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quarta-feira, 11 de abril de 2018

OS PERVERTIDOS – Harold Robbins



Esse livro pode ser considerado como o “Cinquenta Tons de Cinza” dos anos 1980. Harold Robbins foi considerado o Rei da Sacanagem durante um bom tempo, com histórias que misturam ação, suspense e cenas abruptas de sexo.

Minha motivação principal para lê-lo foi ver estampado na capa de edições mais antigas: “Tradução de Nelson Rodrigues”, pois sou grande admirador de nosso Anjo Pornográfico. Pois bem, há algum tempo descobri que Nelson na verdade não conhecia nem três palavras em inglês, e aceitou colocar seu nome como tradutor (por alguns trocados), como estratégia da editora, para aumentar o coeficiente de safadeza da obra. Quando soube disso fiquei um pouco triste, mas não pensei muito no assunto. Só hoje, em meio ao caos social e político em que nosso país foi lançado por conta da corrupção generalizada, é que fui me dar conta de que até Nelson Rodrigues estava no nefasto esquema da Lava Jato! Cada povo tem o governo que merece, e só quando banirmos as pequenas corrupções “inofensivas” do dia a dia é que conseguiremos de fato extirpar a Grande Corrupção dos poderosos, que tem como resultado direto, entre tantos outros males, a morte de incontáveis pela fome ou nas filas dos hospitais...


***
“O falo saltou, como uma besta selvagem se libertando da jaula, vermelho e latejando.”



\\\***///


O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
http://caligoeditora.com/?page_id=98
 
eBook:

https://www.amazon.com.br/dp/B07CBJ9LLX?qid=1522951627&sr=1-1&ref=sr_1_1

domingo, 14 de maio de 2017

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR – Luigi Pirandello


A ideia que motiva a história é bem interessante: após criar seis personagens, o Autor decide abandoná-las, mas as personagens não se conformam em serem esquecidas e acabam invadindo o ensaio de uma peça, insistindo para que o Diretor encene o seu drama, o drama que foram criadas para vivenciar. O Diretor acaba concordando, fascinado, e coloca os Atores de sua companhia teatral para aprender e interpretar o drama vivido pelas seis personagens.

A metalinguagem é a tônica dessa peça, possivelmente a obra mais conhecida de Pirandello e que foi escrita em 1921. Ao ler o texto consegui visualizar um espetáculo intrigante e envolvente, mas sobretudo denso e aflitivo, e raríssimas vezes a comédia que Pirandello insiste em considerar sua obra, no longo prefácio onde explica as motivações filosóficas e espirituais para escrevê-la. Talvez ele tenha chamado de comédia apenas por astúcia, talvez o humor do texto original tenha envelhecido e perdido seu toque cômico, como acontece frequentemente.


É certo que muitas vezes o texto demonstra estar datado, como quando o Diretor, escandalizado, quer impedir que uma das personagens faça uma cena de nudez. Em meus tempos de faculdade, quando eu costumava ir ao teatro no mínimo uma vez por semana, cenas de nudez eram praticamente obrigatórias nas peças. Isso só para exemplificar como o humor gira muito em torno da moral, e a moral varia na mesma proporção que a moda, ou seja, o que era engraçado (ou indecente) em 1921 pode ser muito sério (como antônimo tanto de engraçado quanto de indecente) quase cem anos depois. Por essas e outras é que prefiro sempre as tragédias: o que é motivo de riso muda de ontem para hoje, mas os motivos essenciais para a tristeza e o horror são os mesmos desde que o homem é homem.

Que essa digressão não desmereça o brilho e a criatividade da peça de Pirandello, que aliás foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Uma leitura de interesse e ganhos, especialmente para quem escreve ou atua. Como curiosidade, uma última observação: alguns dos elementos do drama vivido pelas seis personagens parecem saídos de uma peça de Nelson Rodrigues, que ainda usava calças curtas quando “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi escrita.

E viva o Teatro!



\\\***///




ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

quinta-feira, 2 de abril de 2015

A COMÉDIA MUNDANA – Luiz Biajoni


Espetacular!!!

Fiquei vidrado na leitura e só consegui largar o livro ao final da última página. Luiz Biajoni é o criador de um estilo único, muito próprio, capaz de capturar completamente o leitor em sua trama! Para quem não conhece ainda esse talentoso autor brasileiro, vou tentar dar uma ideia de sua criatividade: imagine que a máquina de fusão genético-molecular do filme “A Mosca” é utilizada para misturar as essências de Rubem Fonseca e Nelson Rodrigues... o monstro resultante seria mais ou menos parecido com o Luiz Biajoni!

