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sábado, 4 de maio de 2019

NOIR AMERICANO – Peter Haining (org.)



Originalmente intitulada Pulp Frictions, esta coletânea de contos policiais foi lançada em 1996, no embalo do impacto causado pelo filme Pulp Fiction de Quentin Tarantino (https://youtu.be/im-vRitDbTk).


Os contos foram selecionados por Peter Haining, que também escreveu uma breve apresentação sobre cada autor, além de um comentário sobre a história escolhida. Logo me dei conta de que eu estava curtindo mais ler essas resenhas do Haining que os próprios contos em si. É que meu interesse por histórias policiais é tanto que me considero algo como um pesquisador, e esses textos compõem um belo painel a respeito da literatura policial norte-americana clássica, que tem os seus maiores nomes incluídos na antologia: Dashiell Hammett (meu favorito), Raymond Chandler, Ross Macdonald, Cornell Woolrich e muitos outros. Além dos autores clássicos, que originalmente publicavam suas histórias em revistas que eram chamadas depreciativamente de Pulp (por serem impressas em papel barato, feito de polpa de celulose), o livro traz também autores mais recentes que também fizeram incursões no que poderia ser chamado de “Noir Americano”: James Ellroy, Ed McBain, Elmore Leonard e até Stephen King.

Um tema recorrente nos comentários de Haining é sobre como esse ou aquele autor conseguiu elevar as histórias policiais ao status de alta literatura. Eu pessoalmente acho que isso é verdade em ao menos um caso: O Falcão Maltês, de Dashiell Hammett. Na maioria dos outros casos, no entanto, acho que essa tese é defendida apenas por conta da inclusão de algumas espertas frases de efeito. Colecionei algumas delas nesse livro:

“Crianças pediam esmolas; meus pés ficaram doloridos de tanto chutá-las para longe.” – James Ellroy em “Canção Tórrida”

“Havia aquela luz da juventude em seus olhos que o medo ainda não apagara: uma luz que nenhum cirurgião consegue colocar nos olhos de uma alma ruim.” – Carroll John Daly em “O Feitiço do Egito”

“Remexemos as cinzas por alguns minutos – não que esperássemos encontrar alguma coisa, mas porque é da natureza do homem remexer em ruínas.” – Dashiell Hammett em “Incêndio Criminoso e Mais Alguma Coisa...”

“Ele sorriu como um defunto nas mãos de um papa-defunto hábil.” – Ross Macdonald em “A Andorinha Cantora”

O livro fecha com “O Relógio” de Quentin Tarantino, que eu achei meio armação, pois fiquei o livro todo curioso para ler um conto original de Tarantino, para por fim descobrir que se trata da transcrição de trecho do filme Pulp Fiction: a marcante narrativa do capitão Koons (brilhantemente representado por Christopher Walken). Acho que o livro não precisava dessa forçação de barra...



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O SINCRONICÍDIO – Fabio Shiva
 “E foi assim que descobri que a inocência é como a esperança. Sempre resta um pouco mais para se perder.”
Haverá um desígnio oculto por trás da horrenda série de assassinatos que abala a cidade de Rio Santo? Apenas um homem em toda a força policial poderia reconhecer as conexões entre os diversos crimes e elucidar o mistério do Sincronicídio. Por esse motivo é que o inspetor Alberto Teixeira, da Delegacia de Homicídios, está marcado para morrer.
“Era para sermos centelhas divinas. Mas escolhemos abraçar a escuridão.”
Suspense, erotismo e filosofia em uma trama instigante que desafia o leitor a cada passo. Uma história contada de forma extremamente inovadora, como um Passeio do Cavalo (clássico problema de xadrez) pelos 64 hexagramas do I Ching, o Livro das Mutações. Um romance de muitas possibilidades.
Leia e descubra porque O Sincronicídio não para de surpreender o leitor.
 
Livro físico:
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sábado, 1 de novembro de 2014

FUZZ – Ed McBain


A palavra “fuzz” pode significar muita coisa, inclusive um interessante pedal de efeitos. Nos Estados Unidos, por algum tempo foi também uma gíria para tira, cana, puliça, uzômi (que é também o nome de uma banda massa!). E esse é o nome do livro e também do filme, estrelado por Burt Reynolds, Yul Brynner e Raquel Welch. Um filme sobre a saga do 87º Distrito Policial!

