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sábado, 18 de julho de 2020

O CONTO DA AIA – Margaret Atwood



Por uma triste sincronicidade, terminei de ler “O Conto da Aia” na mesma semana em que o monumento a Mãe Gilda de Ogum, aqui em Itapuã, sofreu mais um vandalismo. O agressor, ao ser preso, disse que estava “cumprindo a vontade de Deus”. A leitura da apavorante narrativa de Margaret Atwood e a não menos apavorante notícia da depredação do monumento a Mãe Gilda sinalizam igualmente como boa parte do que chamamos de “religião”, na verdade, dedica-se prioritariamente a oprimir a mulher.

A história de Mãe Gilda é incomodamente simbólica. Ialorixá do Axé Abassá de Ogum, em Itapuã, teve seu terreiro invadido por membros da Assembleia de Deus, que a atacaram verbal e fisicamente, golpeando sua cabeça com uma Bíblia (!!!). Mãe Gilda ficou tão abalada que adoeceu. Meses depois, viu sua foto estampada no jornal da Igreja Universal, com a manchete: “macumbeiros charlatões lesam a vida e o bolso de clientes”. Teve um ataque cardíaco fulminante. Por conta disso, o dia de sua morte, 21 de janeiro, foi decretado como Dia de Combate à Intolerância Religiosa, com a inauguração do monumento no Abaeté.

Por incrível que pareça, a depredação dessa semana não foi a primeira: em 2018 o monumento sofreu violência semelhante. Esses ataques à efígie de bronze conseguem causar ainda mais perplexidade que as agressões praticadas contra a mulher de carne e osso. Serão realmente humanos esses corações que abrigam tanto ódio em nome de Deus? É evidente que as pessoas que cometeram esses desatinos devem sofrer de algum tipo de transtorno mental. Contudo cabe a pergunta: como é que pode haver religiões onde essas pessoas envenenadas pelo ódio se sentem em casa? Como é possível colocar o ódio em um altar e convencer alguém de que se está adorando a Deus?


É por isso que “O Conto da Aia” é tão assustador. O livro trata em sua essência de como um Estado totalitário pode se valer do patriotismo e da religião para justificar que as pessoas sejam privadas de seus direitos. Escrito em 1985 e vencedor de vários prêmios, o livro voltou a ser destaque em anos recentes, com a escalada de tipos como Trump e Bolsonaro ao poder. Pois o jogo que eles praticam é bem semelhante aos horrores descritos no livro: utilizar a xenofobia e a intolerância religiosa como forma de manipulação.

Contudo não se iluda quem queira considerar Bolsonaro, Trump e afins como monstros enganadores de pobres inocentes bem-intencionados. Eles não teriam poder algum se não encontrassem a conivência e cumplicidade daqueles que buscam na religião uma justificativa para se sentirem melhores que os outros e, pior ainda, para negarem aos outros o direito de pensar de forma diferente.

Ao descrever cenas brutais que podem muito bem acontecer em um futuro próximo se não fizermos nada a respeito, Margaret Atwood nos ameaça com o dom da profecia. E enquanto houver pessoas que se consideram cristãs apoiando seres como Bolsonaro e Trump, não podemos com segurança considerar “O Conto da Aia” como apenas uma horripilante ficção.


“Se acontecer de você ser homem, em qualquer tempo no futuro, e tiver chegado até aqui, por favor lembre-se: você nunca será submetido à tentação de sentir que tem de perdoar um homem como uma mulher.”
Margaret Atwood, “O Conto da Aia”




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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

Leia ou baixe todo o livro no link abaixo:

Link do livro no SKOOB:

Book trailer



Entrevista sobre o livro na FM Cultura




sábado, 30 de maio de 2020

IDEIAS QUE COLAM – Chip Heath e Dan Heath



Fui presenteado com esse livro pelo querido manoji Axel Guedes, a quem agradeço por essa leitura que tanto somou em minha vida. Li ao longo de alguns meses, refletindo e tentando experimentar na prática cada sugestão do livro. Foi um aprendizado tão intenso que decidi registrar minhas impressões a partir de dois pontos de vista diferentes, um técnico e outro filosófico.