“A Comédia Mundana” é um tijolo de 480 páginas que apresenta em um só volume a trilogia que o próprio autor chama de “Três Novelas Policiais Sacanas”. Os títulos falam por si:

“SEXO ANAL – uma novela marrom”

“BUCETA – uma novela cor-de-rosa”

“BOQUETE – uma novela vermelha”

Só por lançar livros com esses títulos o autor já havia conquistado a minha admiração e simpatia. E o melhor de tudo é que o conteúdo não decepciona, muito pelo contrário, surpreende ainda mais favoravelmente! A “sacanagem” do Biajoni não é um fim em si mesma, visa a forte crítica social, a exposição cruel das mazelas de nossa sociedade atual. Lendo esse livro lembrei de uma música que fiz ainda criança com meu irmão Fabrício Barretto, chamada “Rap do Palavrão”:

“Se te ferem os sensíveis ouvidos a sonoridade de um xingamento, aprenda:

Buceta não é palavrão – fome é!

Caralho não é palavrão – pobreza é!

Porra não é palavrão – palavrão é prostituição! Palavrão é marginalização!”

Biajoni é o arauto de um mundo triste e sombrio, onde a pornografia é banal e o amor é interdito. Vergonha para nós, humanidade, que esse mundo criado por ele seja tão parecido com o mundo real!

Viva a Literatura Brasileira! 

***
O SINCRONICÍDIO





sexta-feira, 22 de março de 2013


A VALSA  nº 6 – Nelson Rodrigues


Fiquei louca por essa obra escrita em 1951, pois descortina mais uma vez um Nelson poético e totalmenteee lírico. Diferente daqueles textos completamente sexuais, pornográficos e críticos que conhecemos...o autor nos envolve em um lindo monólogo de uma jovem que é assassinada pelas costas aos 15 anos,  enquanto tocava a Valsa nº 6 de Chopin, obra que aliás ela tinha obsessão.

Sem subterfúgios e preocupações com  nada mais além da própria dramaticidade da fala poética, a protagonista vai deliciosamente junto com o autor, lentamente montando um grande quebra cabeças de suas memórias antes do assassinato.

Em uma espécie de transe sem memória na passagem entre a vida e a eternidade, a protagonista se perde do seu eu, e tenta se montar a partir de algumas memórias lembradas, inventadas e reinventadas. Uma passagem entre a vida e a morte, sobre o olhar soturno de memórias que se situam entre realidade, a alucinação e a ficção.

Mesmo sendo sua décima peça teatral e só ficando em cartaz 4 meses, foi considerada uma grande obra pela crítica. O monólogo foi montado sem luxo, com um custo bem barato onde Nelson lança como estreante sua irmã mais nova Dulce Rodrigues. 
O final é surpreendente claro...bem a moda Nelson Rodrigues.



Eu amo essa valsa, e acho que ela cabe muito bem  na obra pela sua intensa dramaticidade musical...Eu ameiiiiii a obra e recomendo!!

http://www.youtube.com/watch?v=v0kIKRd-X28




quinta-feira, 23 de agosto de 2012

100 ANOS DO “ANJO PORNOGRÁFICO”

Bem-vindos, leitores clandestinos, ao universo rodriguiano! Hoje, 23/08, o grande Nelson Rodrigues, meu exemplo de escritor maior, completaria 100 anos se estivesse vivo. Mas o autor de “Vestido de Noiva”, “Doroteia”, “A Mulher Sem Pecado”, “O Beijo no Asfalto”, “Bonitinha, mas Ordinária” e outros textos imperdíveis (*foram 17 peças no total – sem contar as crônicas geniais eternizadas na coluna “A Vida Como Ela É...”) permanece muito, muito, muito atual.
Com seu olhar ao mesmo tempo trágico e épico, o centenário dramaturgo nunca deixou de ser nosso contemporâneo. Todas as vezes que vou escrever alguma coisa, por exemplo, sempre leio algum texto do Nelson, olho alguma foto sua nos meus arquivos ou no Google, vejo trechos de algum filme ou de algum documentário como se isso, por si, fosse capaz de me dá um pedaço da unha do dedo do pé do talento desse grande artista.  
fonte: LC

terça-feira, 19 de junho de 2012

Teatro Completo de NELSON RODRIGUES 2 – Peças míticas



Quatro foram as peças consideradas “míticas” por Sábato Magaldi, organizador desse Teatro Completo de Nelson Rodrigues. São elas: “Álbum de Família”, “Anjo Negro”, “Dorotéia” e “Senhora dos Afogados”.