Pela leitura, calculo que o livro foi escrito de encomenda para o filme. Houve uma preocupação de incluir praticamente todos os principais personagens da série, cada um com sua devida cena de apresentação. Mas a pista principal é o clima festivo, um certo senso de humor histérico que permeia a trama e que é um elemento estranho em uma história do 87º “tradicional”.

Por isso mesmo, o livro é uma excelente apresentação ao universo de Isola, a cidade fictícia que mistura Nova Iorque e Chicago, onde os intrépidos heróis do 87º Distrito travam suas lutas diárias contra o crime.

Diversão garantida, como sempre. E um aprendizado a mais em termos de filmes e roteiros cinematográficos, pela oportunidade de ler um livro que foi escrito para virar filme justamente pelo cara que assinou o roteiro do filme “Os Pássaros” (não como Ed McBain, mas com seu outro nome Evan Hunter).



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sábado, 16 de novembro de 2013

ROMANCE – Ed McBain



Depois de ter lido pra lá de vinte livros do Ed McBain, desnecessário é dizer que sou fã do cara. Foi por isso que gostei desse “Romance”, mesmo achando que o autor escreveu outros livros melhores.

McBain aqui parece cansado, escrevendo por obrigação, oscilando entre a melancolia e o sarcasmo. Mas não é que ele usa isso de um modo bem criativo? O que me faz admirar cada vez mais o McBain é que mesmo contando uma história fraca ele consegue ser bom!

A criatividade aparece principalmente através da metalinguagem, elemento raro de se encontrar em romances policiais. No primeiro plano está o recurso da “história dentro da história”: a trama gira em torno de um grupo de atores ensaiando para a estreia da peça “Romance”, que conta a história de um grupo de atores ensaiando uma peça chamada “Romance”!

Na peça, a Atriz (os personagens não têm nome) é esfaqueada em um beco por uma misteriosa figura encapuzada. É claro que a vida logo imita a arte, quando a atriz que faz a Atriz é esfaqueada no beco. Caberá ao Detetive Steve Carella da 87ª DP investigar...

O que torna o livro fora do comum é que além desse primeiro plano McBain acaba explorando novas e insuspeitadas dimensões da metalinguagem. A impressão que tive foi que o autor deliberadamente colocou o velho jogo do Whodunit pra escanteio, ou melhor dizendo, transformou o Whodunit em McGuffin (ou seja, um mero pretexto para colocar os personagens em ação)! Resumindo, acho que McBain escreveu o livro como se fosse um filme dirigido por uma insólita parceria entre Alfred Hitchcock e Woody Allen!!!

As referências a Hitchcock (velho parceiro de McBain, que com o nome de Evan Hunter assinou o roteiro de “Os Pássaros”) são explícitas. Já o toque do velho Woody não sei até que ponto foi intencional. Ele aparece principalmente na autoironia por vezes amarga, centrada no personagem que é o autor da peça, retratado como um imbecil pedante e sem talento.

O terceiro plano de metalinguagem que enxerguei nesse aparentemente despretensioso romance policial ocorre num nível puramente literário, muito sutil. Um belo exemplo dessa surpresa que tive acontece numa cena secundária, quando os policiais investigam as farmácias do bairro em busca de uma pista.

Talvez por estar meio sem saco de escrever uma história policial convencional, McBain resolveu brincar com a narrativa de uma forma muito hábil. É como se o autor descortinasse de súbito o véu da ficção, expondo para o leitor as maquinações ocultas de sua mente criativa em movimento.

Vejam como é sutil: em uma das farmácias, os detetives são atendidos por uma beldade que é descrita com o clichê do clichê, algo que destoa por demais na prosa contida e elegante de McBain. E logo em seguida, na farmácia seguinte, quem atende os policiais é um personagem diretamente saído de um livro de Charles Dickens, totalmente anacrônico. Senti que nesse trecho McBain quis ousar, mesmo que tenha sido para se livrar do tédio!