1) Visão Técnica
Este é um poderoso manual de comunicação, que visa tornar nossas mensagens mais eficientes. Uma “ideia que cola” é “compreensível, memorável e eficaz na mudança de pensamento ou comportamento”. De forma bem resumida, seis princípios determinam se uma ideia irá colar ou não:
* SIMPLICIDADE: essencial para tornar uma mensagem facilmente assimilável.
* SURPRESA: é o que faz as pessoas prestarem atenção na mensagem.
* CONCRETUDE: faz as pessoas compreenderem e se lembrarem depois.
* CREDIBILIDADE: faz as pessoas concordarem e/ou acreditarem na mensagem.
* SENTIMENTOS: faz as pessoas se importarem com o que está sendo dito.
* RELATOS: mobilizam as pessoas a agirem a partir da ideia apresentada.

Além desses seis princípios, os autores apresentam um conceito muito interessante como “o grande vilão das ideias que colam”: a MALDIÇÃO DO CONHECIMENTO. Um curioso experimento de psicologia exemplifica bem esse conceito. Um grupo de pessoas foi dividido em “ritmistas” e “ouvintes” para participar de um jogo bem simples: os “ritmistas” deviam escolher uma música bem conhecida (como “Parabéns pra você” ou o hino nacional) e batucar o ritmo dessa música para os “ouvintes”. Vale a pena fazer essa experiência: tente batucar “Parabéns pra você” para alguém e veja se a pessoa consegue descobrir qual é a música. No experimento citado no livro, apenas 2,5% dos “ouvintes” conseguiram acertar a música. Contudo o dado realmente interessante é que os “ritmistas”, ao serem previamente perguntados sobre a taxa de acerto, calcularam que 50% dos “ouvintes” iriam acertar! Essa discrepância se deve à “Maldição do Conhecimento”: é muito difícil, principalmente quando se é especialista em determinado assunto, ter em mente que os seus interlocutores não possuem os mesmos conhecimentos que você. É por isso que muitas boas ideias não conseguem acessar um número maior de pessoas.

Venho testando na prática esses conceitos apresentados no livro, e realmente são muito úteis para tornar nossas ideias mais atrativas e abrangentes!

2) Visão Filosófica
É muito significativo que a primeira “ideia que cola” apresentada no livro tenha sido a famosa lenda urbana sobre a pessoa que aceita um drinque em um bar e acorda no dia seguinte em uma banheira cheia de gelo, onde descobre que um de seus rins foi roubado por traficantes de órgãos. O fato de uma ideia colar ou não, em suma, nada tem a ver com o fato de ser verdade ou não. Essa é uma descoberta estarrecedora sobre os fundamentos da Cultura de Massa, que expõe um problema crucial de nossa civilização tecnológica. Pois no âmbito meramente interpessoal, as técnicas para gerar “ideias que colam” podem fazer de você um bom vendedor de ideias boas ou más – com consequências relativamente limitadas. Contudo, ao serem aplicadas aos Meios de Comunicação de Massa, essas poderosas técnicas de persuasão podem ser usadas para perpetrar terríveis males. Assim foi que o rádio possibilitou a ascensão do nazismo e a televisão nos transformou em uma horda de consumistas devastadores da Natureza, por exemplo. O pior é que tudo indica que o problema se torna cada vez mais grave, à medida que as tecnologias de comunicação progridem. Recentemente a Cambridge Analytica demonstrou como o uso de informações coletadas nas redes sociais pode transformar seres humanos em robôs, literalmente (a acepção original da palavra “robô” é “escravo”) e eleger governos de tendências fascistas como os de Trump e Bolsonaro.

Mas como é que as “ideias que colam” podem exercer uma influência tão nefasta no mundo? A questão é que essas técnicas de comunicação são baseadas em descobertas sobre fragilidades cognitivas e emocionais das pessoas. O problema todo é que o Homo sapiens é muito menos sapiens do que imagina...

Vou citar apenas um exemplo do uso dessas técnicas, que é debatido com muito entusiasmo no livro. Na década de 1980, uma empresa de publicidade no Texas foi contratada para elaborar uma campanha que fizesse os texanos pararem de jogar lixo nas estradas. O problema era muito sério, gerando despesas de milhões de dólares por ano. Após uma pesquisa, a empresa traçou um perfil do público-alvo de sua campanha:

“O perfil do típico texano que jogava lixo nas estradas era o de um homem entre 18 e 35 anos, dirigindo uma pick-up, que gostava de esportes e música country. Ele não gostava de autoridade e não era motivado por associações sentimentais (...). Dizer ‘por favor’ a esses caras é como falar com um surdo.”

