segunda-feira, 23 de abril de 2012

O MACHÃO – Harold Robbins




Um livro se presta para muitas leituras. Cada pessoa que o lê carrega sua própria visão consigo, um ponto de vista, uma interpretação. É por isso que para cada livro sempre tem quem o ame, quem o deteste, quem o esqueça, quem o abandone pelo meio.

Para defender essa tese, não chegaria ao excesso de dizer que não existem bons ou maus livros. Pois assim como as bruxas, que existem, existem (tantos boas quanto más). Mas chego ao ponto de dizer sim, que vale muito mais a boa leitura que se faz do que se lê, independente de ser um texto “bom” ou “ruim”.

Esse que é um dos mais iconográficos romances de Harold Robbins, “O Machão”, me proporcionou muito mais que uma ótima leitura. Foram várias leituras.


Primeiro, a história em si.

Se você acha que tem bastante sexo, acertou.

Essa é uma história de sexo e poder, sexo e política, sexo e religião, sexo e dinheiro, sexo e guerra, sexo e terrorismo, drogas e sexo. Mas não pense que é só sexo.

Também tem poder, política, religião, dinheiro, guerra, terrorismo e drogas. E também, é claro, muito sexo.

O sexo eu já estava esperando. A surpresa foi a complexa trama que envolve os conflitos entre árabes e judeus, a crise do petróleo e o jet-set internacional em cenários ao redor do mundo.

Baydr Al Fay é o protagonista em torno de quem tantas situações e eventos oscilam. Homem poderoso e decidido, é um típico herói sob muitos sentidos. Em outros momentos, é claramente um vilão. Curiosamente, apesar do título de “Machão”, ele é um dos que menos transa no livro. Só uma vez a cada dez páginas, mais ou menos.


Em segundo, o sexo.

O sexo só não veio primeiro porque a história já fala bastante de sexo!

Mas talvez seja melhor uma contextualização preliminar.

Harold Robbins foi um escritor de grande sucesso nas décadas de 1970 e 80, com livros marcados por um forte apelo erótico. Apesar de seu êxito junto ao público, ou talvez por causa dele, Robbins sempre foi desprezado pela crítica.

Não sei se ele continua sendo editado hoje em dia. Esse exemplar que li, encontrei muito bem cuidado em um sebo na Praça da Sé. Ao ler o livro, ficou claro que o impacto sexual é o fator preponderante no êxito literário de Harold Robbins.

Mas o que dizer do sexo? Na época em que foi escrito (1973), deve ter sido bem chocante. Hoje é quase engraçado!

Não sei o que me chamou mais a atenção durante a leitura. Não sei se foi o modo como a sociedade mudou durante esses 36 anos de lá pra cá (por coincidência, a minha própria idade), no que diz respeito ao comportamento sexual. Ou se foi o fato de poder perceber essa mudança pela simples leitura de um livro Best-seller da década de 70!

Nas cenas de sexo, é nítida a intenção de surpreender, de trazer o inusitado, o chocante. Isso para os padrões da época.

Só que o que era transgressão e ousadia hoje é padrão entre normalistas. O resultado é que as cenas de sexo parecem curiosamente bizarras. Não chocantes, nem agressivas, mas simplesmente “mal feitas”. É difícil explicar a sensação de ler essas cenas ultrapassadas de sexo, a analogia que me ocorre é ouvir uma velha gravação em 48 rpm em comparação com a moderna tecnologia digital.


Se bem que, só agora me ocorre, talvez seja mesmo uma questão de tecnologia. Pois Jorge Amado já escrevia safadezas muito antes de Harold Robbins sequer começar a pensar bobagem, e o baiano, diga-se de passagem, é mil vezes mais convincente que o americano no quesito libertinagem.


Em seguida, a narrativa.

Há uma forte presença do estilo folhetinesco, o que para mim está ótimo! Algumas das histórias que mais admiro seguem o modelo do folhetim.

Mas há uma diferença. De alguma forma, Robbins consegue manter a tensão da trama em excelente suspense, sem que nada de verdadeiramente significativo ocorra durante a maior parte do livro. Não sei como ele conseguiu isso, mas gostei bastante desse recurso.

A comparação que me veio à cabeça, com certeza por influência da trama, é a do próprio ato sexual. À medida que a história avança, vamos ficando progressivamente na expectativa do clímax, mesmo que nada de diferente pareça estar acontecendo. E quando o clímax chega, atende bem à expectativa.

Em suma, até que esse Harold Robbins não é ruim de pena não!


Last but not least, a tradução.

Ver que o livro foi traduzido por ninguém menos que Nelson Rodrigues foi meu impulso primeiro para ler “O Machão”.

Tipo, tudo a ver Nelson Rodrigues traduzir Harold Robbins. O editor que fez essa ponte é um gênio!

Como tradutor, dá para ver que Nelson é bem criativo, ao traduzir de cara o título “The Pirate” por “O Machão”. Mas é forçoso admitir que a tradução ficou melhor.

Fundamental, porém, é ver o quanto há de Nelson em Robbins, de Harold em Rodrigues.

Nelson Rodrigues foi tachado de grande pornográfico, perigosa ameaça à moral e aos bons costumes. Como ele próprio dizia, entretanto, no que concordo inteiramente, sua obra é fundamentalmente moralista. Chocar para educar. Apresentar o sexo no que ele tem de sórdido para induzir ao nojo ao excesso e, quem sabe, ao amor à virtude. Essa é a missão oculta na obra de Nelson Rodrigues.

E, porque não, na de Harold Robbins.

O próprio Robbins se define como um moralista, “pois todos os meus protagonistas fazem uma escolha de ordem moral e arcam com as conseqüências".

Quem não concorda é o próprio Nelson, que chegou a dizer: "Harold Robbins é um monumento da estupidez humana".

Talvez Rodrigues não tenha gostado de ver Harold no espelho...



6 comentários:

  1. Excelente resenha! Quero ler tambem. Parabens!

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    1. Valeu demais pelo comentário e pelas boas energias, Christian! Seja muito bem-vindo!

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  2. São muito parecidos, dois mestres do folhetim. Sendo Nelson endeuzado pela crítica e Robbins considerado um crápula, talvez por ter feito fortuna.

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    1. Valeu pelo comentário, André! É, tem muitas semelhanças entre os dois né!
      abração

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  3. Não li, gostei, quero ler. Excelente argumentação, Fábio. Abraço.

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    1. Valeu Kadu!!! Leia sim, e depois comente conosco o que achou hem!!! Abração!!!

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