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domingo, 12 de janeiro de 2014

LOCKE – Coleção Os Pensadores



Sempre é muito proveitoso dialogar com um homem sábio, mesmo quando não concordamos inteiramente com o seu ponto de vista. Não há dúvida de que John Locke foi um homem sábio, e que teve também uma vida bem interessante (chegou a viver disfarçado na Holanda sob o nome de dr. Van der Linden – pois além de filósofo era também médico – por conta de perseguições políticas). E não há dúvida também de que ler um livro de filosofia é como dialogar com o autor, se o livro for lido corretamente.

Pois de cara vem à mente o útil conselho de Schopenhauer, para quem jamais devemos ler um livro sem antes pensar por conta própria no assunto que o livro aborda. Eu mesmo, no decorrer de minha leitura da Coleção Os Pensadores, cheguei à conclusão de que é preciso vestir a “capa” de filósofo ao ler uma obra de filosofia, pois se lemos com reverente boca aberta, sem ponderar e considerar cuidadosamente o que estamos lendo, corremos sério risco de engolir umas moscas enormes, junto com as possíveis pérolas de sabedoria. Isso não é arrogância, mas puro senso prático: só se pode ler filosofia sendo filósofo. Caso contrário, estaremos apenas entrando em alguma seita, aceitando (ou rejeitando) as verdades dos outros sem pensar por conta própria. Esse método de leitura não torna a leitura mais fácil, muito pelo contrário! Mas tenho a convicção de que se não for assim, não vale a pena dedicar-se ao estudo da filosofia.

Dito isso, registro que a leitura do “Ensaio Acerca do Entendimento Humano” de John Locke foi beeem custosa! Não porque o autor seja difícil de ler, mas justamente pelo oposto: Locke expressa-se com clareza cristalina e grande elegância! Daí o perigo e a necessidade de grande atenção para separar o joio do trigo...

Locke foi um filósofo fundamental na construção do dito pensamento ocidental, e sua concepção do homem como uma “tábula rasa” (ou folha de papel em branco), que adquire conhecimento unicamente através da experiência sensível, foi um paradigma inatacável para a ciência, até a implosão do edifício do materialismo por conta do advento da Mecânica Quântica (se você ainda não ouviu a explosão, é porque ela ainda está acontecendo, agora mesmo... essas coisas levam tempo). E nessa concepção reside a minha diferença com Locke, pois ele começa seu livro afirmando que é obrigatório que o homem esteja consciente de qualquer pensamento que sua mente produza:

“Supor algo impresso na mente sem que ela o perceba parece-me pouco inteligível.”

Ora, Locke não tinha como suspeitar da existência do Inconsciente (descoberto por Freud), e muito menos da Superconsciência (velha conhecida da filosofia oriental e recentemente resgatada pelos filósofos quânticos). Mas ele desconhecer essas verdades sobre a Consciência não impede que todo o seu edifício filosófico tenha sido erigido sobre uma pedra em falso... e que curioso que a ciência ocidental tenha embarcado alegremente nessa canoa furada! Daí que já na página 38 me bateu uma preguiça de continuar a leitura (o livro tem 316 páginas)...

Mas sorte minha que não desisto facilmente! E também que estou neste mundo para realizar meus sonhos, e um deles é ler a Coleção Os Pensadores inteirinha. Mas não tenho muito interesse na história da filosofia, a não ser de modo secundário. Meu interesse maior é o de qualquer buscador humilde e sincero: eu quero é a Verdade!

Por isso tudo a leitura foi difícil, cansativa, mas muito valiosa. Dei muito valor ao gênio de Locke, que antecipou outros grandes pensadores:

* O próprio Schopenhauer na questão da liberdade humana. Locke afirma que a ação do homem é livre, mas o querer não é livre. Tempos depois, Schopenhauer sintetizou essa ideia em uma elegante frase muito citada por Einstein: “O homem pode fazer o que quer, é certo; mas não pode querer o que quer.”

* Ferdinand Saussare, o mestre da Linguística, também foi antecipado por Locke, quando ele afirma que não existe ligação entre o som de uma palavra (significante) e o que ela representa (significado).

* Penso que David Hume também foi antecipado, quando Locke afirma que muito de nosso conhecimento é sustentado pela crença de que as leis da natureza são imutáveis.

Mas o melhor ficou para o fim: que surpresa boa ver Locke afirmando que a existência de Deus é o único conhecimento que podemos obter exclusivamente pela razão (talvez até contradizendo sua própria teoria) e citando esse lapidar pensamento de Tully:

“O que pode ser mais totalmente arrogante e inconveniente que um homem pensar que tem uma mente e um entendimento nele, embora em todo o universo fora dele não haja tal coisa? Ou que estas outras coisas, que com o máximo esforço de sua razão pode escassamente compreender, poderiam ser movidas e dirigidas por nenhuma razão?”

Outra linda surpresa já no finzinho do livro (pág. 292) foi a ética proposta por Locke, baseada na caridade e na paciência mútuas, uma vez que o conhecimento humano baseia-se em mais opiniões que verdades, e é prova de sabedoria respeitar a opinião do outro, mais que tentar impor a sua a qualquer custo.

