha:
DUETO PARA CHAMA E PAVIO
(Canção da Vela):
- O teu carinho é abrasador, linda chama!
Arde quando ilumina, queima quando inflama,
devora enquanto aquece, destrói o que mais ama.
(Canção do Fogo):
- O teu carinho é enganador, sutil pavio!
Some quando eu chamo, me deixa por um fio,
recua quando mais preciso, amor que se torna o vazio.
***
Não tem
nada a ver com a lírica de Enderby, mas de alguma forma ele foi a grande
influência.
Viva
Enderby!!!
***///***
Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:
Sob
muitos aspectos, Anthony Burgess é o meu escritor favorito. A impressão que
tenho é que ele poderia facilmente escrever o livro que quisesse, qualquer
livro. Talvez por isso, tenha se dedicado a escrever livros que ninguém mais
poderia escrever, a não ser ele.
Minha
paixão por Burgess começou indiretamente, quando assisti pela primeira vez ao
filme “Laranja Mecânica”, dirigido por Stanley Kubrick. O filme me deixou de
boca aberta e babando. Corri atrás do livro que o havia inspirado, e é claro
que o livro era ainda melhor! Burgess conseguiu construir uma história
incrivelmente cínica sobre os chamados “tempos modernos” e, de quebra, inventou
um delicioso dialeto que mistura russo e cockney (gíria da classe trabalhadora
inglesa). Totalmente horrorshow, meus camaradas! Um verdadeiro alimento para a
gúliver. Pretendo reler em breve.
Outros
livros de Anthony Burgess que li:
AS
ÚLTIMAS NOTÍCIAS DO MUNDO – três histórias totalmente distintas sendo narradas
em paralelo: a invenção da psicanálise por Freud, um musical na Broadway sobre
Trotsky e a iminente destruição da Terra por um asteróide. Uma verdadeira
‘tour-de-force’ intelectual, absolutamente brilhante!
A
SINFONIA NAPOLEÃO – audacioso experimento literário: traduzir em forma de
romance a “Heróica”, Sinfonia Número 3 de Beethoven, dedicada e depois
‘desdedicada’ a Napoleão. Esquizofrenia genial e muito pouco indulgente com o
leitor. Acredito ter sido fortemente inspirada pelo “Ulisses” de James Joyce.
Ler esse livro foi uma experiência inigualável, a minha maior influência literária
até hoje. Durante cerca de três meses, ouvi a “Heróica” no talo uma média de 16
vezes seguidas por dia (sério!). Só parei quando o vizinho, em um justificado
ato de vingança, colocou para tocar no mais alto volume uma mesma música brega
durante toda uma tarde de sábado.
A
ÚLTIMA MISSÃO – debochada e bizarra história de espionagem, que gostaria de
reler.
ENDERBY
POR DENTRO – achei a história sem graça, um livro chato e insuportável. Isso da
primeira vez. Ao reler, achei genial, engraçadíssima e inspiradora!
Mas a
obra-prima de Burgess é, sem dúvida, “Poderes Terrenos”!
Livraaaaaaaaaaaaaaaço!!!!
“Era a
tarde do meu octogésimo primeiro aniversário e estava na cama com meu veado
quando Ali anunciou a visita do arcebispo.”
Em
minha opinião, essa é simplesmente a melhor frase de abertura da literatura
mundial!!!
E assim
somos apresentados a (frase da orelha do livro) “um dos personagens mais
encantadores que a literatura inglesa já produziu”: Kenneth Marchal Toomey,
escritor, octagenário, homossexual. Não necessariamente nessa ordem.
O
motivo da visita do arcebispo: ele quer que Toomey escreva um depoimento sobre
um suposto milagre que o escritor teria testemunhado há muitos anos. O objetivo
desse texto seria ajudar no processo de canonização do papa recentemente
falecido.
Toomey
decide fazer isso à sua maneira, contando a história de sua longa vida e ao
mesmo tempo a história do século XX. E assim somos arrebatados por uma aventura
intelectual sem precedentes. Personalidades e fatos históricos misturam-se com
a delirante imaginação de Burgess em um resultado de brilho incomparável.
Li
agora pela segunda vez essas impressionantes 604 páginas. Esse livro fala sobre
muitas coisas. Creio ter percebido, no virar da última página, as intenções
primordiais da obra. O ato de escrever um livro como reflexo do ato original da
criação do universo. Deus como Demiurgo. Os homens como personagens de um
romance. A questão da liberdade. Tudo sempre contado com um irônico sorriso nos
lábios.
Embora
a leitura seja intensa e divertida, não é exatamente um livro fácil. Há uma
profusão de frases nos mais diversos idiomas, e um senso de humor muito
específico, que mistura rudes zombarias com citações eruditas. Não é para
todos. Considero especialmente recomendável para escritores. Um dos melhores livros que li na vida.
***///***
Aproveito para convidar você a conhecer o meu livro, O
SINCRONICÍDIO:
Lendo esse esplêndido livro pela segunda vez, alguns detalhes me chamaram a atenção:
* É interessante que a tecnologia é usada para diminuir e cercear o homem, e não para fazê-lo crescer e avançar. As técnicas de eugenia seriam suficientes para criar um “Alfa Mais Mais”, ou seja, um ser humano mais evoluído, um super-homem. No entanto, o que a tecnologia produz são seres subumanos, Deltas dolicocéfalos e Ípsilons semi aleijões... o motivo? Criaturas imbecilizadas são mais fáceis de controlar...
* A figura do Selvagem John, que foi criticada como inverossímil pelo próprio autor em prefácio de 1946, cresceu ainda mais nessa segunda leitura. Realmente um achado genial uma pessoa que conhece a civilização ocidental unicamente pela obra de Shakespeare.
* Por falar em Shakespeare, fiquei com muita vontade de ler “Tróilo e Cressida”, que tem belíssimas frases citadas pelo Selvagem.
* Mas a conclusão final foi a seguinte: o Admirável Mundo Novo é aqui! Fiquei impressionado com as semelhanças entre a sociedade descrita por Huxley e os valores pregados pela civilização ocidental: hedonismo, consumismo ao extremo, sexualidade exacerbada, felicidade sustentada por drogas, espiritualidade substituída pela busca incessante e histérica de prazeres vazios...
* Impressionante sempre é o poderoso intelecto que gerou essa magnífica obra! Que escritor sem igual! Lembro sempre do apelido que outro grande, Anthony Burgess, deu a Aldous Huxley: um deus distraído!