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quinta-feira, 17 de outubro de 2013

ULISSES – James Joyce



Resolvi fazer essa resenha aos poucos, ao longo do caminho, como um diário de bordo. Pois a viagem é longa e cheia de aventuras.

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Para quem nunca leu e nem pretende ler o “Ulisses” de James Joyce, separo esse trecho para dar um gostinho da leitura. É justamente o parágrafo que acabo de ler agora:

“Inelutável modalidade do visível: pelo menos isso se não mais, pensado através dos meus olhos. Assinaturas de todas as coisas estou aqui para ler, marissêmen e maribodelha, a maré montante, estas botinas carcomidas. Verdemuco, azulargênteo, carcoma: signos coloridos. Limites do diáfano. Mas ele acrescenta: nos corpos. Então ele se compenetrava deles corpos antes deles coloridos. Como? Batendo com sua cachola contra eles, com os diabos. Devagar. Calvo ele era e milionário, maestro di color che sanno. Limite do diáfano em. Por quê em? Diáfano, adiáfano. Se se pode pôr os cinco dedos através, é porque é uma grade, se não uma porta. Fecha os olhos e vê.”


A tradução é de Antonio Houaiss.

Estou na página 42. Faltam só 811.

(22.02.11)


   
ULISSES – James Joyce

Comecei a ler esse livro há mais de um ano. Até o mês passado, devagar e quase nunca fui chegando até a página 50 e poucos. Agora em menos de um mês li umas duzentas páginas!

Primeiro ponto: demorei mais para ler não pela leitura em si, mas por minha disposição interna. Sempre colocava outra leitura na frente. Mas o fato do livro ser grande e pesado soma-se ao desafio intelectual proporcionado pelo texto, enfim, não resta dúvida de que ninguém mentiu ao afirmar que essa não era uma leitura fácil.

Mas em meados de junho resolvi tomar vergonha na cara e ler o Ulisses de verdade. O tempo todo é uma leitura tensa e intensa. A ideia do fluxo da consciência, de registrar na minúcia cada pensamento dos personagens, de forma fragmentária como são os pensamentos... dificilmente alguém poderá mergulhar tão fundo de novo. Embora Virginia Woolf com sua Mrs Dalloway tenha ao menos a vantagem de ter usado muito menos papel.

Joyce é magistral e exasperador. Fui conferir agora: estou exatamente na página 273.

Uma coisa dá para dizer: é uma leitura muito pessoal. Então vou falar de mim.

Entendo agora um pouco melhor o porquê do estudioso Edwin Muir ter chamado o Ulisses de um fracasso genial, e também entendo mais a admiração de Anthony Burgess (autor de Laranja Mecânica entre outros igualmente bons e totalmente diferentes).

Em algumas partes consegui surfar melhor na onda de Joyce, especialmente ao acompanhar as divagações, suspeitas, julgamentos, repressões e hábitos secretos do senhor Bloom. Uma experiência muito interessante, realmente.

Mas tem outros momentos, camaradas! que dá vontade de atirar o livro pela janela. A imagem mais próxima que encontro para descrever essa sensação é ficar o tempo todo tentando enxergar por cima do ombro dos outros algo que só se mostra de relance, é uma maçaroca de informação tão doida que até faz sentido agora que estou escrevendo essa resenha parcial, mas que na hora de ler foi penoso...

Por isso é que eu mesmo me espanto comigo ao pensar que ainda desejo ardentemente ler Retrato do Artista Quando Jovem, que tenho na versão original, depois que terminar Ulisses!

Adiante!

(12/07/12)



