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domingo, 23 de outubro de 2011

Tempos Líquidos - Zygmunt Bauman

Tradutor: Carlos Alberto Medeiros
Editora: Jorge Zahar
1ª edição - 2007
119 pg.

Uma reflexão profunda sobre a insegurança, sobretudo nas grandes cidades. Terrorismo, desemprego, solidão - fenômenos típicos de uma era na qual, para Bauman, a exclusão e a desintegração da solidariedade expõem o homem aos seus temores mais graves. (Sinopse do site da Livraria Cultura)


Terminei esta semana. E recomendo, quem puder ler, leia. A linguagem é acessível para leigos como eu; ao mesmo tempo, a apresentação do tema não tem nada de leiga, é complexa, com base e argumentação consistentes.

Bauman fala sobre medo e insegurança. Os perigos que enfrentamos hoje são maiores do que os de outros tempos? Viver é mais difícil? O que há por trás dessa “indústria” da insegurança na qual estamos inseridos? Estamos?

O olhar do autor não é subjetivo e vago ao tentar responder. É direto e esclarecedor, atentando para a forma como o ambiente das cidades - inicialmente construídas para fornecer abrigo entre seus muros - acabou sendo transformado em espaço de medo e desintegração. E isso não foi por acaso, há economia, política, poder, opressão, cultura e intenções nessa mudança profunda que se verificou no mundo atual .

Um mundo de tempos líquidos, e daí o título da obra. Conceitos como governo, religião, comunidade, família, etc., antes “sólidos pilares” (será?), dissolvem-se em meio a redes sociais novas, onde rotinas de comportamento são quebradas e valores são questionados frente a uma liberdade individual “teoricamente infinita" e igualmente quebrada e questionável.

Mas essas mudanças - e a rapidez com que elas ocorrem - cobram um preço alto, nem sempre pago com facilidade (algumas promoções vendem felicidade aceitando cartão de crédito? Ora, ora, lá vamos nós, aderindo ao crédito fácil e enredados em novas redes).

Bauman reflete sobre os efeitos dessa “rapidez” em nossa vida, nos laços afetivos, na capacidade de amar, de ver, perceber, opinar. Os olhos ainda podem ser livres? Algum dia já foram? O que são olhos livres? O que é o sentir livre?

Da forma como gostei, se eu fosse comentar com detalhes, terminaria quase transcrevendo a obra. Por isso, ressalto aqui apenas dois pontos que chamaram minha atenção de maneira especial.

Em primeiro lugar, a análise que o autor faz da mudança do Estado de funções sociais para o Estado defesa, “administrador do medo”. Ler acerca de como a insegurança acabou inserida no quotidiano e se autoalimenta, num crescer contínuo, me fez dar uma pausa e pensar sobre nossas sensações/emoções, defesas/muros no contato com o “diferente”.

E se me fez pensar, já valeu a leitura.

Terrorismo, gangues, desemprego, preconceito, imigrantes, indústria, internet, condomínios residenciais, poder local/poder virtual, inclusão/exclusão... O retrato de nossas ações frente a esses termos é apresentado sem condescendência e sem espaço para o autoengano que poderia, quem sabe, apaziguar aquele cantinho da consciência que felizmente teima em acender a luz vermelha. Os comentários que Bauman coloca sobre os campos de refugiados completam o quadro. Sem dúvida, hora de ler os jornais de forma mais cuidadosa. Melhor ainda, hora de procurar informações além da imprensa.

Outro ponto que me ajudou a reavaliar e compreender melhor questões atinentes ao convívio real/virtual aparece mais na última parte do livro. Ali, Bauman atenta para o aspecto pessoal (que nunca é meramente pessoal, claro), para a relação humana num sentido de caçada, para o agir como caçador em caça constante de pessoas e coisas que a vida joga na nossa frente (pessoas e coisas não gratuitamente colocadas de forma conjunta), aquele pavor inconsciente do término da caçada sem que já tenhamos outra na agenda, o que nos deixaria de fora, como espectadores e não partícipes de um mundo que corre além de nós. Ficar de fora significa parar. E parar pode ser apavorante.

É uma ideia difícil de resumir, porque pensamento que resulta de uma argumentação apresentada por todo o livro, mas tem uma frase, quando o autor cita, em parte, Blaise Pascal, que consegue dar uma noção: as pessoas querem fugir à necessidade de pensar em “nossa condição infeliz”, e assim “preferimos a caça à captura”. “A lebre não vai nos livrar de pensar” nas formidáveis mas incuráveis imperfeições de nossa condição comum, “mas caçá-la vai”.

Destaque-se aqui que "condição infeliz" tem uma análise anterior, é a condição humana, o que sou, qual o sentido da vida, sou mortal, tenho defeitos, meus limites são tão pequenos/imensos, enfim, essas dúvidas que nos atormentam e nos constroem desde tempos imemoráveis.