Pois bem. A genial campanha publicitária que conseguiu diminuir o lixo nas estradas em impressionantes 72% começou com um comercial mostrando três jogadores de futebol americano em poses ameaçadoras, dizendo algo como: “Sabe aquele cara que jogou lixo pela janela do carro? Eu tenho um recado para ele: não mexa com o Texas!” Essa campanha “Don’t mess with Texas” funcionou tão bem porque utilizou o próprio machismo dos telespectadores para convencê-los a mudar de atitude.

Nesse exemplo, as fragilidades psicológicas foram manipuladas para fazer as pessoas terem uma mudança positiva: parar de jogar lixo nas ruas. Em outro exemplo citado no livro, contudo, a manipulação foi inegavelmente maléfica: obrigada por lei a exibir uma campanha antifumo nos maços de cigarro, a Philip Morris espertamente adotou uma série de fotos e slogans que, por essa mesma incitação à rebeldia, acabou tendo o efeito de aumentar o número de fumantes!

E assim se revela um outro ganho que tive com essa leitura: ao ler sobre técnicas para influenciar outras pessoas, ficamos mais atentos e protegidos para não sermos nós mesmos vítimas dessas indevidas influências. Penso que se essas técnicas forem ensinadas nas escolas do Brasil, nunca mais precisaremos passar pela infeliz experiência de ter um presidente eleito por uma Mamadeira de Piroca!






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Contos da Era Bolsonaro - baixe o livro gratuitamente:

Foi disponibilizado gratuitamente nas plataformas digitais o livro “TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro”, de Fabio Shiva. Lançado pela Caligo Editora, o livro impresso pode ser adquirido na Amazon a R$20 (https://www.amazon.com/dp/B0851LYQVG), enquanto a versão para Kindle fica por R$ 4,35:

Mas o livro também está disponível para leitura online no Wattpad:

Quem preferir fazer o download gratuito do PDF, pode acessar o Recanto das Letras:

Os contos do livro nascem de uma perplexidade comum a milhões de brasileiros: como é que Bolsonaro foi eleito? Como é possível que, depois de tantos absurdos, ainda tenhamos parentes e amigos apoiando fanaticamente o governo? O que aconteceu com essas pessoas? O que aconteceu com o Brasil?

Para lidar com os horrores do obscurantismo que assola o país, precisamos mais do que nunca das luzes da Arte. E é assim que a Literatura Fantástica surge como uma resposta lúdica e inesperada diante de mesquinhas realidades.

Nas oito histórias aqui reunidas, Fabio Shiva explora os pontos cardeais desse grande enigma brasileiro:

* Será que o bolsonarismo surgiu de uma epidemia cósmica? - “O ódio que veio do espaço”
* Ou será tudo parte de um audacioso plano traçado na espiritualidade? - “Acima de todos”
* Será que isso implica no fim do mundo como o conhecemos? - “A espera”
* Como será o futuro dominado pelas Fake News? - “Notícias da Democracia”
* E o que aconteceria se ninguém mais pudesse mentir? - “Verdade e Consequência”

Que essas e outras incômodas perguntas aqui apresentadas possam fortalecer os leitores em seu processo de resistência vital contra o culto generalizado da morte: a morte da natureza, a morte da educação e da cultura, a morte da diversidade, do respeito e de tudo o que nos faz ter orgulho de sermos brasileiros. Contra as trevas da ignorância, salve a nossa Literatura!


quarta-feira, 13 de maio de 2020

GOLPE DE MISERICÓRDIA – Marguerite Yourcenar



Fui conduzido a ler esse livro por um episódio curioso. Na verdade, eu pretendia ler “A Dor”, de Marguerite Duras, mas quando fui pegar o livro na estante, foi esse que veio em minhas mãos. Entendi que era um sinal do universo, e obedeci.

Claro que fiquei antenado para captar as mensagens que esse livro poderia trazer para mim nesse momento, e por isso a resenha será focada nessa leitura específica. De cara ficou evidente a sincronicidade: a história real que inspirou “Golpe de Misericórdia” se passa uma terra estranha em uma época igualmente esquisita: “uma região perdida dos países bálticos, entre o fim da primeira guerra mundial e a Revolução Russa”.