ULISSES – James Joyce

1)    Hoje é um dia especial: terminei de ler “Ulisses”!!! Viva viva!!! Que dizer desse livro que eu achei chatíssimo até a metade (por volta da página 400), para então começar a gostar mais e mais e terminar achando uma obra linda, genial e muuuito louca???
2)    Para escapar de fazer uma resenha interminável, me proponho o desafio de escrever somente dezoito tópicos, um para cada capítulo do livro, cada qual correspondendo a um episódio da “Odisseia” de Homero (Ulisses é o nome latino para Odisseu, originado na palavra grega para “guardar ressentimento”).
3)    Nessa obra Joyce se propõe a atingir o mais alto anseio da literatura, que é expressar no romance a totalidade da vida. Mas a complexidade cada vez maior da vida moderna (início do século XX) só pode ser retratada de fato caso o romance se reinvente, extrapole os limites, transcenda as barreiras. E é bem isso o que “Ulisses” faz.
4)    A história toda acontece em um único dia, que traz Leopold Bloom (Ulisses) em suas peregrinações pela cidade de Dublin. Stephen Dedalus, o jovem artista, é Telêmaco, e Molly Bloom, a esposa adúltera, é Penélope.
5)    Cada um dos dezoito capítulos é escrito em um estilo único e totalmente diferente dos demais. São quase dezoito obras diferentes aglutinadas no mesmo livro.
6)    Coisa surpreendente: “Ulisses” tem algumas partes muito engraçadas! Rachei o bico de dar risada em várias cenas, com destaque para o invento da obramaravilha, uma espécie de apito (que deve ser introduzido pela ponta redonda) para descongestionar os gases intestinais de cavalheiros e damas constipados. A suprema invenção do século XX!

7)    Outra constatação surpreendente: a obra é realmente revolucionária e genial, mas creio que alcançou tamanha repercussão mesmo foi pelo tanto de putaria: como tem sacanagem nesse Ulisses! Não causa surpresa o livro ter ficado proibido durante 11 anos nos Estados Unidos.
8)    E aí é que está a fórmula explosiva: uma linguagem inovadora, uma estrutura intelectualmente desafiadora e, de quebra, a transgressão dos valores morais vigentes, nas muitas referências explícitas e até grosseiras ao sexo.
9)    O que leva à reflexão: a literatura parece ter perdido a capacidade de chocar. Não dá para imaginar um livro hoje sendo proibido por ofender “a moral e os bons costumes”. Vitória da liberdade de expressão ou sinal de decadência da civilização? Você decide.
10) O que leva ao questionamento: por que hoje em dia não temos escritores como James Joyce? Corajosos, inventivos, audaciosamente indo onde a literatura jamais esteve? Os escritores do século XX parecem muito mais “avançados” que os atuais. Será que tudo já foi inventado e nada mais resta por inovar? O futuro dirá.
11) Dizem que por conta de suas invenções linguísticas “Ulisses” é mais fácil de ler no original que traduzido. A edição que li foi com a tradução pioneira de Antonio Houaiss. Bem, só posso dizer que não concebo o texto em inglês sendo mais difícil de ler que essa tradução abençoada do Houaiss!!! Parece que o tradutor quis dar conta de todas as possibilidades semânticas, e o resultado foi que o texto em português ficou bem mais erudito e intelectualizado que o original (é o que comentam pela internet). Sorte de quem for ler o livro agora, que já estão disponíveis duas outras traduções em português, e mais focadas na linguagem cotidiana.
12) Uma das partes que mais gostei é o capítulo que corresponde ao palácio de Circe, quando Bloom e o jovem Dedalus visitam um bordel pra lá de animado. O estilo da narrativa é o de uma peça de teatro onde o autor e todos os personagens ingeriram doses maciças de LSD. Lisergia pura!

13) Outro trecho marcante é o capítulo final, com o monólogo da senhora Bloom. São 50 páginas sem uma única vírgula ou ponto, na mais contundente expressão literária do “fluxo de consciência”, com a representação do fluir incessante dos pensamentos do personagem. Podemos dizer que Saramago, em comparação, foi até bem conservador ao inventar o seu estilo próprio de escrever... E Joyce, de brinde, ainda criou uma das mais marcantes figuras femininas da literatura: Molly Bloom.
14) Tudo considerado, apesar de “Ulisses” ser considerada uma obra de estrutura matematicamente perfeita, penso que o livro seria mais gostoso de ler se tivesse a metade das páginas, ou mesmo um terço.
15) Mais fácil de ler, sim, mas não necessariamente melhor. Entendo a proposta do livro, que exige tantas páginas de elucubrações sem fim. No mundo atual, que prioriza a velocidade e multiplicidade de informações, é provável que cada vez menos pessoas se interessem em ler “Ulisses”.
16) Desde o capítulo do bordel, uma ideia louca ficou martelando minha mente: imagine como seria esse livro transformado em filme! Impensável! Impossível! Ainda assim, creio que o David Lynch estivesse à altura da tarefa.
17) Comecei a ler “Ulisses” pela primeira vez há mais de dez anos, e acabei desistindo por volta da página 100. Mas fucei o “Roteiro-chave” que vem no final do livro, e hoje percebo o tamanho dessa influência em minha própria criação literária. Essa estrutura foi um eco distante na composição das letras da ópera-rock VIDA (gravada pela banda Imago Mortis), e teve uma força maior, ainda que mais distante ainda, na estrutura de meu romance “O Sincronicídio”. Que bom perceber isso hoje!
18) Não é fácil ler “Ulisses”, mas o esforço vale a pena – dependendo da motivação do leitor. Para mim, foi como galgar um Everest literário: veni vidi vici!!!