Valeu, John!!!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento



domingo, 20 de janeiro de 2013

OBJEÇÕES E RESPOSTAS / RAZÕES / RESPOSTAS DO AUTOR – Descartes



OBJEÇÕES E RESPOSTAS – Descartes

Esse texto consiste no debate entre Descartes e um tal de R. P. Mersenne, que recolheu de diversos teólogos e filósofos argumentos contrários às “Meditações”.

Algo que fica logo evidente é a disparidade no nível dos debatedores. Pois as objeções levantadas contra Descartes não são filosóficas, mas apoiam-se na retórica (sofismo), no melhor dos casos, ou mesmo na ignorância pura e simples. Bom exemplo disso é quando Mersenne tenta derrubar a evidência de que Deus existe (porque o maior não pode surgir do menor) afirmando que as moscas surgem do nada! Estava ainda em voga a teoria da geração espontânea...

Isso me ensinou uma coisa: é preciso ser um gênio para trazer algo de novo para a humanidade, mas para criticar não é necessário nenhum talento especial, é coisa que qualquer um pode fazer.

A leitura foi muito válida por reforçar os conceitos trabalhados por Descartes em suas “Meditações”. Eu, que não estava convencido da validade racional de sua demonstração da existência de Deus, acabei me rendendo incondicionalmente a ela, pois não consegui de modo algum refutá-la. E mais ainda, creio ter encontrado uma evidência empírica para sua prova ontológica no fato de que todas as civilizações humanas conhecidas manifestam em sua cultura algum tipo de relação com o sagrado. Isso sugere que a ideia de Deus está presente na essência do homem.

“(...) toda força de meu argumento consiste em que não poderia ocorrer que a faculdade de formar essa ideia existisse em mim, se eu não tivesse sido criado por Deus.”

Outra coisa que chama a atenção é a paciência e elegância de Descartes ao rebater os argumentos contrários, mesmo os mais sem noção, e até os potencialmente perigosos, como os que tentam colocar sua filosofia em atrito com as palavras da Bíblia. Mas chega um ponto em que até a paciência de Jó tem limite:

“Ora, que há em nós alguma ideia de um ente soberanamente poderoso e perfeito, e também que a realidade objetiva desta ideia não se encontra em nós, nem formal, nem eminentemente, isto tornar-se-á manifesto aos que pensarem seriamente no assunto, e quiserem dar-se ao trabalho de meditá-lo comigo; mas não poderia enfiá-lo à força no espírito dos que lerem as minhas Meditações apenas como um romance, para se desenfadar, e sem lhes prestar grande atenção.”

“E não importa que talvez julgue haver demonstrações para provar que Deus não existe; pois, como essas pretensas demonstrações são falsas, é sempre possível dar-lhe a conhecer a sua falsidade; e leva-lo, então, a mudar de opinião.”



RAZÕES – Descartes

RAZÕES QUE PROVAM A EXISTÊNCIA DE DEUS E A DISTINÇÃO QUE HÁ ENTRE O ESPÍRITO E O CORPO HUMANO DISPOSTAS DE UMA FORMA GEOMÉTRICA

O título imponente me fez aguardar com expectativa essa leitura, a célebre demonstração matemática da existência de Deus!

Mas não há aqui complexas fórmulas numéricas, nem gráficos mirabolantes. Na verdade, Descartes seguiu apenas a forma de exposição “dos geômetras”, apresentando suas proposições em sequência lógica. Fez isso não por iniciativa própria, mas a pedido dos opositores (e aliados) que queriam ver do que o filósofo era capaz.

Em resumo, é isso:

“Proposição primeira:
A EXISTÊNCIA DE DEUS É CONHECIDA PELA SIMPLES CONSIDERAÇÃO DE SUA NATUREZA”

O que somou muito nessa leitura foi afinal perceber o que Descartes tanto repete: essa “conclusão pode ser conhecida sem prova pelos que se acham isentos de todos os prejuízos”.

Descartes não “prova” a existência de Deus. Ele demonstra, e quem quiser (e puder) que entenda.

“Proposição segunda:
A EXISTÊNCIA DE DEUS É DEMONSTRADA POR SEUS EFEITOS, PELO SIMPLES FATO DE SUA IDEIA ESTAR EM NÓS”

“Proposição terceira:
A EXISTÊNCIA DE DEUS É AINDA DEMONSTRADA PELO FATO DE NÓS PRÓPRIOS, QUE TEMOS EM NÓS A IDEIA DE DEUS, EXISTIRMOS”

“Corolário:
DEUS CRIOU O CÉU E A TERRA, E TUDO O QUE NELES ESTÁ CONTIDO. E, ALÉM DISSO, PODE FAZER TODAS AS COISAS QUE CONCEBEMOS CLARAMENTE, DA MANEIRA COMO NÓS AS CONCEBEMOS”

“Proposição quarta:
O ESPÍRITO E O CORPO SÃO REALMENTE DISTINTOS”



RESPOSTAS DO AUTOR – Descartes

Dessa vez foi um tal de Senhor Gassendi que esbanjou sua retórica para tentar pegar Descartes em alguma contradição. E novamente fica clara a disparidade entre os dois contedores: de um lado a argumentação sofística, do outro o raciocínio filosófico.

