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sábado, 8 de setembro de 2018

TESTEMUNHA DE ACUSAÇÃO E OUTRAS HISTÓRIAS – Agatha Christie



Muito boa essa antologia de peças teatrais de Agatha Christie! Que começa, é claro, com “Testemunha de Acusação”, nada menos que a obra mais encenada da história do teatro britânico. Li pela terceira ou quarta vez (incluindo uma versão estruturada como novela), além de ter visto o filme de 1957, com Marlene Dietrich em marcante interpretação no papel-título. E agora soube de uma nova versão da BBC, que fiquei com muita vontade de ver.

Testemunha de Acusação (1957):

Testemunha de Acusação (2016):

Só por aí dá para se ver que “Testemunha de Acusação” é uma das melhores histórias de Agatha, sumamente bem concebida. Nessa rerereleitura, o que me chamou a atenção foram as tiradas cômicas, a que antes não dei muita importância. Creio que estou mais sintonizado na musa trágica, pois não é a primeira vez que só reparo na comicidade de um texto ao lê-lo pela segunda ou terceira vez!

Também encontrei um link para se ler essa história online:

O livro segue com “A Hora H”, versão teatral para “Hora Zero” (“Towards Zero”). Achei essa história na média, se não é espetacular, também não chega a ser ruim. Uma boa diversão.

Já “Veredicto” é puro dramalhão. Li pensando que era adaptação de uma das tramas mais açucaradas que Agatha lançou como Mary Westmacott, mas depois vi que trata-se de obra original, especialmente escrita para o teatro.

E fechando a antologia com chave de ouro, “Retorno ao Assassinato”, que é a versão teatral do ótimo “Os Cinco Porquinhos”. Só fiquei intrigado por Agatha ter suprimido o querido Hercule Poirot na peça. Por que será? Alguém sabe dizer?



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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
http://caligoeditora.com/?page_id=98
 
eBook:
https://www.amazon.com.br/dp/B07CBJ9LLX?qid=1522951627&sr=1-1&ref=sr_1_1

  

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

A CASA DE BERNARDA ALBA / YERMA / D. ROSITA, A SOLTEIRA – Federico Garcia Lorca


É sempre muito interessante ler uma peça de teatro, pois a imaginação do leitor é ativada de forma diferente da que acontece na leitura de um romance, por exemplo. É que o romance é uma parceria direta entre autor e leitor, enquanto que a peça de teatro é uma obra mais coletiva, onde interagem o diretor, os atores, o cenógrafo, o iluminador, o figurinista, o responsável pela trilha sonora etc. Assim, o texto de uma peça geralmente contém muito menos informações para “direcionar” a imaginação do leitor, que assim tem a oportunidade de preencher por conta própria todos esses espaços vazios que na encenação da peça correspondem à contribuição coletiva mencionada acima.

Esse exercício imaginativo fica muito mais interessante quando o texto tem a carga dramática e poética de um Federico Garcia Lorca, e ainda mais quando sabemos que a versão em português foi traduzida por poetas do quilate de Cecília Meireles em “Yerma” e Carlos Drummond de Andrade em “D. Rosita”. O texto mais célebre e provavelmente a obra-prima de Lorca, “A Casa de Bernarda Alba”, tem a curiosidade extra de ter sido traduzido pelo filho de outro grande poeta, Alphonsus de Guimaraens Filho.

As três peças tratam essencialmente do Feminino, sempre do ponto de vista do conflito entre o Individual e o Social, ou seja, falam de mulheres que buscam se reconhecer e se expressar em um mundo masculino que lhes impõe de fora uma Feminilidade com a qual elas podem ou não se identificar. Talvez, melhor dizendo, a Musa de Lorca cante a Feminilidade frustrada. De forma bem resumida e esquemática, “Yerma” tem como tema a maternidade frustrada, enquanto “D. Rosita” fala do matrimônio frustrado e “Bernarda Alba” trata da sexualidade frustrada. Tudo sempre com uma vívida carga dramática, onde nada sobra e tudo é essencial. Tudo é poesia trágica em Lorca.