(26.09.12)



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Conheça O SINCRONICÍDIO:
http://youtu.be/Vr9Ez7fZMVA
http://www.caligoeditora.com.br/osincronicidio/
 
 
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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
LEIA AGORA (porque não existe outro momento):

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A PAIXÃO SEGUNDO G.H. – Clarice Lispector



“– – – – – – estou procurando, estou procurando.”


Massa!!!

***

Resolvi ir fazendo alguns comentários à medida que for lendo, pois já de cara percebo que essas páginas de Clarice têm uma sustança!!!

Optei por não ler por enquanto à apresentação à obra assinada por Nádia Battela Gotlib. Geralmente prefiro ter um contato o mais “despido” possível com o autor.

Depois da apresentação, nos deparamos com a advertência:

“A POSSÍVEIS LEITORES

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada.”


Vixe que já gamei já nas primeiras linhas! Sensação assim só experimentei ao ler Hermann Hesse ou Fernando Pessoa!

Li o que pode ser o primeiro capítulo. Caramba y carambita, Zagor!

Tive duas impressões fortes lendo esse primeiro capítulo.

1) Clarice Lispector é a Experiência!!!

O filme “A Experiência” fala de uma linda mulher cujo dna é metade humano e metade alienígena.

Pois então. O “dna literário” de Clarice é metade brasileiro, metade estrangeiro! É uma fina iguaria intelectual ler o pensar nitidamente europeu, tal como o de um Aldous Huxley (o mais próximo que encontrei), traduzido não, transmutado em português!!! Uau!!!!

2) Clarice Lispector é Anima Literatus!!!!

As mulheres, de modo geral, possuem habilidade muito maior que os homens para argumentar e defender pontos de vista. Eu mesmo, ao longo do tempo adquiri a sabedoria de jamais tentar ganhar uma discussão com uma mulher.

Pois então. Clarice é a Língua Feminina Suprema. Tremo só de pensar no que vem por aí...

(e ainda estamos no capítulo 1!!!!)


  
ANTES DE FALAR DA BARATA...

...devo confessar que sentia uma secreta aversão por Clarice Lispector.

Não era propriamente um preconceito, pois tentei ler “Perto do Coração Selvagem” durante a adolescência. Parei em uma página menor que a minha idade. Não era a Hora da Estrela de Clarice brilhar em minha vida: eu ainda não estava com a “alma formada”.

Não era machismo, tampouco. (Gosto de investigar a fundo tudo o que me incomoda, pois invariavelmente descubro aprendizados preciosos). Não era uma birra em admitir uma mulher no mais alto panteão literário. Pois já me rendi grato e submisso à potestade feminina chamada Virginia Woolf (só para citar um exemplo).

De onde vinha, então, essa hesitação em ler Clarice?

Graças ao carinho da amiga Nora, fui contemplado por essa magnífica experiência que há tanto tempo esperava por mim!

E finalmente encontro o motivo para minha secreta resistência, resposta docemente soprada pela própria Clarice!

Clarice Lispector tem frases fulminantes. Esse é o problema. Suas frases são como lâminas cortantes, que devem ser manuseadas com cuidado. Só deveria citar Clarice quem sabe que está empunhando uma espada afiada! Pois é grande o perigo de se cortar ou a outrem.