Nessas obras, Nelson exercita ao máximo o estilo e a verve que o tornaram único, e que ele mesmo chama de “teatro desagradável”. Na visão do maior dramaturgo brasileiro, só existem dois tipo de peça: as “interessantes”, feitas apenas com o intuito de entreter, e as “vitais”. Para Nelson Rodrigues, todas as peças “vitais” são necessariamente “desagradáveis”.

Mais uma vez viajei muuuito nessa leitura das peças de Nelson! Mas confesso que achei o primeiro volume bem mais “agradável” rarara!!!



Álbum de Família

Escrita em 1946, “Álbum de Família” ficou quase vinte anos proibida pela censura. Foi encenada pela primeira vez em 1967.

Lendo a peça, o que causou surpresa não foi a proibição em 46, mas a liberação em 67!

Por essa primeira, pude entender um pouco o que seriam as tais de “peças míticas”...

As ações e acontecimentos parecem mais comprometidas com o “onírico” que com a “realidade”. A história parece aflorar dos porões do inconsciente. Vendo por essa ótica muito peculiar, pela perspectiva do sonho, começa a fazer mais sentido o bizarro mundo concebido por Nelson Rodrigues. Um mundo onde toda felicidade é ilusão passageira e onde só pode haver amor onde houver também incesto. O resto é ódio, desprezo ou indiferença.

Que família, essa do Nelson!



Anjo Negro

Ao ler essa peça tive uma descoberta curiosa: Nelson Rodrigues está virando história...

...tudo porque suas histórias estão perdendo muito de sua capacidade de chocar!!!

A maior parte do que fazia as pessoas se contorcerem em suas cadeiras em 1948, ano de estreia da peça, simplesmente perdeu o sentido, o referencial, não faz mais conexão com os dias de hoje.

Muito do impacto de Nelson Rodrigues está em mexer no que está restrito, no que é proibido. Tire a restrição, tire a proibição, e a força contrária também deixa de existir.

Tem muitas músicas tocando hoje nas rádios, com coreografias sendo dançadas pelas crianças nas escolas, muitas e muitas músicas cujas letras fariam Nelson Rodrigues corar de vergonha...

Que descoberta estranha! Uma obra que era considerada imoral está virando banal...



Dorotéia

Passei a maior parte da leitura dessa peça pensando na descoberta de que Nelson Rodrigues está perdendo o poder de chocar.

Uma questão de imediato se colocou: como seria um NR 2010, uma versão “pós-modernizada” do autor, capaz de chocar as plateias de nossos tempos?

Fazendo a mesma pergunta de outra forma: o que seria capaz de chocar as pessoas hoje como as peças de Nelson Rodrigues eram capazes de chocar as pessoas ontem?

Descoberta ainda mais curiosa foi perceber que já venho me fazendo essa pergunta (por outras palavras) faz tempo!!!

Quanto à “Dorotéia”, foi um dos maiores malogros da carreira de Nelson. Apesar da apaixonada e brilhante defesa de Sábato Magaldi em sua introdução (aconselho fazer como eu e ler só no final, pois ele conta a história todinha das peças!), nesse caso concordo mesmo é com a plateia que desertou “Doroteia”, o eco fica por conta do teatro vazio... Concordo com o próprio Nelson, pois achei essa peça beeem desagradável!


Senhora dos Afogados

Caraca!!!

Um chute bem forte em qualquer parte mole do corpo que deixe a pessoa sem ar!!!

O lobo mau não está tão velho assim, meus camaradas, e ainda pode assustar bastante!!!

Que bom que o livro encerrou com essa, mostrando Nelson em excelente forma, capaz de tecer uma trama de puro pesadelo e horror.

Stephen King é fichinha comparado!!!

A força “plástica” (como o próprio Nelson gosta de falar) de uma cena em particular foi tão impactante que sinto como se tivesse mesmo visto, e não imaginado ao ler: uma mulher toda de branco diante do espelho. No reflexo, ao invés dela mesma, aparece sua mãe de luto fechado e com cotocos ensanguentados no lugar das mãos.