Como dá para viajar lendo um simples romance policial!


  
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sexta-feira, 1 de março de 2013

A MORTE DE UMA ENFERMEIRA – Ed McBain




O título original desse livro é “Death of a Nurse”. Na capa, por uma gentileza da editora somos informados que o livro foi publicado previamente com o título “Murder in the Navy” (“Assassinato na Marinha”) – sob o pseudônimo de Richard Mastern, em 1955. O curioso é que Ed McBain é também um pseudônimo de Evan Hunter (autor de “The Blackboard Jungle” e do roteiro de “Psicose”), que foi o nome legalmente adotado por Salvatore Albert Lombino. Também pudera, haja nomes para tantos livros publicados!

Só da saga “87º Distrito” são dezenas, cobrindo ao menos quatro décadas.

Esse aqui foi escrito bem no começo da carreira, e representou uma bela oportunidade de aprendizado sobre como escrever um romance policial. A trama é conduzida com o talento habitual, mas o autor ainda carece da sabedoria que só a experiência traz.

Por esse motivo, o leitor atento percebe melhor como foram construídas as engrenagens da história, pelo que funciona bem e ainda mais pelo que deixa ainda um pouco a desejar.

Recomendado para quem já leu no mínimo alguns livros do autor.

Esse livro foi marcante para mim ainda sob outro prisma totalmente diverso: comprei esse exemplar junto com uma enxurrada de livros do McBain, em uma mega promoção na feirinha da Cinelândia. Cheguei a pensar que esse, nitidamente o menos atraente por ter sido escrito por um pseudônimo “menor”, e que por isso eu deixaria por último, nunca chegaria a ser lido, pois provavelmente o mundo já teria acabado antes disso.

Que bom que li todos os meus livros do McBain e o mundo continua aí!!!



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MANIFESTO – Mensageiros do Vento
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

GATA DE BOTAS – Ed McBain




Uma diretora de cinema é brutalmente assassinada. Surge a primeira grande chance para o advogado Mathew Hope atuar na área criminal. Seu cliente, o marido da vítima, afirma sua inocência. Mas todas as evidências são contra ele...

Nesse romance da série Mathew Hope notei uma coisa interessante: mais e mais a série foi ficando parecida com a saga do 87º Distrito, grande vedete de Ed McBain. A cada livro, o autor foi diminuindo a parte “sentimental” (na falta de termo mais apropriado) e aproximando a narrativa de sua trama policial padrão.

O curioso é que reclamei dessa parte “sentimental” nas primeiras aventuras de Mathew Hope, e agora, que ela foi praticamente excluída, fiquei sentindo falta!

Valeu por mais um aprendizado com McBain, veteraníssimo na arte de contar uma história policial e grande defensor do “understatement”: uma cena chocante fica mais forte quando o autor deixa a imaginação do leitor preencher os detalhes...

Viva McBain!

Título original: “Puss in Boots” (creio que não foi lançado no Brasil).



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sábado, 22 de dezembro de 2012

CINDERELLA – Ed McBain



Esse foi um dos livros que mais gostei com o Matthew Hope. É o tipo de livro que só um escritor muito experiente pode escrever. Ele já conhece as “regras do jogo” de trás pra frente, já experimentou a mesma receita com inúmeras variações, sabe o que fazer para produzir um bom entretenimento.

A história apresenta várias tramas paralelas que vão se emaranhando cada vez mais, à medida que a solução se aproxima. Um detetive particular assassinado enquanto investigava um caso de adultério. Dois cubanos bandidos atrás de uma prostituta loira. Muitas informações e curiosidades a respeito da cocaína, em meio a uma complicada transação de venda.

E tem também, é claro, Matthew Hope, o advogado que fica cada vez mais durão a cada livro da série. Ele agora experimenta uma improvável reconciliação com a ex-esposa, enquanto experimenta as delícias e desventuras de bancar o detetive.

Boa diversão, do início ao fim. O toque especial fica por conta do tom de cínica zombaria que parece emanar da trama.

E viva McBain!