Uma guerra acontece, mas não entendemos muito bem suas motivações, nem o cenário onde as lutas sangrentas ocorrem. É meio como a guerra mundial que travamos hoje contra o Coronavírus: uma série de batalhas sem fronteiras definidas, combatidas em meio a espessas neblinas.

E daí retirei o primeiro ensinamento precioso desse livro: em um determinado momento um dos personagens afirma que em tempos de guerra o lado mais terrível do ser humano costuma vir à tona, assim como o lado mais maravilhoso. Como há mais coisas terríveis que maravilhosas na humanidade, os períodos de guerra trazem a reboque muitas revelações pavorosas. Novamente, é como o momento que vivemos hoje, especialmente no Brasil. Certamente há coisas maravilhosas acontecendo, mas fica difícil percebê-las com tantos horrores vindo à tona de um pandemônio somado à pandemia.

Uma frase em particular me evocou muito claramente as torpes estratégias de Fake News utilizadas pelo atual governo para se alçar e se manter no poder: “Sempre achei certa baixeza naqueles que acreditam com muita facilidade na indignidade alheia.” Bolsonaro só chegou onde está, infelizmente, porque milhões de brasileiros escolheram acreditar na Mamadeira de Piroca... E já faz tempo que notei como o Desprezidente é rápido em acusar seus adversários das maiores torpezas e vilanias que ele mesmo é o primeiro a cometer.

Outras frases marcantes também encontrei nessa pungente e angustiosa narrativa, traçada com esmero e trágica beleza:

“A amizade é acima de tudo certeza, coisa que a distingue do amor.”

“Não sou presunçoso: isso seria fácil para um homem que despreza as mulheres e que, buscando confirmar a opinião que tem delas, escolhe frequentar apenas as piores.”

“Pode-se confiar no fogo, com a condição de saber que sua lei é morrer ou queimar.”

“Fala-se sempre como se as tragédias se passassem no vácuo; elas, todavia, são condicionadas pelo ambiente.”

“Somos sempre punidos na ocasião imprópria.”




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FAVELA GÓTICA liberado na íntegra no site da Verlidelas Editora:

Durante esse período de pandemia, em meio a tantas incertezas, temos uma única garantia: a de que nada será como antes. Estamos todos tendo a oportunidade preciosa de participar ativamente na reconstrução de um mundo novo, mais luminoso e solidário.

O livro Favela Gótica fala justamente sobre “a monstruosidade essencial do cotidiano”, em uma história cheia de suspense, fantasia e aventura. Ao nos tornamos mais conscientes das sombras que existem em nossa sociedade, seremos mais capazes, assim como a protagonista Liana, de trilhar um caminho coletivo das Trevas para a Luz.

A versão física de Favela Gótica está à venda no site da Verlidelas, mas – na tentativa de proporcionar entretenimento a todos durante a quarentena – o autor e a editora estão disponibilizando gratuitamente, inclusive para download, o PDF de todo o livro.

Fique à vontade para repassar o arquivo para amigos e parentes.

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Entrevista sobre o livro na FM Cultura



sábado, 21 de março de 2020

A VOLTA POR CIMA – Fernando Sabino



Peguei esse livro para ler intuitivamente, atraído pelo título e pela chamada da capa: “Tudo que acontece tem seu lado bom. Toda mudança é para melhor.” Esse otimismo me pareceu bastante salutar em nossos tempos de pandemia de coronavírus e, além do mais, sempre faz bem ler Fernando Sabino.

Só que, talvez por estar mais sensível a essas questões ultimamente, fui experimentando uma estranheza crescente: algumas crônicas me pareceram levemente machistas ou homofóbica. Digo “levemente” porque a prosa de Sabino é sobretudo elegante, então ficou apenas uma impressão sutil de que nos dias de hoje o autor talvez escrevesse aquelas crônicas de modo diferente (o livro é de 1990).

Então me deparei com uma crônica onde o próprio Sabino se define como “ranheta”, ao criticar duramente a juventude em termos bastante conservadores, que colocou em minha cabeça uma incômoda pergunta: “será que, caso estivesse vivo em 2018, Fernando Sabino teria votado no Bozo?”

