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sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

MACUNAÍMA – Mário de Andrade



Que livro genial! Certamente uma obra-prima da Literatura mundial, que dá orgulho de ser brasileiro! Ainda que a genialidade maior da obra seja justamente retratar o brasileiro, através do herói Macunaíma, como um ser “sem nenhum caráter”...

A tese da ausência de caráter do brasileiro é apresentada em dois níveis. O primeiro é o caráter como uma espécie de personalidade, uma “entidade psíquica permanente, se manifestando por tudo, nos costumes na ação exterior no sentimento na língua na História na andadura, tanto no bem como no mal”, como define o próprio Mário de Andrade. E ele continua: “O brasileiro não tem caráter porque não possui nem civilização própria nem consciência tradicional”.

E então surge a sacação verdadeiramente genial: “Dessa falta de caráter psicológico, creio otimistamente, deriva a nossa falta de caráter moral. Daí nossa gatunagem sem esperteza (a honradez elástica/a elasticidade da nossa honradez), o desapreço à cultura verdadeira, o improviso, a falta de senso étnico nas famílias.”

É por isso que “Macunaíma” continua extremamente atual: embora tenha sido escrito em 1926 e publicado em 1928, continua botando o dedo na ferida de nossa identidade nacional, tão confusa e sujeita às apropriações mais nefastas. E não é à toa que esse seja um dos livros brasileiros mais estudados de todos os tempos, e que ainda hoje gere polêmica.

Em 1969 o livro ganhou uma versão cinematográfica igualmente genial:


A obra de Mário de Andrade já se encontra em domínio público e “Macunaíma” é facilmente encontrado em PDF:


Eu tive a sorte de ler uma esmerada edição da Agir, que traz ao final um “Dossiê Macunaíma”, contendo vários rascunhos do autor sobre sua obra, de onde extraí as seguintes pérolas:

“Quanto a algum escândalo possível que o trabalho possa causar, sem sacudir a poeira das sandálias, que não uso sandálias dessas, sempre tive uma paciência (muito) piedosa com a imbecilidade”.

“Quanto a estilo, empreguei essa fala simples tão sonorizada, música mesmo, por causa das repetições, que é costume dos livros religiosos e dos contos estagnados do rapsodismo popular. Foi pra fastarem de minha estrada essas gentes que compram livros pornográficos por causa da pornografia.”

“Não sei ter humildades falsas não e se publico um livro é porque acredito no valor dele. (...) Principalmente disso vem o orgulho tamanho que possuo e me impede completamente qualquer manifestação de vaidade.”

“Outro problema que careço explicar é da imoralidade. Palavra que seria falso concluir pela imoralidade e pela porcariada mesmo que está aqui dentro, que me comprazo com isso. Quando muito admito que concluam que me comprazo... com o brasileiro.”

E viva Macunaíma! Viva Mário de Andrade! Viva a Literatura Brasileira!



\\\***///


ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

 

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A.B.C. DE CASTRO ALVES – Jorge Amado


O maior escritor homenageia o maior poeta da Bahia, em um texto apaixonado e apaixonante! Quem já amava Castro Alves, após a leitura de seu ABC terá mais e melhores motivos para considerá-lo um grande gênio da raça! E quem ainda não ama o Poeta da Liberdade, terá aqui uma linda oportunidade de se deixar seduzir pela paixão condoreira!

Acostumado à prosa fluida e lúdica de Jorge, a princípio estranhei tantas e extensas notas de rodapé, com tantos mínimos detalhes. Depois fui entendendo que era o amor a Castro Alves que motivava o desejo pela exatidão histórica e pela minúcia. E foi o mesmo amor desmedido que se manifestou de outra forma para mim surpreendente: em seus arroubos, Jorge Amado não mede palavras e bate forte em alguns nomes como Mário de Andrade, Tobias Barreto e Machado de Assis!

A pinimba com Mário de Andrade fica bem compreensível, pois foi o paulista que implicou primeiro com o baiano, ao fazer uma crítica meio estrambótica a Castro Alves, comparando-o a Fagundes Varela: o autor de Macunaíma desgosta profundamente do fato de um carvalho, na poesia de Castro Alves, se referir a um carvalho, enquanto na de Varela pode ser um carvalho ou uma baraúna, ou um salgueiro... chegando ao ponto de louvar Varela por sempre enfiar uma cachoeira em seus poemas, gerando um “mistério psicológico”, enquanto Castro Alves estaria reduzido a uma “pobre realidade”... Convenhamos que é implicância pura, e por conta disso Mário de Andrade levou uma bela duma espinafrada de Jorge Amado. Merecida, em minha opinião.

Já no caso de Tobias Barreto e, principalmente, de Machado de Assis, penso que a ira de Jorge foi um pouco pesada demais, julgando-os pelo fato de, sendo ambos mestiços, não terem se colocado de forma mais aberta contra a escravidão. Penso que só quem sentiu na pele (literalmente) o racismo que eles sofreram é que pode entender o motivo desta ou daquela atitude.


Outro caso de exageros de amor de Jorge Amado por Castro Alves, esse mais engraçado, é quando o autor do ABC dá um pito daqueles na mulher que foi a última paixão do poeta, pelo simples motivo dela ter se recusado a ceder aos ardentes desejos de Castro Alves, por medo de ficar falada na cidade, perdendo seu status social e com ele seu ganha-pão de professora particular. Jorge fica mesmo retado com a tal fulana por não ter aliviado a barra do poeta! O que na verdade é um recurso de gênio, pois com essa birra Jorge Amado consegue dar uma nota cômica em um momento muito triste da biografia de Castro Alves.

Em resumo, o livro é isso: um gênio falando de outro. Ou seja, um deleite de encher os olhos! Um efeito que eu apreciei particularmente foi o fato de Jorge narrar a história de Castro Alves para sua “amiga” (Zélia Gattai, certamente), dando um toque amoroso e uma narrativa sentimental paralela que muito soma à beleza da narrativa.

Diante de tudo isso, só posso agradecer à Mainha pela dádiva de ter nascido nessa terra de magia e beleza, que viu nascer um Castro Alves e um Jorge Amado, dentre tantos outros espetaculares baianos!


Viva a Bahia! Viva Jorge Amado! Viva Castro Alves!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058
 
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