Recomendo o livro. Foi meu primeiro contato com o autor e um contato que aprovei.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O homem disfarçado


Autor: Fernando Namora

Ed. Nórdica Ltda.

338 pg

Ano: 1981


Qual a possibilidade de trocarmos uma pele construída milimetricamente a cada gesto, escolha, omissão? Qual é a verdadeira pele? Até que ponto os movimentos mecânicos, a ganância, as disputas, a mesquinhez e o medo da dor vão minando nossos espaços como seres humanos?

Esses são conflitos analisados em um texto que é uma crítica contundente à banalização da doença nas relações diárias entre médicos, hospitais, pacientes e familiares.

O livro relata momentos da vida de João Eduardo, profissional bem sucedido dentro dos padrões vigentes, cuja personalidade e sentimentos são pulverizados entre mundos inconciliáveis ou cujo ponto de contato ultrapassa sua capacidade de ação.

Porque a obra também fala da ação como agente transformador. E da incapacidade de agir que marca nosso quotidiano.

Isso fica demonstrado já nas primeiras páginas: o médico ouve gritos, uma mulher chama por socorro para o filho que sofreu um acidente. Prestar ajuda ou esconder-se por acreditar que nada mais pode ser feito? Durante a leitura, esse vagar entre uma e outra opção pode ser percebido nas relações familiares e sociais que João Eduardo constrói, permeadas pela dúvida, pelo desencanto e pela fragilidade.

Nesse sentido, lembrei de Mário de Sá-Carneiro, quando diz, em “A confissão de Lúcio”: permaneço, mas não sou. E, principalmente, reli na história de Fernando Namora - em estilo diverso, claro - a mesma agonia do poema “Quase”, também de Mário de Sá-Carneiro. A dificuldade de João Eduardo é a de dar o passo definitivo, aquele sem volta, para um mundo ou outro, de escolher. E é dificuldade oriunda da incompreensão de que a certeza não existe, de que se jogar no escuro e abrir qualquer uma das portas, como na história contada em um trecho do livro, pode ser a melhor alternativa. Ainda que essa alternativa venha misturada com o sentimento incômodo de que qualquer saída serve, porque o espelho, ao invés de um rosto, reflete uma prisão.

A leitura flui, gostosa e rápida, de forma até inesperada pela complexidade e psicologismo do tema. Por outro lado, ao invés de evolução no texto, que inicia muito bem, senti uma queda do autor. Mais ao final, as frases tornam-se pequenos discursos, viram palavras corriqueiras, saídas fáceis, quase lugar comum. E o fim, previsível, me soou, confesso, meio tolo.

Criar essa sensação no leitor foi proposital? É bem possível, mas a dúvida quanto a se foi proposital ou não tira pontos do livro

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Autoras: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

Editora Rocco - Ano: 2009 - 304 páginas
Tradutor: Lea Viveiros de Castro

Juliet Ashton recebe uma carta de um desconhecido das ilhas Guernsey e inicia uma troca de correspondência com personagens da ilha. Ali, encontra novos amigos e descobre vidas transformadas pela guerra, vidas nas quais os livros tiveram um papel fundamental para a sobrevivência e a manutenção de um resquício de dignidade durante a ocupação alemã.

Como aparece no site da Cultura: “é uma celebração da vida através da literatura”.


Comentários toscos de uma tarde de domingo

Tenho quatro personalidades bem definidas dentro de mim. E elas se intercalam rigorosamente, sempre na mesma ordem. Cada vez mais me convenço de que não tenho personalidade, tenho carga hormonal. Uma semana sensível, outra deprimida, a próxima agressiva e, depois, uma alegria tonta, sem nexo. Se for sincera, direi que não há nexo em nada disso.

Vocês devem estar se perguntando por que inventei de fazer uma confissão particular ao invés de formular opiniões sobre “A sociedade literária e a torta de casca de batata”. Bom, essa confissão tem certa lógica e explica algumas variáveis na minha ideia sobre o livro.

O problema é que comecei a leitura como uma senhora sensível e solidária com o mundo. E terminei os últimos capítulos em plena crise de depressão. Acreditem, isso influencia uma crítica. Aliás, quando penso na influência dos sentimentos sobre as críticas, deduzo que as palavras são quase obra do acaso e devem ser relevadas, relevadas, relevadas... Talvez a mudez seja uma boa alternativa, mas ela é inviável no caso da Márcia, sou um ser classificado como “tagarela”. Mesmo muda, meus gestos falariam por si e enlouqueceriam as pessoas.

Sobre as primeiras 253 páginas, posso dizer: amei. Eu lia e a impressão era de que os episódios tinham sido vividos por pessoas sentadas no sofá da minha sala: chorei ao receber uma barra de sabão, li as notícias em folhas de jornal velho cuidadosamente alisadas, tive ataques de riso com as reuniões literárias, meu estômago embrulhou com os mortos, senti dor, fome, medo, fiquei seduzida com o estilo ao mesmo tempo arrogante e atencioso de Mark, queria um Dawsey cuidando de mim, queria ser cuidada, queria cuidar, fazer parte. Sem dúvida, tive vontade de juntar as tralhas e me mudar para a ilha. Meu coração aqueceu, vi que ainda podíamos ser solidários e que a felicidade era uma estranha mistura de dor, força, livros e amigos. Fui dormir embalada.