Por exemplo, sua frase mais famosa:

“Não se preocupe em ‘entender’. Viver ultrapassa todo entendimento.”

É visceralmente verdadeira! Mas há que se conciliá-la sempre com:

“Conhece-te a ti mesmo.”

Pois a prosa de Clarice é um mergulho no útero da alma no esforço de entender! Não pode jamais ser usada para justificar a obstinada ignorância ou a estupidez orgulhosa de não saber.

O que Clarice critica aqui é o mito da infalibilidade da razão humana. A razão é um mero instrumento da alma, que como todo instrumento possui suas limitações.

A alma, sim. É disto o que trata a literatura de Clarice.


BRINCANDO DE SAMURAI

“A vida é tão contínua que nós a dividimos em etapas, e a uma delas chamamos de morte.”

“Mas que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano – porque – porque amor é a matéria viva.”

“De morrer, sim, eu sabia, pois morrer era o futuro e é imaginável, e de imaginar eu sempre tivera tempo. Mas o instante, o instante este – a atualidade – isto não é imaginável, entre a atualidade e eu não há intervalo: é agora, em mim.”


O que tenho a dizer sobre a barata...
O encontro de G.H. com a barata é uma profunda experiência xamânica. A faxina que ela faz é em sua própria psique, vasculhando no fundo de sua alma, encarando o proibido, o escondido, o inimaginável, almejando olhar nos olhos da Sombra para abrir os portões do inconsciente.

Fiquei absolutamente eletrizado! Só me senti assim ao ler textos da mais alta espiritualidade.

*** 

“Mas também sabia que a ignorância da lei do irredutível não me escusava. Eu não poderia mais me escusar alegando que não conhecia a lei – pois conhecer-se e conhecer o mundo é a lei que, mesmo inalcançável, não pode ser infringida, e ninguém pode escusar-se dizendo que não a conhece.”

***



Quero comentar esse trecho

“Vou agora te contar como entrei no inexpressivo que sempre foi a minha busca cega e secreta. De como entrei naquilo que existe entre o número um e o número dois, de como vi a linha de mistério e fogo, e que é linha sub-reptícia. Entre duas notas de música existe uma nota, entre dois fatos existe um fato, entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam existe um intervalo de espaço, existe um sentir que é entre o sentir – nos interstícios da matéria primordial está a linha de mistério e fogo que é a respiração do mundo, e a respiração contínua do mundo é aquilo que ouvimos e chamamos de silêncio.”

UAU!!!

Como em outras passagens do livro, senti aqui os ecos da mais profunda filosofia, a tal ponto que se mistura com a mais alta espiritualidade!

Nesse trecho em particular, senti os ecos de Nietzsche sintonizado com Parmênides, no ponto em que ambos praticamente recitam os Vedas!!!

Não é à toa que Parmênides é um de meus filósofos preferidos. Tudo o que havia para ser dito, ele resumiu em uma simples frase: “o que é, é, o que não é, não é”. Só o que existe pode ser. O que não é não pode existir. Não pode existir, por exemplo, o vazio que separa dois seres. Entre dois seres, sempre há um terceiro ser. Donde se conclui inevitavelmente que não existem seres separados, mas somente um Ser!

(Nietzsche entra na história porque foi graças à interpretação dele sobre os pré-socráticos que pude enxergar e amar Parmênides!)



“Não, em tudo isso eu não estivera enlouquecida ou fora de mim. Tratava-se apenas de uma meditação visual. O perigo de meditar é o de sem querer começar a pensar, e pensar já não é meditar, pensar guia para um objetivo. O menos perigoso é, na meditação, ‘ver’, o que prescinde de palavras de pensamento.”

A impressão que tenho é que Clarice descobriu a localização exata da Cidade Perdida, não porque seguiu algum dos velhos e confiáveis mapas, mas porque desbravou selvas e desertos até lá chegar, por suas próprias pernas e esforços.

Existem grandes escritores que o são por dominar a arte de dizer belamente as coisas. Outros, como Clarice, Hermann, Fernando, Carlos e mais alguns poucos iluminados, escrevem belamente porque contemplam de olhos bem abertos a Beleza. A diferença é sutil, porém fundamental.




