quarta-feira, 20 de julho de 2011

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Autoras: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

Editora Rocco - Ano: 2009 - 304 páginas
Tradutor: Lea Viveiros de Castro

Juliet Ashton recebe uma carta de um desconhecido das ilhas Guernsey e inicia uma troca de correspondência com personagens da ilha. Ali, encontra novos amigos e descobre vidas transformadas pela guerra, vidas nas quais os livros tiveram um papel fundamental para a sobrevivência e a manutenção de um resquício de dignidade durante a ocupação alemã.

Como aparece no site da Cultura: “é uma celebração da vida através da literatura”.


Comentários toscos de uma tarde de domingo

Tenho quatro personalidades bem definidas dentro de mim. E elas se intercalam rigorosamente, sempre na mesma ordem. Cada vez mais me convenço de que não tenho personalidade, tenho carga hormonal. Uma semana sensível, outra deprimida, a próxima agressiva e, depois, uma alegria tonta, sem nexo. Se for sincera, direi que não há nexo em nada disso.

Vocês devem estar se perguntando por que inventei de fazer uma confissão particular ao invés de formular opiniões sobre “A sociedade literária e a torta de casca de batata”. Bom, essa confissão tem certa lógica e explica algumas variáveis na minha ideia sobre o livro.

O problema é que comecei a leitura como uma senhora sensível e solidária com o mundo. E terminei os últimos capítulos em plena crise de depressão. Acreditem, isso influencia uma crítica. Aliás, quando penso na influência dos sentimentos sobre as críticas, deduzo que as palavras são quase obra do acaso e devem ser relevadas, relevadas, relevadas... Talvez a mudez seja uma boa alternativa, mas ela é inviável no caso da Márcia, sou um ser classificado como “tagarela”. Mesmo muda, meus gestos falariam por si e enlouqueceriam as pessoas.

Sobre as primeiras 253 páginas, posso dizer: amei. Eu lia e a impressão era de que os episódios tinham sido vividos por pessoas sentadas no sofá da minha sala: chorei ao receber uma barra de sabão, li as notícias em folhas de jornal velho cuidadosamente alisadas, tive ataques de riso com as reuniões literárias, meu estômago embrulhou com os mortos, senti dor, fome, medo, fiquei seduzida com o estilo ao mesmo tempo arrogante e atencioso de Mark, queria um Dawsey cuidando de mim, queria ser cuidada, queria cuidar, fazer parte. Sem dúvida, tive vontade de juntar as tralhas e me mudar para a ilha. Meu coração aqueceu, vi que ainda podíamos ser solidários e que a felicidade era uma estranha mistura de dor, força, livros e amigos. Fui dormir embalada.

No dia seguinte, acordei mal. Tomar banho, trocar de roupa, sorrir para as pessoas, difícil, muito difícil. Em algum momento daquela noite minha personalidade nº 02 assumiu. Fazer o quê? Coloquei a máscara nº 05, perfeita para esses dias, e fui ser uma profissional competente, que a vida cobra e não está nem aí para choramingas.

No ônibus, retomei a leitura: cartas perdidas numa lata de biscoitos? Cadê a minha história? Trocaram meu livro? Que brincadeira esquisita foi essa? E aquela linguagem, o que tinha acontecido? Fui dormir com um romance meigo e profundo e acordei com um best-seller quase “Nora Roberts”?????

Resumindo: da página 254 para o final, salvo alguns momentos, o texto cai... Senti-me quase traída.

Tudo bem, desde o início havia toques de best-seller, algumas colocações meio frase feita, situação criada demais, personagens estereotipados, cartas enviadas num dia e respondidas com uma rapidez que sequer hoje conseguimos, imaginem naquela época, mas tudo encaixando dentro do clima fábula que parecia ser a proposta, uma pequena história triste, porém positiva sobre a vida. Não tirava o encanto, pelo contrário, tornava a leitura ágil e leve e parecia necessário para que pudéssemos ouvir tanta tristeza sem desabar.

Ao final, ficou a dúvida: realmente cai ou já era assim e a Márcia sensível não viu? Não cai e a Márcia deprimida é que perdeu a capacidade de se comover com as situações? Sei lá, sei lá...

Vou esperar para ouvir as opiniões. O que posso dizer é que as primeiras páginas me encantaram completamente, como uma narrativa deve encantar: chorei, ri, me comovi. Perfeito... Até a página 254... Depois, não me responsabilizo.. Acho que ele cruza a linha e cai no espaço do best-seller comum, comum.

Recomendo, é apaixonante. E o final? Bom, o final a gente lê rapidinho e logo esquece. As primeiras 254 páginas compensam e compensam muito.

5 comentários:

  1. Linda e estimulante resenha!

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  2. Nossa! Fiquei com muita vontade de ler!

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  3. Tenho esse livro. Gostei da resenha, fiquei curiosa, acho que vou passá-lo na frente de alguns. O problema vai ser achá-lo! Em qual caixa ele será que ele está? rsrsrs

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  4. Estou fazendo um trabalho de literatura sobre ele e estou adorando é exatamente o tipo de livro que eu adoro ler!!!

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