Eu, que não tenho muita paciência para debates, li pulando as páginas. Já estava saciado.

E o próprio Descartes também dá mostras de que não aguentava mais tanta aporrinhação de mentes que se esforçam em destruir o trabalho do outro, mas sem se dar ao trabalho de tentar construir para ver como é que é:

“Eis, Senhor, tudo o que creio dever responder ao alentado livro das Instâncias, pois, embora satisfizesse talvez mais aos amigos do autor se refutasse todas as suas instâncias, uma após a outra, creio que não satisfaria tanto aos meus, que teriam ocasião de me repreender por ter despendido tempo em uma coisa tão pouco necessária e por assim tornar senhores de meu lazer todos os que quiserem perder o seu em propor-me questões inúteis. Mas agradeço-vos pelos vossos cuidados. Adeus.”

Dá-lhe René!!!!



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Aproveito para convidar você a conhecer o livro O SINCRONICÍDIO:

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quinta-feira, 1 de novembro de 2012

DESCARTES – Coleção Os Pensadores




Foi mesmo uma sincronicidade que nessa fase em que tenho relido alguns livros especiais fosse justamente Descartes o próximo da fila na Coleção Os Pensadores. Já havia lido a introdução e o “Discurso do Método” para a faculdade, e gostei tanto que li por conta própria as “Meditações”, leituras que acabaram na letra de uma música heavy metal.

Pois bem. Comecei a ler pela segunda vez, desde o princípio. Jamais esperava o impacto das revelações que recebi. Tive que parar a leitura no início do “Discurso”, assim que terminei a longa introdução (59 páginas). Precisava parar para absorver aquilo tudo. Agora posso falar sobre o assunto.

Pois então. Na introdução, é claro que Descarte é louvado como um grande filósofo, imortal autor da célebre frase: “Penso, logo existo.” Mas há também, aqui e ali, a acusação mais ou menos velada a uma falha fundamental no sistema filosófico de Descartes, e até de uma covardia intelectual.

Essa mesma conversa eu escutei na sala de aula. Galileu disse uma coisa que a Igreja não gostou, e foi obrigado a abjurar, a renegar seu próprio trabalho científico. Então Descartes ficou com medo e recuou em suas teorias.

Eu escutei isso na faculdade, e li no livro, então acreditei! Hoje percebo que essa é uma leitura totalmente não-filosófica de Descartes!!!


o covarde e o herói


O xis da questão é o seguinte: Descartes é um dos nobres pais da ciência. Ao formular em seu “Discurso” as regras do método científico, influenciou definitivamente o modo de se entender e fazer ciência, tanto que vem de seu nome a palavra “cartesiano”.

O grande embaraço, para os ferrenhos seguidores do cartesianismo tal como ficou conhecido, é que a filosofia de Descartes apóia-se em Deus! Após sua belíssima odisséia até chegar ao “cogito”, abraçando totalmente a dúvida até que a própria dúvida torne-se a certeza de um ser que duvida, Descartes ancora a existência do ser pensante à necessária existência de Deus. Essa é a filosofia cartesiana, purinha.

Descartes não foi um covarde (ou pode até ter sido, é algo totalmente irrelevante do ponto de vista de sua filosofia). Eu acreditei nisso porque acreditei em pessoas que acreditam que o materialismo científico é a conclusão inevitável de toda ciência possível, então se Descartes não chegou a essa conclusão, logo ele que foi o pai (padrasto) dessa zorra toda, então para essas pessoas Descartes foi um covarde.

No entender dessas pessoas, corajoso foi Laplace, matemático que veio logo depois de Descartes. Questionado pelo rei por não ter mencionado Deus em parte alguma de seu tratado, ele respondeu que Deus não era necessário em suas equações.

a dúvida e a certeza

Sabem qual é o problema de uma ciência sem Deus? Quando um deus é derrubado, logo outro toma seu lugar. O deus que a ciência segue hoje atende pelo nome de Progresso. Em nome do progresso, todos os avanços da ciência são justificados. E é assim que temos xampu que não arde no olho da criança, graças à tortura e morte de incontáveis seres sencientes, tão capazes de sentir dor quanto os seres humanos. É assim que temos Progresso para todos os lados, a custo da poluição e extinção da vida no planeta.

O Deus que está faltando na ciência não virá de nenhum dogma religioso, de nenhuma seita ou igreja estabelecida. Isso também pode ser jogado fora junto com a velha ciência. O Deus que está faltando é o mero pressuposto: existe Deus. Só isso basta.

Sabendo que Deus existe, nenhum cientista que se preze vai torturar coelhinhos para fazer xampu!!!

Parece brincadeira, mas a coisa é profunda, estremece até os alicerces.

Descartes foi lá, viu, e contou. É só olhar e ver.