A NAMORADA DE FRANZ

Enxergar a barata
em si mesmo
e compor um belo poema:

isso faz de você um Kafka.

Enxergar na barata
um portal
para o Si mesmo:

é o que transforma em Clarice.



ALTA BRUXARIA

“O presente é a face hoje do Deus. O horror é que sabemos que é em vida mesmo que vemos Deus. É com os olhos abertos mesmo que vemos Deus. E se adio a face da realidade para depois de minha morte – é por astúcia, porque prefiro estar morta na hora de vê-Lo e assim penso que não O verei realmente, assim como só tenho coragem de verdadeiramente sonhar quando estou dormindo.”

O maior escritor brasileiro não é homem nem nasceu no Brasil!!!

Viva a Mulher Clarice!!!



SPOILER??? O NOME DO ASSASSINO É...

Se esse fosse um livro policial, creio que o trecho abaixo corresponderia à cena da revelação, quando Hercule Poirot reúne todos na biblioteca e explica tintim por tintim quem, quando, como, onde e porque.

Não sei se pode ser considerado spoiler em um livro como esse, mas acho preferível o excesso que a omissão. Leia o trecho abaixo apenas se já leu o livro ou se não pretende lê-lo tão cedo (talvez mude de ideia)...

“Não é pra nós que o leite da vaca brota, mas nós o bebemos. A flor não foi feita para ser olhada por nós nem para que sintamos o seu cheiro, e nós a olhamos e cheiramos. A Via-Láctea não existe para que saibamos da existência dela, mas nós sabemos. E nós sabemos Deus. E o que precisamos Dele extraímos. (Não sei o que chamo de Deus, mas assim pode ser chamado.) Se só sabemos muito pouco de Deus, é porque precisamos pouco: só temos Dele o que fatalmente nos basta, só temos de Deus o que cabe em nós. (A nostalgia não é do Deus que nos falta, é a nostalgia de nós mesmos que não somos bastante; sentimos falta de nossa grandeza impossível – minha atualidade inalcançável é o meu paraíso perdido.)
Sofremos por ter tão pouca fome, embora nossa pequena fome já dê para sentirmos uma profunda falta do prazer que teríamos se fôssemos de fome maior. O leite a gente só bebe o quanto basta ao corpo, e da flor só vemos até onde vão os olhos e a sua saciedade rasa. Quanto mais precisarmos, mais Deus existe. Quanto mais pudermos, mais Deus teremos.
Ele deixa. (...) Ele, por exemplo, Ele nos usa totalmente porque não há nada em cada um de nós que Ele, cuja necessidade é absolutamente infinita, não precise. Ele nos usa, e não impede que a gente faça uso Dele. (...)
Nós somos muito atrasados, e não temos ideia de como aproveitar Deus numa intertroca – como se ainda não tivéssemos descoberto que o leite se bebe. Daí a alguns séculos ou daí a alguns minutos talvez digamos espantados: e dizer que Deus sempre esteve! (...)
O leite da vaca, nós o bebemos. E se a vaca não deixa, usamos de violência. (Na vida e na morte tudo é lícito, viver é sempre questão de vida-e-morte.) Com Deus a gente também pode abrir caminho pela violência. Ele mesmo, quando precisa mais especialmente de um de nós, Ele nos escolhe e nos violenta.”



E O MARAVILHAMENTO NÃO PARA!!!

“- Aguenta eu te dizer que Deus não é bonito. E isto porque Ele não é nem um resultado nem uma conclusão, e tudo o que a gente acha bonito é às vezes apenas porque já está concluído. Mas o que hoje é feio será daqui a séculos visto como beleza, porque terá completado um de seus movimentos.
(...) O Deus é maior que a bondade com a sua beleza.
Ah, despedir-se disso tudo significa tal grande desilusão. Mas é na desilusão que se cumpre a promessa, através da desilusão, através da dor é que se cumpre a promessa, e é por isso que antes se precisa passar pelo inferno: até que se vê que há um modo muito mais profundo de amar, e esse modo prescinde do acréscimo da beleza. Deus é o que existe, e todos os contraditórios são dentro do Deus, e por isso não O contradizem.”


“Eu sabia que o erro básico de viver era ter nojo de uma barata.”