Sinistríssimo!

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Teatro Completo de NELSON RODRIGUES 1 – Peças psicológicas




Querido e insuportável Nelson, como é bom voltar a te amar!!!

Meu primeiro contato com a obra do indisputável maior dramaturgo que o Brasil gerou até aqui aconteceu bem cedo, no início da adolescência, quando assisti (escondido) ao filme “Perdoa-me por me traíres” que passou de madrugada na tevê. Fiquei chocado, horrorizado mesmo, sobretudo com aqueles imensos peitões da Geni.

Foi ao entrar na faculdade que conheci Nelson de fato: no teatro. Assisti a todas as montagens dele que pude, quase sempre espetáculos estudantis, com baixo orçamento e muito talento. Como ampliaram minhas perspectivas e minha visão de mundo essas peças de Nelson Rodrigues. Ele era para mim o deus soberano do teatro nacional, quiçá mundial. Só senti tão forte a magia e o poder de crítica social que o teatro tem em “O Rei da Vela” de Oswald de Andrade; só senti tão forte o soco no estômago que o teatro pode ser em “A Mancha Roxa” de Plínio Marcos. As duas coisas juntas, a magia e o choque, só experimentei com Nelson Rodrigues.

E então muita água passou debaixo da ponte, fui levado a vivenciar experiências e leituras bem diversas. Isso foi me distanciando da obra de Nelson. Quando, tempos depois, li “O Casamento”, fiquei uma semana passando mal, enxergando doença e loucura em tudo e todos. Achei que a obra de Nelson Rodrigues era doente, má.

Sorte a minha que acredito muito em coincidências! Esbarrei nessa incrível compilação, “Teatro Completo de Nelson Rodrigues”, justamente quando estava às voltas com uma cena de teatro que eu precisava escrever. Hesitei, mas só por um segundo. No mesmo dia comecei a ler, e só parei quando cheguei ao fim.

Essa louvável coleção foi editada pela Nova Fronteira e organizada por Sábato Magaldi. Já o admirava como ator, e foi uma grata surpresa (surpresa para mim, ignorante que sou) descobrir o profundo intelectual do teatro. Ele abre o primeiro volume com uma excelente análise das peças “psicológicas” de Nelson Rodrigues, que muito ajuda a compreender a complexidade e vastidão da obra desse notável “anjo pornográfico” (título que lhe foi conferido por Ruy Castro na deliciosa biografia de Nelson). É claro que só li a introdução depois de ter lido todas as peças. Não gosto que indiquem previamente como devo entender algo, prefiro entender por mim mesmo, e depois sim busco subsídios para clarificar o que ficou obscuro.


Peça x Romance

Uma coisa que percebi nessa leitura diz respeito à dramaturgia de modo geral, em comparação com o romance. O teatro só existe mesmo no palco, naquele acontecimento mágico e inexplicável que só quem ama o teatro sabe. Ler uma peça é beeeem diferente de teatro. E também é diferente de ler um romance.

Um romance, podemos considerar, é uma “parceria” direta entre autor e leitor. Não há intermediários. O escritor concebe em sua cabeça e escreve. O leitor lê e concebe em sua cabeça. Já uma peça é primeiro a parceria entre autor e diretor, depois entram os atores, o cenógrafo, o figurinista etc. São muitas pessoas envolvidas em fazer a “leitura” que será apresentada ao espectador, no momento da apresentação da peça.

Por esse motivo, ler uma peça exige mais intelectualmente do leitor, pois ele precisa preencher com sua imaginação todas essas leituras que serão feitas pelo diretor, pelos atores etc. Quem já assistiu duas montagens diferentes de uma mesma peça sabe como o olhar do diretor é crucial, e da mesma forma as performances.

Há um desafio maior em se ler uma peça, que é justamente sua aparente “rapidez” de leitura. Não há muitas descrições, quase que só diálogos, então é possível ler muito rapidamente, às vezes mais rápido até do que o tempo que a peça levaria para ser encenada. O perigo é não se aprofundar, fazer uma leitura rasa e deixar de perceber as intenções essenciais do autor ao escrever a peça.

Sobretudo quando se trata de uma figura tão controversa quanto Nelson Rodrigues!


A coleção completa

São quatro volumes, que uma inspiração de Sábato Magaldi organizou por tema, ao invés de uma ordenação cronológica que teria sido óbvia. Assim ficou bem mais interessante, em minha opinião!