***

vista o manto sagrado ao ler um livro assim

Donde a importante conclusão: só se pode ler filosofia sendo filósofo.

Nunca leia um livro de filosofia de boca aberta: os pensamentos de outra pessoa podem se tornar os seus, sem que você sequer perceba.



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segunda-feira, 30 de julho de 2012

THOMAS HOBBES – Coleção Os Pensadores





Decidi fazer essa resenha por etapas, à medida que vou lendo, como uma maneira de me incentivar à leitura e também de registrar os pensamentos que forem me ocorrendo.

Considero essa leitura do “Leviatã” de Thomas Hobbes como mais uma importante etapa no estudo da construção do pensamento ocidental, mais uma peça no mosaico, mais uma parte completada no quebra-cabeças.

Vejo em Hobbes uma clara continuação do pensamento de Francis Bacon. Hobbes chegou a atuar como secretário de Bacon, que o tinha na mais alta conta. E assim como Bacon estava inebriado por ser o profeta da nova ciência, Hobbes também empunha a bandeira do materialismo e do mecanicismo com muita competência e entusiasmo.

Estou gostando bastante do jeito de Hobbes escrever, a leitura é agradável pela exposição clara dos conceitos. Nem sempre concordo com o que ele diz, mas sempre tenho admirado a maneira como ele diz!



LEVIATÃ – primeira parte – do homem


O primeiro grande aprendizado que tive com Hobbes foi o de que toda arrogância é também uma ingenuidade!

Pois Hobbes chega pisando firme no grande salão da filosofia. Ele fala em alto e bom som o que considera a Verdade. E com muita inteligência e sutileza, ele ironiza e ridiculariza posições contrárias às que ele defende. Essa postura, como um todo, eu considerei arrogante (ele mesmo define arrogância de forma bem diferente).

E onde está a ingenuidade de Hobbes?

Pois então. Hobbes está deslumbrado com as possibilidades do materialismo, do mecanicismo. Foi muito sugestiva para os homens de seu tempo a ideia de que a natureza pode ser explicada como se fosse um relógio, basta analisar o funcionamento de cada pecinha e pronto! Sabemos como funciona um relógio.
Só que o relógio é uma criação humana. Coisa bem diferente (e um pouco maior) é o Universo!

E aí está a ingenuidade de Hobbes, que acredita poder usar a fórmula mecanicista para explicar tudo no mundo. E nessa começa a definir (lindamente!) diversos conceitos puramente subjetivos, e assim vai entrando em um mato sem cachorro, sem perceber! Pois a subjetividade jamais poderá ser reduzida ao funcionamento de um relógio.

(A vantagem é minha por ter nascido quatrocentos anos depois de Hobbes e quarenta anos depois da Mecânica Quântica, que veio mostrar como a subjetividade está imanente a tudo!)

Daí toda a empáfia inicial que senti nele (junto com uma antipatia), converteu-se em inocência!

O mecanicismo foi um passo necessário na construção do pensamento. Hobbes não estava errado. Mas também não estava certo...



Hobbes X Sócrates

Basta fazer uma simples comparação. Sócrates (através de Platão) era defensor do idealismo. Platão com seu mundo das ideias gerou um modelo que até hoje ajuda o homem a compreender a si mesmo e ao mundo. “O Banquete”, por exemplo, até hoje é uma fonte preciosa de ensinamentos para quem quiser se nutrir deles.

Já “Leviatã”, que veio ao mundo 1.000 anos depois, hoje só interessa ao estrito grupo dos estudiosos da história da filosofia...

Hobbes era muito inteligente, muito talentoso. Mas apostou no cavalo errado!

Curiosamente, essa frase que ele cita em seu livro:

Nosce te ipsum, Lê-te a ti mesmo.” (28)

Guarda uma grande semelhança com o lema de Sócrates, gravado no pórtico do Oráculo de Delfos:

Gnothi Seauton, Conhece-te a ti mesmo.”



Hobbes X religião

É preciso ter em mente que a obra de Hobbes surge em um momento de podridão total da Igreja Católica (século XVII). Hobbes ataca com grande coragem e extrema inteligência a religião estabelecida:

“Esse medo das coisas invisíveis é a semente natural daquilo a que cada um em si mesmo chama religião, e naqueles que veneram e temem esse poder de maneira diferente da sua, superstição.
E tendo essa semente da religião sido observada por muitos, alguns dos que a observaram tenderam a alimentá-la, revesti-la e conformá-la às leis, e acrescentar-lhe, de sua própria invenção, qualquer opinião sobre as causas dos eventos futuros que melhor parecesse capaz de lhes permitir governar os outros, fazendo o máximo uso possível de seus poderes.” (96)

Genial essa visão dele! E também muito audaciosa!