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

GLADLY THE CROSS-EYED BEAR – Ed McBain




Creio que esse livro não saiu em português. Se assim fosse, teria sido um desafio e tanto para o tradutor, pois quem imaginaria o público brasileiro consumindo um romance policial intitulado “Gladly, o Urso Zarolho”???

O título é um trocadilho com um antigo hino cristão, que diz: “Gladly the cross I’ll bear” (“alegremente suportarei a cruz”). Esse hino teria inspirado uma designer de brinquedos a criar o seu ursinho de pelúcia estrábico, que precisa de óculos corretivos para enxergar bem. O advogado Mathew Hope aparece quando a designer, que por sinal também é estrábica, é acusada de ter plagiado o ursinho de seu antigo empregador, a fábrica Toyland. É claro que logo alguém aparece morto, para complicar a história. Na trama paralela, temos uma viciada em crack, um sequestro marítimo e possivelmente o início de um caso de amor. Tudo conduzido com a eficiência de sempre pelo mestre McBain.

Achei a estruturação da história muito parecida com a da saga do 87º Distrito, principal série criada pelo autor. Além das tramas paralelas, há o uso constante de elementos gráficos, que tornam a leitura mais interessante.

Certamente não foi o melhor que li dele. Mas foi uma boa diversão para quem estava com saudades do estilão de Ed McBain.



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terça-feira, 28 de agosto de 2012

BRANCA DE NEVE & ROSA VERMELHA – Ed McBain


Gosto muito do estilo do Ed McBain. Essa história faz parte da série protagonizada pelo advogado Matthew Hope, cujos títulos sempre evocam os contos de fada (“Snow White & Rose Red” no original).

De um lado, temos Sarah Whitaker, a bela e jovem herdeira internada contra sua vontade em um asilo psiquiátrico. De acordo com sua mãe, Sarah havia tentado se matar. De acordo com a própria Sarah, a internação era um complô de sua mãe para lhe roubar a herança de mais de meio milhão de dólares. Eis a Branca de Neve.

Do outro, temos o corpo de uma mulher não identificada que aparece boiando em um rio no parque chamado Santuário dos Pássaros. O corpo estava irreconhecível depois de passar alguns meses debaixo d’água. Mórbido detalhe: ambos os pés da vítima foram devorados pelos crocodilos. A única pista para descobrir quem era a mulher morta era o vestido vermelho que estava usando quando entrou na água. Eis a Rosa Vermelha.

Matthew Hope é certamente uma variação interessante no tema do detetive policial. Esse é o terceiro dele que leio, e a cada vez gosto mais um pouco.

Ao fazer a resenha do livro “Like Love”, em julho de 2007, intempestivamente afirmei que meu estoque de livros de Ed McBain deveria durar até mais ou menos um mês antes do fim do mundo. Pois bem, agora só me restam três ou quatro dele para ler... então, para salvar o mundo e/ou para não passar por mentiroso, espero encontrar muitos outros livros do McBain para ler!



Fiquei com vontade de dizer mais umas coisinhas sobre esse livro, pois afinal minhas oportunidades de resenhar McBain estão ficando escassas...

Algo que me chamou a atenção foi que a história está construída principalmente no "suspense" e não no "mistério". Existe o jogo do "whodunit", mas a solução é bastante óbvia... e apesar disso, fiquei grudado na leitura até o fim. Desconfio que não foi por um lapso de McBain, e sim por habilidade!!!

Não é por acaso que McBain foi o autor do roteiro de "Os Pássaros", clássico do suspense dirigido por Hitchcock... aliás, nesse livro McBain faz até algumas brincadeiras a respeito, um quitute a mais para os fãs!

Quanto a Matthew Hope, a verdade é que acho ele meio bundão! Mas estou aprendendo a gostar dele cada vez mais! Pois realmente é inovador um detetive pamonha rarara!!!


quarta-feira, 25 de julho de 2012

O CASO DA IRMÃ DE OLHOS VERDES – Erle Stanley Gardner


Eu confesso, eu confesso, eu confesso!

Sou um viciado em romances policiais!

Estava imerso em profundas leituras filosóficas, teológicas, literárias, mas senti a necessidade de parar tudo e me deliciar com esse romance-pipoca! E também de ler alguma coisa em inglês, o que há algum tempo eu não fazia.