Essa pergunta tornou-se crucial nos dias de hoje, e surge quase inevitavelmente toda vez que conhecemos alguém: “Em quem essa pessoa votou nas últimas eleições para presidente?” Contudo até então esse “X da questão” ainda não havia surgido para mim de forma retroativa, como foi provocado pela leitura de Fernando Sabino. Isso ficou de tal modo em minha mente que ao término da leitura fiz questão de assuntar alguma coisa a respeito na Internet. Imaginem a minha surpresa ao me deparar com o artigo de Henrique Balbi para a Revista Época, indagando justamente o que Fernando Sabino diria de Bolsonaro!

Encerro, portanto, citando os trechos mais marcantes:

“Como sempre, é um prazer relê-lo [Fernando Sabino]. A agilidade da sua prosa nos dá inveja, logo rebatida pelas risadas que Sabino sabe provocar como ninguém; em instantes, ele nos puxa para dentro de suas tramas, em que equívocos brotam a todo instante e em qualquer lugar; seus contos e crônicas, se é que podemos distingui-los, nunca soam datados.”

“Sabino disse não ter medo de Collor, mas vergonha – sentimento que alguns cidadãos, críticos a Jair Bolsonaro, compartilhamos.

“A tentação de imaginar o que Sabino diria hoje é imensa. (...) O que Sabino diria de Jair Bolsonaro, que naquele dezembro de 1989 se preparava para o primeiro mandato de sua carreira legislativa de quase trinta anos, como vereador pelo Rio de Janeiro? Só podemos especular, já que esta coluna não trabalha com psicografias.





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Contos da Era Bolsonaro - baixe o livro gratuitamente:

Foi disponibilizado gratuitamente nas plataformas digitais o livro “TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro”, de Fabio Shiva. Lançado pela Caligo Editora, o livro impresso pode ser adquirido na Amazon a R$20 (https://www.amazon.com/dp/B0851LYQVG), enquanto a versão para Kindle fica por R$ 4,35:

Mas o livro também está disponível para leitura online no Wattpad:

Quem preferir fazer o download gratuito do PDF, pode acessar o Recanto das Letras:

Os contos do livro nascem de uma perplexidade comum a milhões de brasileiros: como é que Bolsonaro foi eleito? Como é possível que, depois de tantos absurdos, ainda tenhamos parentes e amigos apoiando fanaticamente o governo? O que aconteceu com essas pessoas? O que aconteceu com o Brasil?

Para lidar com os horrores do obscurantismo que assola o país, precisamos mais do que nunca das luzes da Arte. E é assim que a Literatura Fantástica surge como uma resposta lúdica e inesperada diante de mesquinhas realidades.

Nas oito histórias aqui reunidas, Fabio Shiva explora os pontos cardeais desse grande enigma brasileiro:

* Será que o bolsonarismo surgiu de uma epidemia cósmica? - “O ódio que veio do espaço”
* Ou será tudo parte de um audacioso plano traçado na espiritualidade? - “Acima de todos”
* Será que isso implica no fim do mundo como o conhecemos? - “A espera”
* Como será o futuro dominado pelas Fake News? - “Notícias da Democracia”
* E o que aconteceria se ninguém mais pudesse mentir? - “Verdade e Consequência”

Que essas e outras incômodas perguntas aqui apresentadas possam fortalecer os leitores em seu processo de resistência vital contra o culto generalizado da morte: a morte da natureza, a morte da educação e da cultura, a morte da diversidade, do respeito e de tudo o que nos faz ter orgulho de sermos brasileiros. Contra as trevas da ignorância, salve a nossa Literatura!

sábado, 22 de fevereiro de 2020

TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro - Fabio Shiva



Contos da Era Bolsonaro - baixe o livro gratuitamente:

Foi disponibilizado gratuitamente nas plataformas digitais o livro “TANTO TEMPO DIRIGINDO SEM NINGUÉM NO RETROVISOR: Contos da Era Bolsonaro”, de Fabio Shiva. Lançado pela Caligo Editora em pleno carnaval 2020, o livro impresso pode ser adquirido na Amazon, enquanto a versão para Kindle fica por R$ 4,35:

Mas o livro também está disponível para leitura online no Wattpad:

Quem preferir fazer o download gratuito do PDF, pode acessar o Recanto das Letras:

Os contos do livro nascem de uma perplexidade comum a milhões de brasileiros: como é que Bolsonaro foi eleito? Como é possível que, depois de tantos absurdos, ainda tenhamos parentes e amigos apoiando fanaticamente o governo? O que aconteceu com essas pessoas? O que aconteceu com o Brasil?