Sou muito grato pela oportunidade de conhecer um pouco da obra desse grande autor, graças ao querido amigo e professor Carlinhos Santos da Silva, que me presenteou com o livro. E que já tratei de passar adiante, tão logo acabei de ler. Afinal livro na estante não serve para nada: não passa de uma pobre árvore desperdiçada! Livro vivo é livro que está sendo lido, e que depois de ler a gente passa para algum amigo, ou mesmo desconhecido!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento

Um experimento literário realizado com muita autenticidade e ousadia. A ideia é apresentar um diálogo contínuo, não de diversos personagens entre si, mas entre as diversas vozes de um coral e o leitor. Seguir a pista do fluxo da consciência e levá-la a um surpreendente ritmo da consciência. A meta desse livro é gerar ondas, movimento e transformação na cabeça do leitor. Clarice Lispector, Ferreira Gullar, James Joyce e Virginia Woolf, entre outros, são grandes influências. Por demonstrarem que a literatura pode ser vista como uma caixa fechada, e que um dos papéis mais essenciais do escritor é, de dentro da caixa, testar os limites das paredes... Agora imagine esse livro escrito por uma banda de rock! É o que encontramos no livro MANIFESTO – Mensageiros do Vento, disponível aqui. Leia e descubra por si mesmo!
http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5823590

domingo, 14 de maio de 2017

SEIS PERSONAGENS À PROCURA DE UM AUTOR – Luigi Pirandello


A ideia que motiva a história é bem interessante: após criar seis personagens, o Autor decide abandoná-las, mas as personagens não se conformam em serem esquecidas e acabam invadindo o ensaio de uma peça, insistindo para que o Diretor encene o seu drama, o drama que foram criadas para vivenciar. O Diretor acaba concordando, fascinado, e coloca os Atores de sua companhia teatral para aprender e interpretar o drama vivido pelas seis personagens.

A metalinguagem é a tônica dessa peça, possivelmente a obra mais conhecida de Pirandello e que foi escrita em 1921. Ao ler o texto consegui visualizar um espetáculo intrigante e envolvente, mas sobretudo denso e aflitivo, e raríssimas vezes a comédia que Pirandello insiste em considerar sua obra, no longo prefácio onde explica as motivações filosóficas e espirituais para escrevê-la. Talvez ele tenha chamado de comédia apenas por astúcia, talvez o humor do texto original tenha envelhecido e perdido seu toque cômico, como acontece frequentemente.


É certo que muitas vezes o texto demonstra estar datado, como quando o Diretor, escandalizado, quer impedir que uma das personagens faça uma cena de nudez. Em meus tempos de faculdade, quando eu costumava ir ao teatro no mínimo uma vez por semana, cenas de nudez eram praticamente obrigatórias nas peças. Isso só para exemplificar como o humor gira muito em torno da moral, e a moral varia na mesma proporção que a moda, ou seja, o que era engraçado (ou indecente) em 1921 pode ser muito sério (como antônimo tanto de engraçado quanto de indecente) quase cem anos depois. Por essas e outras é que prefiro sempre as tragédias: o que é motivo de riso muda de ontem para hoje, mas os motivos essenciais para a tristeza e o horror são os mesmos desde que o homem é homem.

Que essa digressão não desmereça o brilho e a criatividade da peça de Pirandello, que aliás foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1934. Uma leitura de interesse e ganhos, especialmente para quem escreve ou atua. Como curiosidade, uma última observação: alguns dos elementos do drama vivido pelas seis personagens parecem saídos de uma peça de Nelson Rodrigues, que ainda usava calças curtas quando “Seis Personagens à Procura de um Autor” foi escrita.

E viva o Teatro!



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ESCRITORES PERGUNTAM, ESCRITORES RESPONDEM
Escrever para quê? 
Doze escritores dos mais diversos estilos e tendências, cada um de seu canto do Brasil, reunidos para trocar ideias sobre a arte e o ofício de escrever. O resultado é este livro: um bate-papo divertido e muito sério, que instiga o leitor a participar ativamente da reflexão coletiva, investigando junto com os autores os bastidores da literatura moderna. Uma obra única e atual, recomendada a todos os que amam o mundo dos livros.
Disponível no link abaixo, leia e compartilhe:

http://www.recantodasletras.com.br/e-livros/5890058

domingo, 15 de dezembro de 2013

MUITO BARULHO POR NADA – William Shakespeare



Não pode ser chamado de “barulho” o que impressiona os sentidos como um belo canto de pássaros. Pois tal foi a sensação que tive ao ler esse livro: se alguma vez palavras humanas soaram como o canto dos pássaros, isso aconteceu em uma peça de Master Shakespeare!