O interessante é que Hobbes não é ateu. Muito pelo contrário, vejam a enfática afirmação que ele faz da existência de Deus:

“A curiosidade, ou amor pelo conhecimento das causas, afasta o homem da contemplação do efeito para a busca da causa, e depois também da causa dessa causa, até que forçosamente deve chegar a esta ideia: que há uma causa da qual não há causa anterior, porque é eterna; que é aquilo a que os homens chamam Deus. De modo que é impossível proceder a qualquer investigação profunda das causas naturais, sem com isso nos inclinarmos para acreditar que existe um Deus eterno, embora não possamos ter em nosso espírito uma ideia dele que corresponda a sua natureza.” (95)

Ele afirma que Deus existe, mas que não podemos conhecê-lo. E até faz uma bela analogia para essa situação (novamente sinto um cheirinho de Platão por aqui, em seu famoso mito da caverna): um homem cego de nascença pode sentir o calor do fogo, mas jamais poderá conceber a aparência do fogo.

Ok, Hobbes. Até aqui, tudo bem.



O problema é quando entra em cena a arrogância/ingenuidade:

“Que espécie de felicidade Deus reservou àqueles que devotamente o veneram, é coisa que ninguém saberá antes de gozá-la. Pois são alegrias que agora são tão incompreensíveis quanto a expressão visão beatífica, usada pelos Escolásticos, é ininteligível.” (64-65)

Aqui e em outros trechos Hobbes nega a existência da beatitude ou da experiência da comunhão com Deus, acreditando que está falando de uma verdade universal. Mas ele está falando só de sua própria experiência! Ele não conhece a beatitude, por isso acha que tal coisa não exista.

Uma mulher frígida ou um eunuco também teriam a mesma dificuldade em aceitar que o orgasmo exista...


To be continued...

O cerne de “Leviatã” não é a religião, mas a política.

Estou desconfiado de que essa visão mecanicista, que procura afastar Deus da equação (como algo que existe, mas não conta) foi extremamente prejudicial na construção do Direito e das Leis. Assim como o foi para a caminhada da ciência propriamente dita.

Mas é melhor continuar a ler um pouco mais...


“O desejo de riquezas chama-se cobiça, palavra que é sempre usada em tom de censura, porque os homens que lutam por elas vêem com desagrado que os outros as consigam; embora o desejo em si mesmo deva ser censurado ou permitido conforme a maneira como se procura conseguir essas riquezas.” (60)

“O medo dos poderes invisíveis, inventados pelo espírito ou imaginados a partir de relatos publicamente permitidos, chama-se religião; quando esses não são permitidos, chama-se superstição. Quando o poder imaginado é realmente como o imaginamos, chama-se verdadeira religião.” (61)

“De modo que na natureza do homem encontramos três causas principais de discórdia. Primeiro, a competição; segundo, a desconfiança; e terceiro, a glória.” (108)

“A transferência mútua de direitos é aquilo a que se chama contrato.” (115)

“E tudo o que não é injusto é justo.” (123)

“A questão de decidir quem é o melhor homem não tem lugar na condição de simples natureza, na qual (conforme acima se mostrou) todos os homens são iguais. A desigualdade atualmente existente foi introduzida pelas leis civis.” (129)

“Esse resumo é: Faz aos outros o que gostarias que te fizessem a ti. O que mostra a cada um que, para aprender as leis de natureza, o que tem a fazer é apenas, quando comparar suas ações com as dos outros estas últimas parecem excessivamente pesadas, colocá-las no outro prato da balança, e no lugar delas as suas próprias, de maneira que suas próprias paixões e amor de si em nada modifiquem o peso.” (131)

“A palavra “pessoa” é de origem latina. Em lugar dela os gregos tinham prósopon, que significa rosto, tal como em latim persona significa o disfarce ou a aparência exterior de um homem, imitada no palco.” (135)

Quero levar meu Espírito sobre a terra, e as águas diminuirão. Nesta passagem, deve entender-se por Espírito um vento (que é um ar ou espírito movido), que poderia ser chamado, como na passagem anterior, o Espírito de Deus, porque obra de Deus.” (291)



SEGUNDA PARTE – DO ESTADO

Está claro que a visão de Hobbes a respeito do homem está longe de ser otimista:

“E os pactos sem a espada não passam de palavras, sem força para dar a menor segurança a ninguém.” (141)

Ele chega a lançar um desafio, que acabou sendo de grande importância simbólica para mim:

“Pois se fosse lícito supor uma grande multidão capaz de consentir na observância da justiça e das outras leis da natureza, sem um poder comum que mantivesse a todos em respeito, igualmente o seria supor a humanidade inteira capaz do mesmo. Nesse caso não haveria, nem seria necessário, qualquer governo civil, ou qualquer Estado, pois haveria paz sem sujeição.” (142)

Ou seja, se existir um único povoado onde as pessoas vivam em harmonia, sem a necessidade de coerção, o mesmo seria possível para toda a humanidade! Isso incendiou minha imaginação. Lembro de ter lido a respeito de uma cidade na Europa que foi fundada para ser um experimento social, onde tudo era decidido por todos e para o bem de todos. Mas, ai de mim! Não lembro o nome da tal cidade! Como encontrar isso no Google? Sem uma palavra-chave, a Internet é inútil.