1 – Peças psicológicas
A mulher sem pecado
Vestido de noiva
Valsa nº 6
Viúva, porém honesta
Anti-Nelson Rodrigues

2 – Peças míticas
Álbum de família
Anjo negro
Dorotéia
Senhora dos afogados

3 – Tragédias cariocas I
A falecida
Perdoa-me por me traíres
Os sete gatinhos
Boca de Ouro

4 – Tragédias cariocas II
O beijo no asfalto
Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária
Toda nudez será castigada
A serpente

Vou comentar brevemente cada uma das peças do volume 1...





A MULHER SEM PECADO - Nelson Rodrigues

A primeira peça escrita por Nelson Rodrigues, e uma de minhas prediletas! Uma profunda visão psicológica do autor. Em minha opinião, a obra definitiva sobre o ciúme! Se não em termos literários, ao menos em termos de descrição psicológica acho que “A mulher sem pecado” bate até mesmo “Otelo”!!!

Quem quiser compreender como o ciúme é uma emoção totalmente maléfica e destrutiva, assista ou leia essa peça!

Já em sua estreia, Nelson confirma sua vocação para um grande moralista.



VESTIDO DE NOIVA -  Nelson Rodrigues

Sábato Magaldi conta que Nelson começou a bolar o enredo de “Vestido de Noiva” assim que saiu da estreia de “A mulher sem pecado”. Irritado pela morna recepção do público, ele quis tirá-lo de sua apatia, nem que para isso tivesse que agredi-lo a pontapés. E não é que o público gostou?

“Vestido de noiva” traz grandes inovações cênicas, tal como a divisão do palco em três planos: realidade, memória e alucinação. Antes da estreia, Nelson submeteu o texto à apreciação de Manuel Bandeira, que escreveu em um artigo de jornal: “Vestido de Noiva em outro meio consagraria um autor. Que será por aqui? Se for bem aceita, consagrará... o público.”

Sábato Magaldi complementa: “O certo é que a estreia de Vestido de Noiva fez que o teatro brasileiro perdesse o complexo de inferioridade.”

Essa peça, infelizmente, eu não vi. Julgando só pelo texto, continuo considerando “A mulher sem pecado” superior, aliás às outras peças dessa coletânea também.



VALSA Nº 6 - Nelson Rodrigues

Monólogo de Sônia, “menina assassinada aos quinze anos”. Nelson não via o menor problema em uma personagem morta (não há aqui a menor conotação de espiritismo ou algo assim).

Encenada, com uma boa direção e uma atriz de quilate, “Valsa nº 6” deve ser uma experiência de grande densidade poética.

Ficou a curiosidade de ouvir a Valsa nº 6 de Chopin, que é o grande mote da peça.




VIÚVA, PORÉM HONESTA - Nelson Rodrigues

Já pelo título se percebe que o que virá é pura galhofa!

Nelson é um gênio do deboche, do cinismo, da sugestão indelével de coisas torpes que circulam na cabeça da maioria, mas que todos evitam falar. Menos Nelson Rodrigues, a “flor de obsessão” (como era chamado pelos amigos).
Dei muita risada lendo essa “farsa irresponsável em três atos”. Dá para perceber que um dos objetivos maiores de Nelson com essa peça é dar o troco na crítica teatral, que devia crucificá-lo seguramente a cada nova estreia. Mas sobram tijoladas de ironia para todos os lados. O próprio Nelson declara, em um momento da peça:

“E vou provar o seguinte, querem ver? Que é falsa a família, falsa a psicanálise, falso o jornalismo, falso o patriotismo, falsos os pudores, tudo falso!”

O destaque é o personagem Diabo da Fonseca, que traz na carteirinha a profissão: Belzebu. Imagino como foi a estreia da peça, com Jece Valadão no papel de capeta!



ANTI-NELSON RODRIGUES - Nelson Rodrigues

O título enigmático pode ser explicado pelo final, que não é trágico ou ferozmente irônico como de costume. Nelson justificou o título pela presença da compaixão, tão alheia à sua obra.

Magaldi em sua brilhante análise, observa que essa peça, uma das derradeiras de Nelson, foi escrita com menos vontade de chocar, com mais “serenidade” e menos ousadia. E por outro lado, também com menos “defeitos” (Magaldi considera um defeito o constante recurso de Nelson ao folhetim. Eu não acho isso defeito!).

