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sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

DUMA KEY - Stephen King


Edgar Freemantle é o bem sucedido dono de uma empresa de construções em Minnesota.Mas as coisas mudam completamente quando ele sofre terrível um acidente onde perde parte da sua memória e o braço direito.Para piorar ainda mais as coisas,sua mulher o abandona e Edgar se vê praticamente sozinho com sua raiva  e revolta buscando recuperar-se e reconstruir sua vida.Quando seu psicólogo recomenda uma mudança de ares,Edgar resolve ir para a Flórida  onde aluga uma casa na paradisíaca ilha chamada Duma Key.
Relembrando que no passado gostava de desenhar,Edgar vê nas pinturas e nos desenhos que faz apenas com a mão esquerda uma forma de se sentir bem e se recuperar.O tempo vai passando.As pinturas e desenhos de Edgar estão cada vez melhores.Mas algo estranho começa a acontecer.As vezes ao desenhar ou pintar Edgar entra em transe.Muitas vezes ele tem a impressão que está pintando com a mão que perdeu.As coisas ficam ainda mais estranhas quando algumas coisas que ele pinta começam a se tornar realidade.Nesse meio tempo Edgar conhece Jerome Wireman,um advogado que desistiu da sua profissão e agora trabalha como cuidador e assistente da simpática senhora Elizabeth Eastlake.
Elizabeth,chegando agora aos oitenta e cinco anos está condenada pelo Mal de Alzheimer.Mas antes que a doença destrua suas memórias para sempre ela precisa dividir com Edgar uma parte do seu passado.E nesse passado pode haver segredos perigosos tanto para a vida de Edgar quanto das pessoas que ele ama.
Edgar começa a ficar ainda mais preocupado quando ele pinta uma mulher com um manto vermelho.E tudo fica ainda mais sinistro quando ele começa a pintar um navio que sempre aparece ao pôr-do-sol.
Qual será a ligação que existe entre as pinturas de Edgar e Elizabeth Eastlake?
Mergulhando no passado de Elizabeth com a ajuda de Wireman,Edgar descobre que o pôr-do-sol,além de uma ansiedade assombrosa  de pintar e desenhar,pode trazer também forças sinistras que escondem algo monstruoso.







"Duma Key" é uma leitura excelente do grande Stephen King.Como a maioria dos seus livros tudo vai acontecendo aos poucos.Ele nos apresenta Edgar e depois vamos mergulhando em sua vida,suas dores e seus anseios.A leitura vai seguindo lentamente até quando ele conhece Wireman e Elizabeth.

"Talvez você possa ler um poema para mim esta tarde_disse Elizabeth.Você escolhe.Sinto tanta falta deles.Eu poderia passar sem a Oprah,mas uma vida sem livros é uma vida sedenta e sem poesia,ela é..._Ela riu.Era um som delirante que cortou meu coração._É  como uma vida sem imagens,você não acha?Ou não?"

O suspense da narrativa só começa depois da metade do livro.Como sempre King acaba dando um jeito de inserir algo sobrenatural em suas tramas,deixando o leitor pensando:O que virá dessa vez?

"Um bombardeio explodiu logo acima da minha cabeça.E,lá embaixo,o murmúrio das conchas se tornara a conversa de coisas mortas,trocando segredos em vozes esqueléticas.Como eu não tinha conseguido ouvir aquilo antes?Coisas mortas,é claro!Eles estavam debaixo daquela casa e a tempestade os havia despertado.Eu conseguia vê-las brotando através da mortalha de conchas,formas gelatinosas e pálidas com cabelos verdes e olhos de gaivota,rastejando uns sobre os outros na escuridão e falando,falando,falando."

Já de inicio,você cria vínculos com os personagens.Todos muito bem estruturados,cada vez que você adentra na história deles mais você se apega a eles,o que é complicado em um livro do King,visto que ele não tem dó de matar  seus personagens.As vezes acho meio cruel essa faceta do autor de não ter piedade dos seus personagens e matar qualquer um sem levar em conta o coração do leitor.
Gostei de todos os personagens,todos me levando a viajar de alguma maneira em sua vida,mas um que chamou minha atenção foi o doutor Kamen,psicólogo de Edgar.Um negro enorme que esbanja simpatia e carisma.

"Kamen apareceu,na sua enormidade.
_Se precisar de ajuda,entre em contato comigo imediatamente.
_Pode deixar_falei_Você é KamenDoc.
Kamen sorriu.Era como se Deus estivesse sorrindo pra você.
Eu o abracei.Com um braço só,mas ele compensou."

King é mestre em criar personagens desse tipo.Na maioria dos seus livros encontramos personagens negros,que nos conquistam à primeira vista.King é um dos poucos autores de livros do gênero que conheço que insere personagens negros em seus livros,muitas vezes em papéis tão importantes quanto o do protagonista.Gosto dessa maneira que o King coloca os negros em seus livros.Em meio há tanto racismo existente no mundo,quando você vê um autor dando tanto espaço aos negros em suas tramas,faz com que  se simpatize ainda mais com ele.
Duma Key é sem dúvida pra mim mais um grande livro do Stephen King.
O leitor que espera grandes acontecimentos já no início do livro pode se decepcionar.
Aqui tudo vai acontecendo aos pouquinhos,o autor quer que você conheça os personagens a fundo até que quando você pensa que está tudo bem,as reviravoltas acontecem.Em nenhum momento perdi o interesse pela leitura,apesar dos acontecimentos seguirem lentamente.
Ainda estou em dúvida se gostei do final,a única coisa que tenho certeza é daquele vazio que fica quando se termina de ler um livro excelente

domingo, 23 de outubro de 2011

Tempos Líquidos - Zygmunt Bauman

Tradutor: Carlos Alberto Medeiros
Editora: Jorge Zahar
1ª edição - 2007
119 pg.