“The Case of the Green-eyed Sister” é uma bobagem calorica e de pouquíssimo valor nutritivo. Mas diverte! E sacia o vício...

Aqui Perry Mason está às voltas com um caso de chantagem que acaba em assassinato. Como sempre, o caso só é solucionado em pleno tribunal, através de reviravoltas mirabolantes que o advogado esperto tira da cartola na última hora.

Agora ao fazer a resenha estou resistindo a tentação de filosofar sobre a insanidade do sistema jurídico, evidente mesmo numa ficção água com açúcar. Deixa isso pra lá, Fabio. Ao menos por hora.



...

Mas não resisto mesmo rarara!

Vamos filosofar então!

Vou me concentrar apenas na questão literária, para não fugir do tema e gerar polêmicas desnecessárias.

Bom. Durante a leitura de um livro do Ed McBain (resenhado aqui: “Tanto Tempo Sem Ver”) tive um insight que achei interessante. O romance policial pode ser visto como uma metáfora para a busca espiritual ou filosófica. Pois se parte da treva para alcançar a luz, do caos para a ordem, do mistério para a sua elucidação ou “iluminação”. O detetive de romance, portanto, pode ser visto como um filósofo em busca da verdade.

Um panorama bem diferente é apresentado nas aventuras de Perry Mason. Começando pela própria figura do herói.


Mason, o melhor dentre os advogados, não hesita em mentir, trapacear e driblar a lei, desde que esteja agindo no interesse de seu cliente. A única justificativa ética que ele possui para suas ações é que nos romances de Perry Mason o seu cliente é sempre inocente...

As cenas de tribunal são mesmo o maior atrativo da série. E o que vemos é um verdadeiro circo, um espetáculo dramático, onde o advogado e o promotor são os atores que têm como único objetivo convencer o júri e o juiz. Ninguém está buscando a verdade, e sim a eloquência, o convencimento. Nesse romance em particular, os personagens são delineados de forma quase caricata, mas bem expressiva: a polícia (Sargento Holcomb) só quer saber de prender, sem dar importância se está prendendo ou não a pessoa certa. O promotor só quer saber de condenar, idem. E o advogado só quer saber de soltar, ibidem. O juiz é a figura de poder que é necessário paparicar, e todas as testemunhas têm algum interesse subjetivo no resultado do julgamento. Tudo em nome de um bom espetáculo, de uma bela performance. Só não queiram chamar isso de “Justiça”...

Resumindo a ópera: penso que heróis da ficção como Sherlock Holmes, Hercule Poirot e Jules Maigret são belos exemplos de “detetive socrático”.

Já Perry Mason poderia ser considerado o principal exemplo de “detetive sofista”.


LOGOS versus DOXA

Existem mil maneiras de viajar sobre esse tema. Essa é uma que acho bem divertida!

O romance policial clássico pode ser visto como uma metáfora para a questão primordial da filosofia, que é a busca pela verdade, pelo conhecimento.

Talvez nisso resida essa força que me arrasta como um imã poderoso e me mantém grudado página após página!

Pois qual é o objetivo do detetive do romance policial? Descobrir a verdade!

Por isso todo detetive clássico é um filósofo. Cada um deles tem a sua teoria sobre como o crime (a ignorância) deve ser desvendando. Sherlock Holmes, Hercule Poirot, Jules Maigret e tantos outros aqui se enquadram.

Esses heróis não são perfeitos, também têm defeitos, são humanos como nós. O que os torna excepcionais é a força e o talento que os impulsiona na busca da verdade. Holmes, Poirot e Maigret amam sobretudo a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade.

Já Perry Mason...

...ele ama sobretudo vencer! Ama defender o seu cliente, que é sempre inocente. Mas ama em primeiro lugar ser mais esperto que os outros, passar a perna nos adversários, deixar o promotor com cara de bobo, as testemunhas desacreditadas, o juiz coçando a cabeça e as mulheres todas prontas a caírem a seus pés. Perry Mason ama ser um bom advogado!