Mas a sincronicidade é lei forte e sempre presente. Anteontem, justamente quando estava determinado a terminar de uma vez a leitura desse “Leviatã”, assisti a um documentário sobre uma pequena ilha na Polinésia: Anuta, uma das comunidades humanas mais isoladas de que se tem notícia. Os 300 habitantes da ilha desenvolvem todas as tarefas coletivamente, e tudo é para o bem da comunidade. Ainda não é o exemplo perfeito, pois existe um chefe incontestável na ilha, mas já é um belo começo!


Lei do Karma

Hobbes é um pensador realmente notável, e tive grandes surpresas ao lê-lo. A maior delas foi certamente encontrar a MELHOR definição que já vi para o conceito hindu de “Karma” (é óbvio que Hobbes não falava diretamente de Karma, pois provavelmente nunca chegou a ouvir essa palavra):

“Não existe nesta vida nenhuma ação do homem que não seja o começo de uma cadeia de consequências tão longa que nenhuma providência humana é suficientemente alta para dar ao homem um prospeto até o fim. E nesta cadeia estão ligados acontecimentos agradáveis e desagradáveis, de tal maneira que quem quiser fazer alguma coisa para seu prazer tem de aceitar sofrer todas as dores a ele ligadas; e estas dores são as punições naturais daquelas ações que são o início de um mal maior que o bem. E daqui resulta que a intemperança é naturalmente castigada com doenças, a precipitação com desastres, a injustiça com a violência dos inimigos, o orgulho com a ruína, a covardia com a opressão, o governo negligente dos príncipes com a rebelião, e a rebelião com a carnificina. Pois uma vez que as punições são consequentes com a quebra das leis, as punições naturais têm de ser naturalmente consequentes com a quebra das leis da natureza e portanto seguem-nas como seus efeitos, naturais e não arbitrários.” (270)

terça-feira, 26 de junho de 2012

FRANCIS BACON – Coleção Os Pensadores




Francis Bacon foi sem dúvida personagem de importância na história do pensamento ocidental. Foi chamado, dentre outras coisas, de “primeiro dos modernos e último dos antigos”, “inventor do método experimental” e “fundador da ciência moderna e do empirismo”.

Ler esses textos de Bacon foi uma aventura de emoções conflituosas. Em primeiro lugar havia uma imensa expectativa de minha parte, pois há tempos soube de uma hipótese que antes considerava absurda e agora acho estapafúrdia: Shakespeare não teria existido de fato e todas as suas obras teriam sido na verdade escritas por Francis Bacon. Não sei de onde surgiu essa ideia maluca, que li nem lembro onde, mas certamente gerou uma grande curiosidade para ler Bacon diretamente.

Em segundo lugar há um dinamismo e um entusiasmo que transbordam das páginas escritas por Bacon. Ele ocupou uma posição muito peculiar na história, e por isso o seu ponto de vista é muito interessante. Bacon vê a si mesmo como um grande reformador das ciências, um paladino do progresso científico, um arauto de novas e poderosas descobertas. Isso é muito tocante, especialmente quando pensamos que esse novo saber que Bacon proclama é justamente o mecanicismo materialista que está atualmente dando os seus últimos suspiros. Na época de Bacon os intelectuais e pensadores lutavam para livrar o conhecimento do jugo da Igreja e gerar uma nova ciência livre de noções religiosas. Na época de hoje a ciência descobre inusitadas e desconcertantes evidências da espiritualidade (consciência) imanente a tudo e instila nos corações dos visionários o sonho de uma novíssima ciência, que ao lado de uma novíssima religião instaurem finalmente uma era de sabedoria para a humanidade!!!

Li Bacon com o mesmo entusiasmo com que ele escreveu, pois vejo a mim mesmo (e a todos os que buscam essas questões) como um paladino da verdade, assim como Bacon via a si mesmo em seu tempo. Só que o velho templo que almejo destruir foi o novo templo que Bacon sonhou em erguer...

Por outro lado, a leitura foi dificultada pela descoberta de que Bacon pode ter sido um colosso como intelectual e político (chegou ao cargo de chanceler, o mais alto possível em sua época), como ser humano deve ter deixado bastante a desejar. Envolveu-se em corrupção e negociatas, e chegou a ajudar na condenação e execução de um amigo que antes muito o havia ajudado. Traíra, mau caráter e extremamente ambicioso. Não é o tipo de pessoa de quem esperamos retirar bons ensinamentos. Isso foi uma dificuldade que encontrei na leitura, pois acho difícil separar o autor da obra.

Essa edição traz duas obras de Bacon: “Novum Organum” e “Nova Atlântida”.



NOVUM ORGANUM

Essa obra tem algo de panfletária, pois é quase uma exortação de Bacon a favor de uma nova ciência, uma nova maneira de lidar com o conhecimento. Curiosamente, ele foi um grande responsável por esse movimento efetivamente ter acontecido na humanidade, e inclusive foi o inventor de um novo método de investigação da natureza: a indução, que consiste em partir da observação de fatos concretos e daí extrapolar essa observação em leis gerais. Ele também criou um método de pesquisa direta da natureza, as suas famosas tábuas de investigação. Mas nunca chegou a ser um efetivo “cientista”, no sentido de que nunca colocou realmente em prática suas grandiosas teorias.

