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quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Mais estranho que a ficção

 O estilo de Chuck Palahniuk (autor também de Clube da Luta) vai além da polêmica. O autor tem o costume de abordar temas nada convencionais, temas ácidos que enfrentam o conservadorismo popular. É um autor diferente de quase tudo aquilo que os leitores já experimentaram. Chuck Palahniuk não hesita em usar palavreados fortes para compor temas fortes. Contudo, antes de ler alguma obra de Chuck Palahniuk, fique sabendo e se previna: é uma obra de Chuck Palahniuk.
 Uma das coisas que mais me fascinam na obra do homem, é que o próprio tem um estilo ímpar de escrita. Muitas pessoas interpretam mal a sua obra; existem pessoas que tacham sua obra como algo gratuito e sem sentido, mas, com todo respeito, eu respondo: esta atitude é uma grande ignorância. Monstros Invisíveis não foge do seu estilo único e louco, e a trama por si só já revela isto.
 Assim como todos seus outros textos, o romance a ser tratado nesta resenha apresenta um importante e instigante estudo metafórico que busca compreender a ganância humana - é uma obra de arte. Monstros Invisíveis é nada mais nada menos que um romance sobre a sociedade. É uma obra que mostra que nem sempre podemos ser aquilo que queremos ser, e mostra também o quanto a sociedade hipócrita valoriza a beleza exterior, e com isto, obriga muitas vezes as pessoas a cometerem sacrifícios para agradar o gosto alheio.

 Modelos bulímicas.
 Flash.
 Em busca de um corpo perfeito.
 Flash. 

 Não é uma leitura que busca entreter o espectador por meio do rítmo frenético; tudo na obra do Palahniuk está mergulhado em filosofia. Monstros Invisíveis é duro em sua crítica: trata do homossexualismo de forma livre sobre o seu efeito na sociedade; trata livremente sobre o tema do sexo (os diálogos explícitos sobre técnicas sexuais como felching são bons exemplos); etc.
 Para investigar inicialmente como é de fato o mundo ousado do autor, recomendo antes de tudo ler seus contos, que podem ser encontrados facilmente internet a fora – ‘’Guts’’ é um bom conto para iniciar a leitura das obras do autor. É o tipo de autor ‘’ame-o ou deixe-o’’, e particularmente, fico com o ‘’ame-o’’.

 Por Victor Ramos (Jerome)
 Avaliação: 5/5

quarta-feira, 20 de julho de 2011

A sociedade literária e a torta de casca de batata



Autoras: Mary Ann Shaffer e Annie Barrows

Editora Rocco - Ano: 2009 - 304 páginas
Tradutor: Lea Viveiros de Castro

Juliet Ashton recebe uma carta de um desconhecido das ilhas Guernsey e inicia uma troca de correspondência com personagens da ilha. Ali, encontra novos amigos e descobre vidas transformadas pela guerra, vidas nas quais os livros tiveram um papel fundamental para a sobrevivência e a manutenção de um resquício de dignidade durante a ocupação alemã.

Como aparece no site da Cultura: “é uma celebração da vida através da literatura”.


Comentários toscos de uma tarde de domingo

Tenho quatro personalidades bem definidas dentro de mim. E elas se intercalam rigorosamente, sempre na mesma ordem. Cada vez mais me convenço de que não tenho personalidade, tenho carga hormonal. Uma semana sensível, outra deprimida, a próxima agressiva e, depois, uma alegria tonta, sem nexo. Se for sincera, direi que não há nexo em nada disso.

Vocês devem estar se perguntando por que inventei de fazer uma confissão particular ao invés de formular opiniões sobre “A sociedade literária e a torta de casca de batata”. Bom, essa confissão tem certa lógica e explica algumas variáveis na minha ideia sobre o livro.

O problema é que comecei a leitura como uma senhora sensível e solidária com o mundo. E terminei os últimos capítulos em plena crise de depressão. Acreditem, isso influencia uma crítica. Aliás, quando penso na influência dos sentimentos sobre as críticas, deduzo que as palavras são quase obra do acaso e devem ser relevadas, relevadas, relevadas... Talvez a mudez seja uma boa alternativa, mas ela é inviável no caso da Márcia, sou um ser classificado como “tagarela”. Mesmo muda, meus gestos falariam por si e enlouqueceriam as pessoas.

Sobre as primeiras 253 páginas, posso dizer: amei. Eu lia e a impressão era de que os episódios tinham sido vividos por pessoas sentadas no sofá da minha sala: chorei ao receber uma barra de sabão, li as notícias em folhas de jornal velho cuidadosamente alisadas, tive ataques de riso com as reuniões literárias, meu estômago embrulhou com os mortos, senti dor, fome, medo, fiquei seduzida com o estilo ao mesmo tempo arrogante e atencioso de Mark, queria um Dawsey cuidando de mim, queria ser cuidada, queria cuidar, fazer parte. Sem dúvida, tive vontade de juntar as tralhas e me mudar para a ilha. Meu coração aqueceu, vi que ainda podíamos ser solidários e que a felicidade era uma estranha mistura de dor, força, livros e amigos. Fui dormir embalada.

No dia seguinte, acordei mal. Tomar banho, trocar de roupa, sorrir para as pessoas, difícil, muito difícil. Em algum momento daquela noite minha personalidade nº 02 assumiu. Fazer o quê? Coloquei a máscara nº 05, perfeita para esses dias, e fui ser uma profissional competente, que a vida cobra e não está nem aí para choramingas.

No ônibus, retomei a leitura: cartas perdidas numa lata de biscoitos? Cadê a minha história? Trocaram meu livro? Que brincadeira esquisita foi essa? E aquela linguagem, o que tinha acontecido? Fui dormir com um romance meigo e profundo e acordei com um best-seller quase “Nora Roberts”?????

Resumindo: da página 254 para o final, salvo alguns momentos, o texto cai... Senti-me quase traída.

Tudo bem, desde o início havia toques de best-seller, algumas colocações meio frase feita, situação criada demais, personagens estereotipados, cartas enviadas num dia e respondidas com uma rapidez que sequer hoje conseguimos, imaginem naquela época, mas tudo encaixando dentro do clima fábula que parecia ser a proposta, uma pequena história triste, porém positiva sobre a vida. Não tirava o encanto, pelo contrário, tornava a leitura ágil e leve e parecia necessário para que pudéssemos ouvir tanta tristeza sem desabar.

Ao final, ficou a dúvida: realmente cai ou já era assim e a Márcia sensível não viu? Não cai e a Márcia deprimida é que perdeu a capacidade de se comover com as situações? Sei lá, sei lá...

Vou esperar para ouvir as opiniões. O que posso dizer é que as primeiras páginas me encantaram completamente, como uma narrativa deve encantar: chorei, ri, me comovi. Perfeito... Até a página 254... Depois, não me responsabilizo.. Acho que ele cruza a linha e cai no espaço do best-seller comum, comum.

Recomendo, é apaixonante. E o final? Bom, o final a gente lê rapidinho e logo esquece. As primeiras 254 páginas compensam e compensam muito.

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