Daí a conclusão: Holmes, Poirot & Cia podem ser considerados detetives “socráticos”, pois são cavaleiros do Logos, defensores da Razão, buscadores da Verdade.

Enquanto Perry Mason é o representante consumado do detetive “sofista”, apologista do homem como a medida de todas as coisas, é o guerreiro de Doxa, o sacerdote da Opinião, o buscador da Eloquência.

Beijos filosóficos!

terça-feira, 19 de junho de 2012

JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO – Ed McBain



As aventuras do advogado Matthew Hope sempre são intituladas a partir dos contos de fadas, daí esse “João e o Pé de Feijão” (“Jack & the Beanstalk” no original). O tal do João ou Jack é um jovem que procura Hope para fechar uma transação comercial: a compra de uma fazenda de feijões. O advogado bem que tenta dissuadir o rapaz de fazer o que parece um péssimo negócio, mas é inútil. O problema é que o comprador aparece morto antes de poder fechar a compra... Nessa série do Hope o autor Ed MacBain experimenta uma mistura diferente de romance policial: temos o “whodunit” tradicional, temperado com uma pintada de... sensibilidade, talvez. Fica interessante o resultado (mas confesso que sou muito mais fã da série do 87º Distrito).



quinta-feira, 31 de maio de 2012

BEIJO – Ed McBain



É impressionante que a essa altura do campeonato, após trinta anos da série 87º Distrito e com dezenas de livros publicados, Ed McBain ainda consiga inovar e escrever uma história diferente.

Esse “Beijo” (“Kiss” no original) é uma sequência direta de “Viúvas”. O detetive Steve Carella acompanha o julgamento do assassino de seu pai, enquanto tenta impedir que um outro assassinato aconteça.

A inovação maior foi que nesse livro McBain abriu mão da tradicional estrutura do “whodunit” (“quem é o culpado?”), e ao invés de um mistério preferiu escrever um suspense. A diferença é justamente essa: o leitor não tem que descobrir o assassino, pois ele é apresentado desde o início. O tipo de história bem ao gosto de Hitchcock (McBain, aliás, foi o autor do roteiro de “Os Pássaros”).

A inovação funcionou bem e o suspense mantém o leitor preso na história até o final. E é claro que McBain tem uma surpresinha guardada no fim!

Mais um ótimo exemplar da saga do 87º Distrito.

Hitchcock e Evan Hunter (alterego de Ed McBain e autor do roteiro de Os Pássaros)

domingo, 29 de abril de 2012

VIÚVAS – Ed McBain



Com esse livro a série do 87º Distrito entra na década de 90!

Uma série de excepcional longevidade: a primeira aventura data de 1956! E a última foi publicada em 2005! Imaginem um mesmo autor contar uma saga durante 49 anos! E não foram poucos livros: 53 ao todo! Mais de um por ano!

A qualidade também não fica devendo. Desses 53, devo ter lido mais de 20, pelo menos. Só um ou dois não me agradaram muito. Com os outros todos, gol de placa!

Apesar de não ser tão conhecido no Brasil, Ed McBain (pseudônimo de Evan Hunter) é um autor best-seller nos Estados Unidos.

Um dos segredos de McBain é que ele é o mestre do procedimento policial. Esse sempre foi o grande chamariz da série, mostrar tintim por tintim a rotina de uma investigação policial.

Ele também faz uso de vários truques interessantes, tais como sempre dar um jeito de inserir nas páginas de cada livro da série “fac-símiles” de documentos e pistas diversas, que dão ao leitor uma sensação a mais de realmente estar seguindo as pistas que levam à solução do crime.

Mas acima de tudo McBain é malandro que só! Ele não é nada bobo, e sabe muito bem conduzir uma história por onde ele quiser.

A impressão principal que ficou durante a leitura de “Viúvas” foi como a série avançou bem no tempo. “Envelheceu” não seria uma palavra correta, pois foi isso justamente o que não ocorreu. McBain soube adaptar muito bem seus heróis e vilões aos novos tempos.

As transformações se evidenciam aqui e ali. Uma participação bem mais expressiva das mulheres, agora não só como esposas, amantes ou vítimas, mas principalmente como agentes policiais, com destaque para a detetive Eileen Burke, que no decorrer da história aprende junto com o leitor a sutil arte da negociação de reféns...