Para lidar com os horrores do obscurantismo que assola o país, precisamos mais do que nunca das luzes da Arte. E é assim que a Literatura Fantástica surge como uma resposta lúdica e inesperada diante de mesquinhas realidades.

Nas oito histórias aqui reunidas, Fabio Shiva explora os pontos cardeais desse grande enigma brasileiro:

* Será que o bolsonarismo surgiu de uma epidemia cósmica? - “O ódio que veio do espaço”
* Ou será tudo parte de um audacioso plano traçado na espiritualidade? - “Acima de todos”
* Será que isso implica no fim do mundo como o conhecemos? - “A espera”
* Como será o futuro dominado pelas Fake News? - “Notícias da Democracia”
* E o que aconteceria se ninguém mais pudesse mentir? - “Verdade e Consequência”

Que essas e outras incômodas perguntas aqui apresentadas possam fortalecer os leitores em seu processo de resistência vital contra o culto generalizado da morte: a morte da natureza, a morte da educação e da cultura, a morte da diversidade, do respeito e de tudo o que nos faz ter orgulho de sermos brasileiros. Contra as trevas da ignorância, salve a nossa Literatura!



quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

PEDAGOGIA DA AUTONOMIA – Paulo Freire




Uma vez que os livros de Paulo Freire passaram a vender mais durante o governo Bolsonaro (https://epoca.globo.com/guilherme-amado/venda-de-livro-de-paulo-freire-aumenta-durante-governo-bolsonaro-23918581), resolvi aderir à moda e ler essa que é uma de suas principais obras. Li com o objetivo de sanar uma dúvida minha. Afinal, um pensador do quilate de Paulo Freire, que obteve tanto reconhecimento na área da Educação (da qual nosso país é tão carente) a ponto de ser estudado nas principais universidades do planeta, deveria ser um herói nacional, reverenciado por todos os brasileiros e recebendo honrarias pelo menos iguais às reservadas aos ídolos do futebol. Por que cargas d’água, então, justamente os que mais gostam de dizer que são patriotas parecem ter verdadeiro horror a Paulo Freire? O que há nas ideias do Professor que incomoda tanto Bolsonaro e seus filhotes?

Não precisei ler muitas páginas de “Pedagogia da Autonomia” para encontrar a resposta. Imagine, por exemplo, um livro que fala dos benefícios da luz solar para a saúde do corpo e da mente, sugerindo exercícios diários ao ar livre e enfatizando como é sempre melhor examinar as coisas sob a luz direta do sol... Então imagine como um livro desses seria recebido por uma comunidade de vampiros!

Nada mais natural que Bolsonaro tenha medo de Paulo Freire como o Drácula foge da cruz. Cada frase desse livro é um desmascaramento da feiura e injustificável malvadez de todo autoritarismo. Com sua fala mansa e heroica, o professor Paulo Freire denuncia implacavelmente a vilania e o cinismo que tantas vezes se disfarçam como discursos em defesa da “moral e dos bons costumes”.

Desafio qualquer um que considere Paulo Freire um “energúmeno” a refutar suas ideias, não pela grosseira dos xingamentos ou pela violência de botas e cassetetes, mas pela força lógica de argumentos contrários. Creio que ninguém ficaria mais feliz com esse debate que o próprio Paulo Freire, esse grande brasileiro defensor da democracia.

“Não se pode falar em educação sem amor.” – Paulo Freire





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Qual é o seu tipo de monstro? Faça o teste e descubra!

“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”


Compre agora “Favela Gótica”, segundo romance de Fabio Shiva:



sexta-feira, 4 de outubro de 2019

VIAGEM AO ORIENTE – Hermann Hesse



Por incrível que pareça, reler Hermann Hesse me ajudou a ter mais empatia pela absurda figura de nosso atual presidente. Pois percebi que o que Bolsonaro sente por Trump deve ser algo parecido com o que sinto por Hermann Hesse. Se tivesse a oportunidade de chegar perto desse grande escritor, mesmo correndo o risco (muito provável) de ser desprezado, bem que eu gostaria de gritar a plenos pulmões: “I love you, Hesse! Ich liebe Dich!”

Li pela terceira vez, tomado de profunda emoção, essa obra-prima da Literatura Mundial. Considero “Viagem ao Oriente” talvez o mais acessível dos livros de Mahatma Hesse, certamente um dos mais indicados como primeiro contato com o mundo de profundo simbolismo e espiritualidade desse esplêndido autor.