Algumas de suas ideias são realmente muito poderosas e continuam atraentes até os dias de hoje. A que gostei mais foi o conceito de ídolos, que são noções errôneas que atrapalham o conhecimento da verdade. Bacon distingue quatro tipos de ídolos:

1) Ídolos da tribo: são erros inerentes à própria natureza humana, à “tribo” dos homens. Aqui se enquadram as superstições, por exemplo.

2) Ídolos da caverna: são erros individuais, pois cada pessoa possui a sua própria “caverna” particular que distorce a luz da natureza. São os erros gerados pelas idiossincrasias.

3) Ídolos do foro: são os erros gerados por problemas de linguagem, falhas de comunicação que nascem da ambiguidade das palavras.

4) Ídolos do teatro: erros gerados por sistemas filosóficos falsos.


Achei curioso o fato de Bacon se opor frontalmente aos escolásticos e a Aristóteles. Pois achei seu modo de pensar bem próximo da escolástica, e muitas vezes acho que ele imitou a minúcia exaustiva de Aristóteles em suas descrições (o que certamente também foi uma forte influência para a escolástica).

Em resumo: Bacon foi um precursor, o anunciador de um novo sistema de pensamento que iria dominar a humanidade nos séculos seguintes, mas não chegou a fazer parte dos “novos pensadores” com que ele sonhava. Digamos que Bacon foi o João Batista do mecanicismo materialista...

NOVA ATLÂNTIDA

Esse foi um livro que Bacon deixou inacabado e que foi publicado postumamente. É uma narrativa fictícia de viagem que descreve uma civilização que se mantém à margem do mundo, icógnita, secretamente se dedicando ao culto das ciências e também da Bíblia. É uma obra nitidamente influenciada pela “República” de Platão e pela “Utopia” de Thomas More, no sentido de que é a história de uma civilização idealizada.

Bom, como viajante desses mundos imaginários, posso dizer que achei “Nova Atlântida” mais interessante que a “República”, mas nem de longe se equipara a “Utopia”!

 Cada um tem a cidade imaginária que merece...

quarta-feira, 25 de abril de 2012

MONTAIGNE Volume 2 – Coleção Os Pensadores



Decidi fazer a resenha desse livro aos poucos, à medida que vou lendo. Acho que será uma inovação divertida e que me ajudará a ler o livro de forma mais proveitosa!

Os “Ensaios” de Montaigne, pelo que entendi, fazem um total de três livros. O volume 1 da coleção Os Pensadores trouxe o primeiro livro e a metade do segundo. Esse volume 2 traz a outra metade do segundo e o terceiro livro. Em cada livro, os ensaios são divididos em capítulos numerados. Esse volume 2 já começa no capítulo 14.

Capítulo XIV – COMO O NOSSO ESPÍRITO CRIA SUAS PRÓPRIAS DIFICULDADES

Ensaio curtíssimo, de pouco mais de uma página. O título diz o principal.

Capítulo XV – NOSSO DESEJO CRESCE COM A DIFICULDADE

Esse já foi um bom exemplar da filosofia de Montaigne. É recheada de citações de autores latinos, tais como:

“A tristeza de ter perdido algo e o receio de perdê-lo, são uma só e mesma coisa” (Sêneca).

Traz também anedotas e episódios da vida dos antigos:

“O grande Catão (como nos ocorre também) cansou da mulher quando sua e tornou a desejá-la ao casar-se ela com outro.”

Mas tem também as excelentes tiradas de Montaigne, que na verdade constituem sua filosofia, ou seja, as conclusões espirituosas a que ele chega a partir da leitura dos sábios antigos e da observação dos costumes de então comparados com os de seu tempo:

“A seriedade de nossas amantes aborrece-nos, mas em verdade a facilidade com que porventura se entreguem ainda aborrece mais.”

“Ocorre com a beleza o mesmo que com a virtude: dois caminhos conduzem a ela, um fácil, outro semeado de obstáculos e nem sempre atingindo o seu objetivo. É entretanto o último que mais apreciamos, que achamos mais belo e digno.”

“Defender sugere o ataque: a desconfiança provoca a ofensa.”

E finalmente, para que esse seja um bom exemplo da prosa de Montaigne, não falta ainda um de seus ingredientes principais e mais saborosos, que é a maneira como o filósofo muda de assunto sem a menor cerimônia, de acordo com as inspirações que lhe batem no espírito. E é assim que o ensaio começa falando sobre o desejo sexual e termina com um discurso sobre a desnecessidade de um fidalgo fortificar a sua mansão!


terça-feira, 24 de abril de 2012

MONTAIGNE Volume 1 – Coleção Os Pensadores



O melhor da filosofia é filosofar. Ler um livro de filosofia não significa receber passivamente conceitos e ideias formulados por outras pessoas. Essa receptividade passiva e inerte, aliás, não ocorre na leitura de livro algum, pois toda leitura é também um ato criativo. Ler é filosofar, no sentido de que implica sempre em alguma concepção do mundo.