Nesse livro tem um pouco de tudo, para todos os gostos (em matéria de romance policial, é claro). Há o tradicional “whodunit” (jogo disputado entre o autor e o leitor para descobrir o culpado), levado a cabo com a tradicional competência. Há também a vertente mais moderna do romance policial “de ação”, igualmente eficiente.

Steve Carella continua sendo o herói principal, é claro. Nem poderia ser diferente!

Se eu gostei do livro? Bom, basta dizer que os outros três que eu estava lendo deixaram de existir enquanto eu não cheguei à última página de “Viúvas”.

A chamada na contracapa da edição que eu tenho (“Widows” no original) expressa muito bem esse sentimento:

“Se você é fã de McBain, vai gostar de ‘Viúvas’. Se você não é – deveria ser!”

sábado, 21 de abril de 2012

VENENO – Ed McBain



Nesse livro McBain está no auge de sua forma, um escritor maduro e experiente, com mais de três décadas de bons serviços prestados à ficção policial. Desnecessário é dizer que mais uma vez o mestre se supera!

O que primeiro me chamou a atenção foi a fluência do texto. A narrativa segue com facilidade e simplicidade, e de alguma forma McBain conseguiu melhorar o que já era ótimo. Não consegui identificar exatamente porque achei o estilo do texto melhor que em outros livros dele, mas definitivamente houve uma melhora. Talvez por ele ter abolido as passagens mais líricas que costumavam enfeitar as narrativas anteriores, o resultado tenha sido um texto mais enxuto e direto ao ponto.

Outro ponto de interesse foi acompanhar as mudanças que a passagem do tempo gera na história, mais uma da saga do 87º Distrito. Assim como Hercule Poirot e Miss Marple, os personagens de McBain não envelhecem de um livro para outro, mas é inevitável que algumas circunstâncias externas sejam alteradas. Steve Carella e seus companheiros iniciaram suas aventuras na década de 50, e nesse “Veneno” (“Poison” no original) já estamos quase no fim da década de 80, e por isso é curioso acompanhar as mudanças que o mundo atravessou nesse período através de algumas referências sutis. O que me chamou a atenção para esse ponto foi uma referência à AIDS, que acabava de ser descoberta na época em que o livro foi publicado.

Uma mudança menos sutil proporcionada pela passagem do tempo é que a descrição das cenas mais fortes ficou mais explícita. Apesar de eu ter achado o texto como um todo melhor, certamente aqui há bem menos “subtle art of understatement” (até hoje não encontro uma tradução adequada para essa frase genial de McBain).


Todos os livros da série 87º Distrito possuem algumas características em comum, que estão aqui bem representadas. Sempre as aventuras são protagonizadas pelo detetive Steve Carella, mudando apenas o parceiro que está de plantão com ele quando começa a história. Essa foi a primeira que li com o baixinho Hal Willis, um especialista em artes marciais (contrariando minhas expectativas, ele não dá um único golpe de judô durante o livro todo).

Outra característica peculiar da série é o uso de fac-símiles de relatórios policiais e outros documentos que são enxertados na narrativa, o que dá um sabor todo especial. McBain é considerado “o cara” em matéria de procedimentos policiais, e não é à toa. Sua descrição da rotina policial é muito vívida e totalmente baseada em procedimentos reais. Em “Veneno” há um uso bem criativo desses recursos, cuja importância só aparece para o leitor no final da história.

Tudo isso está muito bem, mas quando se fala de romance policial, o que importa mesmo é se o autor soube ou não ludibriar o leitor com “honestidade”, ou seja, mantendo a identidade do assassino ignorada pelo leitor até as últimas páginas e, ao mesmo tempo, oferecendo pistas suficientes para que o leitor descubra por si mesmo se for capaz. E é nesse ponto que “Veneno” supera todas as expectativas! Não posso falar mais para não estragar a surpresa, mas posso dizer que adorei ser enganado tão completamente!