Que delícia! Nisso consiste, creio eu, o segredo da grandeza de Shakespeare: a constante disputa entre a forma e o conteúdo, para ver quem será o mais belo. Pois é assim que o Bardo nos tira o fôlego: ele expressa lindamente as ideias mais belas!

Quem ainda não leu nada de Shakespeare pode muito bem começar com “Muito Barulho Por Nada”, um texto leve e rápido, que mostra bem a força e o lirismo da prosa de Shakespeare.

Diversão e arte!


  
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ANUNNAKI – Mensageiros do Vento



domingo, 25 de agosto de 2013

MEUS PREZADOS CANALHAS – João Uchôa Cavalcanti


É pau puro!

Impactante, asfixiante, aterrorizante!

Como avisa o autor logo no início, esse é o texto original da peça que estreou em 1993 no Rio de Janeiro, com direção de Gracindo Junior e ilustre elenco: Débora Duarte, Edwin Luisi, Othon Bastos e Jayme Periard, entre outros.

A ideia da peça é bem original. O guerrilheiro Tomás sequestra o banqueiro Tadeu, com o intuito de julgá-lo por seus crimes, que são apresentados diante de um tribunal do júri formado por pessoas que também foram sequestradas (na verdade, a plateia presente). Não existem diálogos, apenas monólogos dos mais diversos personagens, que vão se sucedendo no palco e revelando um mosaico cruento com algumas das facetas mais sórdidas de nossa sociedade.

E assim a ironia muito apurada do autor vai revelando passo a passo a grande hipocrisia e podridão que fundamentam boa parte da “moral e dos bons costumes”. Não sobra ninguém, ninguém é poupado: todos são (somos) “prezados canalhas”...

Não esperava nem a metade da paulada que foi essa leitura. Creio que com essa obra Uchôa Cavalcanti atinge a meta mais elevada idealizada por Nelson Rodrigues para o teatro: incomodar, sacudir, remexer, desagradar.

Um recurso interessante, que me fez evocar o grandioso Shakespeare, foi o uso de rimas nas falas, gostei muito!



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Conheça O SINCRONICÍDIO:
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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
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quinta-feira, 4 de abril de 2013

ROMEU E JULIETA – William Shakespeare




 
O que torna Shakespeare o maior escritor de todos os tempos?

Peguei esse “Romeo and Juliet” para ler, uma das últimas tragédias do Bardo que ainda não tinha lido, com a intenção de ficar atento a essa pergunta. O que faz de Shakespeare O Cara???

Existem muitas respostas, inclusive de contexto histórico etc. Mas o que me chamou a atenção como fator preponderante da “Supremacia Shakespeare” é o uso que ele faz das metáforas, já tão imitado ao longo dos séculos e, ao mesmo tempo, inimitável.

As tramas de suas peças são geralmente muito bem escolhidas, mas quase nunca foram criações originais do próprio Shakespeare. O que torna essas histórias imortais não é tanto a história em si, mas o modo como são contadas.

Isso fica mais do que evidente na história de Romeu e Julieta, que disputa com Hamlet o posto de mais famosa. A história é mais que conhecida, de tão batida que virou até nome de sobremesa... por isso eu tinha uma certa preguiça em lê-la, pois muito da força desse grande clássico foi minado pela voracidade da indústria cultural (lembrei da amiga Andréia mencionando a decepção que muitas pessoas sentem ao contemplar de perto o quadro original da Mona Lisa...).

Mas não é para ser surpreendido pelas reviravoltas da trama que alguém lê Romeu e Julieta hoje. A história continua viva pela beleza pulsante em cada uma das falas, sobretudo no clímax, quando o lirismo alcança um patamar poucas vezes alcançado pelo próprio Shakespeare. Lindo demais!!!!


 

Curiosidade 1

Quando estava cursando a faculdade de comunicação fiz com um colega um trabalho comparando Romeu e Julieta com o filme Always – Além da Eternidade. O trabalho foi para a cadeira de Antropologia Social, e visava pontuar como as duas obras demarcam momentos distintos na percepção do amor como laço social.

Na época de Romeu e Julieta o individualismo não era tão forte como hoje, e a ligação entre os indivíduos era percebida como mais forte que os indivíduos em si. Por isso, o morrer por amor. Essa ideia hoje perdeu muito de sua força graças à exacerbação do individualismo. O amor pode morrer, mas os indivíduos continuam... isso foi o que tentamos demonstrar nesse curioso trabalho escolar!