Ao pensar em outras das magníficas obras de Hermann Hesse, tomei consciência de que li duas vezes várias delas: o instigante “Demian”, o abissal “Lobo da Estepe”, o inefável “Sidarta” e o colossal “O Jogo das Contas de Vidro”. Ao ler pela terceira vez justamente “Viagem ao Oriente”, que considero a porta de entrada para o mundo de H.H., penso que é chegada a hora de encetar mais uma vez essa inebriante e desafiadora jornada através de mim mesmo. Pois essa é a grandiosidade ímpar de Hesse: ele é cristalino espelho d'alma, capaz de refletir os recônditos mais profundos de nosso ser. Por isso sua leitura nem sempre é fácil, pelo contrário, muitas vezes é verdadeiramente angustiante. Mas sempre é válida e preciosa.

Fiquei surpreso com o fato de ter ficado tão envolvido na leitura, mesmo sendo a terceira vez. A um determinado ponto, cheguei a prender a respiração, de tanto suspense. É que estava para chegar a uma das frases que mais marcaram minha vida, desde que a li pela primeira vez:

“(...) a vida não passa de um jogo. É exatamente isso a vida, quando é bela e feliz... um jogo! É claro que se podem fazer muitas outras coisas, transformá-la em dever, em campo de batalha, em prisão, mas isso não a torna mais bela.”

Outra surpresa foi encontrar essa frase:
“As crianças vivem em uma das margens do desespero; os lúcidos, em outra.”

Não lembrava dela, mas de alguma forma esse ensinamento ficou guardado em meu coração, tanto que assumiu a forma desse poema, recentemente publicado na antologia “Poesia de Botão”:

SUR LA JOIE

A alegria
É para os inocentes
E para os inteligentes.

A alegria
É para as crianças
E para os capazes.

Outras belas passagens de “Viagem ao Oriente”:
“Toda a história universal parece-me resumir-se em um livro de ilustrações que retrata o desejo mais ardente e absurdo da humanidade – o desejo de esquecer. Não vemos que cada geração, através de repressões, disfarces e ridículos, destrói tudo aquilo que a anterior julgava mais importante?”

Citando o poeta Novalis:
“Para onde caminhamos sempre? Para casa!”

“(...) vivíamos como peregrinos e não fazíamos uso dos expedientes que surgem em um mundo iludido pelo dinheiro, tempo e cifras, que tiram todo o sentido da vida.”

“Quando perdemos algo precioso e irrecuperável, temos a sensação de haver despertado de um sonho.”

“Quem desejar viver muito deve servir, mas aquele que desejar governar não viverá por longo tempo.”

Sobre a motivação para escrever:
“Ou escrevia o livro, ou via-me tomado pelo desespero; era o único meio de escapar da inanidade, do caos e do suicídio.”

Fiquei muito grato e feliz ao perceber que continuo, sim senhor, fazendo parte da Confraria “Só Para Loucos, Só Para Raros” e empreendendo com muito gosto a Viagem ao Oriente!


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Imagine um jogo que ensina as crianças a rimar e fazer Poesia!
Disponível gratuitamente no link abaixo:

O jogo POESIA DE BOTÃO faz parte do projeto selecionado pelo Edital Arte Todo Dia – Ano IV, da Fundação Gregório de Mattos (Prefeitura de Salvador), com apoio de Athelier PHNX, Verlidelas Editora, Caligo Editora, Suporte Informática e AG1. O propósito do jogo é convidar as crianças a vivenciar o universo da Poesia de forma lúdica e atrativa, como uma “brincadeira de montar versos”. POESIA DE BOTÃO é especialmente indicado para crianças já alfabetizadas, mas nada impede que adultos possam brincar também e se beneficiar com o jogo.





domingo, 16 de junho de 2019

CARTA AO PRESIDENTE: DIAS SOMBRIOS – Carlos Souza Yeshua (Org.)



Bela e louvável iniciativa do amigo Carlos Yeshua, da qual tive a alegria de participar. Além de desfrutar mais uma vez da companhia de amigos queridos, tive a honra de figurar no mesmo livro que o saudoso professor Germano Machado – o que, por si só, seria suficiente para tornar esta obra cara ao meu coração. Mas o livro tem muitos outros méritos. O principal deles, ao meu ver, é o de ser pautado por uma visão otimista do futuro, como bem assinala Yeshua:

“Vivemos dias sombrios, incertos e tumultuados, mas, mesmo assim, devemos ter esperança de que dias melhores virão, e que toda essa confusão política tornará o Brasil mais forte e resistente a novas crises.”