Recebi essas palavras com a gratidão de quem recebe um ensinamento precioso, vital até. Como alguém que se debate no oceano e de repente aparece alguém não com uma bóia salva-vidas, mas com uma palavra que ensina a nadar.

Agradeço pela Clarice em mim, que enxergava e sabia disso tudo antes, e que agora recebe nessas palavras uma confirmação sagrada até, de tão intensa.

“A Paixão Segundo G. H.” é com certeza um dos melhores livros que li na vida.

Minha queridíssima amiga Nora, que me emprestou esse maravilhoso Portal para o Eu, disse que era para eu escrever algumas palavras em um canto do livro. Só pude fazer esse comentário:

ATENÇÃO:
ESTE LIVRO AUMENTA A ALMA, QUE NUNCA MAIS VOLTARÁ AO TAMANHO ORIGINAL. LEIA POR SUA CONTA E RISCO.



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Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:

Booktrailler:
http://youtu.be/Umq25bFP1HI

Blog:
http://sincronicidio.blogspot.com/
 
LEIA AGORA (porque não existe outro momento):



sábado, 7 de abril de 2012

O SINCRONICÍDIO - Fabio Shiva


Esta é uma história que vai desafiando o leitor aos poucos, matreiramente, conquistando primeiro sua confiança antes de conduzi-lo a voos cada vez mais altos da imaginação.

O SINCRONICÍDIO é sobretudo um romance policial, à sua maneira, que consiste em misturar todas as outras: as refinadas charadas do whodunnit são apresentadas em meio a truculentas cenas noir, e o clássico mistério do quarto fechado é servido de modo a atender ao gosto moderno pela escatologia.

É mesmo uma história policial do início ao fim, com direito até à revelação revolucionária no último capítulo. E é também um conto sobre a imaginação e a memória.

Ocorre que esta é uma obra de muitas camadas, múltiplas possibilidades de interpretação.

Não é exagero afirmar que nunca antes uma história policial foi contada dessa maneira.

É na mistura entre o tradicional e o inovador que reside a originalidade de O SINCRONICÍDIO.

Ou antes, no uso inovador que é feito de conteúdos tradicionais.

Quanto ao estilo, a narrativa segue o padrão essencial do folhetim, finalizando cada segmento do texto em suspense, de forma a instigar o leitor a prosseguir com a leitura.

Quanto à estrutura, este é um livro que escapa aos padrões, ao se propor como interseção literária entre dois ricos universos semânticos: o jogo do xadrez e o jogo do I Ching.

O SINCRONICÍDIO é dividido em 64 capítulos apresentados fora da sequência numérica, cada qual representado pelo correspondente hexagrama do I Ching, o Livro das Mutações, milenar oráculo chinês.

O hexagrama é apresentado ao início do capítulo em uma engenhosa adaptação para o xadrez, que substitui as linhas yang e yin pelas casas brancas e negras do tabuleiro, sinalizando as linhas móveis através de peças que ocupam as respectivas casas.

O resultado são verdadeiros “poemas enxadrísticos”, uma curiosidade a mais para o leitor comum e um deleite para os entusiastas do Jogo dos Reis.

O cruzamento literário de I Ching com xadrez ocorre também por meio do Passeio do Cavalo, um clássico problema de xadrez que consiste em fazer o Cavalo percorrer todas as casas do tabuleiro em 64 movimentos sucessivos, sem jamais repetir uma casa.

Existe uma solução particularmente elegante para esse enigma, chamada de Passeio Fechado: depois que o Cavalo chega à última casa, o movimento seguinte o levaria de volta ao ponto de partida.

Estruturalmente, O SINCRONICÍDIO é a versão literária de um Passeio Fechado através do I Ching: os 64 capítulos representados pelos hexagramas são as casas do tabuleiro percorridas pelo Cavalo.

O livro estruturado dessa forma, ao mesmo tempo em que propicia ao leitor uma apresentação original e atraente para a sua história, revela também afinidade com um alto anseio literário: expressar, através do romance, a totalidade da vida em sua complexidade.

Pelo mesmo motivo, à semelhança de obras como Ulisses de James Joyce e Mrs Dalloway de Virginia Woolf, a história toda acontece em um único dia, o dia do Sincronicídio.


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