Curiosidade 2

Li as últimas páginas desse livro em cima de um trio elétrico, em pleno carnaval de Salvador!!! Realmente, posso dizer que levo um livro para todo canto que eu vou rararara!!!


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Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:

Booktrailler:
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http://sincronicidio.blogspot.com/
 
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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

HAMLET – William Shakespeare





“This above all: to thine ownself be true
And it must follow, as the night the day,
Thou canst not then be false to any man.”

(Ato I, cena III)

[Isto acima de tudo: sede fiel a ti mesmo
E seguir-se-á, como a noite ao dia,
Que tu não poderás então ser falso com ninguém.]

VIVA SHAKESPEARE!!!


O que dizer sobre a peça mais famosa de nossa civilização?

A força da tragédia brilha nessa obra que justifica toda sua fama.

Li agora pela terceira vez. A primeira, enfim, no original!

Muito excelente e merecedora de aplausos é essa coleção de clássicos da Penguin Books. Ler o texto junto com as notas equivale a uma viagem muito vívida à época de master Shakespeare.

A principal descoberta dessa leitura foi sobre a força da tragédia. O fato de conhecer a história previamente não diminui o impacto.

O objetivo da tragédia é provocar a catarse de sentimentos como medo, raiva, culpa, tristeza, pena. Ao vivenciar essas emoções no espaço dramático da peça, o espectador/leitor purifica-se e se libera dessas mesmas emoções. Esse é o processo básico da catarse.

O que me levou a pensar: o romance policial é o herdeiro literário do espírito da tragédia.

O que me levou a imaginar, por que não?, como seria o Hamlet policial:


“Há algo de podre no reino da Dinamarca.”

E não é só o corpo do rei Hamlet, morto tão recentemente que as sobras do banquete do funeral poderiam ser servidas na festa do casamento da rainha com o novo rei, Claudio, irmão do falecido.

Uma história muitíssimo suspeita, que cabe ao príncipe Hamlet, o legítimo herdeiro do trono, investigar.

Mas talvez exista algum fundamento nos boatos de que o príncipe está louco. A principal testemunha do caso, afinal, é o fantasma da vítima.

Altamente recomendável!



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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O REI DA VELA – Oswald de Andrade



Assisti essa peça pela primeira vez aos 16 anos, em uma montagem universitária no Teatro da UERJ. Foi meu primeiro contato real com o teatro. Que experiência mágica! Gostei tanto que voltei duas vezes mais, e arrastei todos os amigos que pude para assistir.

Abelardo I é o Rei da Vela, que ganha um tostão com a morte de cada brasileiro. Pois nenhum homem é tão miserável que não mereça ao menos um toco de vela entre os dedos mortos na hora da última partida. Para o Rei da Vela, só essa fortuna é pouco, por isso ele empresta a juros altíssimos para uma multidão de desesperados que é tratada na base do chicote por Abelardo II, assecla de Abelardo I.

Mas no fundo o Rei da Vela não passa de um cupincha do Americano Mr. Jones, que tem inclusive “direito de pernada” com a noiva Heloísa de Lesbos. A família de Heloísa é de origem nobre e falida, daí o casamento por interesse de ambas as partes.

É uma família e tanto, a de Heloísa. O pai, Coronel Belarmino, acredita firmemente que o banco hipotecário é a solução para o Brasil. A mãe, Dona Cesarina, cada vez resiste menos ao assédio descarado de seu futuro genro. Um dos irmãos de Heloísa chama-se Totó Fruta-do-Conde, e sua frase predileta é: “Sou uma fracassada!” O outro irmão, Perdigoto, é um facista encubado. E há também uma irmã, Joana, mais conhecida como João dos Divãs, e uma avó, Dona Poloquinha (não confundir com Polaquinha, que na época era sinônimo de prostituta).


Fora isso, seguindo a tradição de irreverência metalinguística de Oswald, há uma pequena porém marcante participação do Ponto, que era a pessoa que ficava escondida soprando as falas para os atores. Esse Oswald!!! Acho que foi em “Serafim Ponte Grande” que ele expulsou um personagem do livro por ter soltado um pum.

Isso tudo que eu escrevi é pouco mais que a enumeração dos personagens principais. Para saber o que é “O Rei da Vela”, só mesmo vendo a peça, lendo o livro.

“Espinafração” pura, explícita, ainda afiada mesmo depois de tanto tempo. Achei triste ainda achar engraçadas essas cenas escritas há mais de oitenta anos. Pois isso é sinal de que os tristes costumes que a peça castiga fazendo rir continuam existindo em nossos dias.