Uma reflexão profunda sobre a insegurança, sobretudo nas grandes cidades. Terrorismo, desemprego, solidão - fenômenos típicos de uma era na qual, para Bauman, a exclusão e a desintegração da solidariedade expõem o homem aos seus temores mais graves. (Sinopse do site da Livraria Cultura)


Terminei esta semana. E recomendo, quem puder ler, leia. A linguagem é acessível para leigos como eu; ao mesmo tempo, a apresentação do tema não tem nada de leiga, é complexa, com base e argumentação consistentes.

Bauman fala sobre medo e insegurança. Os perigos que enfrentamos hoje são maiores do que os de outros tempos? Viver é mais difícil? O que há por trás dessa “indústria” da insegurança na qual estamos inseridos? Estamos?

O olhar do autor não é subjetivo e vago ao tentar responder. É direto e esclarecedor, atentando para a forma como o ambiente das cidades - inicialmente construídas para fornecer abrigo entre seus muros - acabou sendo transformado em espaço de medo e desintegração. E isso não foi por acaso, há economia, política, poder, opressão, cultura e intenções nessa mudança profunda que se verificou no mundo atual .

Um mundo de tempos líquidos, e daí o título da obra. Conceitos como governo, religião, comunidade, família, etc., antes “sólidos pilares” (será?), dissolvem-se em meio a redes sociais novas, onde rotinas de comportamento são quebradas e valores são questionados frente a uma liberdade individual “teoricamente infinita" e igualmente quebrada e questionável.

Mas essas mudanças - e a rapidez com que elas ocorrem - cobram um preço alto, nem sempre pago com facilidade (algumas promoções vendem felicidade aceitando cartão de crédito? Ora, ora, lá vamos nós, aderindo ao crédito fácil e enredados em novas redes).

Bauman reflete sobre os efeitos dessa “rapidez” em nossa vida, nos laços afetivos, na capacidade de amar, de ver, perceber, opinar. Os olhos ainda podem ser livres? Algum dia já foram? O que são olhos livres? O que é o sentir livre?

Da forma como gostei, se eu fosse comentar com detalhes, terminaria quase transcrevendo a obra. Por isso, ressalto aqui apenas dois pontos que chamaram minha atenção de maneira especial.

Em primeiro lugar, a análise que o autor faz da mudança do Estado de funções sociais para o Estado defesa, “administrador do medo”. Ler acerca de como a insegurança acabou inserida no quotidiano e se autoalimenta, num crescer contínuo, me fez dar uma pausa e pensar sobre nossas sensações/emoções, defesas/muros no contato com o “diferente”.

E se me fez pensar, já valeu a leitura.

Terrorismo, gangues, desemprego, preconceito, imigrantes, indústria, internet, condomínios residenciais, poder local/poder virtual, inclusão/exclusão... O retrato de nossas ações frente a esses termos é apresentado sem condescendência e sem espaço para o autoengano que poderia, quem sabe, apaziguar aquele cantinho da consciência que felizmente teima em acender a luz vermelha. Os comentários que Bauman coloca sobre os campos de refugiados completam o quadro. Sem dúvida, hora de ler os jornais de forma mais cuidadosa. Melhor ainda, hora de procurar informações além da imprensa.

Outro ponto que me ajudou a reavaliar e compreender melhor questões atinentes ao convívio real/virtual aparece mais na última parte do livro. Ali, Bauman atenta para o aspecto pessoal (que nunca é meramente pessoal, claro), para a relação humana num sentido de caçada, para o agir como caçador em caça constante de pessoas e coisas que a vida joga na nossa frente (pessoas e coisas não gratuitamente colocadas de forma conjunta), aquele pavor inconsciente do término da caçada sem que já tenhamos outra na agenda, o que nos deixaria de fora, como espectadores e não partícipes de um mundo que corre além de nós. Ficar de fora significa parar. E parar pode ser apavorante.

É uma ideia difícil de resumir, porque pensamento que resulta de uma argumentação apresentada por todo o livro, mas tem uma frase, quando o autor cita, em parte, Blaise Pascal, que consegue dar uma noção: as pessoas querem fugir à necessidade de pensar em “nossa condição infeliz”, e assim “preferimos a caça à captura”. “A lebre não vai nos livrar de pensar” nas formidáveis mas incuráveis imperfeições de nossa condição comum, “mas caçá-la vai”.

Destaque-se aqui que "condição infeliz" tem uma análise anterior, é a condição humana, o que sou, qual o sentido da vida, sou mortal, tenho defeitos, meus limites são tão pequenos/imensos, enfim, essas dúvidas que nos atormentam e nos constroem desde tempos imemoráveis.

Recomendo o livro. Foi meu primeiro contato com o autor e um contato que aprovei.

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