Fiquei imaginando também como foi a estreia, com José Wilker , Nelson Dantas e Paulo Cesar Pereio contracenando juntos. Espetáculo!

*** 

Em resumo, ficou a seguinte impressão: os artistas verdadeiramente grandes estão, de certa forma, “além do bem e do mal”. Eles refletem e transmitem, como verdadeiras “antenas da raça”, os anseios mais profundos, as aspirações mais elevadas e também o lado mais sombrio, grotesco e deformado da humanidade. O gênio não pode ser julgado pela forma do homem comum: ele serve a uma causa maior.

Outra descoberta importante foi a percepção de como a vida realmente molda e muito a obra de todo grande autor. A vida de Nelson Rodrigues, marcada por grandes e precoces tragédias, foi sem dúvida o fermento para sua prodigiosa e horripilante imaginação!


Grandes frases!!!

Nelson ficou sobretudo conhecido por suas frases imortais. Aí vão algumas de suas pérolas que me chamaram a atenção nessa leitura:

“Mulher sempre escolhe mal o marido... Mulher só escolhe bem o amante...”
(Madame Cri-cri em “Viúva, porém honesta”)

“A mulher tem nostalgia do surra. Uns pancadinhas salvam o mulher do neurastenia conjugal.”
(Madame Cri-cri em “Viúva, porém honesta”)

 “Minha filha, não fala em cama! Na sua inocência, você nem sabe o que é cama!”
(Dr. J. B. em “Viúva, porém honesta”)

“Sente-se em você o fauno hediondo, que não respeita nem carrocinha de chica-bom!”
(Dr. J. B. em “Viúva, porém honesta”)

“Casar qualquer um casa, mas trair exige classe!”
(Diabo da Fonseca em “Viúva, porém honesta”)

“Quando um cônjuge bate na porta do banheiro e o outro responde lá de dentro: ‘Tem gente’! não há amor que resista!”
(Diabo da Fonseca em “Viúva, porém honesta”)

“A única coisa que eu admiro nas mulheres é que elas não cospem na rua.”
(Dorothy Dalton em “Viúva, porém honesta”)

“Sabe por que eu não gosto da grã-fina? Porque tem bunda chata.”
(Oswaldinho em “Anti-Nelson Rodrigues)

“Todo mundo diz que não sabe mentir e mente.”
(Oswaldinho em “Anti-Nelson Rodrigues)

“A única coisa que não serei nunca é bicha. Nudez masculina não suporto nem a minha.”
(Oswaldinho em “Anti-Nelson Rodrigues)

“Sexo é pra operário!”
(Salim Simão em “Anti-Nelson Rodrigues)

“O perigo é o beijo na boca. Nenhuma mulher resiste ao beijo na boca.”
(Salim Simão em “Anti-Nelson Rodrigues)

“Não tenho medo do ridículo. Só os imbecis têm medo do ridículo.”
(Salim Simão em “Anti-Nelson Rodrigues)

Falou e disse, Nelson!

segunda-feira, 23 de abril de 2012

O MACHÃO – Harold Robbins




Um livro se presta para muitas leituras. Cada pessoa que o lê carrega sua própria visão consigo, um ponto de vista, uma interpretação. É por isso que para cada livro sempre tem quem o ame, quem o deteste, quem o esqueça, quem o abandone pelo meio.

Para defender essa tese, não chegaria ao excesso de dizer que não existem bons ou maus livros. Pois assim como as bruxas, que existem, existem (tantos boas quanto más). Mas chego ao ponto de dizer sim, que vale muito mais a boa leitura que se faz do que se lê, independente de ser um texto “bom” ou “ruim”.

Esse que é um dos mais iconográficos romances de Harold Robbins, “O Machão”, me proporcionou muito mais que uma ótima leitura. Foram várias leituras.


Primeiro, a história em si.

Se você acha que tem bastante sexo, acertou.

Essa é uma história de sexo e poder, sexo e política, sexo e religião, sexo e dinheiro, sexo e guerra, sexo e terrorismo, drogas e sexo. Mas não pense que é só sexo.

Também tem poder, política, religião, dinheiro, guerra, terrorismo e drogas. E também, é claro, muito sexo.

O sexo eu já estava esperando. A surpresa foi a complexa trama que envolve os conflitos entre árabes e judeus, a crise do petróleo e o jet-set internacional em cenários ao redor do mundo.