Uma curiosa revelação tive com essa leitura: creio que Nelson Rodrigues leu “O Rei da Vela”, bem antes de sua antológica estreia em 1967 (que acabou sendo um fator determinante na gestação do Tropicalismo). Afinal, a peça foi escrita em 1933 e publicada em 1937. Creio que Nelson, ao ler “O Rei da Vela”, soltou um ou dois grunhidos de satisfação.



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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Resenha - (In) visível Real [Pulp Ideias]

"A vida dos outros, tal como nos chega na chamada realidade, não é cinema mas sim fotografia, ou seja, não podemos apreender a ação, mas apenas seus fragmentos eleaticamente recortados. [...] dar coerência à série de fotos para que se tornassem cinema significava rechear com literatura, presunções, hipóteses e invenções os intervalos entre uma e outra foto". 

Neste trecho de O Jogo da Amarelinha, Morelli, um dos personagens criados por Julio Cortázar, afirmava que um livro deveria ser escrito como os desenhos que seguem as leis da Gestalt, ou seja, os traços apenas guiariam o observador a construir imaginativamente determinada figura e, "por vezes, os traços ausentes eram mais importantes, os que realmente contavam".

De certo modo, (In) visível Real sintetiza estas mesmas questões de visibilidade e invisibilidade. Hoje, o que resta do movimentos coreográficos de Luiz Arrieta e Dani Lima, da sonoridade das canções de Chico Buarque e Edu Lobo e da plasticidade dos cenários e figurinos de Rosa Magalhães em O Grande Circo Místico são estes pequenos contornos que chamamos de fotografia e que são incapazes de traduzir integralmente este espetáculo. Talvez, por isso, nunca tive a ambição de chamar este livro de documentário. Se algum termo precisar ser usado que seja inventário, que deixa de lado conceitos frágeis como a verdade, e traz à tona uma carga de afetividade e doação que me parecem mais apropriados.


Por fim, meu processo de selecionar, ordenar e editar as fotografias deste balé foi cinematograficamente cortaziano. Revirar os quase três mil negativos, os copiões, enfim, todas essas "sobras de tempo" me trouxeram lembranças, rostos e sensações que iam ligando uma imagem à outra e compondo um filme muito particular.


Para mim, nada aqui é espetáculo. Tudo dança. - Tom Lisboa


Dança e fotografias. Seria essa a combinação perfeita? Imagens que mais se parecem estar em movimento quando embalados por uma boa música. Simples, porém ousado. Uma ideia inovadora, especial. Pronta para ser degustada acompanhada de um bom vinho. 


A leveza de cada passo, cada sentimento que transborda e quase nos faz ir à loucura. Esperança em cada olhar, distinto, a cada braços e mãos entrelaçadas que ali se encontrar aparentam estar em êxtase, sem se importar com o que pensam, mas sim, pensam em satisfazer toda aquela plateia que anseia por arte. Por eles. O Tom soube como construir as imagens e uni-las às músicas, ora cantam imagens, ora pensam cantar músicas.


Imagens que parecem ser o começo, mas pode não ter fim. Gestos que falam mais que palavras. Sonhos se realizando em um só lugar, em etapas; curtem a cada segundo. Corpo e arte, ou melhor, corpo é arte. O que parece não fazer sentido no começo, acaba virando um quebra-cabeça a ser decifrado chegando ao fim. Imagens que comandam, mandam e desmandam, e obedecem à estímulos involuntariamente cogitados.


"Será que ela é moça. Será que ela é triste?" A música transparece alguns sentimentos esquecidos, que aos poucos se revelam. No ar, toda aquela leveza acaba de se tornar essencial para os nossos olhos, e quem responde é o coração. Bate tão forte que quase não se aguenta. 


Brincadeiras que refletem o ser; que falam por si. Palhaços. Com aquelas roupas belíssimas que encantam e cantam sem que possamos ouvir; jovens, adultos e quem mais não podemos ver. Sorrisos que escondem dor; rostos tristes, simulados, que ofuscam tudo que há de ruim e que não pertence àquele ambiente. Muita felicidade presente em inúmeros atos. Distintos. 


O corpo fala estando em pleno silêncio; jamais se cala. Caras e bocas que traduzem sentimentos; e a boca sem sequer soltar uma palavra. Um desespero temporário, em cada cena. Tudo passa. 