No dia seguinte, acordei mal. Tomar banho, trocar de roupa, sorrir para as pessoas, difícil, muito difícil. Em algum momento daquela noite minha personalidade nº 02 assumiu. Fazer o quê? Coloquei a máscara nº 05, perfeita para esses dias, e fui ser uma profissional competente, que a vida cobra e não está nem aí para choramingas.

No ônibus, retomei a leitura: cartas perdidas numa lata de biscoitos? Cadê a minha história? Trocaram meu livro? Que brincadeira esquisita foi essa? E aquela linguagem, o que tinha acontecido? Fui dormir com um romance meigo e profundo e acordei com um best-seller quase “Nora Roberts”?????

Resumindo: da página 254 para o final, salvo alguns momentos, o texto cai... Senti-me quase traída.

Tudo bem, desde o início havia toques de best-seller, algumas colocações meio frase feita, situação criada demais, personagens estereotipados, cartas enviadas num dia e respondidas com uma rapidez que sequer hoje conseguimos, imaginem naquela época, mas tudo encaixando dentro do clima fábula que parecia ser a proposta, uma pequena história triste, porém positiva sobre a vida. Não tirava o encanto, pelo contrário, tornava a leitura ágil e leve e parecia necessário para que pudéssemos ouvir tanta tristeza sem desabar.

Ao final, ficou a dúvida: realmente cai ou já era assim e a Márcia sensível não viu? Não cai e a Márcia deprimida é que perdeu a capacidade de se comover com as situações? Sei lá, sei lá...

Vou esperar para ouvir as opiniões. O que posso dizer é que as primeiras páginas me encantaram completamente, como uma narrativa deve encantar: chorei, ri, me comovi. Perfeito... Até a página 254... Depois, não me responsabilizo.. Acho que ele cruza a linha e cai no espaço do best-seller comum, comum.

Recomendo, é apaixonante. E o final? Bom, o final a gente lê rapidinho e logo esquece. As primeiras 254 páginas compensam e compensam muito.

terça-feira, 19 de julho de 2011

SEDA - Alessandro Baricco


Ed. Companhia das Letras
Ano 2007 – 128 páginas
Tradutor: Léo Schlafman

O livro é pequeno e de poucas palavras, mas cada frase encerra significados imensos. Lemos uma história com início, meio, fim, trama, sutileza e poesia. E ouvimos, em cada página, uma música que embala e envolve. Quase impossível parar.

No ano de 1861, uma praga que dizima ovos do bicho-da-seda muda a vida de Hervé Joncour. Viajando da França para o Japão, ele descobre suas próprias limitações e tenta ultrapassar a linha que separa realidade e sonho. Uma linha suave como seda, quase névoa, mas que não pode ser rompida. E, entre um continente e outro, um mundo interior ainda mais inexplorado revela desejos e medo.

Uma atmosfera de dualidade percorre todo o livro, expondo personagens e cenas inesquecíveis. Dois continentes, duas mulheres, dois desejos, sonho e liberdade. São universos que se misturam e revelam homens no difícil caminho do aprendizado.

Hélène é uma européia de longos cabelos negros e que se movimenta com a lentidão dos orientais, uma mulher com muito mais do que Hervé chegou a conhecer. Impressionantemente mais. A
menina japonesa possui olhos cujo corte não é oriental. E dela não descobrirmos quase nada, ser invisível que é, ser de certa forma irreal. E ainda assim tão presente. Os pássaros voam, mas não fogem da gaiola. Como homens, eternizam sua prisão e restringem seus espaços. A noite de amor, carregada de sensualidade e prazer, foi sonhada com uma imagem e vivida com corpo alheio. E, fechando de forma completa, temos a carta que seduziu Hervé por anos, ligada a um rosto, escrita por outro, servindo de ponte entre o erotismo e o sexo. “Não abra os olhos, e terá minha pele”.

Amei a história. Gostei da forma como o autor não cria heróis ou bandidos, mas apresenta um retrato de busca, de dor pela impotência, de recomeços, escolhas, perdas, vitórias, limites, vazios e deslumbramentos. Com mais ou menos competência, com mais ou menos sorte, estamos sempre procurando um ponto de equilíbrio entre o quotidiano e os nossos sonhos.

Hervé fez o melhor que pôde, ainda que isso não fosse o suficiente. E este fazer o melhor que pôde garantiu a amizade e os braços que o ajudaram a ficar de pé quando retornou. A verdade é que todos fazemos o melhor que conseguimos fazer. Tomara que eu tenha braços para me amparar em meus retornos. Viver é difícil.
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