Participei com o poema “Polititica” (que pode ser visto na íntegra nos links https://youtu.be/QSY5i0oPWCU e https://www.facebook.com/sincronicidio/videos/1212516732191904/), do qual destaco:

“Pois na verdade, o que me assusta
Nessa inconsequente rinha
Que acontece hoje em dia
É a desunião que mais custa:
Nessa briga entre mortadela e coxinha
Só quem ganha é o dono da padaria!”


Lamento dizer que desde o momento em que o poema foi escrito, há pouco mais de dois anos, essa divisão de nosso povo só fez aumentar, chegando mesmo a nos ameaçar com uma irreversível fratura social. Contudo compartilho desse otimismo que norteia o livro, pois acredito firmemente que a verdade é uma força histórica que sempre acaba emergindo, por mais que se tente escondê-la.

Por isso aproveito essa resenha para listar algumas hipóteses que, conforme espero e confio, a História mostrará serem verdades evidentes até para os mais obstinados:

* Lula foi o melhor presidente que tivemos nos últimos 50 anos ou mais. Muitos dos que hoje gritam de ódio contra a corrupção do PT, secretamente odeiam mesmo é o fato de Lula ter tirado o Brasil do mapa da fome, ter permitido aos miseráveis comprar televisão e geladeira e ao filho do favelado cursar faculdade. Essas são ofensas imperdoáveis ao mesquinho espírito da classe média, que só é feliz ao se sentir superior a alguém.

* O mensalão e outros esquemas denunciam a corrupção sistêmica presente em todos os partidos, e que já vem ocorrendo há décadas. O PT não inventou a corrupção, mas pode ter aprimorado e ampliado os esquemas que envolvem praticamente todos os políticos brasileiros há gerações. Se é para ser contra a corrupção, ser contra o PT apenas é hipocrisia, para dizer o mínimo.

* Para se manter no poder a qualquer custo, o PT fez pacto com o PMDB e outros demônios, e assim traiu o povo brasileiro e acabou gerando a sua funesta nêmesis na figura de Bolsonaro.

* Movida por sua própria e inconfessável agenda, a TV Globo iniciou uma espetacular campanha de ódio contra Lula, Dilma e o PT. Essa campanha teve como fortes aliados Cunha e seus canalhas, que fizeram de tudo para impedir Dilma de governar.

* O impeachment de Dilma foi um golpe covarde e maquiavélico, arquitetado pelos maiores vilões da política brasileira. Isso não faz de Dilma uma boa governante.

* O julgamento e condenação de Lula foram injustos e obscenos atos de politicagem. Isso não torna Lula inocente.

* Provavelmente a Globo e os asseclas de Cunha esperavam botar um Alckmin no lugar de Temer. Não contavam com o macabro sucesso de sua campanha de ódio, que fez o candidato do ódio ser eleito. Por uma dessas ironias do destino, a Globo involuntariamente ajudou a eleger Bolsonaro. E hoje justamente as pessoas que foram manipuladas pela Globo acusam a emissora de comunismo (!!!), pois na visão dessas pessoas somente o comunismo justifica alguém não apoiar fanaticamente Bolsonaro. É caso para rir ou chorar, conforme o gosto de cada um.

Minha grande esperança é que as pessoas saiam desse túnel com a convicção de que devemos de uma vez por todas abrir mão desse desejo infantil de criar heróis e salvadores no campo da política. Que cada um seja a mudança que deseja ver no mundo, pois só assim algo de bom surgirá.

Muito sabiamente “Carta ao Presidente” termina com uma epístola de São Francisco aos governantes dos povos, onde brilha o singelo conselho:

“Considerai que o dia da morte se aproxima (Gn 47, 29)”

Se cada um de nós se lembrasse dessa grande verdade com mais frequência, evitaríamos muita besteira que acontece no mundo.


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“Em nossa cidade habitam monstros, como em todas as outras.
A diferença é que aqui ninguém finge que eles não existem.
Há pessoas normais em nossa cidade também. É claro.
Ser normal é só a maneira mais ordinária de ser monstruoso.”

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