Entregues de corpo e alma. Todos em uma só sintonia. Lugar onde o medo não tem lugar. Corpos que juntos expressam vozes ocultas e te libertam da loucura. Pessoas que deixam de falar por si, e que agora seu corpo é que tem a voz. Sincronismo, um sinal de amor; e um amor que se derrete através do rítmo; uma viagem. Tudo parece utopia.


Chega ao final, aparentemente. Agradecimentos e a vida que segue, transformada e transformadora. Todos de pé, contentes e chorosos, esperando pela próxima viagem. Todos se reúnem, realizados pelo que fizeram e pelo que se tornaram. Um espetáculo, por fim, eterno.

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domingo, 16 de setembro de 2012

PIGMALEÃO – Bernard Shaw






Bernard Shaw é realmente um escritor de personalidade. “Pigmaleão” foi encenada pela primeira vez em 1914, e a primeira publicação da peça aconteceu em 1916. E ainda é capaz de impressionar por sua originalidade e inventividade.

De cara achei interessante as marcações de cena e indicações sobre a personalidade dos personagens. Shaw faz uma descrição pouquíssimo óbvia e super criativa!

Li a peça no original em inglês (“Pygmalion”), e imagino que deve ter puxado bastante pela inventividade dos tradutores, pois boa parte das cenas engraçadas são baseadas nas diferentes formas de falar o inglês, da mais rude à mais refinada.

Fico feliz por não termos no Brasil uma sociedade tão rigidamente demarcada pela forma de falar. Mais feliz ainda ficou Bernard Shaw ao pintar um quadro da sociedade inglesa de sua época usando cores tão ácidas! A ironia transborda de cada cena.

O final é mesmo totalmente inesperado! Que figuraça esse Bernard Shaw!!!


terça-feira, 11 de setembro de 2012

TEATRO COMPLETO – Dramas Históricos - Shakespeare




É sempre um dia especial quando terminamos de ler um livro grosso! Passamos muito tempo entre as páginas daquele pesado volume, que foi se tornando folha a folha tão conhecido nosso. E é tanto que é como se deixássemos uma parte de nós dentro do livro, ao fim da última página. E é então que sentimos esse sentimento sem nome, ao menos em nosso idioma: mistura de alegria e tristeza, de triunfo e saudade. Só quem lê conhece.

Passei setembro e outubro mergulhado nessas 627 páginas de letras miúdas como formigas pretas numa bula de remédio (isso é o que eu chamo de misturar metáforas rarara!).

Pois então. Três coisas legais aprendi com esse livro (fora do maravilhamento todo que foi ler oito peças de Shakespeare em sequência)!

Essas três coisas são:

1) Nunca desmereça o valor de um texto, por pior que lhe pareça.

Em seu excelente prefácio, o tradutor Carlos Alberto Nunes conta várias passagens interessantes sobre a vida de Shakespeare. Logo quando ele começou a se tornar conhecido, foi desprezado e execrado por outros autores teatrais, por não possuir formação acadêmica. Um certo lorde da época não queria a princípio que o Folio com as peças de Shakespeare fizesse parte de sua seleta biblioteca (que depois tornou-se famosa justamente por possuir o tal Folio).

Hoje Shakespeare é um gênio inabalável. Ele só deixará de ser o maior escritor de todos os tempos com o fim de nossa civilização. E os lordes arrogantes entraram para a história como uns grandes duns bobões!


2) Um livro só está vivo em dois momentos. Quando é escrito e quando está sendo lido. Fora disso ele simplesmente existe.

Adquiri esse livro em um sebo. A edição é relativamente antiga, meu chute é algo entre final da década de 80 e início da de 90. O exemplar que adquiri nunca havia sido lido. Ao mergulhar em tantas emoções da leitura de Shakespeare, por várias vezes me admirei que aquele livro tivesse existido tantos anos sem jamais dar a um ser humano a alegria que eu estava experimentando. Agora que eu estava lendo, o livro também estava vivo.

3) A melhor maneira de evitar problemas de tradução é lendo os autores nacionais

Viajei muitíssimo na tradução de Carlos Alberto Nunes, acho que valeu por um curso de tradução, se é que existe tal coisa.

Ele por sua vez fez uma viagem muito linda, muito fiel a sua proposta, muito autêntica.

Ele optou por privilegiar a cadência e a musicalidade das peças de Shakespeare! Quem poderia condená-lo?

Ficou lindo o resultado, mas era como se só ¼ do original estivesse sendo mostrado, deixando ¾ escondidos.