“Last but not least” (por último mas não menos importante), “Veneno” traz ainda uma impressionante personagem feminina, Marylin Hollis. Creio ter vislumbrado alguma influência de Sidney Sheldon na construção da personagem, pelas inúmeras aventuras e desventuras pelas quais ela passou, mas não é isso o que a torna impressionante. Ela possui um apelo sexual muito específico, que é transmitido com muita vivacidade pela pena de McBain, profundo conhecedor que deve ser dos mistérios femininos. Aqui na Bahia esse “sex-appeal” tem uma tradução bem exata, ainda que pouco charmosa: “chá de calçola”...


Depois cheguei à conclusão de que seria injusto falar sobre “Veneno” e não mencionar a originalidade da escolha da substância que dá título à obra.

No livro, o veneno utilizado para matar foi a nicotina.

40 mg de nicotina, uma quantidade muito pequena.

Se a escolha do veneno foi original, o método bolado por McBain para administrá-lo raia a genialidade!

Um dos melhores livros de McBain. Ever.

domingo, 8 de abril de 2012

CALYPSO – Ed McBain


Conforme relatado nesse livro, Calypso é um estilo musical originário do Caribe e adaptado pelos escravos negros nas fazendas do homem branco. Como as conversas eram proibidas durante o trabalho, os escravos usavam as canções para passar informações de forma velada. Posteriormente, transformou-se em uma forma de canção de protesto e crítica social. No Brasil há também um estilo chamado Calypso, que tem como maior representante a banda de mesmo nome. Será que se trata do mesmo estilo? Parece difícil de acreditar.

O tema musical surge como atração à parte nesse romance, mais um da série do 87º Distrito. Um músico conhecido como “Rei do Calypso” é assassinado. No dia seguinte, uma prostituta com quem ele pretendia gravar um álbum sobre a vida nas ruas também aparece morta. Qual a ligação entre os dois assassinatos? O que há por trás dessas mortes? Descobrir a verdade é a árdua tarefa de Steve Carella e seus companheiros de delegacia.

Como estou tendo o cuidado de ler os livros da série em ordem cronológica, o fascínio de perceber alterações no modo do autor contar a história muitas vezes supera a atração da história em si. Nesse livro McBain já conta com mais de vinte anos de 87º Distrito, e algumas mudanças acabam tornando-se inevitáveis, como um reflexo das transformações que a própria sociedade sofreu no mesmo período. A impressão que tive é a de que o foco está mais na violência e no sexo que no “trabalho de detetive”. Sinais dos tempos...

Uma grata surpresa ao final da leitura foi descobrir que McBain (valendo-se de seu nome “real”, Evan Hunter) foi autor do roteiro do filme “Os Pássaros”, dirigido por Alfred Hitchcock.

domingo, 18 de março de 2012

TANTO TEMPO SEM VER – Ed McBain



Esse é o trigésimo-primeiro livro da série “87º Distrito”, ambientada na fictícia cidade de Isola, Estados Unidos.

Em um determinado momento McBain recorre a imagens religiosas, comparando a delegacia a uma igreja, a rotina policial a um culto e a investigação à procura de milagres. Isso me deixou com a impressão de que o livro todo é uma metáfora para a busca religiosa pela Verdade ou “Iluminação”.

O romance policial como analogia da caminhada espiritual. Será possível? Vejamos.

A busca pela luz começa, necessariamente, em meio às trevas. E assim começa o livro, envolto nas trevas da cegueira. Pessoas cegas começam a aparecer com a garganta cortada no município de Isola. Quem estará cometendo esses hediondos assassinatos? Solucionar o mistério equivale a encontrar uma resposta divina.

A busca espiritual envolve decifrar símbolos e perseguir as pistas sutis que muitas vezes são trazidas pelos sonhos. Diante da mesma situação se vê o detetive Carella, nosso peregrino, que precisa desvendar o sonho recorrente de um homem morto para chegar, literalmente, à chave do enigma.

O caminho do “religare”, finalmente, tem seu ápice na revelação, quando tudo se torna claro e as respostas são alcançadas. O curioso é que essas respostas costumam estar sempre bem mais próximas do que se pensa. A essa mesma conclusão chega Carella ao final do livro.

Achei forte e expressivo o título original: “Long Time No See”.


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