Baydr Al Fay é o protagonista em torno de quem tantas situações e eventos oscilam. Homem poderoso e decidido, é um típico herói sob muitos sentidos. Em outros momentos, é claramente um vilão. Curiosamente, apesar do título de “Machão”, ele é um dos que menos transa no livro. Só uma vez a cada dez páginas, mais ou menos.


Em segundo, o sexo.

O sexo só não veio primeiro porque a história já fala bastante de sexo!

Mas talvez seja melhor uma contextualização preliminar.

Harold Robbins foi um escritor de grande sucesso nas décadas de 1970 e 80, com livros marcados por um forte apelo erótico. Apesar de seu êxito junto ao público, ou talvez por causa dele, Robbins sempre foi desprezado pela crítica.

Não sei se ele continua sendo editado hoje em dia. Esse exemplar que li, encontrei muito bem cuidado em um sebo na Praça da Sé. Ao ler o livro, ficou claro que o impacto sexual é o fator preponderante no êxito literário de Harold Robbins.

Mas o que dizer do sexo? Na época em que foi escrito (1973), deve ter sido bem chocante. Hoje é quase engraçado!

Não sei o que me chamou mais a atenção durante a leitura. Não sei se foi o modo como a sociedade mudou durante esses 36 anos de lá pra cá (por coincidência, a minha própria idade), no que diz respeito ao comportamento sexual. Ou se foi o fato de poder perceber essa mudança pela simples leitura de um livro Best-seller da década de 70!

Nas cenas de sexo, é nítida a intenção de surpreender, de trazer o inusitado, o chocante. Isso para os padrões da época.

Só que o que era transgressão e ousadia hoje é padrão entre normalistas. O resultado é que as cenas de sexo parecem curiosamente bizarras. Não chocantes, nem agressivas, mas simplesmente “mal feitas”. É difícil explicar a sensação de ler essas cenas ultrapassadas de sexo, a analogia que me ocorre é ouvir uma velha gravação em 48 rpm em comparação com a moderna tecnologia digital.


Se bem que, só agora me ocorre, talvez seja mesmo uma questão de tecnologia. Pois Jorge Amado já escrevia safadezas muito antes de Harold Robbins sequer começar a pensar bobagem, e o baiano, diga-se de passagem, é mil vezes mais convincente que o americano no quesito libertinagem.


Em seguida, a narrativa.

Há uma forte presença do estilo folhetinesco, o que para mim está ótimo! Algumas das histórias que mais admiro seguem o modelo do folhetim.

Mas há uma diferença. De alguma forma, Robbins consegue manter a tensão da trama em excelente suspense, sem que nada de verdadeiramente significativo ocorra durante a maior parte do livro. Não sei como ele conseguiu isso, mas gostei bastante desse recurso.

A comparação que me veio à cabeça, com certeza por influência da trama, é a do próprio ato sexual. À medida que a história avança, vamos ficando progressivamente na expectativa do clímax, mesmo que nada de diferente pareça estar acontecendo. E quando o clímax chega, atende bem à expectativa.

Em suma, até que esse Harold Robbins não é ruim de pena não!


Last but not least, a tradução.

Ver que o livro foi traduzido por ninguém menos que Nelson Rodrigues foi meu impulso primeiro para ler “O Machão”.

Tipo, tudo a ver Nelson Rodrigues traduzir Harold Robbins. O editor que fez essa ponte é um gênio!

Como tradutor, dá para ver que Nelson é bem criativo, ao traduzir de cara o título “The Pirate” por “O Machão”. Mas é forçoso admitir que a tradução ficou melhor.

Fundamental, porém, é ver o quanto há de Nelson em Robbins, de Harold em Rodrigues.

Nelson Rodrigues foi tachado de grande pornográfico, perigosa ameaça à moral e aos bons costumes. Como ele próprio dizia, entretanto, no que concordo inteiramente, sua obra é fundamentalmente moralista. Chocar para educar. Apresentar o sexo no que ele tem de sórdido para induzir ao nojo ao excesso e, quem sabe, ao amor à virtude. Essa é a missão oculta na obra de Nelson Rodrigues.

E, porque não, na de Harold Robbins.

O próprio Robbins se define como um moralista, “pois todos os meus protagonistas fazem uma escolha de ordem moral e arcam com as conseqüências".

Quem não concorda é o próprio Nelson, que chegou a dizer: "Harold Robbins é um monumento da estupidez humana".

Talvez Rodrigues não tenha gostado de ver Harold no espelho...



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