Outras traduções posteriores, creio, foram mais felizes. Ainda assim, a meta suprema só poderá ser revelar ¾ do original e conformar-se com ¼ deixado oculto (e principalmente acrescentando o mínimo da própria subjetividade do tradutor, tarefa hercúlea e virtualmente impossível).

Resumindo a ópera:

* O melhor estímulo para se aprender inglês é começar a ler Shakespeare.

* Feita essa descoberta, olha que outra muito mais interessante! A beleza total de Shakespeare só pode ser percebida em seu idioma original, o inglês. Da mesma forma, a beleza total de Machado de Assis, por exemplo, só pode ser sentida em português. Assim como tantos outros brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos etc geniais!

Uma boa forma de fazer a mente crescer é ler obras clássicas de nosso próprio idioma!

Quem diria, amar tanto Shakespeare me fez defender a literatura nacional!!!

E viva Shakespeare!!!


A TRAGÉDIA DO REI RICARDO III – William Shakespeare




  
“Meu reino por um cavalo!”
(Ricardo, Ato V, Cena IV)

Esta frase célebre, fora de seu contexto, não revela o brilho e a força do gênio criativo de Shakespeare. Pois nessa única frase está sintetizado o mais poderoso estudo sobre a ambição humana que já tive a oportunidade de conhecer.

Altíssimo brilho, catarse sublime! A tragédia é um estilo fora de moda em nossos tempos, substituída que foi pelos terrores diários dos jornais televisivos. Mas as chacinas, corrupções e catástrofes com que somos bombardeados pela mídia são um pobre substituto para as obras inspiradas por Melpômene, a musa da Tragédia. Pois não há aprendizado e nem crescimento em testemunhar um sofrimento sem sentido.

“Ricardo III” é a segunda melhor tragédia de Shakespeare. Só perde para “Macbeth”, em minha opinião. As duas têm muito em comum, e principalmente uma característica que considero a mais alta expressão literária. Eu já havia detectado essa característica em algumas poucas e muito queridas obras, de cabeça agora lembro de “Sobre Meninos e Lobos” do Dennis Lehane. Mas foi só agora, ao ler pela segunda vez “Ricardo III”, que pude definir melhor que característica é essa.

No entender de Hermann Broch (autor de “Os Inocentes”), toda obra de arte deve expressar uma totalidade. Isso é admiravelmente alcançado em um romance (ou peça teatral) quando o autor consegue ligar efetivamente cada ato a sua consequência, cada ação ao seu resultado. Uma história esteticamente perfeita, percebo agora, é a que retrata bem o misterioso e inescapável conceito de “karma” (palavra em sânscrito que significa “ação”).

“Ricardo III” é um poderoso exemplo dessa totalidade. Que obra!!!


O LADO NEGRO DA FORÇA

A peça é repleta de passagens de grande lirismo, com a alta poesia sendo utilizada para retratar o lado mais sombrio do homem.

O cinismo de Ricardo, por exemplo, é expresso lindamente nessa fala que ele dirige a seu irmão mais velho:

“Tenho-te tal amor que dentro em pouco
mandarei para o céu tua alma cândida,
se aceitar destas mãos o céu a oferta.”
(Ricardo, Ato I, Cena I)

Ou então nessa passagem em que ele arquiteta casar-se com a mulher do homem que acabou de matar:

“Logo tomo
por mulher a mais nova filha de Warwick.
Que importa que ao seu pai e a seu marido
tivesse eu dado a morte? O melhor meio
de dar satisfações a essa donzela
é ficar sendo dela pai e esposo,
o que farei, não por amor, decerto,
mas por um fim profundamente oculto
que preciso alcançar com o casamento.”
(Ricardo, Ato I, Cena I)

A cena em que Ricardo faz a corte a Ana é sem dúvida uma das mais marcantes da história da literatura. Ele a conquista durante o funeral do Rei Henrique VI, assassinado por ele:

“Já houve, acaso, mulher, em todo o mundo,
que fosse cortejada desse modo?”
(Ricardo, Ato I, Cena II)


A FORÇA DAS PALAVRAS

“Ricardo III” é também um testemunho sobre a força das palavras. É impressionante como o Bardo conseguiu tecer uma trama tão intrincada, onde o destino de cada personagem é antecipado por toda sorte de profecias e maldições. Exemplar é o caso do Duque de Buckingham, que foi ele mesmo o autor das palavras que o condenaram:

“O Deus do alto,
que tudo vê, com quem eu gracejara,
fez contra mim voltar a falsa prece,
dando-me de verdade o que eu pedira
somente por gracejo.”
(Buckingham, Ato V, Cena I)

O próprio Ricardo demonstra em suas palavras a progressão e amargo fim de toda ambição. Ele começa cheio de gás e disposto a fazer todo tipo de maldade:

“Sol admirável,
brilha até que eu adquira um bom espelho
para eu ver com que monstro eu me assemelho.”
(Ricardo, Ato I, Cena II)

Logo, porém, ele percebe que se torna um escravo de suas próprias ações infames:

“Mas tão metido em sangue ora me encontro,
que um crime provoca outro.”
(Ricardo, Ato IV, Cena II)

A LEI DO KARMA

Nenhuma ação humana, boa ou má, permanece sem consequência. Essa é, em essência, a lei do Karma. “O plantio é opcional, mas a colheita é obrigatória”, já diz o sábio ditado.

E as pérfidas ações de Ricardo maturam tetricamente e não tardam a produzir horrendos frutos. Cena poderosíssima é a aparição dos fantasmas dos assassinados pela ambição de Ricardo, na madrugada que antecede a batalha. Cada um deles, por sua vez, lança a pesada maldição:

“Amanhã pesarei sobre tua alma!
(...) Enche-te, pois, de desespero, e morre!”
(vários espectros, Ato V, Cena III)

Ricardo desperta assustado, e pela primeira vez tem um encontro com a voz da consciência:

“Ó consciência covarde, tu me assustas!”
(Ricardo, Ato V, Cena III)

E chega por fim à triste conclusão:

“Desespero; criatura alguma me ama.
Se eu morrer, nenhuma alma há de chorar-me.
Aliás, por que o fariam, se eu não tenho
piedade de mim próprio?”
(Ricardo, Ato V, Cena III)


OUTRAS PASSAGENS MARCANTES:

“Perdida fora a mágoa
despendida por quem já está perdido.”
(Duquesa de York, Ato II, Cena II)

“É meu filho, de fato, e o meu opróbrio;
mas não bebeu, decerto, a hipocrisia
no leite destes peitos.”
(Duquesa de York, Ato II, Cena II)

“Não cedais facilmente aos nossos rogos;
neste ponto fazei como as donzelas
que dizem sempre não, mas vão cedendo.”
(Buckingham, Ato II, Cena VII)

“Ricardo apenas vive, o negro agente
do inferno, a quem foi dado o triste encargo
de comprar almas para o reino escuro.”
(Rainha Margarida, Ato IV, Cena IV)

“Veloz como a andorinha é a fé, eu o sei:
de reis faz deuses, de um campônio, um rei.”
(Richmond, Ato V, Cena II)

LAST BUT NOT LEAST

Foi uma sorte que justamente essa peça, que eu já havia lido no original, tenha sido a última das oito que li em sequência, na dedicada tradução de Carlos Alberto Nunes.

Pois não tem jeito mesmo: traduzir é trair. Que misteriosa é a linguagem humana, capaz de expressar uma cor única em cada idioma! Nunca fica a mesma cor depois de traduzida. Não é culpa da tradução, e sim uma condição inerente à linguagem!

Ao ler no original em inglês, duas passagens ficaram marcadas a ferro e fogo na memória, tamanha a sua força poética. E ao ler as duas em português, a decepção foi gigantesca!

A primeira é a frase que abre a peça:

“Now is the winter of our discontent
Made glorious summer by this sun of York”

Que foi traduzida assim:

“Ora pelo sol de York o frio inverno
do descontentamento foi mudado
em glorioso verão.”
(Ricardo, Ato I, Cena I)

Vixe!!! O que era um soco do Muhammad Ali virou um tapinha do Tiririca!!!

Pior ainda foi a segunda frase, que me marcou tanto que a citei nos dois discos que gravei com a banda Imago Mortis:

“I'll join with black despair against my soul,
And to myself become an enemy.”

Ficou tão fraquinha em português:

“Lanço contra minha alma o desespero,
para inimiga tornar-me de mim própria.”
(Rainha Elizabeth, Ato II, Cena II)

A vontade que sinto agora é ler todas as peças de novo, só que em inglês!

Ainda assim, a força de Shakespeare dá e sobra para encantar, mesmo com esses abismos de tradução.

Viva Shakespeare! O Rei eterno da literatura!!!

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