Ler filosofia, então, é filosofar duas vezes. O ganho maior se dá não quando aprendemos o que pensava sobre tal assunto o grande fulano ou beltrano, o que seria um mero decoreba, alimentação vazia, sem nutrientes. A filosofia grita “olé!” dentro da gente quando descobrimos o que nós mesmos pensamos sobre cada assunto, ao sentir ecoando em nosso espírito o que disseram os grandes mestres do passado (ou do presente ou – o que não é raro em filosofia – até do futuro!).

Nesse sentido, esses “Ensaios” de Montaigne são um lauto banquete. Não há assunto sobre o qual Montaigne não fale, sempre com a justificativa de estar falando de si mesmo, o que ele faz com a elegância própria do gênio. O seu texto é uma delícia! É difícil crer que estamos lendo filosofia. Mais parecem crônicas sobre a vida, sobre o mundo, sobre si mesmo (sobretudo sobre si mesmo e, a partir daí, sobre a vida e o mundo).

E mais ainda, eu diria: ler Montaigne foi como visitar uma taverna francesa no século XVI. Pois a sua filosofia é pura conversa de bar, no melhor sentido possível! Alguns filósofos nos dão a impressão de estarmos em algum lugar gelado e sonolento. Montaigne, ao contrário, traz em sua prosa a vivacidade de uma boa conversa entre bons amigos, regada por um bom vinho. Os amigos são muitos e privilegiados, principalmente os autores romanos, os mais citados: Sêneca, Cícero, Virgílio, Horácio, Lucrécio, Plínio, Ovídio e outros tantos. Os gregos também comparecem em peso: Platão, Aristóteles, o mais amado Sócrates e muitos que vieram antes dele (Parmênides, Zenão, Heráclito, Homero, Hesíodo, Tales...). E quanto ao vinho, não poderia ser de melhor safra: a mais doce e inebriante filosofia! Vejam só que festa de arromba nessas quinhentas páginas eu fui parar!

A cada ensaio de Montaigne, é como se participássemos de uma alegre discussão sobre os mais variados assuntos. E o melhor de tudo é que há total liberdade de opinião nos bate-papos. Ninguém precisa concordar com o que está sendo dito. O anfitrião, mais que ninguém dá o exemplo, discordando livremente de tudo e de todos e até, com frequência, de si mesmo. Não é incomum que ele diga aqui que é B o que ele acabou de afirmar que era A. Sempre de forma inteligente, carismática, charmosa. Exatamente como um anfitrião brilhante e levemente embriagado em uma confraternização de bar! Se aqui ou ali o mestre também deixa escapar alguma besteira da grossa, ora, isso também acontece pelos bares da vida...

Montaigne é um cético como poucos. Diverte-se em exercitar a dúvida, mas não a leva além de seu ponto natural, e inclusive ridiculariza com muita graça os exageros nesse sentido. A dádiva maior de sua filosofia é o bom senso.

Um prazer à parte são as pinceladas que Montaigne faz de sua época e costumes, ricamente temperadas com muita ironia. Para nós, brasileiros, tem um sabor especial (sem trocadilhos rarara) a impressão que nossos tataravós causaram em Montaigne durante um encontro ocorrido por volta de 1580, devidamente registrada no trigésimo primeiro ensaio, “Dos Canibais”...

Lendo os “Ensaios” de Montaigne, vamos gradualmente percebendo o tamanho de sua influência em nossa cultura. Esses ensaios foram muito lidos e muito citados por muita gente durante os mais de quatrocentos anos de sua publicação. Devido à obsessão de Montaigne em citar os autores antigos, os ensaios trazem um valioso panorama do pensamento durante a antiguidade clássica, além de seu próprio e privilegiado ponto de vista.

Valeu demais a leitura!

segunda-feira, 5 de março de 2012

MAQUIAVEL – Coleção Os Pensadores


Não consigo pensar em uma resenha para esta coletânea de textos políticos, dos quais o mais famoso é, sem dúvida, “O Príncipe”. Ninguém melhor, portanto, que o próprio Maquiavel para explicar suas “maquiavélicas” idéias:

“...os homens devem ser mimados ou exterminados, pois se se vingam de ofensas leves, das graves já não podem fazê-lo. Assim, a injúria que se faz deve ser tal, que não se tema a vingança.”

“...em verdade, não há garantia de posse mais segura que a ruína. Quem se torna senhor de uma cidade tradicionalmente livre e não a destrói será destruído por ela.”

“...todos os profetas armados venceram e os desarmados fracassaram.”

“...os homens se conquistam ou se exterminam.”

“...ao apoderar-se dum Estado, o conquistador deve determinar as injúrias que precisa levar a efeito, e executá-las todas de uma vez, para não ter que renová-las dia a dia.”

“As injúrias devem ser feitas todas de uma vez, a fim de que, tomando-se-lhes menos o gosto, ofendam menos. E os benefícios devem ser realizados pouco a pouco, para que sejam mais bem saboreados.”

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