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domingo, 12 de junho de 2011

Narciso: Tédio e fúria - Roque Neto

De cara o título do livro me fez retornar a visão para ele e quando isso acontece dificilmente deixo de lê-lo: “Narciso: tédio e fúria” carrega tanta força que por si só já vale uma observação mais apurada por parte do leitor. E foi pensando nisso que iniciei a leitura e me tornei cativo.

Logo no início Roque Neto compara Esperantina, uma pequena cidade do Piauí com a Cabul de Hosseini e a Boston de Lehane. Como ficar indiferente diante de tal conexão? É como se deparar com o sertão mineiro de Guimarães Rosa com suas sutilezas e universalidades. Além do mais são autores que tenho em alta conta, para não dizer que sou fã inconteste.

Ainda no início nos faz questionar a respeito do “mito”, ou melhor, de como se dá a passagem do estágio de “bastante conhecido” para o de “mito”, citando o famoso “Lourenço Bandoleiro”, personagem com uma longa ficha policial que inclui, inclusive, homicídios, utilizado pelos mais velhos para amedrontar as crianças:

“Se continuar desse jeito, você vai ficar igualzinho ao Lourenço Bandoleiro”.

Fez-me lembrar de alguns mitos de minha própria infância em Mococa-SP, tais como: Curruila, uma senhora negra como o pássaro que lhe originou o apelido, que corria atrás das crianças quando chamada pelo epíteto; Mané Quiabo, outro que pegava as crianças e as comia (pelo menos era o que os pais nos diziam).

Tudo isso fui rememorando, porém o que me fez regredir foi o enredo, tratado de forma magistral, trazendo à tona imagens de meus tempos de coroinha da igreja Matriz. A raiva do personagem central me atingiu em cheio. Já carreguei dentro de mim uma raiva incontida e ainda hoje trago resquícios dela em algumas de minhas atitudes. Tenho pouco controle, mas consigo disfarçar bem.

“... Ele sorriu e deu tapinhas nas minhas costas. Eu sorria para ele, mas o meu peito mais uma vez estava tomado de raiva... Quando apertei sua mão, olhei em seus olhos e concluí ‘Vou matá-lo!’ ”.

O personagem parece carregar toda a raiva do mundo dentro de si, filho bastardo, nascido na zona rural, sofre todos os dissabores do preconceito e da invisibilidade social. Arvora-se da condição e do direito de ser deus, encontrando justificativa para seus inúmeros crimes, inclusive com trecho das regras de São Bento:

“Este homem foi assim entregue à morte da carne para que seu espírito se salve no dia do Senhor”.

Não sobra pedra sobre pedra – homossexualismo, aborto, morte, não passam desapercebidos em nenhum momento. Com citações de Hermann Hesse e Umberto Eco, o enredo feito de retalhos transforma-se numa colcha bem trabalhada, belíssima. O livro é “forte”, desconcertante, provocativo e assumidamente polêmico, seja por envolver a igreja, seja por nos colocar como juízes. Altamente recomendado!

terça-feira, 7 de junho de 2011

Carmen - Ruy Castro


Quanto mais ouço a expressão - brasileiro tem memória curta - mais acredito nela. Basta observarmos a política, o esporte ou mesmo a arte para darmos conta da triste verdade que nos cabe.

Se existe uma entidade, um mito, uma figura injustiçada nas artes cênicas e na música, essa pessoa chama-se Maria do Carmo Miranda da Cunha, ou melhor, Carmen Miranda, a pequena notável.

Fruto de uma pesquisa de 5 anos, a biografia "Carmen" reflete o esforço hercúleo de Castro em nos demonstrar o quanto devemos a ela.

Na década de 30, é a maior expressão da música popular brasileira, gravando marchinhas que são cantadas até hoje: Tái, Yáyá Yôyô, O que é que a baiana tem (e dezenas de tantas outras, todas sucesso garantido). Já no início da década de 40, sai para fazer sucesso em Hollywood e faz. Chega a exibir-se para o presidente Roosevelt na Casa Branca.

Ninguém consegue imaginar a fúria com q os norte-americanos foram atingidos pelo furacão Carmen Miranda. Ganhou rios de dinheiro, porém nunca teve sorte no amor. Provavelmente, tenha sido essa a grande lacuna q a tenha levado à morte. Ela foi a primeira artista a vencer e conquistar Hollywood. Alguém à frente de seu tempo e que por isso sofreu as agruras de desbravar o terreno em que poucos chegaram perto.

No livro desfrutamos de toda glória e sucesso da pequena e conseguimos sofrer e até compreender seu vício em barbitúricos, estimulantes e álcool. Enfim, ler este livro, foi pra mim, vivenciar o apogeu e o ocaso desta maravilhosa estrela e correr atrás de todas as suas gravações musicais e cênicas, para rever sua imensa beleza de 1,53m. Lição de vida!

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